Notas iniciais
Olá lindinhas!!!!
Eu sei... eu sei, estou atrasada, mas não fiquem bravas. Afinal era Carnaval, né? E todo mundo tem direito a um descanso.
Ah.... vocês são fantásticas, eu adoro tudo que escrevem. Cada uma com seu jeito peculiar, especial, romântico, direto, enfim, é tudo de bom e mais um pouco!!!!
Aproveitem o capítulo, leiam com atenção. Tem muita informação para ser absorvida!
É longo, mas eu acertei a mão e acho que ficou como eu esperava.
Boa leitura!
beijo
Fênix!!!!
P.S.: No final deste capítulo mais uma imagem maravilhosa da talentosa Gabriela de Paula. Obrigada minha linda!

– Raghe?

Mary entrou em seu quarto disposta a ter uma conversa elucidativa com seu hellren, mas a imagem dele completamente nu, saindo do banheiro com os cabelos ainda pingando a deixou totalmente desnorteada.

– Me chamou fêmea? – ele trazia um sorriso nos lábios e suas presas estavam indecentemente longas.

Com todo o poder de sedução pelo qual ele era bem conhecido e com o cheiro do sexo emanando de seus poros, ela perdeu o raciocínio e esqueceu sobre o quê queria conversar.

Ele sabia como envolver, sabia como tirá-la do mundo real mergulhando-a no mundo dos sentidos onde o desejo reinava supremo.

Raghe não lhe deu chance alguma, caminhou direto na direção dela e a prensou contra a porta que ela mesma havia trancado poucos segundos atrás. Suas mãos correram pelo cós da calça e enquanto abria o botão, também puxava a camiseta de gola pólo para cima. Ele foi rápido deixando-a somente de calcinha.

Porém, apesar de Mary sempre se vestir de maneira casual e discreta, seus segredos se revelavam na intimidade e ela nunca deixava de vestir uma “lingerie” exuberante.

Desta vez a mínima peça rendada era preta e quase não encobria nada. Ele a beijou com uma fome insana e continuou deslizando sua boca por todo o pescoço. Gemidos e rosnados preenchiam o ar e continuaram mais intensos quando ele capturou um dos mamilos em sua boca e o sugou quase dolorosamente.

– Assim... – Mary tinha suas mãos completamente emaranhadas naqueles cabelos loiros e chegava a puxar com força para que ele não afastasse os lábios do seu corpo.

Mas Raghe jamais faria isso, não era de sua natureza. Ele só parava quando estava saciado e quando Mary estivesse exausta. Sempre foi assim e sempre seria. Seu desejo não podia ser domado, contido, freado... Ele era uma máquina poderosa e sua fêmea o combustível precioso que ele tanto necessitava.

Seus lábios continuaram a caminhar pela pele macia, ele sugou o outro mamilo e mordeu impondo a pressão necessária para que sua fêmea soltasse um grito delirante de prazer. Mordiscando, lambendo, estimulando, ele desceu cada vez mais. Até chegar ao ponto que tanto ansiava e ela encontrava-se exatamente como sempre: pronta, molhada, totalmente encharcada.

Um urro gutural escapou por sua garganta. Raghe estava ajoelhado aos pés de Mary e sua cabeça convenientemente acomodada entre suas pernas. Ela buscava forças para permanecer em pé e numa ação desesperada escorou na fechadura. Ele rasgou a pequena calcinha com seus dentes enquanto colocava uma das pernas dela sobre seus ombros, arreganhando-a para receber sua língua quente e lasciva.

Sem mais nenhum obstáculo para impedi-lo, ele mergulhou nela, chupando a seu bel prazer, sugando todo o sabor que ele tão bem conhecia e que nunca era suficiente. Quando se tratava de Mary, Raghe era ávido e insaciável.

Sua fêmea, agora se remexia, rebolava em sua boca... ela estava quase lá. Ambiciosa, febril e totalmente sôfrega pelo orgasmo que se formava nas profundezas de seu ventre, encontrava-se pronta para explodir descontroladamente e Hollywood sabia disso, sentia a pele de Mary ferver, o calor era abrasador. Só mais uma investida e ela chamaria seu nome aos gritos em meio ao seu delírio.

– Isso... isso.

Ele levantou em um único movimento, levou-a consigo e a colocou sobre o aparador da lareira. Ela estava sem fôlego e seus olhos brilhavam de paixão. Raghe abriu as pernas dela, separando-as ao máximo e entrou fundo, preenchendo-a completamente. O jeito como ele a tomava era sempre uma reivindicação, as estocadas continham uma sagacidade que beirava a loucura e o ritmo era totalmente insano. O aroma de especiarias carregou o ar e Mary gozou obedecendo arrebatadoramente o impulso do momento.

Minha! – a voz grave parecia sair do peito, de dentro do seu coração e retumbou pelo quarto.

Ele também chegou ao êxtase quando sentiu que Mary o apertava, o ordenhava forte em seu prazer. O orgasmo foi colérico, apaixonado. Os corpos pingavam, o suor escorria e Raghe sentou sobre o tapete persa acomodando sua fêmea em seu colo, abraçando-a com amor e ternura.



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– Posso entrar?

Por certo que o quarto era dele e a mansão o quartel da Irmandade, mas ele não empunharia sua vontade e nem sua presença. Desde que a levou para casa não tiveram muito tempo juntos e havia muito que conversar, caso ela desejasse. Só que V. esperava que sua amada não o afastasse, ele precisava acima de tudo estar perto dela e também de seu filho.


