Traição
10 Epílogo — O Que Permanece
Notas iniciais
O tempo havia passado.
Anos suficientes para transformar feridas em cicatrizes quase invisíveis, dores em aprendizados, e promessas em hábitos diários. Ainda assim, ali estava Edward Cullen, aos quarenta e seis anos, com a mesma aparência impecável de quatorze anos atrás. Nenhuma ruga no rosto. Nenhum sinal visível do peso que carregara.
Mas apenas por fora.
Por dentro, ele era outro homem.
Um pai presente. Um marido devotado. Um homem que aprendera — às vezes da forma mais dura — que amar não era possuir, controlar ou impor. Amar era escolher, todos os dias, permanecer.
Bella observava tudo à distância, sentada entre famílias emocionadas na cerimônia de formatura do ensino médio de Anthony. O filho deles estava ali, de beca e sorriso nervoso, prestes a atravessar um dos primeiros grandes limiares da vida.
Ela sentiu o peito apertar.
Apesar de tudo o que haviam construído, Bella ainda carregava inseguranças. O tempo havia deixado marcas nela — dois filhos, noites sem dormir, o corpo mudado. E Edward… Edward permanecia o mesmo em aparência. Imutável aos olhos do mundo.
Mas não aos dela.
Porque ele nunca a deixava esquecer.
Edward estava alguns metros à frente, segurando Lizzie — ou Liza, como todos a chamavam — a filha de quatro anos que chegara como uma surpresa tardia e maravilhosa. Ele a mantinha no colo com naturalidade, como se tivesse nascido para aquilo. E, de certa forma, tinha.
Liza ria, brincando com a gravata do pai, enquanto ele murmurava algo em seu ouvido, fazendo-a gargalhar. Edward fora transformado pela paternidade mais uma vez — e não resistira. Amara cada segundo.
Bella sorriu sem perceber.
Foi então que viu a moça.
Um pouco mais velha que Anthony, bonita, confiante, aproximando-se de Edward com um sorriso ensaiado demais para ser casual. Ela disse algo, inclinando-se levemente, puxando assunto. Bella percebeu quando Edward respondeu — educado, distante, quase automático.
Mas seus olhos…
Seus olhos procuraram Bella imediatamente.
Ela levantou-se antes mesmo de pensar.
Quando se aproximou, ouviu o fim da conversa.
— Sou casado — Edward dizia, com calma absoluta. — Muito casado. E não existe nada no mundo que me faria magoar minha esposa.
A moça riu, incrédula.
— Todo homem trai.
Edward a encarou com uma serenidade que só quem já perdera tudo podia ter.
— Sim — respondeu. — O homem é um ser burro. E eu já cometi esse erro uma vez. Não farei outra. Não porque não posso… mas porque não quero. Eu jamais machucaria a pessoa que mais amo neste mundo.
Nesse momento, Bella parou ao lado dele.
Edward virou-se e sorriu — aquele sorriso que ainda era só dela. Passou o braço livre em torno de sua cintura com naturalidade, puxando-a para perto. Liza apoiou a cabeça no ombro da mãe, sonolenta.
A moça entendeu.
Sem dizer mais nada, afastou-se.
Bella permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo o peso — e a leveza — daquele instante.
— Você ouviu? — Edward perguntou baixo, divertido.
— Ouvi — ela respondeu, emocionada. — E obrigada… por nunca me deixar esquecer.
Ele se inclinou e beijou sua têmpora, diante de todos, sem pudor algum.
— Aos meus olhos, Bella — murmurou — você sempre foi, é e sempre será a mulher mais linda do mundo. O tempo só me ensinou a enxergar melhor.
Ela fechou os olhos por um instante.
O nome de Anthony ecoou pelo salão. Era a vez dele.
Os três — pai, mãe e irmã — se levantaram juntos, aplaudindo enquanto o jovem atravessava o palco, seguro, confiante, fruto de uma história que quase se perdera, mas escolhera permanecer.
Bella entrelaçou os dedos nos de Edward.
E ali, naquele momento simples e perfeito, ela soube:
O amor deles não era sobre aparência, passado ou medo.
Era sobre escolha.
Todos os dias.
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