Notas iniciais
Olá pessoal, quero agradecer os reviews.... que bom que a maioria está gostando.... fico muito feliz mesmo....bjusss

Harry sentiu que estava viajando em grande velocidade, pois seus olhos viam somente borrões, coisas difusas e confusas, imagens que não queria ver nem ter conhecimento, mas que agora estavam gravadas em sua mente. O vermelho resplandecente dos cabelos de sua mãe voando solto pelo vento no parquinho diante de sua casa quando criança ou no campo de quadribol vendo a Grifinória voar em suas vassouras, viu o sorriso puro que nasceu em seus lábios em momentos diversos e intensos em que sua inocência reverberava pelas paredes do castelo. Queria se lembrar do verde de seus olhos estendendo-se pelo jardim de sua bela casa onde brincava quando criança.

Queria tanto.

Mas só conseguia se ver diante do negro que eram os olhos de Snape sempre olhando de longe, escondido. O negror de sua alma que por um momento chegou a ser atingido pela alvidez da alma de sua mãe, mas que não se deixou ser invadido por sua bondade. O negror que o levou a contar ao Lord o que ouvira sair da boca da mulher que fazia a entrevista com Alvo Dumbledore no imundo Cabeça de Javali.

Harry respirou fundo sentindo-se doente com as imagens que ainda jorravam em seus olhos. Verdades e mentiras, mortes e proteções. Viu-se em vários flashs intensos que passaram rapidamente, assistiu os negros olhos atentos sobre si, preocupados, atenciosos quanto a cumprir uma promessa de culpa.

Era demais.

Quando voltou para o escritório do professor de poções, viu que não havia ninguém ali na sala junto com ele. Snape ainda estava isolado em algum lugar onde Harry provavelmente não saberia onde era. E na verdade não queria saber, não tinha a menor ideia do que acabaria fazendo ao vê-lo entrar pela porta naquele instante. Era melhor ficar quieto, por isso deu dois passos para longe da mesa e se sentou no chão encostando as costas em uma prateleira de livros, seus olhos atentos a bacia de pedra que lhe contara o que queria saber, mas que não deveria saber.

Snape só voltou para o escritório uns trinta minutos mais tarde quando achara que Harry já fora embora. No dia do jogo, quando viu o que o menino havia feito a Malfoy, ficara bravo, mais por ele ter o desobedecido do que pelo ato em si. Harry deveria ter obedecido suas ordens, pois isso é o que fazem os que se importam. Mas Harry Potter sempre fugiu a regra, nenhuma lei era suficientemente forte para impedi-lo de fazer o que queria fazer, o que achava certo e correto. Naquele dia a decepção caiu sobre seus olhos, estava decepcionado e até mesmo triste, mas nada que o fizesse castigá-lo cruelmente. Iria dar-lhe uma detenção de uma semana e um pouco de gelo para fazê-lo entender o que fizera. Mas então o menino tinha que abrir a boca e lhe falar o que estava guardado no fundo. Aquelas palavras que só falamos quando estamos fora de nosso controle.

“Você não sabe amar”.

Como ele se atrevia a dizer aquilo na sua cara, depois de tudo que fizera para Lilian? Depois de toda a proteção que dera ao menino, após sua louca preocupação com o bem estar dele, com a sua felicidade e logo após descobrir que no fundo sentia...

Seus pensamentos foram interrompidos quando entrou no escritório. O brilho da penseira pintava o teto do recinto brincando de tremeluzir sua imagem deixando-a grotescamente bonita. Seus olhos negros vagaram pela luz parando sobre a própria penseira onde estavam suas lembranças que retirou para sua mente ficar mais leve. Ela deveria estar dentro do armário, mas estava em cima de sua mesa e isso só poderia significar uma coisa.

- Potter? – Chamou fechando a porta atrás de si. Ninguém respondeu.