– Que pergunta é essa? – Lisa estava sentada na cama, olhando a enorme TV. – Sou eu que estou nos seus aposentos.

Havia todo um cuidado com a escolha das palavras entre eles e também uma formalidade que antes não existia. Vishous tinha plena consciência de que o trauma estava ali, pairando entre eles, serpenteando os sentimentos ao ponto de um pequeno detalhe transformar-se em uma avalanche de consternação e aniquilamento.


– Pedi a Fritz, para um dos criados lhe trazer uma refeição. Precisa comer. – havia ternura em sua voz – Essa foi a principal recomendação de Havers e eu vou fazer com que seja cumprida.


– Havers?


– O médico da clínica onde estava.


– Claro... claro. Desculpe-me, estou um pouco distraída. – ela esfregou as mãos deixando transparecer seu embaraço, não se sentia à vontade ao lado dele.


– Então? – V. parou por alguns segundos, esperando que ela olhasse em sua direção, mas os olhos continuaram na programação da TV – Quer... sei lá, conversar um pouco?


– Sobre o quê você quer falar?


Merda! Não estava dando certo. Ele não sabia como lidar com a situação. Enquanto Eligor conversava com Lisa, V. procurou Marissa e a shellan de seu melhor amigo havia, praticamente, ministrado uma palestra sobre o que poderia ocorrer com as vítimas de cativeiro e violência sexual depois de se encontrarem a salvo.

Deus... o retorno a vida normal era como submergir de um mergulho perigoso, onde o oxigênio do cilindro acaba dentro de uma caverna e não se tem a mínima esperança de sobrevivência.

Os danos emocionais são terríveis. A experiência de dor e sofrimento pode levar a uma exacerbação do medo e acentuar o estresse pós-traumático desencadeando depressão, comportamentos obsessivos, pânico, fobias... podendo durar semanas, meses ou anos. Geralmente a pessoa fecha-se em seu próprio casulo, envolta em um profundo sentimento de completo desamparo, independente de estar em segurança e com sua integridade protegida por pessoas que a amam. Mas, é claro que as pessoas são diferentes e por isso reagem de maneiras diferentes...


– Sobre o que eu quero falar Lisa? – V. se aproximou e sentou na poltrona ao lado da cama – Talvez eu queira saber como você está se sentindo, se precisa de alguma coisa e...


– Estou bem. – ela se apressou a responder, não ia colocar para fora todo o infortúnio que sofria. Não estava pronta para dar esse passo e prosseguiu sem encará-lo – Seu toque é sempre o melhor remédio. Estou me sentindo bem melhor.


– Entendo.


Sem mais nada a dizer, ele se levantou e começou a se despir. Primeiro a camiseta e depois todo o resto. Não foi nada sensual, muito menos provocante. Ele apenas precisava relaxar e pensou que um banho lhe trouxesse algum tipo de alívio.


– Vou tomar um banho, se precisar...


– Não vou precisar.


– Quer saber... – passou as mãos pelos cabelos procurando em sua mente por algum sentimento que o fizesse calar a boca, mas era inteligente o bastante para saber que não ia encontrar – Eu queria falar sobre a gravidez, sobre você. Ajudá-la de alguma maneira, mas agora o que eu realmente queria saber é o que levou você a mudar de idéia sobre me deixar? Porque não foi embora, se desejava tanto? Não precisa ficar aqui se não quiser, não quero que pense que aqui é sua nova prisão, seu novo cativeiro.


Ok... o mundo caiu literalmente e Vishous entrou no banheiro batendo a porta.



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– Lassiter ainda não voltou? – perguntou Thor se juntando a Wrath e Eligor na sala de sinuca.


–Não e isso não é um bom sinal. – disse o Rei apertando as têmporas, ultimamente tinha fortes dores de cabeça.


– Legassa também sumiu.


– O que podemos fazer Eligor, tem alguma idéia? – perguntou Thor.


– Vocês? Nada. – o demônio foi claro em suas idéias – Acho que o melhor a fazer é interrogar Évora e tentar arrancar alguma informação. Aquela vadia vai falar por bem ou por mal. Tenho certeza que o sumiço de Legassa não foi coincidência e se alguém poderia ir atrás dela, além de mim e Ádamo era o anjo. Só não sei por que o fez.


– Talvez porque nunca deixamos um Guerreiro para trás. – completou Wrath.


Todos balançaram suas cabeças concordando que a lealdade era a base de uma força maior, pilar de confiança e fidelidade.


– Com licença, meu Senhor. – Gaya fez uma reverência até o chão perante Wrath.


– Escolhida, como está?


– Estou bem, meu Senhor – ela dirigiu seu olhar brevemente para seu Rei e depois o manteve no chão – gostaria de lhe fazer um pedido, se isso não for incomodo.


Wrath já sabia que era algo ligado ao demônio que estava ao seu lado e notou que Thor também se sentia como ele. No momento eram dois peixes fora d’àgua, todavia não podia se negar a ouvir o pedido, mas de forma alguma bancaria o cupido ou casamenteiro.


– Fale o que deseja?


– Meu Senhor, gostaria de conversar com Eligor, se assim permitir. Prometo ser breve.


Eligor lançou um olhar para Wrath, um olhar ansioso onde empolgação e também algo mais que o Rei não soube distinguir “a priore”.


