Traiçoeiro

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Olá, passando rapidinho porque tive um tempo livre agora cedo e tenho um anjo que chamo de amiga que revisou o capítulo para vocês, já que eu só teria tempo de fazer isso no próximo fim de semana. Espero que gostem. E quero muito,muito,muito mesmo agradecer de todo meu coração a Hikarry pela maravilhosa recomendação. Saiba que penso o mesmo por ter me tornado sua amiga e sempre terei paciência. Você sabe que eu a adoro. Obrigada e espero que goste desse capítulo também. Boa leitura.

O dia seguinte foi um pouco do mesmo do dia anterior. Assim como a semana que se passou. Como os homens eu já estava me sentindo frustrada por não ter nenhuma emoção para quebrar a monotonia dos dias. Eles reclamavam da falta de navios para serem saqueados naquela rota, e que se continuassem desse jeito não teriam dinheiro para bebidas. E claro, para as prostitutas. Não poderia me esquecer das prostitutas.

Lembro que fiquei surpresa no começo de como aquelas palavras saltavam de suas bocas, parecia que era a única coisa que tinham em mente, e na verdade era. Às vezes era impossível ter uma conversa com eles. Claro que me respeitavam, alguns possuíam família, então eu tentava ficar companhia desses.

Apesar de achar errado roubar, eu estava ansiosa para que alguma fragata ou galeão aparecesse.

Dessa vez foi Killian quem me evitou, e quando fui tentar falar com ele pela segunda vez na semana e ele preferiu sair andando para conversar com Landon, mandei mentalmente que ele fosse para o inferno, me arrependendo logo em seguida,e voltando a ir me juntar com Bae.

Bae estava sendo minha âncora ali no navio. Ele gostava de saber os detalhes insignificantes e chatos da minha vida, porque para ser sincera passei dezoito anos vivendo o mesmo dia, todos os dias. Não tinha muito o que contar, mesmo assim ele se interessava ou se fingia de interessado.

Depois do episódio da noite em que Killian brigou conosco, Bae fazia questão de me chamar para dançar sempre que possível quando ele estava por perto, imitando um violino o mais alto que conseguia que também poderia muito bem estar sofrendo, mas que me fazia rir. Às vezes ele fazia eu me sentir uma criança, de tanto que eu ria e entrava sempre na brincadeira.

Bae também estava me ensinando a ganhar “fôlego”. Eu sempre fui presa minha vida toda, claro que corria quando era criança, porém sempre era repreendida e colocada de castigo para aprender a me portar como uma dama. Com os anos fui perdendo o interesse de ficar do lado de fora e preferia ficar quieta dentro de casa. O máximo de exercício que eu fazia era uma caminhada semanal com Granny pela vila para visitar os doentes ou quando Graham tinha um tempo para me acompanhar. Fora isso, me contentava em ficar no completo ócio em casa.

Decidido a me ensinar a pular, correr e a ter força para me segurar a uma corda sem cair mil vezes, ele montava obstáculos com o melhor que podia, e eu quase morria para completá-los. Às vezes ele me surpreendia no meio de um obstáculo, para ver como estava minha luta corpo a corpo, o que me desgastava completamente. No fim de cada treinamento daquela semana eu caia sem ter certeza se me levantaria, sentindo meus músculos puxando por causa do esforço, respirando rapidamente sem de fato levar o ar para os pulmões.

Killian apenas observava de longe. Ele sempre observava tudo de longe. Observava meu treino com Landon e Bae, sempre estava olhando Bae e eu brincando como duas crianças de tempo em tempo. E observava quando me sentava com os homens e lia para eles meia hora antes que fossem se deitar. Acredito que ele se aproximava um pouco querendo ouvir a história também.

Talvez a culpa seja minha por ele estar me evitando. Talvez Killian tenha se sentido ofendido com o que disse, quando me ofereci para ajudá-lo. Talvez eu tenha me precipitado ao imaginar que ele queria superar alguma coisa. Talvez eu devesse ter mantido minha boca fechada sobre tudo. Não ter contado sobre o meu pesadelo e nem tê-lo feito me contar o seu.