Snape deu dois passos para frente e aguardou, estava tudo silencioso e calmo como se não houvesse ninguém mais além dele próprio, porém Snape sabia que ele estava ali, podia senti-lo.

- Harry? – Chamou novamente e aguardou o silêncio de novo.

Desta vez o silêncio foi quebrado por um soluço escondido atrás de sua mesa. Devagar a contornou e se deparou com Harry sentado no chão, seus braços estavam abraçando as pernas e seu rosto estava abaixado, escondido.

- Harry? – Chamou Snape novamente dessa vez com apenas um sussurro.

Devagar o homem se abaixou ajoelhando-se perante Harry e aguardou que o menino lhe respondesse. Quando não houve resposta o professor apenas ergueu o rosto dele e se assustou com o quão destruído ele estava. Sua pele alva estava vermelha e coberta com as lágrimas que desciam sem pudor até seu pescoço. Os olhos verdes sempre tão vivos estavam agora apagados, vazios como um teatro após o término de uma peça.

- Filho, o que houve? – Perguntou Snape sentindo o peito comprimir com a preocupação.

- Não me chame de filho. – Disse Harry entre os dentes se levantando.

Por um momento Snape permaneceu ajoelhado no chão com a mão que segurava o rosto do menino levantada no ar como se Harry ainda estivesse ali, mas não estava. Harry estava em pé ao seu lado, quebrado e vulnerável, entregue a fúria dos enganados. As lágrimas ainda caiam em sua roupa enquanto chorava copiosamente olhando-o com firmeza.

- Eu vi. – Disse Harry afastando-se quando o homem se levantou. – Eu vi tudo, eu sei tudo.

- Harry, se acalme.

- Não vou me acalmar. Você mentiu para mim.

- Não menti.

- Mentiu sim.

- Não, eu não menti. – Disse Snape baixinho andando pé ante pé em direção ao menino. – Eu jamais lhe falei sobre seus pais, nem sobre o Lord ou a profecia. Não posso mentir sobre uma coisa que nunca falei.

- Mas não desmentiu! – Gritou Harry empurrando uma cadeira que caiu com estrondo no chão. – Foi você, foi tudo culpa sua. Ela estaria viva se não tivesse dito nada. Ela estaria viva.

- Eu sei disso, Harry, não sabe como me arrependo disso a cada dia da minha vida. – Sussurrou Snape levantando a mão e chegando mais perto dele.

- Você mentiu. Como todo mundo, você mentiu. Me usou, me traiu. Eu não sou nada para você, por que se eu fosse você teria me contado.

- Tente me ouvir. – Pediu Snape, uma ponta de suplica escapando pela sua língua. – Eu era jovem, apaixonado e sozinho. Só queria ter um lugar em que me encaixasse. Eu não sabia o que ele faria, não sabia quem escolheria, se soubesse eu jamais... Jamais... Harry, por favor.

- Não encosta em mim. – Disse Harry se afastando da mão erguida e se postando do outro lado da sala.

- Eu estava enganado sobre você. – Disse o menino olhando-o com raiva. – Você sabe amar sim.

Snape virou o rosto apenas alguns centímetros e ficou olhando pelo canto do olho o menino respirar fundo algumas vezes como se tentasse dizer alguma coisa que não queria sair.

- E é isso que te torna pior. Nem mesmo o amor te impede de matar. Eu não quero mais ver você.

- Harry, não, por favor, me escute. – Pediu Snape se aproximando rapidamente e pegando-o pelos braços. Tente me ouvir.

- NÃO! Não quero te ouvir, quero ir embora daqui, quero ficar longe de você e nunca mais olhar para sua cara.

- Você não vai. – Rosnou Snape.

- E o que vai fazer? Me prender, me bater até sair a pele e ficar em carne viva? Pode fazer, eu já estou acostumado com isso.

Snape soltou o menino imediatamente como se temesse seu contato e olhou com olhos indecifráveis, aprecia um misto de angústia e medo.

