Traiçoeiro

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Oie, ainda tem alguém aqui? Alguém se lembra dessa autora? Bem, ela está aqui pedindo desculpas pelo tempo que desapareceu e abandou a fic. Capítulo novo e espero que gostem. Boa leitura.

–EU SEI O QUE ESTÁ ESCRITO!- anunciei assim que irrompi pela porta, sem me preocupar em bater antes, como seria o certo a fazer, contudo na hora não pensei em o que seria educado.

Deveria ter pensado.

Senti meu rosto esquentando ao encontrar Killian sem camisa, me encarando como se eu fosse louca. Rapidamente desviei o olhar e me virei de costas, dando de cara com Landon, que me observava.

–O que você sabe, Emma?- indagou Landon se aproximando de mim. Levantei o livro, percebendo minhas mãos trêmulas.

–Eu não sei como, mas sei. Consegui traduzir o que está escrito aqui, capitão.- disse novamente. Troquei um olhar com Landon que assentiu minimamente e eu sabia que já era seguro me virar. Killian devia estar devidamente vestido.

O encarei engolindo em seco. Eu tinha que admitir que... maldição! Killian era um homem extremamente bonito, e conseguia ficar ainda mais com a cara amassada que geralmente ficamos quando acabamos de acordar.

–Peço desculpas se eu o acordei, capitão.- pedi sinceramente.

–Killian.- pediu se aproximando.- Me chame de Killian... O que descobriu?

Assenti com a cabeça e adentrei mais na cabine.

–Se trata de uma profecia. Não sou muito boa para decifrá-las, mas essa não me parece nem um pouco agradável.

–Só fale, Swan.- exigiu impaciente.

–Muito bem.- concordei, abrindo o livro e me aproximando da vela para enxergar melhor.- “O cheiro podre da morte irá anunciar que haverá mortos demais.

Com a travessia pela garganta do diabo,aquele que sobreviver, diretamente ao inferno chegará.

Um lugar onde a água do mar em sangue inocente se transformará, deverá se banhar, para que as criaturas das bestas o deixe passar.

Ao seguir pelo rio de cadáveres, na ilha maldita atracará. Apenas aquele com o coração cheio de culpa terá a coragem de nela adentrar.

Se vencer o monstro do reflexo, o grande prêmio ganhará.”

Terminei de ler sentindo o mesmo arrepio quando entendi pela primeira vez.

–Maldição.- Landon praguejou. Me virei para ele, contudo ele não me encarava e sim mantinha os olhos em Killian, que estava encostado na mesa, pensativo.- Precisamos deixá-la em um lugar seguro,se o senhor realmente quiser continuar com essa loucura.

–O que? O que dizer?- perguntei confusa e com um pouco de irritação.- Eu decifrei, e acho que sou capaz de aguentar um pouco de... perigo.

–Capitão.- chamou Landon me ignorando.

–Eu sei, Landon.- Killian respondeu com o maxilar cerrado.

– Certo. Então alguém pode me explicar? Por que eu não estou entendendo nada aqui. Sei que parece ruim, mas...

–“ Um lugar onde a água do mar em sangue inocente se transformara, deverá se banhar...”- repetiu Landon pacientemente.- Alguém irá morrer. Alguém que nunca fez mal algum para alguém. Vai ter um sacrifício.

Senti o ar esvaindo dos meus pulmões.

–Ah.- foi tudo que consegui dizer. Até achei que foi muito.

–Não se preocupe. A deixaremos em algum lugar seguro.- Killian finalmente falou, me olhando nos olhos, como se para mostrar que ele estava me dizendo a verdade.

E ele estava. Eu sabia disso.

Assenti mais uma vez com a cabeça, incapaz de falar. Deixei o livro encima de uma prateleira e me dirigi para porta.

–Swan.- a voz de Killian soou rouca atrás de mim. O encarei.- Não deixarei que nada aconteça com você. Apenas confie em mim.

Fiz que sim com a cabeça e sai me dirigindo ao convés.

Dessa vez não pude afirmar que Gancho estava dizendo a verdade. Ele estava mentindo.Pelo menos na parte que eu podia confiar nele.

[...]

Queria poder dizer que consegui pegar no sono rapidamente, porém não foi bem isso que aconteceu. Várias imagens apareciam em minha mente e eu me sentia ansiosa. Fiquei dando voltas e voltas no convés, até que os primeiros raios da manhã surgiram.