Talvez Killian estivesse com raiva de mim e dessa vez eu não poderia fazer nada, não iria ir me desculpar por oferecer-lhe minha amizade para assim ajudá-lo.

–Landon!- o chamei, puxando-o para um canto afastado. Os homens já estavam se juntando para suas horas de descanso antes de irem dormir.

–O que foi Emma?

–Quero saber exatamente quanto tempo faz que Killian lhe contou. – exigi, colocando a mão na cintura. Não agüentava mais não saber o que ele havia dito para Landon.

Landon me olhou confuso.

–Contou o que?

–Não se faça de desentendido. – olhei para os lados me certificando que ninguém estava por ali, então me aproximei mais. – Sobre aquilo. – sussurrei.

–Aquilo...?

–O beijo, Landon!

–Bom... Ele não me contou nada. – respondeu segurando o riso. – Mas obrigado por confirmar.

O olhei atônita, começando a ficar envergonhada.

Eu havia nos entregue.

–Se ele não contou, e eu acabei de confirmar, como ficou sabendo?

–Emma... Estava meio óbvio que alguma coisa aconteceu, já que vocês cortaram qualquer tipo de relacionamento. Você o afastou como se ele fosse o diabo, e Killian não tentou forçar para que voltasse a falar com ele. Logo deduzi que algo mais sério tinha acontecido entre vocês, e para ser sincero eu achei até que demorou devido a toda tensão existente entre ambos. – desviei o olhar, me sentindo mal por ter deixado tão explicito para todo mundo ver como me sentia confusa em relação a Killian. Landon pousou a mão no meu ombro. – Ninguém mais percebeu Emma. Não é como se eles prestassem atenção em alguma coisa. Apenas eu percebi porque conheço vocês dois bem demais. Só começaram a fofocar porque depois da segunda semana sem se falarem, deixou o bastante para a imaginação deles.

–Mas eu pedi desculpas a Killian, e agora quem está me evitando é ele.

–Emma... Acredito que vocês dois ficaram assustados com o que aconteceu.

–Até parece. – murmurei sarcástica. – A única que tem direito a ficar assustado com alguma coisa sou eu!

Landon negou com a cabeça.

–Killian também está. Não assustado do mesmo jeito que você, mas está assustado com alguma coisa. Entenda que ele não é a imagem que passa.

–Sim. Assustado que eu o force a se casar depois do que aconteceu. – resmunguei cruzando os braços. – Que fique claro que isso nunca aconteceria. – acrescentei rapidamente.

–Talvez devesse perguntar a ele. – sugeriu.

–Rá. Até parece, Landon. – debochei. – Por favor, não conte para ninguém. – pedi, quase suplicando.

–Fique tranqüila que da minha boca não saíra nada. – prometeu, soltando uma risada e voltando para o grupo que jogava dados.

Já fazia uma hora que os homens haviam ido se deitar e Bae havia acabado de dar boa noite. Me ajeitei no bote, com uma lamparina do lado e comecei a ler. Ainda não estava com sono e já estava sentindo falta de ter uma leitura silenciosa.

Fazia apenas alguns minutos que estava tranquilamente me perdendo nas palavras, que meu olhar caiu sobre Killian, parado a poucos passos de mim. Se eu não tivesse desviado os olhos por uns segundos para virar a pagina certamente ele ficaria ali até eu terminar a leitura.

Fechei o livro, marcando a página com o dedo indicador e o olhei com a testa franzida.

Ficamos um tempo desse jeito, até que me cansei da brincadeira, voltando minha atenção para a leitura.

Aquilo era o mais próximo que ele havia chego de mim nessa semana.

–Eu... – ele começou parecendo sem jeito. – Deixei Landon no comando.

–Que bom Killian. – respondi sem colocar entonação na voz, mas curiosa para saber até onde aquilo iria.

Gancho fez um barulho estranho com a garganta, mantive meus olhos no livro, pois sabia que se olhasse para seu rosto iria acabar rindo de sua expressão e então ele ficaria irritado, não me falando o que queria.

–Será que você poderia me fazer companhia? – soltou de supetão, como se fosse realmente difícil dizer aquelas palavras.