– Não vou tocá-la, não faria nada que pudesse comprometer sua honra. – Eligor disse antes de Wrath se pronunciar – Tem a minha palavra.


– Que seja. – ele chamou seu Irmão – Vamos Thor, temos outros assuntos para discutir em meu escritório.


– Obrigada meu Senhor – disse Gaya fazendo nova reverência.


Eles esperaram para ter certeza de que ninguém os escutaria.


– Quer se sentar? – Gaya apontou para o sofá.


– Como você preferir.


– Então vamos sentar.


Eligor deixou que ela escolhesse onde se sentaria e depois se acomodou do lado oposto, permanecendo relativamente longe.

Sua atitude foi entendida pela fêmea como proposital, ele estava mantendo distância e Gaya começou a se perguntar se não tinha entendido tudo errado, se não teria fantasiado um amor inexistente. Pelo menos da parte dele.


– Eu... eu queria me desculpar.


A voz da loira estonteante de olhos azuis da cor do mar era suave e delicada. Gaya era fenomenal, uma pintura. Com seu corpo perfeito e seus longos cabelos loiros ela simplesmente arrebatava olhares.


– Você estava faminta. Eu posso compreender. – ele respondeu amenizando-lhe a culpa.


– Não! Você está errado. – Um sorriso luminoso brotou em seus lábios — Não é sobre isso que estou me desculpando. Eu jamais pediria desculpas por ter me alimentado de você, por ter tomado sua veia, seu sangue. Eu... gostei do seu gosto.


– Não faça isso Gaya. – ele resmungou enquanto serrava os olhos evitando a sensual lembrança – É melhor não seguir por esse caminho.


Eligor jamais se acostumaria com o impacto que a loira conseguia obter sobre o seu corpo e começava a se arrepender da promessa feita para Wrath. Uma energia pairava no ar, uma espécie de tensão nervosa que lembrava o momento que ela cravou as presas na jugular dele, tão inesperadamente.


– E se eu lhe dissesse que esse é o único caminho que eu quero seguir.


Se ela fosse uma humana provavelmente Eligor já estaria montado sobre ela, beijando-a insamente.

Acalme-se homem. Ela não é uma humana e espera um filho de Raghe. Lembre-se disso, ela não pode ser sua.


– Esse caminho é perigoso e sombrio. Sou um demônio Gaya, meu mundo não é um lugar de dor e sofrimento. Não é nada colorido.


– Não me importo com o que você é. Seu mundo não pode ser mais sombrio do que onde eu vivia. – as palavras demonstravam força e determinação – Tudo o que eu fiz a minha vida inteira foi esperar para servir a minha raça. No Santuário, do Outro Lado, tudo é branco... tudo é frio.


Ela se levantou, aproximando-se lentamente e sentou ao lado dele.


– Eu nunca tive querer, nunca tive pretensões ou qualquer outro desejo que não fosse para com a minha raça. E agora... agora que estou servindo ao meu propósito me sinto infeliz.


Diante de Eligor, daquele rosto forte, emoldurado por cabelos negros e selvagens, ela se sentiu ousada para continuar.


– Você é que não sabe o que eu sou. Sou uma Escolhida, uma vampira que pertence à aristocracia. Minhas funções são na maioria espirituais, salvo quando somos usadas para servir as necessidades de sangue dos membros as Irmandade, o que nunca aconteceu comigo ou para acasalarmos a fim de propagarmos a raça.


– Está grávida de Raghe... ele me disse.


– E é por isso que lhe peço desculpas. – ela sorriu quase que com ironia e engoliu em seco – Não pelo fato de carregar um ser em meu ventre, mas pelo mau comportamento de Raghe. Ele não é meu companheiro para seguir tal atitude. Estou gerando o que Mary não pode gerar, ela é estéril.


– Eu me entendo com Raghe, não precisa se desculpar por ele – respondeu secamente – Todavia posso perceber que no fundo ele só quer o seu bem. E talvez eu não seja...


– Por favor, não repita o discurso dele para mim. Estou farta disso – Ela largou o corpo, recostando-se no sofá sentindo-se infeliz – Ele e o Primaz tentam me dizer como devo agir e o que não devo sentir. Como se isso fosse fácil.


– Talvez estejam certos. – A expressão no rosto de Eligor era um mistério.


– Talvez... se nós não tivéssemos sentido o que sentimos quando eu o mordi. Você vai negar que não sentiu nada? – ela chegou ainda mais perto e apoiou sua mão no peito dele enquanto a outra subia até o ombro, atiçando-o – Você se lembra? Eu me lembro da sua respiração pesada, do gosto do seu sangue quente e encorpado escorrendo pela minha garganta. Eu me lembro de cada segundo Eligor, me lembro de entrar pelo que você chama de caminho sombrio e de não querer voltar. Eu só queria caminhar, avançar até me queimar na chama ardente que é você.


Num gesto de total ousadia para uma fêmea até pouco tempo totalmente ingênua, Gaya saltou sobre ele. Sentou sobre o colo de Eligor, um joelho de cada lado, apoiando no sofá. Seus braços se enrolaram em torno do grosso pescoço e então, ficaram frente a frente, as bocas com apenas alguns centímetros de distância.


– Gaya – ele gemeu forçando a se controlar, imediatamente baixou os braços e suas mãos agarraram o couro negro do sofá ou era isso ou enlaçá-la fortemente pela cintura e puxá-la para sua ereção – Não me faça perder o controle. Empenhei minha palavra.