–Você precisa descansar, Swan.- Killian apareceu, arrumado, como se não tivesse ficado nem um pouco perturbado pelo que eu havia lhe traduzido.- Quase não consegui dormir com você andando aqui. Para uma dama, você tem pés muito pesados.

Ri um pouco sem humor nenhum.

–Graham sempre dizia isso, mas no caso dele eu pisava em seus pés de propósito.- senti um leve sorriso aparecer em meus lábios ao lembrar dos bailes em que dançávamos juntos para evitar pretendentes. Nada podia ser mais chato que mães querendo apresentar suas filhas debutantes aos solteiras e rapazes em busca de uma esposa- Acho que acabei ficando perturbada. Me desculpe.

Killian fez uma careta e se juntou a mim, se apoiando do beiral.

– Você se desculpa demais.- respondeu.- Esse Graham... ele é só seu amigo mesmo?

Me virei para que pudesse encará-lo.

–Eu poderia simplesmente responder com um “não é da sua conta, capitão”. Porém quero saber o por quê de sua curiosidade.

Gancho deu de ombros, uma expressão de desdém.

–Você fala dele. Sempre que tem uma oportunidade. E ele está sempre em suas orações, já percebi isso.

Fiquei em silêncio encarando a água do mar, se tornando clara com a luz que começava à atingi-la.

–Eu espero que quando eu voltar... se eu voltar.- acrescentei.- Ele ainda esteja disposto a ser algo mais que só meu amigo. Contudo não sei se será possível, eu traí a confiança dele.

Killian parecia não estar mais me ouvindo. Encarava os anéis em seus dedos, perdido em seus pensamentos. Percebi que Gancho saía do ar muitas vezes, enquanto tentava ter uma conversa comigo que não fosse para me dar ordens.

–Vá para a cabine e tente descansar um pouco. Pedirei para que o cirurgião lhe prepare um banho. Tire o dia de folga.- anunciou se afastando de mim.

–Capitão.- o chamei, ficando atrás dele.

–Killian, Swan. Já pedi que me chame de Killian.

–Seus homens o chamam de capitão. Mas não é sobre isso que eu quero discutir.- respirei fundo, criando coragem para me aproximar mais.- Quero dizer que cheguei a conclusão que não quero ser deixada em um lugar seguro. Quais garantias tenho de que irão me buscar? Sou perfeitamente capaz de aguentar essa viagem. Quero seguir com vocês.

As feições Killian endureceram e seus olhos queimaram de raiva.

–Você ficou louca? Claro que você não vai! A senhorita tem noção que pode acabar morta?

–Assim como vocês, senhor.- cheguei perto o suficiente para segurar seus braços.- Deve ter um outro jeito. Não deve ser meu sangue à ser derramado. Eu posso nem ser inocente.

–Isso está fora de discussão. Você vai ficar onde eu achar que estará segura.

–Não. Eu irei junto. Eu traduzi! Está bem claro que sou necessária nessa viagem.- bati o pé, deixando bem claro que nada me faria mudar de ideia.

–Você é sempre tão teimosa?

Sorri indulgente.

–Com muito orgulho.

Killian balançou a cabeça e saiu resmungando palavras incompreensíveis. Momentos depois, o Cirurgião apareceu segurando dois baldes cheios de água e sorriu para mim, me dando bom dia.

Quando desci para a cabine encontrei meu banho pronto. Fiquei olhando a banheira e imaginando que Killian tomava banho ali, que deveria fazer anos desde que alguém a limpara corretamente. Isso era anti higiênico.

Fechei os olhos e me repreendi. “Se quisesse conforto, Emma” , meu subconsciente ralhou, “você estaria na sua casa. Entre logo nessa banheira!”

Assegurei que a porta estivesse trancada, não queria ninguém me flagrando nua, e dei um jeito tampar a pequena janelinha que tinha na porta.

Olhei ao redor, vendo se não teria que tampar mais nada, morrendo de medo de deixar algum buraco passar despercebido e alguém me espionar. Tudo que eu menos queria era dar alguma coisa para imaginação daqueles homens.

Abri o baú que vira Killian mexendo no outro dia, procurando toalhas em que pudesse me secar, quando ouvi uma batida na porta e dei um pulo assustada.

–Sim?- gritei me aproximando da porta.