Abaixei o livro e o encarei, tentando manter a expressão neutra, por mais que estivesse surpresa.

Pensei em brincar com ele, respondendo um “não” e voltando a ler, porém eu sabia que se fizesse aquilo Killian iria pedir para esquecer.

Olhei o número da pagina, memorizando- a e sai do bote.

–Claro, será um prazer. – indiquei para que fosse na frente.

Eu estava um pouco nervosa sobre como aquilo funcionaria. Quando me ofereci para ajudá-lo, eu não pensei que teria que ficar sozinha com ele, com a porta fechada e no escuro. Isso nem havia se passado pela minha mente quando as palavras saltaram de minha boca.

Mas estranhamente, estava tudo sobre controle. Eu sentia o formigamento de sempre, porém minha vontade de ajudá-lo era maior. Cada sensação ainda estava ali, eu as sentia, mas não com tanta intensidade. A vontade de cuidar dele era o sentimento principal no momento. O que era uma coisa boa. Seria horrível se ficássemos pouco à vontade.

Eu queria ajudá-lo porque... Ninguém merecia carregar tanto dentro de si, ele tinha que aprender a falar sobre para se libertar aos poucos e conseguir voltar a sentir algo além do que só atração física por alguém. Não duvido que desde que perdeu Milah tudo tem sido vazio em sua vida, uma sucessão de corpos, toques e línguas sem realmente sentir alguma coisa mais profunda.

Nada mais profundo do que desejo carnal, e eu não queria que ele sentisse isso para o resto de sua vida. Eu sabia que aquilo que aconteceu na cabine aquela noite entre nós não passava disso para ele. Killian apenas se permitia sentir o que fosse físico. E isso era errado. Isso iria acabar o destruindo, porque nunca conseguiria preencher o vazio que sentia se continuasse dessa forma.

Sem falar que ele nunca conseguira me enganar de que estava satisfeito com sua vida. Estava claro para mim que ele fingia, que cada palavra que saía de sua boca era uma mentira perfeitamente ensaiada, dita tantas vezes que se tornou verdade para ele. Sua visão de vida boa era ótima para quem não o olhasse direito, para quem não se importava.

Landon estava certo: Killian não era a imagem que ele passava.

Do mesmo jeito que ele estava me ajudando, eu queria poder ajudá-lo de alguma forma que estivesse ao meu alcance.

Não queria que me confiasse tudo, mas que me deixasse ajudar a consertar algumas coisas para quando eu tivesse que ir embora, soubesse que ele estava melhor.

Killian retirou o gancho, se sentando na cama e tirando suas botas.

–O senhor não tem roupas de dormir? – perguntei quando ele estava começando a se ajeitar. – Sabe, o camisão e a calça?

–Não acho necessário, economizo tempo dormindo assim.

–Bem, deveria. Suas roupas são pesadas e irão atrapalhar seu sono. Posso? – indiquei seu baú. Killian assentiu e eu me agachei, abrindo cuidadosamente, começando a procurar. – Aqui.

Joguei para Killian um camisão e uma calça que achei perdido no fundo do baú. Ele olhou as roupas fazendo uma careta.

– Vou deixá-lo se trocar. – avisei indo para fora e fechando a porta.

Ótimo... o que eu faria agora? Como funcionaria com um homem adulto? Seguiria cada passo que Granny fez comigo, torcendo que desse certo com ele. Talvez não todos... iria deixar de fora a parte dos abraços até que pegasse no sono.

–Swan. – Killian chamou. Abri a porta devagar, colocando a cabeça cuidadosamente para dentro. — Tem idéia do quanto me sinto estranho com isso?

–Sem dúvidas é diferente, estranho não. – respondi despejando água na bacia. – Lave seu rosto e pescoço, vai se sentir melhor.

Killian revirou os olhos e andou até a bacia. O estudei disfarçadamente naquelas roupas, gostando de vê-lo vestido de forma confortável.

–É bom que isso funcione. – murmurou, se virando para mim.

Apontei a cama para que ele se deitasse, pegando a cadeira e o seguindo.

