Traitor

1 What are we?


Notas iniciais
então, personagem original, mas espero que gostem e boa leitura :3

VII

Quando estava de férias na França, Estela Malfoy se afogou.

Seus tios falaram para ela não ir até a borda do iate que eles tinham alugado. Os Malfoy não gostavam de trouxas é claro, porém não podiam negar que eles tinham algumas coisas muito interessantes e aquele luxuoso iate era uma delas. Eles falaram para a menina tomar cuidado, mas ela não ouviu e acabou escorregando ali.

Depois de alguns segundos de desespero, Estela entrou em um estado de letargia. A garota sentia a pressão da água envolta de si, pressionando seu corpo e se infiltrando nos seus pulmões. Mas ela não ficou assustada com a pressão, com a escuridão que estava por todo lado e com o frio congelando seus ossos.

Sentia aquilo em toda reunião de família.

Ela era extremamente exagerada. Nada podia ser pouco para Estela Malfoy. Seu quarto era cheio de brinquedos e livros, seus vestidos sempre acabavam rasgados e ela sempre tinha uma bomba de bosta para jogar em algum aniversário. Estava sempre correndo ou gritando, batendo talheres e fazendo perguntas das quais os adultos não tinham a resposta.

“Pirralha insuportável.” Walburga Black odiava a garota. Ir até a Mui Antiga e Nobre Casa dos Black era um prato cheio para a pequena Malfoy, que sempre dava um jeito de escorregar para longe de seu pai e ir armar alguma coisa com Sirius, que também não sabia o significado da palavra ‘chega’. E foi por essas e outras que a anfitriã dos Black matou a gata cinza da criança, em um acesso de raiva. A garota chorou e esperneou, chamou a mulher de “bruxa nojenta” e jurou que nunca mais entraria lá de novo. Mas no Natal seguinte lá estava ela.

As tortinhas de abóboras eram muito boas, afinal.

“ME SOLTA, EU JÁ SEI COMER SOZINHA...!” Ela detestava seu irmão. Lucius era o maior inimigo de Estela, e eles não podiam ser mais diferentes. Enquanto a garota era animada e receptiva, Lucius era reservado e rabugento. Ela odiava quando ele falava palavras difíceis apenas para excluí-la ou agia como se a menina não existisse. Sua mãe havia ido embora quando ela tinha dois anos e seu pai era o único que a amava naquela casa. Ele a chamava de minha estrelinha. Estela idolatrava Abraxas, queria ser exatamente como ele quando crescesse.

“Por que não podemos nos aproximar?” Perguntou uma vez ao seu irmão, quando eles estavam em Londres e o garoto a impediu de chegar perto do sorveteiro no outro lado da rua.

“Porque ele é um trouxa.”

“E daí?”

“E daí que você não pode se aproximar de trouxas, eles são malvados!” Replicou Augustus Rookwood com seu costumeiro sorriso debochado.

“Vocês também são, vi o que fizeram com o elfo doméstico no porão, então vocês são trouxas também?” Estela perguntou, com uma falsa inocência.

Aquela foi à segunda vez que apanhou de Lucius. A primeira foi quando contou a ele que tinha TDAH.

Eu não sou louca, eu não sou louca, eu não sou louca...

Ela aprendeu seu primeiro palavrão com 3 anos. Com 5 anos tinha quebrado os ossos três vezes em diferentes lugares. Aos 7 Estela já sabia tocar piano e falar francês perfeitamente, mas preferia jogar Quadribol e brincar com os pavões albinos ou os gnomos de jardim, voltando para casa toda suja de lama. Ela não sabia por que as pessoas torciam o nariz para seu cabelo bagunçado, não entendia porque a julgavam quando falava alto que gostava dos quadros parados de seu avô.

Era daquele jeito e pronto.

Mas as melhores pessoas são assim.

XI

A primeira vez que Estela sentiu medo, foi quando pisou no Expresso Hogwarts.

Ela não queria ir. Ficou um mês tentando convencer Abraxas a deixá-la estudar em casa, mas seu pai apenas riu e disse que ela ficaria bem. “Eu fiz ótimos amigos lá, você vai fazer também.” A menina duvidava muito, sabia como as pessoas não conseguiam lidar com sua hiperatividade e excentricidade. Como ela iria viver sem seu pai lendo livros trouxas antes de ir dormir, sem o chá preto que só seu elfo doméstico sabia fazer? Não queria ficar perto de Lucius e seus amigos, Bella era louca, Bartô parecia um maníaco com aquela língua que não parava quieta e Rodolphus parecia prestes a matar o nascido trouxa que entrou na cabine deles por engano, mas Andie era gentil.

Logo a menina se acalmou e começou a aproveitar. Quase caiu no Lago Negro e fez amizade com Hagrid, três meninos, duas meninas e a Lula Gigante. Sentiu suas pernas tremerem quando ouviu seu nome ser chamado e mais ainda quando aquele chapéu esquisito disse que ela podia muito bem ir para a Grifinória, devido a sua impulsividade e lealdade.

