Traiçoeiro
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Bae e eu estávamos esfregando o convés após o café da manhã. Eu ficava cuidando o tombadilho superior de minuto em minuto, esperando o momento que Killian fosse aparecer já que não havia conversado com ele naquela manhã e desconfiava que pudesse estar bravo comigo.
Eu estava de certa forma brava comigo, tudo bem que eu não aprovava o que ele e Milah fizeram, contudo Jones confiara em mim para me contar uma parte de sua vida sem que eu ficasse insistindo. Ele contara achando que eu entenderia e não o trataria da forma que o tratei. Não entendia, mas estava tentando ver o lado de Killian. Sem ter muito êxito.
–Emma? – Bae me chamou soando impaciente. Desviei o olhar do tombadilho, lhe dando atenção. – Aconteceu alguma coisa?
–O que? Por que está perguntando isso?
–Primeiro porque você está aqui comigo e não com Killian como de costume. Segundo porque não para de cuidar o tombadilho superior. E terceiro porque estou lhe chamando faz algum tempo e você não responde.
Balancei a cabeça, mergulhando o esfregão do balde e voltando a esfregar o convés.
–Tivemos um pequeno desentendimento noite passada. – expliquei sem encará-lo. Não queria que ele me questionasse sobre o que fora o desentendimento.
Baelfire fez um barulho estranho com a garganta, parecendo desconfortável. Parei o que estava fazendo para estudá-lo.
–Emma... você e ele não...?
–Não o que, Baelfire?
–Apenas me diga que vocês não são um casal. – soltou rapidamente ficando vermelho. – E não estou pedindo para me dizer isso por estar tendo algum tipo de sentimento romântico por você... Ou por ele. Apenas porque me preocupo com você, Emma, e sei como Killian age com as mulheres. – se explicou.
–Da onde você tirou essa ideia, Bae? Killian e eu? Nós somos apenas amigos.
–Acontece que você está dormindo na cabine dele, estão passando bastante tempo juntos e ontem quando estavam nadando... Bem, vocês pareciam um. O jeito que você se segurava nele e como Killian sorria e a admirava. Emma tome cuidado, você não consegue perceber quando um homem começa a desejá-la. Não sabe diferenciar.
Neguei com a cabeça, soltando uma risada.
–Killian e eu somos apenas amigos e eu não sou tão ingênua. Eu sei disso, mas se o deixa mais tranquilo eu terei cuidado. – prometi, parando para mexer meus ombros que estavam doendo. – Não vejo a hora de atracarmos. Não aguento mais ficar no mar. – mudei de assunto. – Tem manhãs, quando o mar está muito agitado que eu me sinto mal. Se eu não me acostumei até agora, essa é a prova que não sirvo para viver no mar. Sinto falta de caminhar, poder esticar as pernas. Claro que aqui eu não fico parada, mas não é a mesma coisa.
–Assim que atracarmos nós iremos sair correndo. Lhe prometo. Até você implorar para parar.
–Está mais fácil eu cair abraçando o chão e pedir a terra em casamento. — comentei. — Espero que essa pessoa que Killian quer que eu conheça tenha algo que me ajude a encontrar minha mãe.
–É tão ruim assim ficar conosco?- indagou relanceando o olhar para trás de mim rapidamente.
Neguei com a cabeça sentando sobre meus pés.
–Não. Não, Bae. De jeito nenhum, eu gosto muito de vocês. De todos. Eu apenas... Não sei. Não pertenço aqui?- instiguei sem ter certeza se o que dizia era verdade. — Sou sincera quando digo que prefiro aqui do que onde fui criada, só não me imagino vivendo essa vida para sempre, entende? Não estou ansiosa para voltar para a sociedade e todas suas regras que sigo mesmo quando não preciso, assim como não quero viver desse jeito. Talvez eu encontre uma casa no meio do nada e vá viver na natureza caso não encontre minha mãe. Quero uma vida tranquila, sem tanto luxo, apenas com o necessário para viver. — divaguei já imaginando uma horta e um galinheiro, como os que eu via quando ia para o interior. Talvez se tivesse sorte um casamento por amor.