–Muito bem. Quer que eu leia ou...

–Prefiro conversar. –respondeu antes que eu terminasse de falar. – Me conte algo sobre você. – pediu.

Aquele pedido me pegou de surpresa. De tudo que ele poderia pedir, eu não estava esperando um “prefiro conversar”. Killian sempre evitava conversar, ainda mais quando eu começava a contar alguma lembrança que me atingia. O que gostaria de saber sobre a minha vida que fosse relevante para ele? Tudo o que Gancho precisasse ter conhecimento, eu já havia contado.

– Acredito que não tenha nada que já não saiba, o resto não tem importância. Minha vida na verdade não tem nada empolgante para ser contado.

–Fale sobre seus pais. Seus amigos.

–Bem... meus pais são normais. Meu pai nunca foi muito presente por conta do trabalho e às vezes se irritava comigo por eu bater de frente com ele. Temos pensamentos divergentes muitas vezes, principalmente porque desde pequena ele me cobra casamento. – revirei os olhos me lembrando das várias discussões que tivemos. – Minha mãe passava a maior parte do tempo trancada em sua sala com dor de cabeça, então eu só a via nas horas das refeições e quando ia me dar boa noite, que ela se sentava um pouco comigo para saber sobre meu dia. Às vezes ela penteava meus cabelos, é uma boa mulher. – peguei o colar e o abri entregando- o para Killian. – Não sei se viu quando roubou. Ela me deu dizendo que assim sempre estaríamos juntas.

Killian estudou os retratos, passando o polegar sobre a minha pintura.

–Você não se parece com ela. – comentou, olhando para o meu rosto e voltando para o retrato. – Acredito que você se pareça com seu pai.

–Não me pareço com nenhum dos dois. E isso é um pouco estranho, talvez eu tenha puxado algum parente distante, acontece.- dei de ombros como se esse fato não me importasse.

–Quantos anos tinha nesta pintura?

–Por volta dos seis ou sete. Eu a detesto, pois estava na época em que trocamos os dentes e eu tinha medo que de alguma forma aparecesse na pintura. Por isso a cara de dor de barriga. Foi uma época que sempre que precisava falar eu colocava a mão escondendo a boca para ninguém ver. – levei minha mão à boca, demonstrando como fazia. – O que? – perguntei vendo um brilho em seus olhos, e os cantos de sua boca se levantando levemente.

–Nada. – balançou a cabeça fechando o pingente e devolvendo para mim. – E quanto aos seus amigos?

–Já falei sobre Graham.

–Não posso acreditar que você só tem um amigo e ele é homem. E quanto sua amiga da França?

–Nós quase nunca nós vemos, conversamos mais por correspondências. Vou uma vez por ano visitá-la e então ela faz o mesmo. Belle é um amor. E com Graham é diferente, nós crescemos juntos. Chegamos a dividir a cama quando éramos pequenos e tivemos a mesma ama de leite. Ele é apenas quatro anos mais velho que eu. Para mim ele é só Graham, tenho dificuldade para enxergá-lo como homem, por mais que ele já me enxergue como uma mulher. Foi estranho quando ele começou a me cortejar. Ele me pediu em casamento depois do ataque de vocês no condado. Perguntou o que eu diria. Foi a primeira vez que ele foi tão direto.

–E o que você respondeu? O que você diria? – indagou parecendo curioso com a resposta.

– Que sim, porque sabia que era o que ele queria ouvir, mas eu disse que não iria acontecer por ser meu amigo. Porém desde que entrei para a tripulação me vejo aceitando de verdade esse pedido se tiver oportunidade. Graham é bom, e eu o conheço minha vida toda, nada parece mais certo que nos tornarmos marido e mulher. Pelo menos nosso casamento terá amizade. E não é como se eu tivesse muita escolha, ele já pediu minha mão para meu pai e ele deu sua Benção. Veja bem, estou apenas adiando o inevitável.

–Isso é bobagem, o jeito que vocês tratam o casamento. Como se fosse um negócio. Do que serve uma união dessas sem amor? – indagou prendendo seu olhar no meu. –Eu achava que você não seria uma dessas pessoas, Swan. – acusou parecendo aborrecido.