– Toque-me.


Ele a olhou e balançou a cabeça negativamente.


– Eu disse a Wrath que não a tocaria.


– É porque estou grávida?


– É porque você tem um dever a cumprir e eu não quero estragar tudo novamente. – por um mísero segundo ele se lembrou de Raquell e de sua inocência – E por seu Rei... eu gosto do jeito dele. Não quero decepcioná-lo.


– Então, você não vai me abraçar? – havia decepção na voz da vampira.


– Por mais que isso provoque uma dor insuportável... não. Não vou.


A rejeição consternava os sentimentos de Gaya e em seu rosto a amargura propagava-se.


– Você não me quer é por isso que está se afastando.


Com os olhares fixos um no outro, as demonstrações de sentimentos podiam ser notadas com uma transparência cruel... e no meio daquele turbilhão os olhos de Eligor brilharam de forma discrepante, como se a conversa chegasse ao seu final.


– Está enganada. – retrucou secamente – Mas não posso pedir que entenda.


– Se não fala comigo, como espera que eu o entenda? Posso apenas deduzir. E o que vejo pela frente é um caminho que não leva a nada – ela baixou o olhar como se estivesse ferida. O que provavelmente era verdade – Essa é a verdade, não é?


– Não há caminho para nós, Gaya. Eu vivo e lidero um inferno que não foi feito para pessoas como você. Como pode pensar...


– E agora, você... como se fosse Deus, pretende me dizer o que eu devo sentir e fazer com a minha vida –a raiva diante da pungente rejeição do homem que ela tanto desejava mostrou-se forte em suas palavras e a realidade é que não tinha nada a perder – Mas eu tenho que admitir que a razão está do seu lado, eu nasci para servir a um propósito e estou me desviando dele. Minha raça não merece tal atitude. Eu sou uma Escolhida e como o termo sugere, eu...


– Pare de falar e apenas escute... você é tudo! Tudo que um homem pode sonhar e muito mais do que eu me mereço – disse ele enobrecendo-a e com um toque reverente e delicado raspou o dedo indicador levemente no queijo da Gaya. – É como um milagre!


Ela respirou bem fundo com o coração disparado tentando entender que tudo na vida tem seu tempo e que o tempo deles não era aquele. Saiu de seu colo com a mesma facilidade de que se sentou e permaneceu pensativa ao lado dele no sofá.

Como tudo termina, Julia entrou na sala de bilhar.


– Estava procurando por mim, Eligor?



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Lisa observou o quarto onde se encontrava sã e salva. Os livros de V. estavam amontoados em uma prateleira e uma pequena mesa redonda acomodava-se ao lado fazendo par com a poltrona que ele ocupara antes de se levantar para tomar banho. Os tapetes eram os mesmos, as pesadas venezianas estavam abaixadas... tudo exatamente igual à última vez em que ela esteve ali.

Não eram os móveis, os objetos que haviam mudado de lugar. Era ela que estava diferente. Arrasada.

Mergulhada em um abismo de culpa imenso e desmesurado, não tinha a menor idéia do que fazer para voltar a ver a luz. Não tinha discernimento necessário para enxergar o que era certo e errado, afinal ela não passava de uma desprezível mentirosa. Como enxergar vitória na sobrevivência se o preço foi exclusivamente trepar com um homem que era nada mais, nada menos que o abominável inimigo sem alma de Vishous.


Tudo em seu mundo era escuridão, a única exceção era o vampiro que estava sob o jato do chuveiro e ela... ela com suas atitudes idiotas e cega pelo ultraje tinha acabado de feri-lo.

Ele que foi abandonado para morrer sozinho naquela estrada deserta. Ele que padeceu com a confirmação da morte da mulher amada. Ele que suportou sua dor por um bem maior que era seguir protegendo sua raça. Ele que nunca esqueceu que a amava. Ele que acreditou que poderia encontrá-la com vida. Ele que matou Paul, seu carrasco... Ele que a levou de volta para sua cama, para sua vida, para um futuro.

Ele que sorriu pelos olhos adiamantados ao tocar rapidamente o ventre fértil que carregava seu filho, dentro do Escalade, enquanto retornavam ao lugar que supunha se tornaria um lar. O lar deles, da família que se formaria em breve.

As lágrimas caíram e correram por suas bochechas, pingando sobre o lençol.

Que merda eu estou fazendo? – Pensou confusa e desesperada.

O chuveiro parou e V. surgiu. Foi até o closet, vestiu uma calça de agasalho preta e depois a luva de couro, tudo calmamente. Seu semblante era uma máscara apática de sentimentos.

Terminando de se trocar cruzou o quarto em direção a saída sem sequer olhar na direção da cama. Não precisava encarar Lisa para saber que estava sofrendo, o cheiro ácido de terra molhada tomava todo o ambiente.

– Vishous...

Em um gesto rápido ela se jogou para frente do colchão tentando agarrar o braço dele, sem sucesso.


– Agora não Lisa. – rosnou totalmente desnorteado – Agora sou eu quem não quer ouvir.


Ele abriu a porta com violência e saiu. Outra batida forte e seca foi ouvida.

Do outro lado Vishous deu de cara com Butch e Julia conversando, porém a conversa parou mediante a dramática atitude tomada.

Os olhares dos três se encontraram por um segundo, dois confusos e um enraivecido. Ele não parou.

– Posso vê-la? – perguntou Julia.


