Trakai - Love Is Unpredictable
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O dia amanheceu gélido como sempre, mas como se fosse um sinal sobre o destino da nova princesa, um raio de sol conseguia perpassar as nuvens pesadas. Os preparativos para a enorme festa de anunciação da filha mais nova dos Mills já era assunto até os dois reinos vizinhos à leste e oeste e o reino sul. Todos estavam muito atarefados e o vilarejo todo acordara cedo. Para os mercadores, era chance de fazer comércio; para as crianças, motivo de alegria receber toda aquela realeza com seus vestidos pomposos e joias que reluziam sem precisar de um raio incidente de luz; para os serviçais, significado de mais trabalho; para os criados, broncas de Cora o tempo todo em busca da perfeição que jamais seria alcançada e para Snow, dores de cabeça.
— Zelena, por favor! Preciso pentear seus cabelos, antes que sua mãe me expulse daqui...
— Não me importo com isso! Você não vai mexer no meu cabelo! — A garotinha fez birra, chutando a moça quando esta tentava pegá-la.
— Você costumava deixar minha mãe fazer isso...
— Você não é sua mãe! Não vai mexer no meu cabelo!
— Eu ainda preciso cuidar da sua irmã. — Snow implorou, engolindo o choro, como David havia instruído. “Não demonstre fraqueza na frente dela.”
— Minha irmã? Mas você é a minha criada e só vai cuidar de mim!
— Vou cuidar de Regina agora também. — Snow explicou.
— Que seja. Faça uma trança então. Não puxe meu cabelo! Se puxar, eu vou gritar bem alto e minha mãe vai mandar você embora!
— Certo. — Snow colocou a menina sentada e trançou os cabelos ruivos com facilidade. Talvez, só talvez, Snow achasse que a garota pudesse ser uma boa menina. Quando terminou, deixou a princesa em seu aposento e saiu buscar a bebê com uma das criadas.
— Eu cuido dela agora. Obrigada, Ruby! — Snow sorriu para a adolescente que trabalhava na cozinha. Pegou o bebê nos braços, embalando-a enquanto ia para o quarto de Zelena. Enquanto andava, podia sentir os olhos pretos da bebê, recentemente abertos pela primeira vez, fixos em seu rosto. Snow não podia negar à ninguém, mal podia esperar para ter sua própria filha, ou filho, mas isso teria que esperar, graças às travessuras de Zelena.
— Espero que você não seja como a sua irmã, Regina. — Snow cochichou, sabendo que a menina não ia entender nada.
Durante o resto do dia, príncipes e princesas, reis e rainhas dos reinos vizinhos chegavam ao castelo de Trakai, tanto por embarcações quando por carruagens. O castelo enchia-se notavelmente e os criados estavam cada vez mais atarefados. A alta burguesia fazia questão de se mostrar para o rei e a rainha Mills. Estes se reuniram com os outros reis, aproveitando a ocasião da apresentação de Regina ao reino, para discutir interesses comuns.
— Alteza, este é o meu filho que tanto falei, Robin de Locksley. — o rei da província do oeste apresentou o menino de 8 anos, este já sabendo de suas responsabilidades e deveres, fez uma reverência à rainha Cora.
— É um prazer enorme conhece-la, majestade. — Ele falou.
— Ah, que garoto adorável. — Cora comentou enquanto estendia sua mão ao garoto, para que ele a beijasse. Na verdade, a rainha pouco ligava para as outras crianças, muito menos para as de outros reinos, mas Robin era filho do segundo reino mais próspero das redondezas e ela estava interessada em fazer negócios.
— Minha filha Zelena ficará encantada em conhecê-lo. — Cora avisou. O rei de Locksley entendeu a estratégia e como ele não teria com o que se preocupar, muito pelo contrário, viu nesse negócio uma possibilidade de seu reino crescer, acenou com a cabeça para os reis à sua frente.
— Filho, porque não vai procurar por sua mãe? — o rei pediu e o menino saiu. Quando ele deixou o salão das reuniões reais, Cora pigarreou. — Majestade, acho que compreendi sua proposta...
— Comprometer nossos filhos? Porque foi isso que pensei. — Ela foi direta.
