Traga-me para a luz.
13 Sangue, fogo e neve
Notas iniciais

A princípio, a ideia de fingir que as experiências da Hidra haviam fritado meu cérebro e me feito esquecer quem eu era havia sido perfeita. Só que todo plano quase perfeito cobra a merda de um preço de seu mentor. Todas as noites, eu me trancava no meu cubículo gelado com uma cama horrível e chorava até amanhecer. De manhã, eu lavava meu rosto com água fria na esperança que ele desinchasse e voltasse a ser a Amber impenetrável outra vez.
Meus olhos vermelhos assustavam até a mim. Sinceramente, eu me achava um monstro. Uma coisa que haviam arrancado a alma. Tudo estava meramente suportável... Então, o treinamento da hidra começou, Strucker empolgado com os meus ‘’ estimulantes’’ resultados havia liberado o grandessíssimo filho da puta Rumlow para que ele me treinasse.
Em suas palavras, eu devia ser a melhor arma que a Hidra criou desde o soldado invernal. Rumlow sentia um prazer insano em me ver rolando no chão, suja de sangue, cheia de hematomas e cortes. Para eles, Amber havia morrido. Eu era chamada de Nêmesis, agora.
Nêmesis, a deusa do destino, do equilíbrio e da vingança divina na mitologia grega. Particularmente, achava tão apropriado. Gostava da mitologia grega.
Os resultados dos treinamentos não eram piores pelo simples motivo que Strucker me mantinha sob o seu olhar constante. Se Rumlow passasse do ponto comigo, ele também era brutamente punido. Mas, isso não impedia de tentar quebrar cada osso meu, sempre que ele tivesse afim.
Então, aqui estava eu. Agora, Nêmesis, chorando mais uma vez, tentando olhar para a lua cheia entre a pequena janela que havia em minha cela. Meus dedos trêmulos sujos de sangue seco, minha boca cortada por dentro e por fora, meu olho direito estava tão inchado e roxo que eu mal podia abri-lo.
Olhei para minhas mãos, sentindo tanta raiva. Raiva por ser inútil, raiva por apanhar em cada treino, surras que me deixavam uma semana inconsciente na cama. Fazendo a Hidra fazer mais e mais experiências em mim, injetando seus soros e medicamentos em minhas veias. Por várias vezes, desejei que aqueles experimentos fossem demais ao meu corpo e me matassem.
Grito.
De dor, de raiva.
Raiva da Amber que fui, da que sou agora, raiva de Bucky, raiva da Hidra. Só sobraria raiva em mim? Só ódio e dor? Seria um monstro em todos os aspectos?
Grito mais um vez. Mesmo, sabendo que ninguém me ouviria. Mesmo, sabendo que algum lugar do mundo, Bucky estaria lá. Me procurando ou depois de 5 meses, ele havia desistido de mim. Declarado a minha morte...
Grito, uma vez.
Grito, outra vez.
Grito, mais uma vez.
Entre o choro, eu gritava. Senti um calor quase aconchegante ao meu redor, me fazendo suspirar de alivio pela primeira vez em 5 meses nos quais, eu vivia no próprio inferno velado para mim. Gostava do calor. Aqui era sempre tão frio... Gelo, neve, sangue e dor em todos os lugares. Sentia tantas saudades, saudades dos meus pais, de Ares e de Bucky.
Meus joelhos colados ao chão frio, eu queria fogo e calor. Me balancei, quase instintivamente, tentando fazer aquele calor que eu sentia, aumentar e consumir aquele lugar. Eu queria tanto sair dali, queria tanto.
Suspirei, aliviada sentindo o calor aumentar mais e mais. Estava me sentindo tão bem, precisava de mais. Eu queria...
— Fogo... Clamei, ansiosa. As chamas envolveram minhas mãos, me fazendo gritar pelo susto. Mas, a sensação era tão boa.
