Notas iniciais
Oi meninas,
Aqui estou eu para oferecer mais um capítulo.
Porém antes que leiam preciso falar algo sobre o que está escrito.
Preciso avisar que não será um capítulo de fácil leitura, portanto se alguém se sentir ofendido(a), eu peço desculpas antecipadas pela linguagem, pela frieza, pelo ódio contido. Pela tentativa de desamor!
Quero deixar bem claro que pra mim também não foi fácil escrever, mas na minha visão Vishous sempre foi e sempre será um dominador, ele não se curva... ele é uma força bruta da natureza e como bruta é brutal! Explicando dessa forma, acredito que o entendimento (de parte da cena) fica mais ameno e não tão doentio.
Tomara,
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz.
E que o verdadeiro amor de quem ama
Tece a mesma antiga trama
Que nunca se desfaz!
Vinícius de Moraes
Então, minhas amigas...
Boa leitura!
Fênix

Ao fechar a porta, Vishous foi capaz apenas de dar dois passos. Seus joelhos fraquejaram e ele acabou sobre o piso frio ajoelhado. Fechando as mãos fortemente, transformou-as em punhos, ergueu seu tronco enchendo os pulmões, precisava de ar, abriu os braços e gritou desesperadamente.


\"\"


Um grito demente, um rugido esmagador. As correntes que estavam penduradas e que eram usadas nas sessões de sadomasoquismo balançaram, caindo ao chão. Os vidros que blindavam o interior da cobertura para a sacada só não estilhaçaram porque eram à prova de balas. As cortinas balançaram e os raios solares chegaram a iluminar o local por uma fração de segundo.


Sentia calafrios na pele, sua boca e garganta estavam completamente secas. Seu coração pulsava tão rápido que pulavam batidas.


Dor!


Seus músculos estavam todos esticados, estirados. Seu cérebro nada assimilava e a única coisa que ecoava em seus ouvidos era a pergunta de Lisa.


Gostou de ver o que estava rolando comigo no banheiro do Doublé Seven?


Dor!


Respirava com dificuldade, o ar simplesmente tinha desaparecido do universo. Mas o que mais lhe incomodava era uma enorme consternação dentro do peito.


Sempre conviveu com a facínora e desalmada dor. Dor física em seu corpo pelos maus tratos sofridos no acampamento de seu pai e pelos ferimentos das lutas com a Irmandade. A dor do sexo que praticava e que impunha tão prazerosamente aos seus submissos e que eles tanto adoravam. A dor psicológica que cultivava em forma de culpa por pensar em Butch como um amante e não somente como um amigo e também por se sentir incompleto, castrado e acreditar nas duras palavras de Bloodletter que sempre o chamava de fraco.


Dor!


Mas aquilo que sentia era pungente, desagradável... doloroso. Não, desagradável era pouco. Era nada.


Só havia um jeito de definir o que se passava com ele. Vishous estava morto em vida. Estava dilacerado. A intensidade da ferida aberta e pulsante em seu ser era horrível, desolante, aguda e disforme.


Não era ele que habitava nele próprio. Ele tinha se perdido pelo meio de seus trezentos anos em algum ponto que... não, não era isso. Era mais profundo que isso.


Ele não se permitiu viver. Criou um invólucro e depois o blindou incrivelmente contra tudo e todos. Era assim que vivia e que se sentia seguro e poderoso. Ninguém podia tocá-lo se não permitisse, ninguém o desrespeitava senão sofreria as consequências, ninguém o ofendia senão acabava morto, ninguém o amava porque ele não deixava ninguém entrar.


Mas Lisa conseguiu. O Pólo Norte finalmente estava descongelando, as geleiras derretendo, os icebergs desaparecendo.


Dor!


Um enorme calor afrontou seu rosto, seus olhos apresentavam uma sensação de areia, ardendo e queimando. Ele piscou tentando se livrar do incômodo e então pesadas lágrimas começaram a correr por sua face. Mas Vishous nunca chorava. Ele nunca chorou, mesmo durante ou depois do que passou no terrível acampamento de seu pai. Seguiu firme honrando seu código de conduta. Se tornou forte, vigoroso, destemido, dominador.


Porém naquela bela manhã de sol no verão de Nova York esse blá-blá-blá não servia para porra nenhuma e ele desmoronou. A sua muralha interior tão bem construída, impenetrável, tinha ruído. A mulher que ele amava... ele tinha destruído e pior... transformou-se numa versão feminina dele.