– Faça o que quiser. – respondeu o vampiro tomando o caminho para o centro de Treinamento.


Quando cruzou as portas do Buraco notou que o tira estava em seus calcanhares.


– Não quero companhia.


– E quem está perguntado? – disse Butch, continuando a andar.


– Não estou com paciência.


– Nem eu. – afirmou o tira


– Não quero falar.


– Não fale.


– Estou indo para minha oficina.


Chegaram à sala de jantar e atravessaram a cozinha. Fritz apareceu carregando uma bandeja, onde tinha de tudo um pouco, aquilo era para Lisa. Mesmo transtornado V. parou e examinou a comida. Havia biscoitinho cobertos com chocolate, suco de laranja, uvas e morangos frescos e um sanduíche que continha pedacinhos de frango com salada verde e creme de iogurte. Perfeito.

Ele se sentiu aliviado ao ver a comida e contando com a sorte, Lisa comeria tudo. Infelizmente não seria ele a alimentar, infelizmente não seria ele a lhe ajudar.

Com um aceno de cabeça que dizia que tudo foi aprovado o vampiro continuou andando e como um fiel cachorro Butch o seguiu.


– Não vai desistir, não é?


– De você, V.?... Nunca! E eu já disse isso em outras ocasiões.


A cena do hospital, de quando havia acordado depois de ficar inconsciente por dias e ver que seu melhor amigo estava ao seu lado voltou vívida diante de seus olhos.


– Quero ficar sozinho. – afirmou enfático enquanto começava a descer a escada para o porão.


Chegaram a um grande corredor cheio de portas. Em uma delas se encontrava o salão da velha fornalha onde Zsadist ainda mantinha conversas com Mary sobre seu passado. Porém hoje, as cadeiras a sua frente estavam vazias. O que representava que Z. melhorava a cada dia.


– Isso é problema seu. – respondeu Butch no mesmo tom ardido de V. – No momento não tenho lugar melhor para ir.


No fim do corredor, na última porta era a oficina. Lá dentro uma bigorna, lâminas, algumas ferramentas e dois banquinhos de madeira. Ambos entraram.


– Caralho. – V. estancou, virando-se furiosamente para o tira – Isso não está funcionando.


– Não me interessa se funciona ou não – os rostos quase se tocaram – É aqui que eu vou ficar. Ignore-me, acenda um de seus cigarros, finja que não estou aqui. Ela está destruída, você está destruído e ambos não passam de dois idiotas que em vez de procurarem se curar um ao outro, apenas fazem se afastar.


A vontade de socar o nariz do tira transformou-se em aniquilação e por incrível que possa parecer Vishous sentou-se no banquinho e começou a enrolar um cigarro.


– Você tem que ser paciente. Se ela não quer falar... respeite, mas não desista.


– Ela pode falar comigo sobre qualquer coisa. – ele colocou o tabaco turco sobre o papel de seda e não levantou o olhar – Lisa deveria saber disso.


– Tenho certeza que ela sabe. Assim como eu sei que você também sabe que ela teve que se submeter às vontades daquele redutor.


As palavras pairaram no ar como uma sombra acima de suas cabeças. Butch continuou a falar.


– Isso não é um assunto fácil de falar... principalmente com o homem que se ama e com o agravante de ter suportado tudo isso grávida.


– Eu...


– Você às vezes não tem sensibilidade nenhuma, apesar de ter melhorado. Eu particularmente já não acho você mais um iceberg, pelo menos, não totalmente.


Vishous fechou os olhos e acendeu seu cigarro. O perfume espalhando e misturando como as pesadas palavras.


– Estou tentando, mas ela se fechou. Falou com o pai, mas não fala comigo.


– O pai é um demônio. Um demônio não tem escrúpulos, nem ética, nem moral. Não julga. Seu senso de justiça é distorcido e usurpador.


V. balançou a cabeça descrente, não concordava com nenhuma palavra.


– Me responda com toda a sinceridade Vishous – agora Butch levantou a voz mais do que o amigo esperava – Coloque-se no lugar de Lisa. Se você carregasse uma enorme culpa sobre os ombros referente a “coisas” que precisou fazer para se salvar e garantir sua gravidez... com quem você falaria sobre a sordidez? Com um pai que é um demônio ou com um macho vinculado transtornado e apaixonado? O que é mais fácil?


O silêncio exibiu suas garras e seus tentáculos se espalharam por todo o ambiente, preenchendo e consumindo todo o oxigênio. Não havia mais nada a ser dito. Tudo estava claro.


– Se eu fosse você... iria alimentar Lisa. Mas se preferir ficar aqui, então ficarei com você!



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Julia ouviu o soluçar antes mesmo de abrir a porta, mesmo assim ela adentrou ao quarto.

Sem nenhuma vergonha e resistência, Lisa se entregou ao desespero do choro desolador, seu corpo tremia, ela batia os dentes.


– Jesus Cristo!

A cena era amarga. A melancolia podia ser vista em seus olhos, estava ajoelhada no chão, com os braços ao redor do corpo como se quisesse abraçar a si mesma.


– Eu... eu não posso... falar. – as lágrimas caíam como cascatas d’água.

Julia foi ao seu encontro e a abraçou.


– Shhh... não precisa falar nada. Vai ficar tudo bem.

Aquela voz adolescente, carregada de segurança e de esperança tocou o coração de Lisa.


– Julia? – elas se olharam como se fossem amigas a um longo tempo – Você é a Julia, não é?