— Exatamente. Para mim, será uma honra indescritível. Robin não poderia se casar com alguém de sangue mais puro e melhor que sua filha. Quantos anos ela tem?
— Está prestes à fazer cinco anos, e já é muito esperta. Já começou com suas aulas de etiqueta e bons modos, também já demonstra facilidade para liderar, adora acompanhar os eventos reais, além disso, é muito inteligente. Será um negócio espetacular, caso prometamos a mão dos dois.
— Nossos reinos seriam unificados? — Ele olhou para o rei Henry.
— Ah, claro que não! Porque unificar reinos, se podemos ter dois em nossos poderes? Você terá uma parcela em nosso reino e nós teremos uma parcela no seu. Além disso, minha filha Regina não pode ficar em segundo plano. Tracei um futuro promissor para ela também.
— Certo, entendo. Bom, estamos à seu favor. Meu exército estará sempre disponível, assim que precisar. O que pode ser nos oferecido em troca?
— Trinta por cento de nossa produção anual de gado e cultivos.
— Trinta por cento?
— Alteza, se permite a falta de modéstia, sei que o seu reino tem poucas terras férteis, mas nós temos grandes áreas de cultivo, e garanto, tudo o que produzo em 6 meses é o dobro do que produz em dois anos nas suas terras. Jamais sairá perdendo. Pelo contrário, acredito que possa diminuir a preocupação sua com o povo. Soube que alguns motins têm se levantado contra seu reinado... — Cora explicitou a notícia que chegara até ela na semana retrasada.
— Ah, vejo que já soube dos péssimos recados. Bem, é verdade. Se não houver mais nada para tratar, acredito não haver melhor hora para formalizarmos o casamento futuro de nossos filhos.
—Claro, claro. Acompanhe Henry até o escritório para redigir o contrato. Logo estarei lá, vou verificar algumas coisas de hoje à noite.
Os dois reis saíram e Cora foi para o corredor de cima, nos aposentos reais.
— Snow. Venha aqui. — Cora chamou.
— Sim, majestade? — Snow se aproximou, com Regina adormecida em seus braços.
— Quero que olhe Zelena e o filho dos Locksley, Robin. Faça com que eles interajam, e quero que Zelena demonstre o quanto é esperta. Preciso deles interagindo. Ah, mande-a para o salão de música daqui uma hora.
— Porquê? — Snow pergunto, inocente.
— Você não faz perguntas, criada. Você faz o que eu mando. — a rainha cuspiu as palavras com desdém.
— Ah, desculpe-me. Desculpe-me. Fiz sem pensar. Claro, garanto que farei isso.
— Ótimo. Também quero Regina pronta antes das vinte horas.
— Sim, alteza.
Cora deu as costas e saiu, voltando para o escritório e Snow fez o que foi lhe mandado.
— Zelena? — a morena entrou no quarto da menina novamente.
— O que é? — Zelena parecia emburrada, mas assim que viu Regina, um pequeno sorriso de abriu em seu rosto. — Regina... — Ela caminhou para perto da criada, para brincar com a irmã.
— Sua mãe pediu para que fosse até o salão de música daqui a pouco.
— Não quero.
— O que você tem?
— Queria brincar lá fora com as outras crianças, mas elas não quiseram.
— Ah... — Snow percebeu naquele momento uma brecha em Zelena. Um momento de sua infantilidade no meio de tantas responsabilidades de adultos já forçadas à criança. — Bom, você pode brincar por aqui com Regina, e ouvi dizer que Robin de Locksley adoraria brincar com você.
A menina não respondeu.
— Se não quiser, pelo menos, venha se vestir. Sua mãe quer que toque algo no violino para os convidados.
— Pra quê?
— Não sei, mas podemos dar uma volta no jardim depois, se quiser.
— Não vou sair com você. As outras crianças não querem criados por perto.
A moça revirou os olhos discretamente. Haviam voltado para a antiga Zelena.
Enfim, Snow White deixou Regina na cama de Zelena, enquanto ajudava a menina a se trocar e encaminhou-a para o salão de música. Enquanto a menina tocava para os convidados e recebia os elogios que adorava ouvir, a criada ficou com Regina, deu-lhe banho e colocou a roupa especial preparada para a apresentação ao reino.
