Traições
4 Capítulo 4
Na segunda-feira na escola Elyssa não conseguiu se concentrar. Desejou que a manhã passasse logo para poder ligar para Leandro. Ele ainda não havia dado notícias e isso a estava fazendo entrar em desespero. Assim que o sinal tocou ela saiu correndo, ainda não sabia exatamente o que fazer, mas faria algo. Sentou em um banco no pátio do colégio e ficou ali por alguns minutos imaginando o que poderia ter acontecido com seu namorado. Talvez ele só estivesse confuso novamente e precisasse de um tempo, mas voltaria a procurá-la. Talvez ele estivesse só preparando uma surpresa.
- Não! – pensou Elyssa. – Ele não faria isso. Não é muito a cara dele.
Ela não sabia mais o que pensar. Talvez Matheus tivesse razão, ele estava fazendo de novo.
- Elyssa. – Chamou uma voz atrás dela.
Elyssa se virou para olhar quem estava a chamando. Era Rodrigo, seu primo.
- Oi Rodrigo. – Respondeu Elyssa.
- O que ainda está fazendo aqui? Todo mundo já foi embora e daqui a pouco o sinal do turno da tarde vai bater. Você não deveria estar na locadora?
- Verdade, nossa, me distraí demais aqui. Tenho que ir mesmo. – Disse Elyssa se levantando do banco em que estava. – E você, o que ainda está fazendo aqui?
- Eu estava na biblioteca, estou precisando ler um pouco mais ultimamente. Estou seguindo seu exemplo. – disse Rodrigo sorrindo.
- Muito bom. Acho ótimo. Bem, estou indo para a locadora, quer ir comigo? Ou você tem alguma coisa para fazer agora?
- Não, não tenho nada para fazer agora. Vamos então.
Os dois saíram juntos da escola.
- Então Elyssa – disse Rodrigo quando já estavam chegando na locadora – o que a fez ficar tão distraída agora a pouco? Você parecia muito perdida em pensamentos.
- Nada demais, só estava refletindo sobre a vida. – Elyssa não sabia se poderia contar o que a estava incomodando. Se bem que desabafar com alguém agora seria uma boa opção e ela não tinha mais ninguém em quem confiar. Flávia, assim como Leandro também não havia dado noticias no fim de semana. Mas isso não a preocupava, provavelmente esteve por aí fazendo alguma loucura com Allan. Isso não era novidade.
- Você parecia triste. Anda, me conta o que está acontecendo. Já sei, deixe-me adivinhar, é o Leandro não é? Eu soube que vocês voltaram.
- Foi o Matheus que te contou? Aquele menino não tem jeito. É pior que mulher quando inventa de fazer fofoca. – disse Elyssa com um tom de voz arrogante.
- Foi ele sim e me contou sobre sábado também. Mas não o culpe Elyssa, ele só quer ajudar, ele gosta de você. – Disse Rodrigo tentando acalmá-la.
- É eu sei que ele gosta. Mas é que eu não suporto o fato das pessoas saberem mais de minha vida do que eu mesma. Entende?
- Entendo. Quer me contar o que tá acontecendo?
- É o Leandro. Não o vejo desde quarta-feira a noite. Estou preocupada e com medo também.
- Já tentou ligar para ele? – perguntou Rodrigo demonstrando muito interesse em saber o que a estava preocupando.
- Sim, o tempo todo, mas ele não atendeu e agora só vai para caixa de mensagens.
- Vá a casa dele. Ele com certeza deve estar lá e vai sair para falar com você. Ele tem que te dar uma explicação.
- Eu já fui, no sábado a noite e a irmã dele disse que ele não estava.
- Você acreditou nela? Você sabe como ela é. Adora te provocar, sempre foi assim.
- Ah esqueci que você a conhece bem, afinal você a namorou por um bom tempo. Fico feliz que tenha acabado. Ela não merecia você.
- Eu sei. Mas enfim, vá a casa dele hoje de novo e pergunta por ele á outra pessoa. Você vai saber o que está acontecendo.
- É você tem razão, eu vou lá. – disse Elyssa enquanto procurava a chave da porta em sua bolsa.
- E Elyssa – disse Rodrigo chamando a atenção da amiga novamente – independente do que acontecer, eu estarei aqui esperando para te ouvir outra vez.
Elyssa não entendeu o significado desse comentário que o primo havia feito mas não se importou.