–Swan!- Killian me chamou de forma áspera, me assustando ao perceber que ele estava parado atrás de mim.
Fiquei de pé de uma maneira nem um pouco graciosa, observando a carranca de Jones que me fitava.
O que eu havia feito de errado dessa vez? Ele apenas reservava aquela expressão para quando eu fazia alguma besteira. O que ocorria bastante no começo, mas não agora que eu já havia pegado o ritmo da vida no navio.
–Sim capitão?- Gancho arqueou uma sobrancelha para mim. — Senhor... Digo Killian. Sim Killian?- me corrigi rapidamente, o cumprimentando com um aceno de cabeça.
–Venha comigo! — ordenou de forma sisuda, saindo andando, para que eu o seguisse.
Corri, me colocando ao seu lado, tentando entender a expressão que estava em seu rosto. Ele parecia furioso comigo. Não poderia ser do ocorrido na noite passada, aquilo o deixaria apenas bravo, não furioso.
–Killian o que aconteceu?- questionei entrando na cabine atrás dele e fechando a porta. — Eu juro que não larguei meu punhal em qualquer lugar. Está vendo? Ele está aqui. — o tirei do meu bolso, mostrando para Jones que lançou um olhar de desdém para a arma em minha mão, fazendo com que eu o guardasse rapidamente. — Se não é isso que o deixou furioso, não consigo imaginar o que seja. Me diga, porque ainda não aprendi a ler mentes...
–Vai me ignorar apenas pelo o que eu lhe disse noite passada?- perguntou em uma voz seca.
A pergunta me pegou de surpresa. Tanto que demorei um pouco para poder assimilar. Ele estava furioso comigo por que achava que eu estava o ignorando?
–Killian que...- me cortei antes que eu terminasse a palavra "querido". Esse era um tratamento pelo qual eu o chamava quando estava dormindo. Era intimo demais para que ele ouvisse. — Eu não estou o ignorando, Jones. Por que pensou isso?
–Não está?- ele pareceu incrédulo.
Balancei a cabeça em uma negativa.
–Para falar a verdade, eu estava achando que você estava bravo comigo pelo meu comportamento e gostaria de lhe pedir desculpas.
–Desculpas pelo o que?
–Por ter deixado minhas emoções tomarem conta, ignorando as suas. Ao me contar aquilo você mostrou uma confiança em mim e eu lhe ataquei. Não concordo, não aprovo e nunca vou aceitar que foi uma coisa certa o que vocês fizeram. Mas como eu disse ontem à noite, amigos falam quando fazem coisas erradas, porém nunca viram as costas como eu fiz. Nunca vou compreender o que se passa em sua cabeça para ter tomado essa atitude, porém você fez isso no passado. Tentarei entender da melhor forma que minha mente conseguir, porque sei que não irá fazer isso no futuro. Espero que não faça isso no futuro. Não quero que pense que tenho uma opinião negativa formada de você por algo que fez no passado. É errado julgar as pessoas pelas atitudes que fizeram quando a cabeça era outra, pois as vontades e pensamentos mudam conforme vamos crescendo, Killian.
Jones piscou algumas vezes, coçando a nuca.
–Eu acho que devo lhe pedir desculpas também por ter lhe contado isso. Não sou uma pessoa tão horrível quanto fiz parecer.
–Sei que não é. O pensamento de que pudesse ser uma pessoa cruel passou rapidamente pela minha mente, porém o descartei com a mesma rapidez que surgiu em minha mente. — dei um passo, me aproximando dele e pousando minhas mãos em seus braços.- E não me peça desculpas. Eu questiono sobre sua vida, porque gosto de saber dela. O que me disse ontem apenas me pegou de surpresa, como lhe disse. Eu não esperava algo do gênero vindo de você, Killian. Principalmente porque consigo ver que tem uma capacidade enorme de amar quando isso acontece com você. E acredito que quando se permitir conhecer outra mulher com queira passar o resto de sua vida, você será um pai incrível mesmo que não tenha tido um para se espelhar. Porque amor vem de dentro e não do que recebemos dos outros. Você sabe o que é isso, é aquele sentimento de querer cuidar que sentiu quando conheceu Milah. Claro que ter isso quando se é criança torna tudo mais fácil, mas não é necessário, quando se tem dentro de nós. E você tem isso dentro de você, Jones.