— Regina, algo me diz que você vai ser uma rainha muito boa e inteligente.
Os reinos mais distantes que um dia de viagem não compareceram à festa, mas pelo sucesso que havia sido a apresentação da princesa Regina para o povo, todos os reinos num raio de 100km já sabiam da menina e da prosperidade que o reino de Trakai estava destinado a ter. Toda a alta sociedade e reis saíram com contratos assinados, Cora havia aproveitado e feito vários negócios. Só não prometera a mão de Regina porque não conhecia nenhum príncipe de algum reino interessante à ela que tivesse pelo menos 10 anos de diferença com a filha mais nova. O importante era mesmo manter a fama de reino próspero e fazer cada vez mais fortuna e ter cada vez mais influência e poder.
Lituânia — séculos XIV, anos 1348. — Castelo de Trakai
Snow White suava frio e tentava não gritar tanto quanto queria. Seu corpo magro e delicado de uma adolescente de 20 anos parecia não ser capaz de parir uma criança, mesmo assim, deveria fazê-lo. David estava à seu lado, contra seu gosto, afinal, a rainha Cora não perdoaria uma falta no trabalho e deixaria de pagá-lo. Seu maior desejo sempre fora ter um filho, ou filha, talvez mais, quem sabe, porém, o que ela não queria era ter uma criança no momento. A rainha ainda privava-a de sua retribuição e os impostos tinham aumentado. Claro, ela, por estar no vilarejo ao redor do castelo, não pagava pelo terreno de sua casa, mas os alimentos ainda eram um problema. Além disso, tinha medo de que fosse substituída em seu cargo de ama-seca de Regina e Zelena, simplesmente pelo fato de não poder entrar com seu bebê no castelo. Com quem deixaria seu filho ou filha? Será que ela e David seriam capazes de educar a menina? Ou pelo menos mantê-la? David dizia que isso não eram pensamentos à se preocupar, porque eles tinham amor e isso era o mais importante, dariam um jeito como sempre deram. E era à essas palavras que ela se agarrava agora, na hora de finalmente por sua criança no mundo.
A parteira, avó de Ruby, a adolescente da cozinha, estava à frente de Snow, encorajando-a a fazer força.
— Snow, só mais uma vez! Já posso ver a cabeça.
A morena resmungou, já totalmente sem ânimo, quase não aguentava mais ficar acordada e suava frio, tanto de dor quanto de desespero e cansaço. Mas ela forçou, forçou como não tivera forçado ainda para terminar logo com aquilo. Uma hora o bebê deveria sair, certo? E quando ela o fez, a parteira puxou delicadamente o pequeno ser que deixava o corpo de Snow e enrolou-o em uma manta feita a mão pela mãe de David.
— Snow, é uma menina! Loira como David, mas ela tem seu nariz. É uma garotinha saudável. Quer segurá-la?
A parteira não escutou uma resposta e olhou para Snow, que estava de olhos fechados.
— Snow? — A senhorinha deixou a criança com David e olhou para a morena deitada na cama, verificou seu pulso e olhou para o esposo dela, que estava agora com a feição antes preenchida por alegria agora só de desespero.
— O que houve?
— David, leve a menina pra fora! Eu preciso cuidar de Snow agora. — A parteira pediu e David o fez, querendo poder continuar lá, porém agora ele tinha um pequeno ser que precisava dele.
— Então, você será a minha Emma? — David perguntou, embalando a menina nos braços. Era uma época de muito frio e a neve caía do lado de fora da casa. O lago todo estava congelado. — Bem, Emma... Sua mãe está lá dentro, e parece que algo não deu muito certo. Por favor, me ajude à pensar que ela vai ficar, que nós dois vamos ficar. Você acabou de chegar e precisamos dela, certo?
O minúsculo embrulho de mantas no colo de David se remexeu e começou a chorar, sendo que ele só pode beijar a testa da menina e esperar do lado de fora dos quartos, observando a nevasca tomar conta das terras do castelo e de todo o reino de Trakai.
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