–O capitão pediu que lhe entregasse a trouxa que a senhorita trouxe consigo.- uma voz hesitante veio do outro lado da porta.

Como eu poderia ter esquecido que minhas calçolas estavam naquela trouxinha?

–Obrigada, Ian.- agradeci ao abrir a porta e me deparar com o rapaz que segurava a trouxa o mais longe possível do corpo e evitava me olhar. Peguei de suas mãos e o observei subir as escadas correndo.- Até parece que sou um monstro.

Olhei para a banheira. A água já deveria estar fria. Voltei a trancar a porta e me despi rapidamente. Achei uma toalha no baú, de um tecido áspero, mas teria que servir. O cirurgião deixara sabonete no chão, ao lado da banheira.

Achei que pudera gritar de felicidade ao sentir a água tocando minha pele carinhosamente. Deixei me afundar até molhar meus cabelos, dediquei um tempo especial para cada parte do meu corpo, esfregando, enxaguando, esfregando novamente. Massageie o couro cabeludo delicadamente. O os céus sabiam quando teria a oportunidade de tomar outro banho.

Não sei quanto tempo fiquei me limpando, só saí da banheira quando vi meus dedos enrugados e a água esbranquiçada por causa do sabonte.

Me enrolei na toalha áspera e me sequei cuidadosamente, indo até o espelho para me observar.

Deixei a toalha cair e comecei a estudar meu rosto. Ele estava mais fundo, eu tinha olheiras, minha pele já estava ressecada. Meu corpo não estava muito diferente. Eu havia perdido muito peso, os ossos das minhas costelas era completamente visíveis e alguns roxos esverdeados pintavam a pele branca.

Como eu estaria daqui um mês?

Me vesti novamente e comecei a tentar desembaraçar meus cabelos com os dedos. Estava tão cheio de nós que senti as lagrimas nos olhos cada vez que eu puxava.

–Swan?

A voz de Killian veio da porta. Meu coração deu um pulo sem motivo aparente.

–Um momento. Estou tentando dar um jeito nos meus cabelos.- pedi, desesperadamente tentando desembaraçá-los. Gancho não precisava testemunhar o ninho que estava meus fios louros.

–Ora, Swan, eu não me importo.

–Mas eu me importo.- rebati impaciente.

–Swaan!

Bufei e revirei os olhos, indo em direção à porta.

–Não poderia esperar mais cinco minutos?- indaguei ainda lutando com meu cabelo.

–Não. Você demorou demais, vim verificar se ainda estava respirando.- ele se virou para mim.

–Que?- perguntei incomodada com seus olhos em mim.

–Nada.- respondeu balançando a cabeça.- É só que a antiga dona dessas roupas a preenchia melhor que você.

Parei de desembaraçar meu cabelo e o olhei boquiaberta. Eu estava ofendida. Pior de tudo, me senti humilhada. A humilhação começou a queimar dentro de mim que senti dor. Sim, eu sabia que deixava pano sobrando. Sim, eu sabia disso, ainda mais agora que tinha emagrecido mais.

–Isso foi uma coisa rude de se dizer, capitão.- consegui responder, mantendo a dignidade.- Sinto muitíssimo se não tenho atributos suficientes para honrar as roupas de sua antiga companheira. Prometo que assim que atracarmos irei providenciar vestimentas do meu tamanho.- assegurei enquanto voltava a atenção para os meus cabelos.

Por que raios eu sentia vontade de chorar? Era de se esperar que um dia iria aparecer um homem que não me acharia encantadora, como todos meus pretendentes.

–Eu gostaria de uma tesoura.- pedi, desistindo dos meus cabelos.

Killian ainda me encarava. E eu ainda sentia minha garganta apertada.

–Por que?- questionou franzindo a testa.

–Para cortar essa porcaria de cabelo, é claro. Ele só está me atrapalhando.

–Você não vai cortar seu cabelo.- respondeu calmamente, cruzando os braços.

Eu já estava me cansando de Killian e suas mudanças de humor

Gancho se virou para o baú, o encontrando aberto.

–Precisei de uma toalha.- expliquei antes que ele trocasse de humor novamente e começasse a brigar comigo por fuçar em suas coisas.- Não estava espiando nada.

Ele não disse nada e se voltou para o baú. Fiquei tentada a perguntar se era apenas eu que estava achando o ar muito pesado, contudo ainda estava irritada com o que ele dissera.