–Como você pode saber? Eu não sei como é me apaixonar, eu não sei de nada além do que me é ensinado. Eu fui criada para me comportar e não questionar. A aceitar um marido e fazer tudo o que ele quiser. E eu não quero ser assim. Confusa o tempo todo, sem ter direito a questionar, sem ter direito a ter uma resposta. E principalmente, eu não quero servir um marido apenas porque é o que a sociedade quer. Eu não sei distinguir o que sinto, e nem sei nomear muitos dos sentimentos que me atacam Killian. Me responda: como é estar apaixonado? Como é amar alguém? Talvez se me explicar eu possa lhe dar uma resposta mais satisfatória. Minha mãe costumava dizer que “amor é luxo, dinheiro é necessidade”. Então me explique como é Killian.

–Não tem explicação, Swan. Você apenas sente e sabe. Entenda que nem tudo nessa vida tem um modo a ser seguido. Eu sei que você não ama esse homem apenas pelo jeito que fala dele. O que sente é um amor fraternal, você o ama como se fosse um irmão.

Eu não estava satisfeita com a resposta dele. Killian estava evitando responder porque não queria me falar sobre os sentimentos que o invadiram quando se apaixonou.

–Como o senhor soube? Como o senhor soube que estava apaixonado por Milah? De algum modo, em algum momento percebeu isso. Como foi? – insisti.

Jones fez uma careta, respirando fundo.

– É uma coisa confusa, Emma. Assustadora e maravilhosa ao mesmo tempo, é você querer cuidar da outra pessoa e sempre vê-la sorrindo. No começo é... intenso, e continua intenso sempre que você olha para a ela, porém os dois acabam achando seu ritmo. É você sentir seu corpo reagindo rapidamente ao mínimo movimento da outra. É complicado, não sei explicar. Contudo é querer morrer junto quando você perde quem ama, ou se sentir vazio. – concluiu com uma emoção na voz que eu nunca tinha ouvido antes. — E você apenas sente quando é, não existem palavras explicando. Você vai saber ao olhar para a pessoa. Vai sentir quando estiver perto da pessoa. Se alguém algum dia conseguir colocar em palavras como é estar apaixonado, tenha certeza que não é verdade. Tudo o que lê em livros é besteira.

Fiquei pensando um pouco em suas palavras, tentando entendê-las. Eu nunca tinha sentido nada daquilo, e duvidava que o que sentia agora com Killian poderia ser alguma coisa importante ou perto do que ele descrevera. Eu estava confusa? Sim, mas estava assim sobre vários assuntos. Sobre a parte de cuidar, eu me importava com todos para que fizesse isso. Não precisava estar amando para querer cuidar de alguém.

–É, nunca senti isso. – confessei por fim, soltando um bocejo. – O que acha de uma leitura? Tristão e Isolda, lhe agrada? Irei começar a lê-lo para os homens amanhã. Descobri que eles gostam de ouvir uma história.

Killian me estudou por uns minutos, dando de ombros, indicando que eu começasse.

–“ A cabeça doía bastante, conseqüência do golpe na nuca que fizera o garoto desmaiar. “Que príncipe patético você é!”, pensou. Mas este pensamento provocou eco e o eco só fez a dor ficar muito pior.

Tristão tentou se levantar. Sim, era esse seu nome, escolhido pela mãe, a rainha Brancaflor, que morrera logo após o filho nascer [...]”

Levantei a cabeça ao perceber a respiração pesada. Killian já havia pegado no sono e parecia que iria ficar nele por um bom tempo. Balancei a cabeça e fechei o livro, não conseguindo evitar o riso que escapou.

–Boa noite para você também, Killian. – sussurrei, pegando a coberta e jogando encima dele. – Estarei ali no sofá se precisar. – avisei indo me ajeitar no pequeno espaço.

Naquela noite, antes de fechar os olhos que lutavam para se manterem abertos, pela primeira vez acrescentei Killian em minhas preces, pedindo que aliviasse um pouco sua angustia. Que lhe desse conforto e uma resposta para sair daquela falsa vida boa, que fingia levar.