Killian perscrutou meu rosto atentamente, se aproximando mais, fazendo nossas respirações se misturarem, pousando seus olhos em meus lábios, como se estivesse tentado a tomá-los. Minha respiração falhou por um momento, meu ventre se contraindo com a proximidade.
–Como pode dizer isso com tanta certeza, Swan? – murmurou abaixando mais o rosto em direção ao meu.
–Porque eu tenho visto. Tenho o conhecido em seus momentos mais frágeis. – sussurrei fracamente, presa ao poder de Killian de me atrair. — Alguém que não tenha capacidade para amar, como você tem, não iria passar pelo que está passando. Killian você não consegue enxergar isso, mas está aí. E você tem tanto medo de falhar, que acaba tomando decisões de certa forma cruéis, por causa de uma coisa que está em sua cabeça. – atalhei dando um passo cambaleante para trás, quando seu rosto se aproximou mais. Eu não sabia o que nos atraia naquele momento, mas não podia deixar que fosse em frente. Mesmo que meu corpo estivesse ansioso para que isso acontecesse. — Você vai ser um bom pai se optar por isso no futuro. E se caso conhecer essa mulher e ainda assim não quiser ter filhos, não faça mais isso. Me dê seus filhos. Seja lá quantos você tiver. Você tem uma amiga que está disposta a cuidar deles.
–Você sim, e quanto ao seu marido?- retrucou se afastando ainda mais de mim, ficando de costas.
Dei de ombros.
–Ser uma solteirona não parece ser tão ruim assim. E já é um futuro que me enxergo se caso não casar com Graham. — respondi soando incrivelmente triste o que anulava minhas palavras. — Não vai ser uma vida solitária. Não quando se tem crianças para alegrar a vida.
–Emma... Eu... Lhe chamei também porque... — Killian se virou pra mim, engolindo em seco e evitando olhar em meus olhos. Percebi que ele segurava um pequeno baú em sua mão com força.
Jones levantou o olhar para o meu, me deixando ver seus olhos azuis que pareciam arrependidos e me pediam desculpas. Ele esticou o baú em minha direção, e em um reflexo ergui as mãos para pegá-lo, porém Killian o puxou de volta para si, o apertando contra o corpo e me dando as costas.
Killian se virou novamente, olhando do baú para mim algumas vezes, como se estivesse em dúvida.
–Killian... Tem algo que você quer me mostrar?- indaguei. Talvez se eu perguntasse acabaria o ajudando a se decidir.
Jones olhou para mim e balançou a cabeça, guardando-o no cofre que ele tinha escondido na cabine, o único lugar onde eu não tinha acesso.
–Não é nada importante, Swan. – garantiu o fechando, se voltando para mim.
–Me pareceu algo importante sim, mas já que você diz... Tudo bem.
Gancho rapidamente colocou um sorriso forçado no rosto.
– Mas não é. Gostaria de ficar algumas horas no leme?- ofereceu.
Ele era esperto. Sabia que eu iria ficar insistindo sobre o conteúdo do baú e estava me oferecendo uma coisa que nunca me deixava fazer. Killian sabia que isso seria o suficiente para me fazer esquecer o assunto dentro de alguns instantes.
Decidi deixar essa passar naquele momento. Perguntaria a Landon, ele deveria saber alguma coisa sobre o conteúdo daquele baú.
–Sério? Vai me deixar controlar o Jolly Roger?- instiguei descrente.
–Desde que prometa que não irá afundá-lo... Sim.