– Sim. – ela respondeu com um tímido sorriso nos lábios.


– Graças a Deus. – o alívio era palpável – Eu me preocupei tanto com você por causa das coisas que Évora dizia.


– Eu estou bem. O que importa agora é você, Lisa e também o seu bebê.


Lisa engoliu em seco e tentou ficar em pé. Fechando os olhos com força ela baixou a cabeça, tomando a única atitude possível naquele momento. Vergonha!


– Estou fazendo tudo errado... a culpa é toda minha. Eu vou destruí-lo, eu sei disso.


– O quê? De quem está falando?


– Vishous...


– Como é que pode pensar uma coisa dessas? Ele a ama.


– O amor dele não o salvará da destruição. Eu sou sua perdição... agora sei o quanto posso ser maligna.


Ela deu um passo para trás, afastando-se de Julia, negando a aproximação. Estava cansada, inspirou profundamente tentando encontrar forças para continuar.


– Eu queria ter coragem para partir. – disse Lisa sem rodeios – Seria a decisão correta, mas meu egoísmo não me permitiu.


– Egoísmo? – Julia riu – Agora mudou de nome?


Sentindo-se ofendida Lisa franziu a testa. Será que estava enganada sobre a personalidade de Julia? Em meio ao derrotismo não percebeu que uma simples adolescente não compreenderia seu drama.


– Não fique com raiva de mim – a garota falou percebendo a irritação – Só quero que você enxergue as coisas como elas realmente são e...


– E o que pensa que sabe? Você está me dizendo que enxerga um...


– Eu estou dizendo... – Julia endireitou as costas e inflou o peito – Estou afirmando que sei como é Vishous e Lisa juntos.


– Não...


– Eu vi vocês dois. Um sonho intenso. O quarto era vermelho, estava iluminado por centenas de velas e você estava com as mãos amarradas à cabeceira da cama. Havia um enorme vaso de cristal que exibia magníficas rosas negras... você se debatia tentando se soltar até que percebeu que as mãos que deslizavam pelo seu corpo não eram fantasmagóricas. – Lisa oscilou ao ouvir a descrição, seu coração acelerou – As mãos eram fortes e em uma delas uma luva de couro preto jazia.


– Como você...


– Seus olhos expressavam uma alegria incalculável e após se dar conta de que era Vishous, você se debateu para poder abraçá-lo. Os olhos e o corpo dele só faziam adorá-la e ambos vertiam luxúria e um amor capaz de saciar... o mundo.


Julia tinha a voz embargada e os olhos marejados. Estava emocionada.


– Você implorou por ele... e ele não decepcionou. Ele a cobriu com seus beijos, com seu corpo. Eu jamais esquecerei tal sonho por que... – ela hesitou e ponderou calar-se, mas era tarde demais – eu desejei ter aquele amor para mim. Eu queria que o brilho, que o calor que emanava dos olhos de Vishous fossem... deixa pra lá... é que eu nunca tive nada. Você não pode abrir mão disso, Lisa. Não pode.


– Eu o amo! – ao dizer isso Lisa levantou a voz e serrou os punhos com força – Eu o amo mais que tudo, eu morreria por ele... preciso dele, necessito da sua presença. Eu lhe dei a melhor parte do meu ser. Ele é um macho de valor, um grande Guerreiro e já sofreu demais. Não posso arrastá-lo para o poço sem fundo que me encontro, não é justo.


– Você não vai me arrastar. – Vishous estava parado na porta, encostado no batente, com seu ar mortal, totalmente sinistro e não tirou os olhos de Lisa enquanto falava autoritário – Não vai me arrastar porque eu irei puxá-la para fora Lisa. Eu vou trazê-la para a vida.


Ele desviou os olhos para Julia por um instante e ordenou convicto:


– É a sua hora de sair... – com toda a masculinidade que emanava de seus poros, ele moveu o corpo abrindo passagem para a pequena garota. – E Julia... obrigado.


Ela sequer teve voz para responder, apenas balançou a cabeça e saiu rapidamente.

Vishous saiu logo atrás e segundos depois voltou trazendo a bandeja que Fritz preparou para Lisa comer. Colocou-a com cuidado em cima da mesinha redonda ao lado da cama e sentou-se na velha e conhecida o poltrona.


– Venha comer! – apesar da ordem as palavras soaram suaves.


– O que você ouviu? – Lisa não tinha forças para começar uma discussão, mas não havia como fugir, então resignada resolveu encarar a situação de uma vez.


– Tudo. – Ele encostou confortavelmente e colocou uma das pernas apoiada sobre o joelho, enquanto suas mãos pousavam calmamente sobre os braços da cadeira.


– E?


– Você precisa se alimentar. Venha comer. – Não expressava nenhum tipo de reação. Seu rosto forte emoldurado pelo cavanhaque e olhos vibrantes não demonstrava emoção alguma. Naquele momento, Lisa pensou que V. era um iceberg e lamentou interiormente tê-lo remetido novamente ao lugar gelado e sem sentimentos que ele um dia viveu.


Ela não se moveu, não conseguia sentir as pernas com o coração batendo tão fortemente. Se não conhecesse o seu corpo e não fizesse tantos exercícios por causa das maratonas dos Shows afirmaria que estava sofrendo um ataque cardíaco.


– Estou sem fome. – murmurou.


– O bebê precisa de comida para crescer forte e saudável. – ele hesitou, não queria fazer um discurso – Venha comer! Quantas vezes precisarei mandar?... Essa foi à última, tenha certeza disso.