Levou uma das mãos ao rosto para se certificar de que realmente eram lágrimas. Não podia acreditar... ele estava chorando. E quanto mais tentava secá-las passando a mão pelo seu rosto, mais elas teimavam em cair e molhar sua face.


Do outro lado da porta, no banheiro, Lisa levantou das lajotas frias e entrou no Box. O banho levou mais de vinte minutos. Lavou seus cabelos em ritmo lento aproveitando o perfume do xampu e também do sabonete sobre o seu corpo. Despediu-se do cheiro, foi se desapegando da fragrância lentamente. Apesar de serem de primeira qualidade e de marcas famosas nunca mais compraria quaisquer produtos ligados a elas.


Tal atitude manteria a lembrança de Vishous enterrada. Como um ritual imaginou toda a sua vida sendo colocada dentro de um caixão, depois ela mesma apertou solitariamente cada uma de suas travas e o lacrou. Esperou que ele baixasse na vala escura e que a terra o engolisse por completo.


Terminou o sepultamento exatamente quando fechou o chuveiro. Nunca mais imploraria por Vishous ou qualquer coisa que viesse dele. O ciclo havia se consumado.


Secou e depois enrolou ao corpo a macia toalha preta felpuda. Não sentia medo, ansiedade, angústia, remorso ou vergonha.


Lisa não sentia absolutamente nada. Estava transformada quando abriu a porta.


O “quarto” estava iluminado somente pelas chamas de algumas velas, o que deixava o ambiente menos escuro. Frio como se fosse inverno, ela percebeu nitidamente o choque térmico.


Passou direto pela cama e por Vishous que estava sentado sobre os lençóis com seus cotovelos apoiados sobre os joelhos, cabeça baixa sustentadas pelas mãos, seus cabelos caiam sobre o rosto deixando-o encoberto.


Analisou o ambiente como se resolvesse um problema de Física, mas não precisou calcular muito. Conhecia o lugar de seus sonhos. Parou de andar quando chegou à frente da mesa e tocou em uma faixa de couro que servia para prender tornozelos ou pulsos... dependendo da posição que era colocado o submisso. Olhou para as correntes, máscaras e mordaças que estavam na parede atrás dela minuciosamente.


– Parece uma caverna ou seria um covil? Como você chama este lugar?


Não houve resposta. Ela prosseguiu com a voz calma e fria.


– Talvez o prazer encontrado nesta mesa de madeira compense a dor física.


Caminhou até chegar ao armário e aos acessórios pendurados. Estendeu as mãos e pegou uma máscara, onde só o nariz e a boca ficavam expostos e também uma corrente. Era mais pesada do que Lisa imaginava.


– Eu nunca experimentei esse tipo de sexo. Talvez eu devesse começar.


Ela fez menção de vestir a máscara.


– Não faça isso! Vishous olhou para Lisa irritado com a atitude, mas ela desviou o olhar.


– Por que não?... Claro... você não deve ter paciência com novatas. Mas será que não pode abrir uma exceção pra mim?


Ele fechou os olhos e as mãos. Cada palavra que saia da boca de Lisa representava um golpe de suas adagas afiadas em seu peito.


Dor!


– Ahhh... qual é? Na cama nós somos demais. Gosto do jeito que trepamos, gosto de sentir seu pau e estou procurando por sexo desde ontem à noite. Já que você não deixou que eu me divertisse com meus amigos, nada mais justo do que me compensar – Lisa ouviu quando V. rosnou – Então que tal se começar a tirar as calças enquanto subo nesta mesa?


Deu três tapinhas na madeira e depois com um impulso colocou-se sentada. Como ele não se moveu ela engoliu em seco, pensando que provavelmente V. estaria chegando ao seu limite. Ótimo era isso que queria presenciar.


– A propósito, você não respondeu a minha pergunta.


Finalmente os olhares se encontraram. Ele a olhou como se fosse consumi-la por completo, devorá-la. E como a situação era uma queda de braço Lisa sustentou o olhar e continuou atiçando, provocando, inflamando a ira em Vishous.


– Gostou de me olhar ontem à noite? Gostou de me ver no meio de dois homens?


O poderoso odor da vinculação tomou toda a cobertura.