–Ai sim! Eu prometo Killian... E se eu afundar seu navio, quem me ensinou foi você logo a culpa vai ser sua. — avisei indo para a porta, me segurando para não saltitar tamanha era minha ansiedade.
–Já estou me arrependendo de ter oferecido a oportunidade de uma garota controlar meu navio. — provocou.
–Mulher, senhor Jones. Eu sou uma mulher. — o recordei.
–Sim, Swan... Percebo a algum tempo que é uma mulher. — falou, me fazendo parar e virar para encará-lo.
Killian passou por mim e eu sacudi a cabeça, não querendo que as palavras se infiltrassem em minha mente para depois eu ficar tentando interpretá-las. Porque eu sabia que seria isso que eu iria fazer, ainda mais depois da conversa que tive com Bae e do que quase acontecera na cabine.
–Muito bem. Para que lado fica o bombordo?- indagou indicando que eu segurasse o leme.
–Esquerdo. – respondi prontamente.
–Boreste?
–Sei que está tentando me confundir. Direito, também chamado de estibordo. – expliquei lhe dando um sorriso convencido.
–Você prestou atenção. – observou segurando no leme também.
–Eu sempre presto atenção em tudo o que você diz Jones. – repliquei revirando os olhos. – Agora tire a mão que quem vai controlá-lo sou eu. E fique em silêncio para que eu me concentre. – ordenei, o empurrando para o lado com o meu quadril.
Killian ergueu os braços como quem se rende e deu um passo para trás.
–Como quiser capitã.
Ficamos um tempo em silêncio, Killian me rodeando, sempre esticando a mão para tocar no leme quando achava que eu não o estava segurando direito. Tentei ignorar, porque sabia o carinho que ele tinha por aquele navio, mas eu já estava ficando irritada.
–Quer saber? – soltei o leme de repente. – Controle-o.
–Mas você está indo bem, Swan. – rebateu segurando-o rapidamente.
–Ah é mesmo? Não é o que está parecendo. Se acha que não consigo, não ofereça. Se não quer me falar o que tem naquela porcaria de baú, eu entendo. Agora não fique me rodeando como se eu não tivesse capacidade. – atalhei me sentando em um caixote.
–Swan, volte aqui agora. Irei dar o espaço que quer, estava apenas...
–Não. Você acabou com minha paciência, Jones.
Killian bufou.
–Já lhe falaram que você sabe ser incrivelmente mimada quando quer?
–Já sim. Você inclusive, todos os dias anteriores. Agora lhe pergunto: olhe para mim e me diga se pareço que fui criada em um ambiente desse? Olhe para os meus modos e me diga que não fui criada para ser mimada?
Jones fez exatamente o que eu pedi. Ficou me encarando por uns bons minutos.
–Foi criada sim, porém tem momentos que você se esforça para ser, porque eu sei que não é uma pessoa mimada. Se fosse não estaria se sujeitando a isso. Toda essa irritação é por que não aguenta mais ficar no mar? – instigou me olhando.
–Não. Toda essa irritação é porque você é um chato. – rebati, cruzando os braços. – Me desculpe. Talvez seja por isso sim. Quanto tempo até chegarmos?
–Dois dias no mínimo, quatro no máximo. Tudo depende do vento.
Soltei um lamento fechando os olhos com forças.
–Quem você quer que eu conheça Jones?
–Você não pode simplesmente aguentar chegar a Ilha dos Mouros para descobrir? Estou tentando lhe fazer uma surpresa.
–Bem, uma coisa que ainda não sabe sobre mim: eu não gosto de surpresas quando eu sei que devo esperar uma.
Jones revirou os olhos, sacudindo a cabeça.
–É uma mulher. Muito sábia.
–Uma bruxa?- arrisquei, mordendo o interior de minha bochecha.
–Uma mulher com dom, Swan.
–Uma bruxa. – constatei.
–Nem todo mundo com dom é uma bruxa. Você precisa rever seus conceitos, Swan. Tenho certeza que irá adorar essa mulher. Eu adoro.