Fogo. Pensei, dessa vez, vendo minha mão ser consumida pelas chamas sem queima-las. Então, era isso que o cetro havia me ‘’ presenteado’’. As chamas ficaram por minutos em minhas mãos, poderia fugir. Eu só precisava me concentrar para sair do que seria um maldito castelo, suspirei empolgada.
Fechei os olhos e direcionei minhas mãos para parede na esperança de destruir um pouco daqueles tijolos que me mantinham cativa por mais de cinco meses.
Fogo.
O meu grito de raiva deve ter acordado todo o castelo. Eu não ligava! As chamas saíram de minhas mãos lambendo toda parede em minha frente. Fiquei em pé, inclinando os braços para trás para empurrar novamente, vendo mais chamas saírem de minhas mãos. A parede cedeu!
Assim, que a parede caiu, eu corri. O frio me gelou da cabeça aos pés, ainda mais com a pouca roupa que estava. Mas, não importava. Só importava a minha fuga. Os pés que afundavam na neve fofa não era o suficiente para me parar, meus corpo tremia pelo frio e eu continuava a correr para a pequenina cidade.
Nada me pararia. Eu preferia morrer na neve do que voltar para aquela base maldita.
Depois de trinta minutos, eu havia entrado em uma pequena rua. Meus pés tremiam e deveria ter queimaduras de gelos em minhas pernas e pés, assim como em minhas mãos. O varal com roupas de frio estava estendido em minha frente, peguei a menor calça que encontrei junto com duas camisetas e um imenso casaco de frio.
Entrei no beco escuro e me escondi atrás da lixeira, me vestindo rapidamente. Eu tremia tanto que demorei um pouco mais, para me vestir. Fiz uma trança escondendo meu cabelo ruivo sobre o capuz, pulei a grade, entrando em outra rua. Eu precisava sair de Sokovia o mais rápido possível, se quisesse viver.
O homem bêbado cambaleava, saindo do bar em direção ao seu carro. Sorte para mim! Assim, que o homem tirou sua chave, eu aceitei sua cabeça contra o veículo e ele caiu, desacordado. Eu sabia pouco de russo, não tinha nenhum dinheiro e estava sendo procurada por uma das piores organizações do planeta.
Puxei a touca, óculos de grau e a bota do homem. Pulei dentro do carro o ligando, vestindo as coisas e tomando a garrafa de vodka que estava nas mãos dele. Afinal, estava frio, eu não havia comido nada. E a bebida distrairia meu estomago e me aqueceria.
— Sinto muito. Mas, vou precisar mais do que você. Disse, acelerando o carro e procurando o caminho mais rápido para sair de Sokovia.
15 minutos depois, eu havia saído de Sokovia. A cidade era pequena e esquecida pelos deuses e pelo governo. Nada me pararia até chegar a próxima cidade e a próxima, até conseguir um trem. Se eu chegasse até Moscou, sabia que Moscou era a capital. Eu não conhecia nada, mas pelo menos, eu estava curada. Assustadores olhos vermelhos, mas curada. Refeita! Quem dera, não tivesse que passar por todo aquele sofrimento.
Tantas surras, tantos cortes, mal podia reconhecer a mulher que me olhava de volta no espelho. Bucky não havia me encontrado, não havia me salvado. Então, eu seria a heroína da minha própria história. Entre uma cidade e outra, eu já havia fugido a duas semanas.
Tinha me tornado muito boa em algo que eu ou meus pais nunca se orgulhariam.
Roubar. Era uma questão de sobrevivência naquele momento. Mas, não negava que me divertia muito. O velho posrche, que me carregava pela França. Tinham mais de 2 dias que eu não dormia, vivendo de posto em posto. Enchendo o carro com galões de gasolina, alguma comida e bebida – principalmente, alcoólica -, cobertores e algumas poucas mudas de roupa. O uso do poder que eu havia recebido tinha sido muito útil. Eu entrava em algum mercado, pegava o dinheiro e o que precisava. Ameaçava o dono, com as mãos cobertas de chamas e sumia outra vez. O mercados era tão pequenos e esquecidos que não tinham câmeras ou qualquer tecnologia e quando tinham, eu as destruía.