– Alguém pode me dizer por que Vishous ainda não está aqui?


Disse Wrath extremamente nervoso no meio de seus Irmãos. Odiava ficar esperando pela presença de todos antes das reuniões da Irmandade em seu escritório.


– Merda, a mancada foi minha...


– O que foi desta vez, Butch?


– Ele ligou logo depois que chegamos. Disse que ficaria na cobertura.


– Mas o combinado foi que ele viria para cá com Lisa. Porque mudou de idéia?


– Cara, se ele não fala com você que é o Rei. Acha que ele vai me dar explicações?


– Esse filho da puta está enlouquecendo por causa de uma mulher e quer levar todos nós para passar um tempo com ele no sanatório.


– Pode me responder qual de nós não pirou por causa de nossas shellans? Perguntou Zsadist.


Todos os Irmãos se viraram para olhar para Z. Hollywood foi o primeiro que começou a rir... alguns segundos depois todos caíram em gargalhadas, inclusive o Rei. Falavam ao mesmo tempo, um citando as loucuras do outro.


– É verdade e esse seu lado humorístico... cada vez mais presente, não é Z.? Falou Wrath.


– Agradeça a Bella por isso meu Senhor.


– Amém! – Alguém pigarreou ao fundo.


– Muito bem. Agora vamos parar com a palhaçada que o assunto é sério. Hoje à noite vamos ao Zero Sum encontrar com a tal feiticeira, Évora.


– Já falou com V. sobre isso?


– Não Phury. E enquanto não soubermos do que se trata ninguém fala com ele – Wrath colocou seu olhar em cima de Butch – Entendeu?


– Você é quem manda chefe. Respondeu o tira prontamente.


– Z. e Raghe vão comigo, Phury e Butch para as ruas, Vishous está de folga. O cara precisa de um pouco de espaço depois de ontem a noite.


– Então o negócio foi feio?


– Pior do que você pode imaginar Raghe.


– Ainda acho que deveria levar toda a Irmandade com você ao Zero Sum.


Mais uma vez todos se viraram para Zsadist.


– Já disse que não é necessário e acredito que a conversa não vai durar muito.


– Outra razão para que todos possam ir, já que estaremos nas ruas rapidamente – Argumentou Z. com clareza.


– Qual é Z.? Está querendo me irritar ou me desobedecer?


– Sua segurança vem em primeiro lugar.


– Nisso eu concordo. Falou Butch


– Eu também. Acrescentou Phury.


– Então meu Senhor, uma ou duas horas a mais não vão fazer diferença. Permita a presença de todos e...


– Não venha com essa voz macia pra cima de mim Raghe. Isso só funciona com sua shellan.


Wrath olhou para eles e sorriu ao pensar como seus Guerreiros eram fiéis.


– Está bem, iremos todos com exceção de Vishous. Ele continua fora disso.


Houve um pequeno estardalhaço de vozes ecoando juntas e satisfeitas.



O celular de Lisa tocou exatamente no momento que não podia tocar. Vishous fervia por dentro sentado naquela cama, Lisa permanecia inalterada sentada naquela mesa.


Ele contendo o desequilíbrio, ela liberando sua renúncia, seu descaso.


O telefone parou... para recomeçar logo em seguida.


– Não vai atender?


A voz dele era mortificante. Soava como se estivesse partida,quebrada.


– Provavelmente não é nada importante.


– Eu liguei para sua casa, falei com Anne. Avisei que você estava comigo.


– Quer que eu lhe agradeça por isso?


– Lisa...


– Obrigado. Você realmente foi muito prestativo.


Ele resmungou.


– Então... você gostou do que viu?


– O que você acha? – Desta vez a voz dele saiu exigente, dura, como um rosnado.


– Não? Não gostou de mim ou dos tipos que eu escolhi?


– É melhor parar Lisa, porque estou enlouquecendo.


Ela sorriu.


– Até que um deles tinha a boca bem macia.


Como uma erupção vulcânica Vishous explodiu. Deixando todas as regras de lado ele se colocou na frente dela agarrando-a pelos braços puxando-a contra si até que seus rostos quase se tocaram. Ele mostrou as presas enfurecido, possesso, enquanto impunha a sua força.