–Apenas imagino por qual motivo você a adora.- resmunguei me levantando. — Vou ir ficar com Landon, nos vemos mais tarde. — avisei deixando o sozinho.
Às vezes Killian e eu não podíamos ficar muito tempo juntos que sempre acabávamos presos a alguma discussãozinha boba como duas crianças. Estávamos nos tornando bons amigos, mas as provocações e brigas sem motivos, ah essas permaneciam.
Em um segundo estávamos tendo uma conversa profunda e no outro eu sentia vontade de matá-lo.
Encontrei Landon limpando os canhões e me sentei do lado dele, o ajudando.
–Qual o problema, Emma?- instigou me olhando.
Fiquei em silêncio, raspando a sujeira. Como em tão pouco tempo ele conseguia perceber quando estava alguma coisa errada? Como Landon podia ser tão perceptivo com alguém que conhecera recentemente? Será que eu era tão transparente assim?
–Você sabe de alguma coisa sobre algo que Killian esconde dentro de um baú pequeno? Sabe se tem alguma coisa a ver comigo?
Landon parou o que tava fazendo, parecendo pensativo.
–Não faço a mínima ideia de que baú está falando, Emma. Por que acha que tem algo a ver com você?
Maneie a cabeça, bufando frustrada.
–Ele hoje cedo, pareceu querer me entregar, porém o guardou no cofre. Disse que não era nada importante, mas vi em seus olhos que era. E era alguma coisa relacionada comigo.
–Killian não me disse nada a respeito e não consigo pensar em algo que pode ser relacionado a você, Emma. Ele não a conhecia até poucos meses atrás.
–Eu sei. Acontece que foi estranho... — murmurei indo para o canhão seguinte. — Landon, ontem eu percebi que você chamou Killian de filho. – comentei.
Landon aquiesceu.
–Eu o considero, sim. Porém ele não gosta que eu o chame assim perto dos outros. Ontem escapou sem querer.
–Acho legal isso. Bobagem ele não gostar.
Trabalhamos por algum tempo juntos, sem conversar, apenas a voz melodiosa de Landon preenchendo o ar com a música que ele cantava. Essa era uma das coisas que eu gostava dali. Poder ouvir Landon cantando, era reconfortante e trazia paz. Era uma voz grava diferente, que estranhamente soava suave aos meus ouvidos. Eu realmente gostava.
–Quer pergunta mais alguma coisa?- questionou me ajudando a levantar quando terminamos.
Hesitei um pouco.
–Bae me disse uma coisa hoje... E quero que me responda com sinceridade.
–Alguma vez já fui insincero com você, Emma? O que ele disse?
–Não. Nunca, Landon. É a pessoa que mais confio aqui nesse navio, exatamente por isso conto quase tudo para você. Acontece que ele disse que Killian e eu estamos parecendo um casal... Por causa do jeito que ele me olha e por estar passando tanto tempo com ele.
–Vai me dizer que outros homens não a admiravam?
–Bem sim... Mas não para alguém chegar e dizer que parecíamos um casal. Com exceção a Graham, mas nós dois crescemos juntos e eles esperam que nós sejamos um casal no futuro. Nos vêem como um desde que éramos crianças.
–Você é uma mulher bonita, Emma. Não só por fora como por dentro, não é surpresa nenhuma que ele a admire. Você tem muitas coisas para se admirar. E quanto a parecerem um casal... Não acha que vocês dariam um belo par?
–Landon! – exclamei estupefata com a pergunta, fazendo-o rir. – Os homens estão comentando algo do gênero?
Landon negou com a cabeça, me fazendo soltar um suspiro de alivio.
–Por que a preocupação, Emma? Por acaso acha que Killian não daria um bom homem para você?
Abri a boca, piscando sem parar com o questionamento que ele havia acabado de me fazer.
–Eu nunca disse isso.
–Mas está demonstrando.
–Landon, Killian e eu somos amigos. Além de sermos amigos, somos de mundos diferentes. Eu não faço o tipo dele.
–Mas ele faz o seu? – instigou arqueando a sobrancelha com um sorriso divertido.