Rodrigo ficou ali metade da tarde fazendo companhia a Elyssa. Os dois discutiram sobre vários assuntos, incluindo filmes, músicas e livros. Era divertido ficar na companhia de alguém que a entendia. Era isso o que Elyssa mais precisava no momento.
Depois que Rodrigo saiu Elyssa tentou novamente ligar para Leandro, sem sucesso. Sentiu vontade de chorar. Aquilo já estava ficando difícil demais de suportar. Começou a pensar em tudo o que eles já haviam feito juntos. Em quantas vezes eles ficaram juntos e quantas vezes ele já havia a deixado sem motivos e sempre voltava com a mesma desculpa de que estava confuso. Lembrou do dia em que se falaram pela primeira vez, o primeiro olhar, o primeiro beijo, o primeiro aperto de mão, o primeiro abraço. Lembrou da noite que ele ficou em frente a casa dela por horas esperando que ela saísse falar com ele e o desculpasse por ter sumido. Lembrou da primeira vez em que disseram "eu te amo" um ao outro.
Aquela noite havia sido perfeita.
- Oi Elyssa. — Disse Leandro que a estava esperando em frente a sua casa.
- Oi. Que bom que você veio. Fiquei com medo que não viesse. — falou Elyssa visívelmente feliz com a presença dele.
- Por que eu não viria?
- Não sei. Foi só um medo repentino. Mas agora que você está aqui eu não tenho medo de nada.
- Não há motivos para ter medo.
- Eu sei.
- Estava com saudades de você.
- A gente se viu hoje de manhã na escola, lembra? Não faz tanto tempo assim. — Brincou Elyssa.
- Eu sei, mas algumas horas sem você acabam sendo insuportáveis, principalmente quando não tenho nada para fazer. É incrível como as horas congelam longe de você. Como é possível alguém dominar nossos pensamentos assim, da maneira que você dominou os meus?
- Você pensa em mim?
- O tempo todo.
Elyssa sorriu e por um instante sentiu seu coração disparar.
- Posso te falar uma coisa? — disse ela parecendo nervosa.
- Claro. — Disse Leandro
- Eu te amo. — Elyssa disse isso e olhou com ansiedade para os olhos de Leandro esperando sua reação.
- De verdade? — Perguntou Leandro.
- Sim, você não acredita?
- Agora eu acredito. Mesmo depois de tudo que eu te fiz você aceitou voltar comigo e ainda continua aqui. Leandro a abraçou forte e depois a beijou.
Elyssa pausou o beijo obrigando-o a se afastar dela.
- Você gosta de mim? — Perguntou a ele.
- Gosto. Você sabe que sim. Por que essa dúvida?
- Não sei. Eu acabei de falar que te amo e sua reação não foi a que eu esperava.
- Eu também te amo Elyssa.
- Mesmo? — Elyssa duvidou.
- Eu não estaria aqui se não a amasse.
Os dois sorriram. Aquela noite jamais seria esquecida. Não por Elyssa pelo menos.
- Boa tarde moça. — Disse uma voz na locadora interrompendo os pensamentos de Elyssa.
- Boa tarde — respondeu ela levantando a cabeça e olhando para o homem que estava parado em sua frente. Um senhor de mais ou menos uns 60 anos e que parecia simpático.
- Estava distraída pelo que percebi. Interrompi seus devaneios. Me desculpa. Mas pode voltar a pensar no que estava pensando enquanto eu escolho alguns filmes aqui. Sabe como é né? Um velho como eu que já não tem mais o que fazer em casa, precisa de alguma coisa para se distrair. Filmes são sempre uma boa opção.
Elyssa riu.
- Posso te ajudar a escolher se quiser. Tenho ótimas opções. — disse Elyssa com um tom super agradável.
- Não precisa querida, eu me viro aqui. Volte a pensar em seu namorado. — Disse o homem sorrindo.
- Namorado. — repetiu Elyssa em voz baixa, mas o homem ouviu.
- Parece que adivinhei. — disse o velho simpático tentando distrair a menina. — Nessa época da vida em que você está é quando o amor é mais complicado. Me lembro bem de quando me apaixonei pela primeira vez. Eu tinha mais ou menos a sua idade. Ela era linda e eu era só um moleque que morava perto da casa dela e que nunca teria uma chance com ela. Eu a observava todas as manhãs enquanto ela ia para a escola. Sempre sorridente, aqueles cabelos longos e lindos. Costumava usar uma blusa rosa que a deixava maravilhosa. Como eu era bobo.