Acordei algumas horas depois, com resmungos inquietos e angustiados. Levou apenas alguns segundos para eu perceber que vinham de Killian que se remexia e parecia sentir dor.

Me levantei, tentando espantar a nevoa de estupor que pairava sobre mim por ter acabado de despertar e estar exigindo que meu corpo estivesse atento.

–Killian. – o chamei, me inclinando para observá-lo. Ele suava, comprimindo os lábios, segurando o grito para que não chamasse atenção para o seu sofrimento. Como deve ter sido difícil para ele todo esse tempo e tendo que achar uma solução para se livrar dos pesadelos por conta própria. – Killian querido. Estou aqui. Abra os olhos e verá que está bem. Vai ficar tudo bem. – falei, apertando sua mão de maneira reconfortante.

Killian começou a murmurar o nome de Milah sem parar, com urgência, desesperado.

–Killian!- chamei novamente, colocando a mão em seu rosto quando ele começou a se debater. – Ai! – exclamei surpresa quando sua mão me acertou, caindo sentada e levando meus dedos ao queixo que latejava.

Killian nesse momento abriu os olhos, se sentando em um sobressalto. Eles estavam apavorados, procurando algo ao redor até que me encontrou sentada no chão.

–Swan?- perguntou parecendo surpreso por me encontrar ali.

–Ainda bem que acordou. –respondi, me levantando. Ainda mantive a mão no queixo. – Estava um pouquinho complicado lhe despertar. Foi muito ruim? – indaguei me sentando na cadeira.

–O mesmo de sempre. – respondeu arfante como se ainda estivesse com medo. – Por que está com a mão no queixo?

Abaixei a mão rapidamente para o colo, abrindo um sorriso para ele.

–Não é nada. – falei, sentindo ainda a ardência. Com toda certeza ficaria roxo, não tinha sido forte, mas por eu ser muito branca qualquer batida já deixava marca, contudo o que seria mais um roxo para a coleção que se espalhava pelo meu corpo?

Killian estreitou os olhos, acendendo a vela que estava apagada ao lado da sua cama e a levando até perto de meu rosto, o estudando. Então abriu a boca parecendo perplexo.

–Eu fiz isso? Eu lhe bati?

–Não foi culpa sua. – garanti calmamente, afastando o rosto da luz. – Está tudo bem. Sério que já está aparecendo a marca?

–Não está não tudo bem. Me deixe ver isso. – pediu jogando as pernas para fora da cama. –Eu sabia que isso não daria certo. Eu não acredito que bati em você, Emma. – resmungou culpado. – E seu queixo está vermelho.

Senti meu estomago se contraindo quando Killian tocou meu rosto.

E então explodi em uma gargalhada.

Jones me lançou um olhar estranho, sem entender.

–Qual a graça?

Balancei minha cabeça, pousando as mãos na barriga que já estava doendo. Me inclinei para frente tentando respirar.

–De todas... Ai, de todas as coisas que imaginei. – tive que parar, respirando fundo. – Isso não tinha entrado em minha lista. – conclui voltando a rir.

Para minha surpresa e total deleite Killian começou a rir comigo. Começou como algo leve, para em questão de segundos ele estar rindo com vontade.

Nunca o tinha visto rir daquele jeito, por achar graça em algo bobo. Apenas havia presenciado sua risada quando me via em uma situação de embaraço.

–Isso foi engraçado. – comentei quando consegui me controlar, secando as lágrimas.

Killian voltou a se deitar concordando com a cabeça.

–Quer voltar a dormir? – questionei o estudando. Suas feições se tornaram tensas. – Aqui, me dê a sua mão. Irei lhe ensinar a rezar.

–Eu realmente gostaria de pular a tentativa religiosa.

–Você acabou de me agredir. – o acusei brincando. – Vai mesmo me negar essa tentativa?

O olhar de Killian foi para o meu queixo.

–Você sabe que estou brincando, já falei que isso não foi nada. Irei me ajoelhar e então iremos rezar juntos. E então você irá repetir comigo.

–Repetir com você? – indagou com deboche.