Queria muito pegar o trem e descansar até Moscou. Mas, eu sentia que a Hidra poderia estar lá, me esperando. Eu não poderia ser obvia, não poderia ser capturada outra vez. O meu russo melhorou o suficiente para saber que havia um aeroporto clandestino, a dois dias daqui.
Ao que parece, desde que a invasão chitauris aconteceu. A tecnologia alienígena, era comercializada, ampla e ilegalmente por todo o globo. Péssimo para os Vingadores e os certinhos. Ótimo para mim! Tecnologia chitauris ou não, eu sairia desse inferno gelado de um jeito ou outro.
Tinha meu pequeno arsenal, algumas compradas e outras, também roubadas no carro.
Ajustei meu óculos escuros e o casaco, acelerando o posrche pelas ruas. Em dois dias, eu estaria fora da Rússia, seja para onde for.
***
A cidade era escusa e gelada, como a maioria das outras. O pequeno bar local, era o ‘’ point’’ de negociação. Horas depois, a bartender havia me dado o endereço do local exato, onde o piloto morava. O cara tinha muitos contatos e sabia muita coisa. E pelo o que eu sabia, ele tinha o melhor avião da Rússia, aprimorado com tecnologia chitauris. Sinceramente, foda-se. Ele só era um meio para voltar para casa. Lá, eu estaria segura. Nem que eu tivesse que bater na porta dos Vingadores para isso.
30 minutos depois, eu estava na frente do grande galpão, estacionando meu velho e em breve, abandonado porsche. A mochila com a grana, armas e tudo o que eu precisava estava em meus ombros.
— Вы Александр Беликов? (Você é Alexander Belikov?). Questionei, o olhando. O homem tinha uma arma imediatamente apontada para mim. Aquilo, não me trouxe medo algum. Sequer desviei o olhar. — Я просто женщина, которая хочет уехать из России. Я заплачу хорошо. (Sou apenas uma mulher que quer sair da Rússia. Eu pagarei bem.) Avisei, mostrando o pequeno maço de dinheiro.
Ele baixou a arma e suspirou.
— Кто ты? (Quem é você?) Questionou. — Никто. Цена, чтобы отвезти меня в Китай? (Ninguém. O preço para me levar a China?) Questionei, direta. Foragidos não respondiam perguntas e até onde, eu sabia. Eu realmente, não era ninguém. Não, mais.
— Две тысячи долларов (Dois mil dólares.) Disse, como se duvidasse que eu tivesse o dinheiro. Eu imaginava que a conta seria alta. Nesse lugar, tudo era caro. Bem mais caro... Mas, como eu havia dito, eu havia me tornado uma assaltante muito boa.
— Четыре тысячи долларов и бутылка водки. Если мы уйдем сейчас и оставим меня как можно ближе к Японии. (Quatro mil dólares e uma garrafa de vodka. Se sairmos agora e me deixar o mais perto do Japão.) Afirmei, jogando a quantia em sua frente. Ele me olhou impressionado, enquanto abria espaço para mim, me guiando ao seu galpão. O avião, claramente, era um pouco velho. Mas, ''envenenado'' pela tecnologia alienígena.
Ele abriu a porta para mim, entramos juntos, enquanto me sentava ao seu lado. Depositei a garrafa de vodca ao seu lado. O portão que nós fazia ir direto a pista, se abriu. O motor do avião rugiu e aquilo me encheu de um alivio que sequer conseguia colocar em palavras. Primeiro, eu iria para a China. Depois, ao Japão e no fim, Havaí. E lá, eu já estaria em casa e sumiria nos Estados Unidos, outra vez. Se eu tivesse que matar, roubar e qualquer outra coisa para sobreviver.
Eu faria.
Finalmente, o avião decolou. Estava indo pra casa, mesmo tendo um longo caminho pela frente.
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