–Você está tentando me confundir. – acusei batendo em seu ombro. Então finalmente entendi o que Landon estava tentando fazer quando se esforçava tanto para que Killian e eu nos déssemos bem. – Você está tentando bancar o cupido! Está tentando juntar nós dois!
Ele piscou, fazendo uma cara inocente, como se estivesse ofendido com minhas palavras.
–Eu nunca disse isso. Que ideia, Emma. Você claramente não faz o tipo dele. – replicou e saiu andando, me deixando boquiaberta com a descoberta. Sem saber como me sentir a respeito de descobrir que Landon gostava de tentar juntar pessoas.
Talvez eu devesse trazer essa mulher que Killian queria que eu conhecesse, assim talvez Landon tentasse juntar eles e me deixasse em paz.
Por que pelos céus! Eu não podia me apaixonar por Killian.
[...]
“Querido Graham,
Não sabe a falta que sinto de estar em terra... Pensando bem, imagino que saiba sim, afinal sempre soube de meu desespero sempre que tinha que viajar de navio. Lembra-se quando tivemos que ir para a America do Norte com papai? Eu não sei como teria aguentado todos aqueles dias sem você para me distrair e conversar comigo durante as noites insones.
Ficamos mais tempo no mar, do que estou agora (faz apenas alguns meses desde que zarpamos de Nassau), porém a agonia de não saber o que me espera faz tudo ficar pior. Gosto dos meus companheiros, mas sinto falta de você meu amigo e de sua proteção. É bom saber me defender sozinha fisicamente, mas sabe que estou me referindo a outro tipo de proteção, aquela sensação de ter um lugar seguro para onde voltar, onde sei que serei bem acolhida. Sinto falta disso. Não o tenho aqui.
E venho por meio desta carta confessar um temor que tenho sentido: Killian Jones. Sei que já lhe disse que somos amigos agora e adoro a amizade dele, gosto principalmente de cuidar dele e essa parte que me assusta. O gostar de cuidar dele, principalmente porque fiquei me lembrando da explicação dele de como era estar apaixonado. Uns dias atrás, descobri que Landon está tentando nos juntar, você consegue acreditar?! Assim como tive uma conversa com Baelfire onde ele comentou algo sobre o jeito que Killian olha e sorri para mim... Tenho sensações estranhas quando estou perto dele e gostaria de tê-lo aqui, Graham para tirar todas as dúvidas que estão me perseguindo. Mesmo que eu saiba que teria que insistir muito para conseguir fazê-lo falar. Nesses últimos dias percebi ele tentando me beijar, mas não se alarme e nem pense em matá-lo por isso, eu me afastei a tempo... E por favor, não fique bravo comigo, me afastei com muita relutância porque queria ser beijada novamente por ele. Graham, esse querer está me assustando, principalmente quando quero ficar perto dele o tempo todo. Ele não é homem para mim, assim como não sou mulher para ele. Espero que isso não seja nada, apenas loucura da minha cabeça. Por favor, me diga que não é nada!
Jones disse que estaríamos na Ilha dos Mouros no máximo em quatro dias e hoje já é o quarto dia e tudo que vi até agora foi água. Falando nele, ele está na porta da cabine neste momento me observando, sendo assim vou terminando a carta e ver o que ele quer. Lhe prometo que continuarei sendo forte.
Sinto sua falta, Graham.
De sua amiga... Emma Swan.”
–Escrevendo para Graham de novo?- indagou sério.
Assenti, guardando a carta em uma caixinha que ganhara de um dos marujos como agradecimento por minhas leituras.
–Já lhe disse para conversar comigo, Swan. Graham não pode lhe ajudar aqui.
–Sei disso. Acontece que existem coisas que o senhor não entenderia, assuntos que não quero compartilhar e que Graham compreende por me conhecer mais tempo que você. Essas cartas nunca serão enviadas, contudo me ajudam a aguentar, me sinto próxima a ele desse jeito. Me ajudam a entender um pouco quando coloco em palavras como se estivesse conversando com meu amigo. Sempre tive Graham em minha vida e agora não seria diferente, Killian. – expliquei. – E volto a ressaltar que respeite minha privacidade e não leia essas cartas, são assuntos particulares entre meu amigo e eu. Confio em você o suficiente para não escondê-las.