–Claro. Granny fazia assim comigo. – expliquei, tentando me manter séria.

–E como seria?

–Começaria com “Querido papai do céu, muito obrigada por mais esse dia. Obrigada pelos meus amigos, obrigada pela comida que tenho e minhas vestes. Olhe pelas pessoas que estão ao relento, pelas almas dos homens maus...” – parei de falar quando Killian começou a rir, me fazendo rir junto. –Pode começar a repetir.

–Sem chances, Swan.

Continuei mantendo o sorriso que se recusava a fechar em meu rosto.

–Pode ficar na cama. Sei que deve pensar o contrário, mas Deus é seu amigo Killian. Converse com Ele e Ele o escutará. – falei com seriedade, para mostrar que o momento para achar graça já havia terminado.

–O que eu devo dizer? – sussurrou.

–Qualquer coisa que sentir vontade. Conte sobre seu dia, agradeça por alguma coisa que achou que lhe foi boa, conte para ele suas angustias. Fale sobre as pessoas que são importantes para você. Conte seus medos... o que quiser. Deus não irá lhe julgar, Killian. Tudo o que Ele quer é lhe ajudar e está esperando ansioso por esse momento. Apenas converse como se fosse um velho amigo que não vê há muito tempo e que estão colocando as novidades em dia.

Ele parecia incerto, segurando minha mão com força.

–Tenho que fazer isso em voz alta?

–Não é necessário. Faça em silêncio, mas de coração. Tente acreditar. Então reze o Pai nosso e faça o sinal da cruz. Pronto? – perguntei o vendo fechar os olhos e soltar um suspiro contrariado, para então fazer o mesmo.

Fiquei em silêncio, esperando que Killian terminasse. Eu já havia feito minha prece e não via motivos para fazer novamente. Às vezes sua mão apertava mais a minha, para então relaxar e passar o polegar distraidamente onde à pele juntava o meu indicador e polegar. Ele levantou minha mão junto com a sua, fazendo o sinal da cruz.

Abri os olhos e o encontrei me encarando, seus olhos azuis parecendo limpos e mais leves.

–Então?

Killian deu de ombros, se ajeitando nos travesseiros.

–Acho que eu conseguiria dormir melhor se você se juntasse comigo. –murmurou em um tom brincalhão, a voz preguiçosa.

Eu sabia que ele estava brincando. Ele não estava dizendo aquilo para me constranger como das outras vezes, estava apenas tentando fazer uma piada.

–Ficarei aqui, sentada ao lado da cama até que você adormeça. – prometi.

–Boa noite, Emma. – sua voz pesada. –A propósito tenho trinta.

–O que?- perguntei confusa.

–Você queria saber minha idade. Tenho trinta anos.

–Sério? – fingi estar surpresa. – Eu jurava que devia ter uns quarenta e cinco, quase cinquenta. Está mal conservado, capitão. Talvez um banho nas águas termais de Bath lhe faria bem. – falei com seriedade.

Killian me lançou um olhar cortante e eu não resisti a rir de sua expressão.

–Estou brincando. – apertei sua mão.

–Claro que está brincando. É bom que esteja brincando Srta. Swan. – ameaçou tentando manter-se sério.

– Obrigada por me dizer. Se ainda não sabe eu tenho dezoito. – informei.

Killian assentiu, fechando os olhos, ainda segurando minha mão. Ficamos um bom tempo em silêncio, comigo ali, sentada no chão, até ouvir sua respiração se tornando profunda e tranquila.

Levei sua mão até meus lábios, beijando seus dedos. Sempre fazia isso em Graham, meu pai e quando ia visitar os doentes na vila como Granny havia ensinado.

–Boa noite, Killian. – respondi, assoprando a vela e deixando a cabine em um breu absoluto.

Notas finais
Bom gente foi isso, espero que tenham gostado. Não vou me demorar muito nas notas finais, mesmo porque tenho um animal implorando por atenção aqui. Obrigada de novo Hikarry, nem acredito que a fic recebeu mais uma recomendação. Realmente não esperava. Eu tinha algo mais para dizer a vocês, contudo ficará para a próxima já que não me lembro. Beijos.