Mas graças a Cernunnos foi mandada para Sonserina.

Não queria desapontar seu papa.

XV

Aos quinze anos, nossa mente enlouquece.

Todos em Hogwarts conheciam Estela Malfoy. Ela era capitã do time de Quadribol da Sonserina, a melhor da classe em Feitiços e a pessoa que fez a saia de Minerva McGonagall levantar com um Arctus.

Entrou na classe de Estudo dos Trouxas apenas para irritar Lucius. Quando beijou Emma McGrath foi para irritá-lo também, porém acabou gostando.

Todos conheciam a risada exagerada, os olhos cinza brilhantes e o cabelo loiro cheio de nó. Foi ela que ajudou Andrômeda a mandar cartas ao divertidíssimo Ted Tonks, foi ela quem emprestou um vestido a Molly Prewett quando esta tinha um encontro com o Weasley, mas não tinha roupa para usar e foi ela quem azarou Bellatrix Black no Salão Comunal só porque tinha se cansado de sua cara. Os professores não sabiam mais como lidar com a menina que arranjava uma detenção uma vez por mês.

Uma vez ela apostou com James Potter quem conseguia mais detenções em menos tempo, e ainda assim não foi expulsa.

As vantagens de pertencer ao Sagrado Vinte e Oito.

Sua vida era no escritório do Professor Slughorn, chefe de sua Casa. E na biblioteca. Ela amava ler, puxara isso do seu pai. Estela era extremamente debochada e arrogante, adorava voar e tinha medo do escuro. Aprendeu a fazer o feitiço do Patrono antes mesmo de ser passado em classe porque sempre foi seu preferido e ela estava muito curiosa para saber qual seria. A garota queria um cachorro ou um lobo, mas era uma andorinha.

Bom, um pássaro combinava com ela.

Livre.

Estela amava as pessoas. Via elas como potinhos que ao nascer estavam vazios, e conforme iam vivendo e reunindo conhecimento e experiências iam se enchendo, até a borda. Ela amava conhecer novas pessoas, amava ouvir suas histórias e quais eram seus escritores favoritos. Mas é claro que a menina tinha seus amigos mais próximos. Tinha Revon Lestrange, que era uma das pessoas mais engraçadas e confiáveis do universo. Lyanna Weasley, com quem ela passará os primeiros anos em Hogwarts brigando, até aceitar que eram iguais, e também tinha Regulus Black, que era quieto e amava falar sobre política e coisas mórbidas, mas escondia um coração gigante.

Ela não gostava de falar sobre política e da atual situação do mundo bruxo, mas quando o nome de sua família começou a aparecer no Profeta Diário ao lado de fotos de assassinos e assassinatos ela teve que prestar atenção.

Foi perguntar para Lucius o que estava acontecendo, pois não tinha coragem de mandar uma carta para seu pai. O irmão mais velho apenas a olhou com desprezo e disse que aquilo não era de sua conta, uma criança.

Estela queria ter dito que não era uma criança, mas depois de ver aquilo no braço de seu irmãozinho, não conseguiu falar nada.

Minha estrelinha, por que está chorando?

A verdade dói, todos sabem disso. Black, Lestrange, Nott, Avery... Ela sabia que sua família se igualava a eles, ela ouviu desde pequena que eles eram melhores. Superiores. O sangue é a coisa mais importante, manter o sangue limpo, exterminar aqueles que mancham nosso mundo, aqueles que roubaram nossa magia, que nos queimaram na fogueira e queimariam novamente se tivessem a chance. Ela ouvia aquilo nos jantares de família, nas festas do Ministério e dentro de casa. Eles eram a realeza do mundo mágico, os mais ricos, os mais poderosos. A tarefa de suas vidas era muito nobre.

Não questione, não pergunte.

Aceite.

Nós sabemos o que fazer.

Mas Malfoy não via nada de nobre em violência. Não via nada de certo em humilhar e menosprezar pessoas. Ninguém pede pra nascer do jeito que nasce. Lily Evans era tão boa e forte, Snape sempre a ajudava com Poções e Ted Tonks nunca seria capaz de machucar ninguém. Aquilo era certo? Eles estavam certos? Estela não é uma deusa, ela não é superior a ninguém e ela chora a noite baixinho quando vê a quantidade de pessoas que estão morrendo e desaparecendo. Ela sente vontade de gritar quando olham torto para si nos corredores. Eu não sou como eles! Eu nunca fui!

Ela nunca quis tanto não ser uma Malfoy.

XX

Ordem da Fênix.

Suas pupilas dilatam com a adrenalina e um sorriso involuntário se abre em seu rosto. A garota quase desmaiou quando Dumbledore disse que ela podia entrar para o grupo, que sua presença seria muito útil. Eles estavam fazendo algo ali, estavam salvando vidas e ajudando a acabar com aquela loucura. Estela tinha se formado há três anos em Hogwarts e muita coisa aconteceu desde então.