- E o que aconteceu? — perguntou Elyssa interessada na história.
- Durante dois anos eu só a amava em silêncio. Mas um dia resolvi contar a ela. Fiquei em frente ao portão da escola esperando que ela saísse. Ela demorou bastante e eu nunca tive muita paciência sabe? Mulheres, sempre fazendo nós homens de bobos. Por que vocês demoram tanto quando as estamos esperando? — Perguntou olhando para Elyssa e sorrindo. — Eu fiquei quase uma hora parado, parecendo um bobo e todos que passavam olhavam para mim com curiosidade. Mas finalmente ela apareceu. Estava linda como sempre.
Assim que ela cruzou o portão eu corri na direção dela e falei tudo o que estava preso aqui dentro.
- O que ela fez? — perguntou Elyssa cada vez mais curiosa pela história.
- Ela riu e depois disse que estava atrasada para encontrar o namorado. Também pudera, eu tinha apenas 13 anos de idade e ela 17. Mas foi uma época muito boa. Depois dessa decepção eu conheci uma outra garota e me apaixonei novamente. E assim eu fui me apaixonando e perdendo várias garotas até encontrar o amor da minha vida aos 22 anos. — Disse o velho suspirando.
- E o senhor ainda está com ela?
- Em meu coração sim. Ela morreu a 5 anos atrás, câncer no pulmão. Mas eu nunca mais esquecerei todos esses anos que passamos juntos. Ela me fez muito feliz. Serei eternamente grato a ela pelo resto de minha vida.
- Que lindo isso. — disse Elyssa que já estava prestes a chorar.
- Mas não fique triste querida. Tudo o que acontece em nossas vidas hoje, acontece por algum motivo. Tudo são lições que nos deixarão mais fortes amanhã. Acredite. Se alguém foi embora hoje, amanhã outra pessoa o substituirá. E sempre será assim. Não há espaço para tantas pessoas em nossas vidas. É sempre preciso se livrar daquilo que já não nos serve mais e abrir espaço para o que nos fará muito mais feliz.
- Será que é assim mesmo? — Disse Elyssa confusa.
- A vida lhe ensinará o que é certo na hora certa. É preciso paciência e fé.
- Obrigada.
O velho homem escolheu os filmes que queria e foi embora em seguida. Elyssa passou o resto da tarde refletindo sobre aquilo. No início da noite já estava sentindo-se melhor.
No dia seguinte acordou decidida a desistir de Leandro. Não ligaria mais para ele. Não o procuraria mais. Ela seguiria em frente.
Ás 6 horas da manhã o toque do celular acordou Elyssa.
— Alô! — disse Elyssa ainda sonolenta.
— Elyssa, sou eu Flávia. Abre a porta pra mim? Por favor.
— O que? Onde você está? Sabe que horas são ainda? — Perguntou Elyssa curiosa em saber o que a menina estava fazendo ali naquela hora.
— Estou na porta da frente da sua casa. Agora corre aqui abrir a porta antes que sua mãe acorde. Eu te explico tudo depois.
— Estou indo. — Elyssa desligou o telefone e foi abrir a porta para a amiga.
— Demorou demais, quase congelei ali fora, viu como está frio hoje? — Disse Flávia rindo, assim que Elyssa abriu a porta.
— O que aconteceu? Por que está aqui? — Perguntou Elyssa.
— Eu disse para minha mãe que ia dormir na sua casa para poder sair com o Allan. Conhecendo ela posso dizer que ligará daqui alguns minutos para ter certeza que não perderemos a hora de ir para a aula. Mas não iremos a aula hoje. Ficaremos no seu quarto colocando os assuntos em dia eu tenho tanta coisa para te contar e você também deve ter, aposto. — Disse Flávia praticamente atropelando as palavras.
— Espera. — disse Elyssa. — Você dormiu na casa do Allan? Desde quando você faz isso? E você espera que eu minta para sua mãe?
— Claro e você vai mentir. É isso que as melhores amigas fazem. Eu já fiz isso por você, lembra?
— Tudo bem. Eu te ajudo. Vamos pro meu quarto antes que minha mãe acorde.
As duas passaram a manhã toda conversando sobre tudo o que estava acontecendo. Clara, a mãe de Elyssa não se importava se a filha faltasse algumas vezes na aula, sabia que a menina não era nenhuma irresponsável. Era uma mulher descolada e apoiava a filha em tudo.