- Eu disse que nunca mais iria machucá-lo. Não vou fazer isso. Não quero que vá embora, mas não vou impedir se quiser mesmo ir.

- Pois é o que eu farei. Vou embora e não vou voltar. – Disse Harry agora tão raivoso que seu rosto se transformava em algo muito parecido com Voldemort, algo ruim e cruel. O menino ergueu a varinha e apontou para o homem que não se mexeu.

- Não venha atrás de mim, me esqueça ou juro que te amaldiçôo para o resto de sua vida medíocre, Severus Snape.

Harry passou por Snape esbarrando em seu ombro e saiu porta afora quase correndo. Queria distância daquele homem, o falso que o iludiu. Tudo mentira, provavelmente um plano para segurá-lo até completar seus dezessete anos e depois, tomado pela confiança, levá-lo até o Lord pela sua própria vontade.

- Harry, o que aconteceu? – Perguntou Hermione preocupada vendo o menino entrar na sala comunal como um furacão e ir direto para seu quarto.

Rony e Hermione trocaram um olhar assustado e correram escada acima encontrando Harry no pé de sua cama remexendo em seu malão, derrubando todas as roupas no chão e espalhando livros.

- Harry, o que está fazendo? – Perguntou a menina já com tom desesperado. Harry estava lhe causando medo.

- Acabou, a farsa acabou. Ele mentiu para mim esse tempo todo. – Gritou Harry retirando do meio das roupas uma bela veste vermelha de quadribol com seu nome gravado nas costas. Era a capa que todos os alunos cobiçaram. Era única e bonita e naquele momento estava nas mãos de um Harry raivoso.

- O que vai fazer? Para com isso, cara. – Disse Rony colocando Hermione atrás de si ao ver o amigo com a varinha nas mãos. – Você está descontrolado.

- Eu, descontrolado? – Riu-se Harry sarcasticamente. – Não, é claro que não. Eu só descobri que Snape era mais importante para mim do que imaginei e que ele me protegeu e cuidou de mim desde que minha mãe morreu e que ela era o amor da vida dele. Sim, eu descobri uma coisa. Descobri que o homem que eu comecei a amar e confiar como um pai é o verdadeiro motivo de eu não ter pais. Foi ele, ele causou a morte de meus pais.

- Harry, pare um pouco. Você deve estar cansado e confuso. – Disse Hermione já quase chorando. – Vamos sentar e conversar.

- Não, Hermione, eu preciso fazer isso. Eu tenho que queimar isso e tudo que me faz lembrar aquele babaca.

- Não! – Gritou Hermione se jogando em cima de Harry e retirando a capa de suas mãos.

- Me devolve isso, Hermione. – Pediu Harry entre dentes.

- Não, só vou devolver depois que você se acalmar e começar a pensar direito.

- Eu preciso.

- Não precisa não. Quando você parar para pensar, sei que vai entender que ele o ama, Harry, e vai se arrepender de tentar afastá-lo de sua vida.

- Hermione, eu não acho...

- Cale a boca, Rony. – Disse Hermione fazendo Rony ficar quieto antes de virar as costas para ele e dar atenção a Harry.

- Eu sei que está com raiva, se fossem meus pais eu também estaria nervosa e querendo matar o culpado, mas você precisa parar, está completamente fora de si. Harry, por favor, pare.

- Não. Me devolve essa capa, agora. – Sibilou Harry segurando a varinha fortemente na mão.

- Rony, me ajuda. – Pediu Hermione.

- Olha Harry, eu não queria fazer isso. Mas você está pedindo.

- E o que é que você vai fazer?

A última coisa que Harry viu foram os nós dos dedos de Rony e depois mais nada.

Notas finais
Eu preferi não colocar as imagens do que Harry viu, pois todos nós já conhecemos. Mas ele vai falar um pouco sobre isso e agora vamos ver como será que Snape vai conseguir reconquistar a confiança do Harry e como essa distância será para os dois.