Ela levantou o olhar do tapete persa para confrontá-lo, não acreditando que ele estava lhe dando ordens no estado em que se encontrava. Sentia-se como um cristal: frágil, inválida. Mas, então, notou o leve sorriso.


– Ordens? – balbuciou atônita.


– Venha aqui Lisa. – ele descruzou as pernas e bateu a mão em uma das suas coxas firmemente – Venha se sentar.


O convite era tentador e ela sentiu que a energia entre eles ainda era a mesma: poderosa, quente, altiva. Todavia, agora, vinha emoldurada em uma redoma de vergonha ultrajante e odiosa. Ela continuou parada.

V. podia sentir todas as mudanças do humor de Lisa. Primeiro: insegurança, depois raiva e indignação e por fim a terrível vergonha. Ele pegou uma uva verde grande e suculenta e comeu, mastigando devagar, saboreando a fruta. Depois foi a vez de um morango, mas ele demorou a se decidir qual fruta pegar.


– Está escolhendo? – a pergunta deixou V. surpreso, foi flagrado. – Está deixando as frutas que considera melhor e mais apetitosa para mim.


– Sim. – ele continuou olhando para os morangos.


Lisa deu um passo na direção dele e depois outro e mais outro até parar de frente para o Guerreiro sentado.


– Esse que está na sua mão é o bastante para mim – afirmou categórica.


Ele não respondeu, mordeu o morango e jogou o talinho verde em um pratinho ao lado da bandeja. Depois de mastigar disse com ternura.


– Não era o bastante.


Nem havia terminado a frase quando Lisa sentou em seu colo, acomodando seu corpo contra o dele.


– Não sou mais digna de você. Fiz escolhas de que me envergonho... estou suja.


Manteve a voz firme no desabafo, mas não foi capaz de conter as lágrimas que teimavam rolar. Ele envolveu o rosto de Lisa com as mãos e levantou-o para que ela pudesse olhar em seus olhos.


– Eu sei! – a afirmação fez Lisa abrir a boca e arfar horrorizada – Você pensa nisso o tempo todo e nos piores momentos, parece gritar seus pensamentos. É aí que eu posso ouvir claramente.


– Me pe-perdoe. – a verdade era tão dolorosa que ela parecia tremer de frio.


– Por você ter sobrevivido? Ou por salvar a vida do nosso filho?


Tomada pela forte emoção, ela levantou as mãos e colocou-as sobre as de V., tentando ocultar o rosto e sua choradeira. Não reconhecia a si mesma. Era uma mulher fraca, destruída.


– Não se esconda de mim, lelaan. Eu preciso de você.


Ela quase riu histérica.


– Você? Precisa de mim? – o balanço negativo da cabeça confirmava a falta de amor próprio, de auto-estima – Eu só posso lhe fazer mal. Eu vou arrastá-lo...


– Sou suficientemente forte para nós três, Lisa – e posou a mão sobre o ventre fecundo – Eu deixei que a levassem de mim uma vez. Isso não voltará a acontecer, eu prometo. Protegerei vocês com a minha vida.


– Não é verdade, você lutou. Só que eles eram muitos – estava chocada com tal pensamento – Você...


– Não, lelaan. A única verdade é que você me salvou naquela noite. Foi você quem se sacrificou. Não eu.


– Jesus Cristo V., não fale assim... eu pensei que era o fim... depois me disseram que você tinha morrido, eu...


Lisa sentiu o corpo de Vishous enrijecer debaixo do seu e vislumbrou por segundos o ódio em seus olhos, ele estava pensando em Paul.


– Eu o mataria todos os dias, se isso fosse possível. – rosnou entre os dentes.


Acomodando sua cabeça naquele peito largo, ela começou a se acalmar e logo sentiu que um morango encostava-se em seus lábios.


– Agora, coma.


Lisa mordeu a fruta e seu sumo escorreu pelo queixo, mas ela não teve tempo de limpar com o guardanapo porque V. a beijou delicadamente, sugando a seiva.


Ela queria corresponder, queria abraçá-lo e se entregar aos beijos e tudo que veria a seguir, porém seu corpo tremeu entrando em pânico. Misturando a realidade com o cativeiro e os maus tratos. Ele entendeu e se afastou.


– Vamos devagar. – sorriu ele, incentivando-a a esquecer, a enterrar o passado – Vamos viver um dia de cada vez. Acha que pode fazer isso?


– Vou tentar Vishous. Vou tentar.



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O fim de novembro chegou e dezembro trouxe o seu aniversário. Lisa não quis nenhuma comemoração, completou 28 anos e nada aconteceu. O despertar foi adiado e entendiam que só poderia ser pela gravidez. Os dias ficavam cada vez mais gelados, o inverno impiedoso não tardava a chegar.

Para Lisa, todo amanhecer era uma luta, ou melhor, agora era anoitecer. Já que vivia com um vampiro. A rotina de sair para lutar a preocupava, mas ela não dividia essa preocupação. Não era justo. Afinal ele se sacrificava todos os dias por ela. Seu trauma impedia de ter algo mais íntimo com Vishous e em uma das infinitas conversas, concordaram em esperar pelo nascimento do bebê. Ela começara a ganhar peso e sua barriga estava protuberante. Não grande, mas notável e nas horas que dormiam juntos... bem, a real situação é que ela começou a dormir. Às vezes uma ou duas horas apenas, mas já era um progresso.