— Meninas estou indo ao supermercado, querem alguma coisa? — Perguntou Clara batendo na porta do quarto da filha.
— Não mãe, obrigada! — Respondeu Elyssa.
— Poderia trazer alguma daquelas porcarias para eu comer, tia Clara? — gritou Flávia. Ela era íntima da família e Clara a tratava como uma filha.
— Claro querida — respondeu Clara , saindo em seguida.
— Agora me diz Elyssa — falou Flávia assim que notaram que estavam completamente sozinhas. — O que pretende fazer em relação ao Leandro? Ainda vai tentar procurá-lo?
— Não. Não farei nada. Preciso esquecê-lo. Essa história já deu. — Disse Elyssa com um tom de voz muito convincente.
— Mas vocês eram um casal tão lindo. Não poderia acabar assim.
— Mas acabou. E não quero mais tocar nesse assunto.
— Tudo bem "senhorita decisão tomada" — disse Flávia num tom de brincadeira. — Agora, eu preciso te contar uma coisa.
— O que? — Perguntou Elyssa esperando pela longa história que geralmente sucedia as palavras "contar uma coisa".
— Ontem, quando eu estava na casa do Allan, uns garotos esquisitos apareceram lá, estavam em 5 mais ou menos e com 3 motos. Ele saiu para falar com eles e eu fiquei na janela observando. Em algum momento da conversa um dos garotos o empurrou, parecia nervoso. Fiquei desconfiada e resolvi sair para ver o que estava acontecendo. Quando estava me aproximando ouvi o garoto maior falar algo como "Sabemos que foi você" para o Allan. Perguntei o que estava acontecendo e o Allan disse que eles eram apenas uns amigos da academia. Os garotos foram embora, mas antes ficaram olhando fixamente para mim. Senti medo. Acho que tem alguma coisa a mais por trás dessa história toda e talvez esses caras não sejam amigos de academia dele.
— O que você acha que é? Desconfia de alguma coisa? — Perguntou Elyssa demonstrando preocupação.
— Não sei, insisti para que o Allan me contasse depois mas ele ficou nervoso e eu desisti. Estou preocupada Elysssa.
— A quanto tempo você conhece ele mesmo?
— Uns 3 meses. Você lembra quando ele apareceu na frente da escola aquele dia, não lembra? Desde então começamos a sair. Mas ele nunca foi de falar muito sobre a vida dele sabe. Nem o celular dele eu posso pegar. Se eu tento ele fica muito nervoso.
— Por que você não me disse isso antes Flávia? Você tem ideia de como isso pode ser perigoso? Você ao menos conhece os pais dele? — Elyssa levantou a voz.
— Só a mãe dele, uma alcoólatra descontrolada. Mulherzinha insuportável, fique você sabendo. O pai os abandonou quando Allan ainda era pequeno.
— Você tem que abrir o olho Fávia. Você pode estar em perigo.
— Eu não acho. — disse Flávia, parecendo despreocupada agora. — O Allan me ama e jamais deixaria algo de ruim me acontecer.
— Você deveria ter me contado isso antes. — Elyssa ainda estava nervosa.
— Era por isso que eu não queria te contar. Você vê problema em tudo. Relaxa.
— Vou ficar de olho em vocês dois.
A tarde Elyssa e Flávia foram para a locadora. Passaram o dia todo juntas. Flávia foi para casa antes de Elyssa encerrar o expediente.
A noite Matheus apareceu para fazer companhia. Ele estava feliz por Elyssa não tocar mais no nome de Leandro.
Saíram juntos da locadora. Matheus estava carregando uma pilha de filmes enquanto Elyssa o distraía com assuntos sem fundamentos. Estavam rindo quando se aproximaram da casa de Elyssa. Foi quando viram algo que fez como que os dois ficassem surpresos. Elyssa ainda mais.
A alguns metros de onde eles estavam, Leandro caminhava lentamente abraçado a uma garota. Era uma menina linda, Elyssa pode notar.
Elyssa congelou, não sabia como reagir. O casal passou despercebido pelos dois. Estavam distraídos demais, rindo como Elyssa pode perceber.