Ela foi morar com Lyanna e Revon em um apartamento minúsculo no centro de Londres. Ela e o Lestrange eram constantemente assaltados nas primeiras semanas e demoraram um bom tempo para se acostumar com as comidas trouxas, mas logo eles se viciaram em sushi e pizza. Lyanna ria, falando que os riquinhos mimados não sabiam nem escovar os dentes sozinhos. Era muito bom estar perto de seus amigos, ir a festas agitadas, beber, e na manhã seguinte ser mandada em uma missão da Ordem até Edimburgo porque Dolohov e Rosier foram vistos lá. Era nesses momentos que ela tinha certeza que fizera a escolha certa ao sair daquele ninho de cobras.

No final do seu sétimo ano, Estela assumiu na frente de todos que era uma traidora do sangue. Ela subiu encima da mesa durante o jantar de noivado de Lucius e Narcissa e começou a gesticular e falar bem alto sobre como todos ali a enojavam. Disse que preferia ser uma trouxa a ser uma Malfoy e que não ia ficar comendo ao lado de assassinos doentes, como se eles fossem pessoas normais.

EU SOU A PORRA DE UMA TRAIDORA!

Sentiu-se pela primeira vez em muito tempo, livre. E a cena que fez aquele dia antes de pegar suas malas e ir para A Toca foi digna de Hamlet. Cheia de floreios e drama.

Se seu pai estivesse vivo, com certeza estaria orgulhoso.

“Eu tenho três regras básicas: 1, vocês só podem me chamar de senhor. 2, não sejam mortos e 3, vocês só podem me chamar de senhor. Entendido?”

“Sim, senhor!” Malfoy foi treinada por ninguém menos que Alastor Moody. Engoliu todo conhecimento que lhe foi dado, aprendeu todos os feitiços e todas as poções. Ia ser a melhor Aurora do Ministério em 1979. Na sua formatura, ela olhou fundo nos olhos de Lucius ao receber seu distintivo enquanto fazia o discurso que todo Auror devia fazer ao se formar.

“... E juro extinguir todas as Trevas desse mundo enquanto viver.”

Ela conseguiu a posse da casa de praia da família, em Hornsea. Graças a Merlin que os Malfoy não tinham aquela frescura de retirar o sobrenome como os Black. Pobre Sirius e pobre Regulus. Se bem que a casa deles era medonha.

Em 1980, o mundo bruxo estava um caos. Por mais que a Ordem e o Ministério tentassem , eles estavam bem longe de ganhar. Mortes. Destruição. Dor. Ela se lembra de quando era pequena brincar de esconde-esconde com seu irmão, parando apenas para cumprimentar o amigo de seu pai, que os visitava de vez em quando. Estela não olhava o estranho por muito tempo, tinha medo dos seus olhos azuis.

Agora tinha nojo dos olhos vermelhos.

E era tão angustiante, ver as pessoas que ela amava e se importava morrerem. Um a um. Caindo como peças de xadrez descartadas do jogo. Acharam o corpo de Revon em uma floresta perto da Albânia, Regulus desapareceu e Lyanna foi cercada por quatro Comensais da Morte. A vida era tão bonita, podia ser tão boa e aqueles monstros estavam pintando tudo de cinza e vermelho sangue. Sangue inocente derramado em vão. Ela sentia que ia sufocar aos poucos, não aquele sufocamento de quando se afogou, esse era mais lento, retirava o ar tão lentamente que você só percebe quando não consegue mais sentir seu coração bater.

Eram quatro horas da manhã quando ela ouviu a porta da casa de Hornsea explodir. Ouviu os passos pesados na sala e no corredor. Era apenas uma pessoa e ela sabia exatamente quem era. Antes de desparecer (leia-se morrer) Regulus lhe contara o motivo de estar com olheiras tão profundas nos últimos dias e porque parecia assustado. Ele não estava sendo perseguido como os membros da Ordem pensaram, mas o agente duplo tinha descoberto algo chocante e contou para Malfoy.

E agora ela tinha que ser exterminada também.

A garota sorriu e se levantou se sentindo mais tranquila do que nunca. Empunhou a sua varinha e beijou de leve o colar de estrela que ganhará em seu aniversário de dez anos. Se perguntou se o Lord das Trevas se sentiria mal por matar a versão feminina de Abraxas Malfoy, uma vez que ela não tinha nenhuma característica física da mãe. Provavelmente não. Estela Malfoy conviveu com aquelas pessoas por vinte anos e aprendeu que eles não tinham bondade dentro de si. Seus corações estavam corroídos assim como suas almas, eles eram metade maldade e a outra metade cegueira.

Mas ela era metade amor... E a outra metade também.

Notas finais
Me desculpem por ficar tão grande, é a minha primeira oneshot e não sei se consegui passar o que queria do jeito que queria. Mas espero que gostem
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!