Ela continuou firme em sua convicção e não conversou com Mary sobre os abusos. O inferno e condenação que se auto infligia não permitiam que se entregasse a absolvição, não ainda.

A outra grávida da mansão lhe fazia companhia e também a incentivava a comer, Gaya. Ela sabia que a vampira vivia infeliz tudo porque seu pai, Eligor a negara. Lisa tentou argumentar, seu pai não quis ouvir.

Ele evitava cruzar com a bela loira pelos corredores e só vinha visitar Lisa quando tinha a certeza de que não se encontraria com ela. Por causa disso, o relacionamento de Gaya com Raghe também ficara abalado, era sempre Mary que tentava uma aproximação ou uma conversa que durasse mais do quê um “como está” ou “precisa de algo”.

Mary e Gaya se tornaram amigas e a humana entendia todas as frustrações da Escolhida, se colocava no lugar dela. Gaya evitava Raghe o máximo, procurando-o apenas para se alimentar.

Outro que mudara seu comportamento foi Lassiter. Lisa gostava do anjo, nutria uma simpatia verdadeira por ele, gostava de seu jeito direto e brincalhão, mas ultimamente ela e Thor se perguntavam o que aconteceu no salvamento de Legassa que o fez ficar tão pensativo.

Foi uma alegria quando eles entraram porta à dentro sãos e salvos. Houve um jantar para comemorar e Eligor agradeceu ao anjo, verdadeiramente, pelo salvamento de sua fiel amiga e guerreira. Tudo parecia normal, se não fosse o fato do bem e do mal estarem partilhando uma mesa, e agradecendo o que um fez pelo outro. Como se anjos e demônios convivessem em harmonia todos os dias.

Legassa agradeceu publicamente com um brinde a coragem de Lassiter e Lassiter retribuiu dizendo que ela havia salvado sua vida. Tudo parecia estar entrando em sintonia, mas a verdade é que nada na Irmandade e na vida daqueles vampiros era fácil. E então o Rei ficou cego.

Um novo casal se juntou a mansão. Rehvenge e Elena agora viviam com todos os outros, apesar do macho se ausentar por vários dias, quanto à fêmea ela era enfermeira e ajudava no que era possível. Afinal no retorno das batalhas diárias contra a Sociedade Redutora, sempre haviam ferimentos a serem tratados e era bom ter alguém com prática e mãos leves e gentis para dar alguns pontos ou suturas mais extensas.

A maior dificuldade no momento era lidar com a deficiência visual do Rei, a notícia abalou todos de modo geral e cada um tentava lidar da melhor forma possível com as conseqüências.

Quando Lisa pensou que estava emergindo, pelo menos um degrau, do seu poço escuro o desaparecimento de Xhex caiu como uma bomba, já que não se podia ignorar que John Matthew era apaixonado por ela e morria a cada dia sem pistas do seu paradeiro.

Vishous tentava consolá-lo, mas entendia que nenhuma palavra funcionava.

E assim o tempo foi passando...

Era um sábado e a Irmandade estava de folga, então a sala de bilhar encontrava-se cheia, as únicas ausências eram Qhuinn, John e Blay. Na enorme TV de plasma a ESPN fazia uma retrospectiva do campeonato de beisebol e falava sobre os Red Sox. V. e Butch não tiravam os olhos e até perderam a oportunidade de derrotar Raghe e Z. no bilhar.

Quando a reportagem terminou imediatamente uma apresentação de Lisa Hendrix surgiu. Era o show no encerramento do Super Ball onde ela foi a principal atração.

Um silêncio desconfortável calou a todos e somente o som da TV ficava mais nítido a cada segundo. Uma homenagem.


“O tempo é implacável. Ele não para. Parece que foi ontem que Ela estava entre nós. Encantando o mundo com sua voz maravilhosa, sua beleza infinita e seu largo sorriso. Porém hoje, estamos completando seis longos meses sem a sua presença, sem o seu entusiasmo...”


Conforme as frases do locutor preenchiam o ar, uma simples, porém complexa questão explodiu dentro do cérebro de Lisa:

Quem ela era? Qual a identidade que tinha lhe restado?

Tudo que ela conhecia como “seu mundo” lhe fora ceifado. Não havia mais Anne, nem Nick. Sua casa, seus carros, seu dinheiro, seus fãs, tudo havia desaparecido como num passe de mágica.

Foi nessa fração de segundo que Lisa entendeu que estava vivendo à custa de Vishous, que não era mais independente, dona do seu próprio nariz.

Sequer poderia sair para comprar um sabonete, sem ter que depender de ninguém. No meio desse turbilhão que eram seus pensamentos, no meio do terror de não ser mais quem sempre foi, ela percebeu que se saísse as ruas seria assediada por não estar morta, ou por ser muito parecida com a Diva assassinada brutalmente.

Quem ela era afinal? A pergunta era uma incógnita assustadora, mas ela tinha que descobrir a resposta sozinha. Tinha que começar a mudar, tinha que reagir!

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Notas finais
Era isso que vocês esperavam???!!!
Algumas... acho que não! Sei que gostariam de ver Lisa e Vishous em um grande momento hot de amor e prazer... mas não dá! Não tem clima (pelo menos no meu ponto de vista)
Agora... é a vez de vocês!
Falem, critiquem, dê sugestões e suposições... eu amo muito tudo isso! kkkkkk
beijos.
Fênix