Aquilo a destruiu por dentro. De repente era como se tivesse perdido o chão. Nada mais fazia sentido e lágrimas invadiram seus olhos. Elyssa se perdeu em pensamentos e não ouviu quando Matheus falou com ela. Saiu correndo dali e foi para casa. Abriu a porta e não parou para fechá-la, passou correndo por Clara que não percebeu que a filha chorava, pois estava distraída cozinhando e cantando algumas das músicas que Elyssa odiava. Trancou-se no quarto e continuou a chorar. Não atendeu nenhuma das muitas ligações de Matheus.
No dia seguinte Elyssa foi até a casa de Rodrigo antes de ir para a aula.
Enviou uma mensagem ao celular dele avisando que o esperaria na frente da casa dele.
Assim que ele a viu, saiu para falar com ela. Ao se aproximar Elyssa o abraçou.
— Eu sinto muito. — Disse Rodrigo.
— Você sabia. — Disse Elyssa tentando parecer mais calma. — Por que não me disse?
— Você não iria acreditar, assim como não acreditou quando Matheus te falou.
— Ele estava certo. Eu devo desculpas a ele. Como eu fui idiota.
— Não, você não foi idiota. O único idiota dessa história é o Leandro.
— Por que? Por que ele fez isso comigo? O que eu fiz de errado? Qual é o meu problema? — Disse Elyssa entre soluços.
— Não é você Elyssa. Não se culpe. Ele foi um canalha com você, não merece que você fique assim. Tente se acalmar por favor. Isso vai passar.
Elyssa não disse mais nada, apenas ficou abraçada ao primo até se sentir melhor.
As aulas foram entediantes demais e Elyssa não conseguia esquecer a cena da noite anterior. Aquilo a atormentaria por alguns dias ainda.
Ao chegar na locadora, Miguel já estava lá.
-Oi, tudo bem Elyssa? — Disse quando a menina entrou.
— Sim e você Miguel?
— Estou bem. Olha só, chegaram filmes novos, quer me ajudar a cadastrar? — disse Miguel animado.
— Claro. — respondeu Elyssa.
Miguel percebeu o tom de voz triste de Elyssa e olhou para a garota por alguns instantes.
— Você não está bem. O que aconteceu? Quer conversar? — Disse Miguel, esperando que pudesse ser útil.
— São só alguns problemas pessoais. Mas eu vou ficar bem. — Elyssa tentou ser convincente.
— Sabe — começou Miguel — a vida adora nos fazer de palhaços. Ela brinca com a gente o tempo todo. Quando estamos em nossos momentos de crise, achando que nada mais faz sentido, ela chega e nos surpreende. De repente estamos sorridentes acreditando que tudo é maravilhoso, então a vida nos dá outra rasteira. Eu não sei, mas acredito que deve haver algum sentido nesses altos e baixos que temos que enfrentar. Não passamos de um brinquedinho nas mãos do destino. Talvez amanhã tudo isso que está te deixando mal hoje, desapareça, ou talvez irá te perseguir pelo resto da vida. Se isso acontecer você terá que ser muito e esperta e encontrar esconderijos muito bons para escapar de vez em quando. Nem sempre você vai conseguir. Mas uma coisa eu te digo, jamais pague a uma mulher para sair com você acreditando que ela te fará esquecer os seus problemas. Ela só te trará um problema maior. Ah, esqueci, você é mulher também. Isso faz sentido? — Miguel parecia não saber o que estava falando. Mas sempre que agia assim Elyssa ria. Dessa vez não funcionou. Elyssa parecia querer chorar ainda mais. — Oh, querida não fique assim — continuou Miguel — sabe o que tens que fazer? Sair. Isso. Saia um pouco dessa locadora, você fica muito presa aqui, me sinto até culpado. Vá dar uma volta, vá respirar. Observar o mundo lá fora. Eu te dou a tarde de folga, hoje trabalharei em seu lugar, preciso fazer algo útil — Miguel riu de si mesmo.
— Tem certeza Miguel? — Perguntou Elyssa. — Eu posso ficar aqui.
— Não, você não pode ficar, não quero que você fique aqui, quero que você fique bem, por isso saia e vá viver um pouco, não se preocupe com a locadora, afinal ela é minha.
— Tudo bem então — disse Elyssa tentando forçar um sorriso.
Elyssa saiu da locadora e foi para uma pracinha que ficava ali perto. Sentou em um banco e começou a observar o movimento em volta. Só foi para casa quando tinha certeza que estava se sentindo um pouco melhor.
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