Tragedy
1 Capítulo Único
A única forma de alcançarmos a paz é aceitando quem realmente somos. Uma parte das pessoas só alcança a paz depois da morte. Outra parte não a alcança. E uma pequena minoria a alcança durante seu período de vida.
Alcançar a paz de espírito durante o período de vida é bem complicado, até por que ninguém aceita seu verdadeiro eu até ter um motivo para isso. Todo ser humano é um monstro. Sem exceções. Quando crianças, algo acontece. Algo chamado popularmente de crescer.
Quando a inocência de uma criança é destruída, um novo monstro é gerado e, basicamente, você não pode ter essa inocência para crescer.
Nunca gostei de crianças. Elas me lembram o passado. O passado é algo que se deve deixar para trás, ou deve ser usado como apoio para o presente e para o futuro.
Acredito que a maioria das crianças, com sua inocência e sabedoria, alcançam a paz. Claro, elas não são monstros, mas sempre existem exceções.
Aquela criança que magoa seus amigos propositalmente, apenas porque gosta do sofrimento alheio já começa a desenvolver seu monstro interior.
De qualquer forma, essa é apenas a introdução da história que eu quero contar.
Nicolas era uma pequena criança de apenas sete anos de idade. Uma criança bem feliz, claramente, como todas as outras.
O menino tinha um pai, uma mãe e seu gato, Osvaldo. Seu pai era um homem de negócios, trabalhava o dia todo e, quando chegava do trabalho, dormia o resto do dia. Sua mãe dava tudo de si para cuidar dele e de Osvaldo.
Ele era uma criança muito feliz, porém solitária. Seu melhor amigo era o gato que nunca saía do seu lado. Um gato preto e branco. Não era da cor favorita de Nicolas, mas era aceitável.
Desde seus sete anos, Nicolas era tímido. Não gostava de fazer amigos na escola desde que ouvira sua mãe reclamando das vizinhas fofoqueiras e traiçoeiras.
- Espero que não precise conviver com pessoas traiçoeiras meu pequeno. – Nicolas sempre ouvia o que sua mãe dizia.
Os anos se passaram, sete anos para ser mais exata. Nicolas tinha seus catorze anos agora. Ainda não era uma pessoa de muitos amigos. Só vivia na companhia de seu bichano, Osvaldo (ele ainda se perguntava por que havia dado aquele nome ao gato) e de Bianca, sua vizinha, com quem fez amizade.
Agora ele já não era tão alegre como toda criança. Claro, ao chegar à puberdade tudo mudava. Sua forma de pensar era totalmente diferente. Agora já queria ter amigos, apesar de manter a forma de pensar da mãe.
Aliás, esse era um dos motivos para não ser mais tão feliz. A morte da mãe abalou drasticamente sua vida. O pai, muito estúpido, logo arrumou outra esposa, como se a mãe de Nicolas fosse um objeto a ser jogado fora.
Claro que Nicolas visitava o túmulo dela duas vezes ao ano. No aniversário da mesma, e a na data de seu falecimento. Mas não ia só ele. Iam ele, Osvaldo e Bianca.
A mãe do menino sempre fazia lanches para os dois.
Bianca, uma garota não muito notável, era descendente de asiáticos, tinha olhos puxados e cabelo liso curto, porém era morena. Ela era dois anos mais velha do que Nicolas.
Nicolas tinha cabelo preto totalmente bagunçado, olhos castanhos e pele clara. Ele passara a usar óculos a partir dos nove anos. Tinha uma paixonite por Bianca que negava a aceitar por ela ser mais velha. Ela talvez nunca o aceitasse. E se aceitasse ele nunca saberia.
Aquela era uma noite sombria. O dia todo havia sido sombrio. Naquele momento Nicolas estava ajoelhado no asfalto a chorar. Os pais de Bianca não conseguiam digerir a cena. Talvez ver sua filha de 16 anos estirada em uma poça de sangue fosse demais.
O funeral foi três dias depois. Ela havia sido atropelada por um carro. O motorista fugiu do lugar sem prestar socorro.
Nicolas estava com Osvaldo no colo. Os pelos do gato sujavam a roupa branca, mas isso pouco importava Nicolas. O garoto chorava. Talvez não por perder sua melhor amiga, mas sim por perceber que não teria mais uma resposta concreta e que teria de suportar a dor desse mundo sozinho.
Naquele dia ele discutiu com o pai e saiu de casa com Osvaldo para pensar.
Ele foi ao único lugar que veio a cabeça. O cemitério. Sentou-se em frente ao túmulo de sua mãe e pôs se a chorar. Talvez aquilo tudo não fosse para ele.
Osvaldo encolheu-se do lado do garoto e deu um breve miado.
- Você sabe que horas é garoto? – uma voz fez Nicolas virar para trás assustado. Era o coveiro.
- E-Eu não sei... – ele respondeu em meio a soluços enquanto secava as lágrimas.
Osvaldo olhou para o coveiro e soltou outros miados.
- Você é o garoto que estava no funeral daquela menina? – ele perguntou aproximando-se de Nicolas. Ele confirmou com a cabeça. – Era sua namorada ou irmã?
- Era minha melhor amiga.
Um silêncio perdurou pelo local.
- Mas esse não é o túmulo dela.
- Não. Esse é o túmulo de minha mãe.
O homem ficou em silêncio, colocou a pá que carregava no grama e ajoelhou-se ao lado do garoto.
- O que diabos você... – Nicolas calou a boca quando o homem tirou o chapéu e começou a rezar.
O homem ficou ali parado por mais algum tempo e logo levantou a cabeça.
- Sabe garoto, eu perdi minha esposa e filha em um acidente de carro. – o homem se levantou, pegou a pá e virou as costas para Nicolas. – Você ainda tem seu gato e seu pai, mas eu estou sem nada, porém vivo. O mínimo que posso fazer é lembrar-me delas até o fim de minha vida pacata.
Assim o homem foi embora.
Nicolas ficou mais trinta minutos parado ali. Sorriu para Osvaldo, pegou-o no colo e seguiu para sua casa.
Assim que abriu a porta, o pai pulou em cima do garoto em um abraço e pôs-se a chorar. Nicolas chorou junto do pai.
Anos se passaram. Nicolas estava com seus breves 17 anos. Havia começado a se reaproximar do pai e a aceitar o fato dele ter outra esposa.
Por questões de tempo de vida, Osvaldo veio a falecer, deixando o garoto novamente solitário. Ele se dedicara na escola, pensava em cursar faculdade de psicologia e ajudar adolescentes que tiveram perdas como ele as teve.
Porém uma coisa alterou drasticamente esse futuro. Um acidente. Como não pudera lembrar-se de Bianca em seus últimos momentos? Ele estava agora em uma sala branca sem compreender nada. Acabara de abrir seus olhos e sentia muita dor nos braços e tronco.
- Ele não vai sobreviver muito tempo Senhor. Foi um milagre ter sobrevivido esses três dias.
Nicolas começara a lembrar de tudo que aconteceu. Em todos os momentos. Talvez fosse para ser daquele jeito. Uma vida sofrida e cheia de perdas.
Logo veio a mente todos os momentos felizes. Quando encontrara Osvaldo em uma caixinha de papelão enquanto era um pequeno filhote. Quando a mãe fazia sua comida favorita. Quando conhecera Bianca e como se sentia quando estava perto dela.
Eram dias felizes escondidos entre dias tristes. Lágrimas começaram a descer por seu rosto.
- Foi uma ótima vida.
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