Killian aquiesceu, se escorando na maçaneta da porta.
–As baleias estão se exibindo. Vim lhe chamar, já que gosta observá-las. – informou de forma seca, saindo sem esperar por uma resposta.
Aquela era sempre a reação de Killian quando se tratava das cartas para Graham. Ele fechava a cara e insistia que eu deveria conversar com ele, parecia que não entrava na cabeça de Jones que nem tudo eu sentia vontade de compartilhar com uma pessoa que não fosse Graham, que sempre esteve comigo.
Subi, sentindo a brisa fria tocando meu rosto, jogando alguns fios de cabelo em meus olhos. Andei até o parapeito, me sentando e olhando as baleias surgindo e esguichando água. Gostava quando elas pulavam, querendo mostrar o quanto eram bonitas.
Killian parou ao meu lado, as olhando também.
–Nunca se cansa de sorrir igual boba quando as vê? – perguntou, tirando os fios que insistiam em voar para o meu rosto.
–Não. Nunca me canso de sorrir para as coisas que considero bonitas. – esclareci o olhando
Jones arqueou as sobrancelhas.
–Você sempre sorri para mim, isso quer dizer que me considera bonito?
–Para você eu sorrio porque sou educada. – respondi. – Mas o acho bonito também, não mais que as baleias, é claro.
–Claro. – concordou, passando o braço esquerdo pela minha cintura, encostando seu peito em minhas costas. – Olhe na luneta, amor. – pediu a entregando para mim.
Olhei para seu rosto tão próximo ao meu, sentindo aquela sensação estranha de gostar de estar perto daquele jeito, minha pele se arrepiando e meu ventre se agitando como de costume. Lutando contra a vontade de encostar minha cabeça em seu peito e fechar os olhos, sentindo o subir e descer causado pela sua respiração.
Levei a luneta ao meu olho direito, olhando para a direção que Killian apontava, demorando um tempo para encontrar o ponto certo. Ainda estava distante, mas podia reconhecer os paredões e o risco branco de areia.
–Aquela é...?
–Sim. A Ilha dos Mouros. Vamos chegar no começo da noite.
–Vamos passar a noite lá?
–Se quiser sim. Eles ficarão felizes em ter visita.
–Você fala deles de um jeito diferente, Jones. Por quê?
–Entenderá quando atracarmos, sim? – falou pacientemente, dando um beijo em minha têmpora antes de se afastar com pressa.
Fiquei atônita o encarando de onde estava. O que tinha sido aquilo? Killian nunca fizera nada parecido antes, para dizer a verdade nos últimos meses ele estava evitando me tocar, exatamente por saber que eu não me sentia a vontade com tanta proximidade. Eu lhe dava um beijo na bochecha de boa noite, mas isso sempre partiu de mim e nunca dele. Ele se deitava ao meu lado no bote de vez em quando, porém sempre havia um espaço entre nós.
Jones nunca demonstrou um gesto perto de ser carinhoso como aquele beijo em minha têmpora.
Sacudi a cabeça, voltando a olhar para o pontinho que era a ilha. Aquilo deveria ser normal. Era algo normal, do mesmo jeito que eu lhe dava um beijo rápido na bochecha de boa noite, Killian por ser meu amigo poderia fazer o mesmo, não? Sem falar que Bae costumava beijar minha cabeça antes de ir dormir e nunca me importei.
Então por que o espanto quando Killian o fez? Não era motivo para ficar alarmada, não significava nada. Eu tinha que parar de me importar quando outra pessoa se aproximava de mim. Eu queria poder receber um abraço, ou um simples beijo como aquele sem ficar tentando descobrir o significado por trás dele, justamente por não ter um.
Com toda certeza não era algo para me alarmar.
Fale com o autor