–Obrigada.- peguei o pente de madeira que ele esticava para mim.- Irei providenciar um desses para mim também, posso não usar tão bem quanto a última dona.- não resisti e acabei soltando. Killian apenas me ignorou.

Eu acho que ele me devia pelo menos um pedido de desculpas. Sabia que não era feia, na verdade papai adorava me exibir para receber elogios.

–Se me dá licença, irei descansar um pouco.- pedi, me virando para sair.

–Onde você pensa que está indo, Swan?

O olhei confusa.

–O senhor disse que eu poderia tirar o dia de folga.- o lembrei.

Ele revirou os olhos.

–Sei disso. Quero saber exatamente onde pretende descansar?

–No lugar de sempre. Tem outro lugar que eu fico? Olha será que o senhor poderia, por favor, parar de implicar só um pouco comigo? Isso está realmente ficando exaustivo. Tudo bem o senhor gritar comigo, dizer obscenidades, ficar me dando ordens e sempre ficar se gabando. Para mim, tudo bem. Agora pare de tentar controlar cada movimento que faço, não o vejo fazendo isso com os outro.

Killian se aproximou. Eu sempre tinha medo das sensações que me atingiam quando ele chegava muito perto. Ele segurou meu queixo, me forçando a encará-lo.

Ficou tanto tempo assim que pensei que havia se esquecido, saído fora do ar como acontecia. Mas não me afastei, deixei-o ali, segurando meu rosto, adorando a sensação de seus dedos em minha pele, adorando os pulos descompassados que meu coração dava. Amando a oportunidade de olhar naqueles olhos e ver se assim conseguia desvendar os segredos que escondiam.

Então algo envolveu meu estômago. Eu já lera sobre aquela sensação, já ouvira sobre ela, entretanto achava que não passava de belas palavras para fazer aquele momento parecer mágico. Nunca achei que seria possível senti-la.

Por que eu não poderia senti-la com Graham? Ou com qualquer outro homem que estivesse em meu circulo social?

O fato, que eu admiti para mim mesma, naquele momento, era que eu queria ser beijada por ele. Não podia querer, mas queria.

–O sol já está a pino.- Killian quebrou o silêncio.- Sugiro que descanse aqui, não a perturbarei. Sua pele já está muito castigada.

Nesse momento, toda aquela sensação desapareceu. Me afastei bruscamente de Killian, me sentindo envergonhada e torcendo para que ele não tivesse visto em meu rosto como eu queria que ele me beijasse.

–Tudo bem.- concordei. Ele pareceu relaxar.- Mas não deitarei em sua cama.- garanti, me sentando no pequeno e desconfortável sofá que tinha ali.

–Tem mais uma coisa. Acho que isso te pertence.- Gancho enfiou a mão em seu bolso interno e de lá puxou meu colar.- Aqui.

–Você... está me devolvendo?

–É importante para você, Emma. Eu não deveria ter pego.

Segurei o colar em meus dedos com toda força, sorrindo. O abri e ali ainda estavam as pinturas. O apertei de encontro ao peito.

–Puxa. Obrigada... Killian.

Ele pareceu tentado a dizer alguma coisa, contudo balançou a cabeça e saiu batendo a porta.

Me deitei o mais confortável possível, ainda segurando o colar. Precisaria arrumar uma corrente nova, já que a antiga estava arrebentada, mas isso seria o de menos...

–Emma.- Killian voltou para a cabine. Me sentei rapidamente.- Eu pensei... Quero ajudar, nas suas aulas de defesas.

–Ah.- respondi surpresa.

–Estava lembrando como foi fácil te atacar, precisamos realmente mudar isso. Gostaria de lhe ensinar a atirar com a pistola. Acho que seria mais útil para você do que um punhal ou uma espada.

–Está preocupado com minha segurança, senhor?- indaguei com um sorriso querendo surgir.

–Não. Claro que não. Só estou preocupado com o resto da tripulação. Não quero ninguém deixando de se defender para defender a senhorita.

–O senhor está coberto de razão.- concordei voltando a me deitar.- Vou adorar aprender a atirar, Killian.

Notas finais
Gente, me perdoem de verdade, vocês não sabem como estou envergonhada pelo tempo sumida. Vou tentar postar com frequência daqui para frente. Espero que não tenham me abandonado.