– Você é minha! Somente minha!- Ele a chacoalhou como se quisesse que ela acordasse de um transe – Macho algum jamais tocará em você intimamente a partir desse maldito segundo. Eu só não matei aqueles dois filhos da puta porque Wrath me impediu, mas tenho certeza que eles devem estar sentindo muita dor. Se houver uma próxima vez lutarei com meu Rei se for preciso e matarei tudo e todos que se colocarem no meu caminho. E você verá seus amantes sendo mortos de maneira cruel e angustiante.


Ele falava cada vez mais baixo e com a voz mais grave. Muito irritado, precisando desesperadamente de um de seus cigarros e com a visão em seu cérebro de Lisa naquele banheiro, Vishous era a figura perfeita e mortal de um animal enjaulado e muito perigoso. Como um típico macho vinculado encontrava-se insano para penetrá-la. Seu membro estava tão duro contra o couro da calça tremendamente apertada que chegava a doer. Sem sombra de dúvida estava perdendo o controle e Lisa só com uma toalha enrolada ao corpo não contribuía para a melhora da situação.


Equilíbrio... tenha equilíbrio! Pensou ele.


Continue... teste a resistência, faça-o perder a razão, o juízo! Pensou ela.


– Porque me trouxe para cá? Porque foi atrás de mim? Achou que eu ficaria lhe esperando eternamente?


Ela o queria sofrendo, no chão.


– Você foi embora. Fez aquele estúpido juramento para Raghe e... – V. franziu a testa, quase juntando as sobrancelhas – Como pôde imaginar que eu concordaria com tal insanidade?


– Ah... por favor vamos retornar a isso? Lisa rebateu com menosprezo.


– Deveria ter me contato o que esta pensando, deveria ter compartilhado o que sentia.


– E você? Compartilha? A não ser que no seu ponto de vista compartilhar seja invadir o meu quarto no final da noite e ficar sentado me olhando. Não percebeu o meu estado, a minha dor?


Lisa fechou os olhos e tentou afastá-lo debatendo-se, mas nada adiantou. Parecia que um muro estava segurando seu corpo. Sentada naquela mesa com ele a sua frente encontrava-se praticamente imobilizada e totalmente dominada.


– Não adianta se debater, só sairá quando eu permitir. – Sussurrou ele em seu ouvido.


– Afinal, o que quer de mim? – Perguntou ela com toda a fúria.


– Quero cuidar de você.


– Não preciso dos seus cuidados, já faz tempo que sei me cuidar...


– Você não sabe nada. – Disse ele guturalmente – Se eu não tivesse aparecido naquela boate provavelmente teria uma overdose junto com aqueles dois fudidos.


– Acha que me salvou? Acha que é meu príncipe encantado? – Ela riu debochadamente – Qual é? Só me encontrou na boate porque com Paul, o cara com quem eu realmente queria trepar... não rolou. Caso contrário, eu nem estaria mais naquele lugar. Estaria na casa dele, na cama dele, sendo possuída por alguém que realmente se importa comigo.


Lisa cuspiu as palavras no rosto de Vishous e ele estremeceu dando alguns passos para trás, afastando-se. Definitivamente estava perdendo-a.


– Vou embora, onde estão minhas roupas?


– Não vai a lugar algum sem escutar tudo que eu tenho para lhe dizer.


Lisa abriu a porta de saída com a mente.


Surpreso, mas sem hesitar ele devolveu o truque. Trancando-a em seguida.


Novamente ela abriu e correu para a saída.


Ele a pegou e com um único golpe jogou-a violentamente contra a parede, colocando algemas de aço em seus pulsos. Lisa gritou. Vishous fingiu não ouvir. Puxou-a com força com apenas uma de suas mãos, praticamente arrastando-a pelo piso negro. Não levando em conta o quanto ela se debatia.


– Você tem razão. – Ele continuou andando – Não tenho paciência com iniciantes, geralmente não aguentam o que faço com elas e choram, mas já que você está tão ansiosa para foder com a sua vida de vez. Vou lhe proporcionar o que me pediu.


Passou direto pela mesa de trabalho e pegando a corrente que ela mesma tinha escolhido jogou-a para cima conectando-a perfeitamente a um grande gancho fixado no teto do apartamento. Depois disso, passou a outra ponta da corrente pelo meio das algemas nos pulsos de Lisa e travou tudo com um mosquetão.


O passo seguinte foi puxar a corrente estirando-a até ao ponto de deixar Lisa com os braços esticados totalmente para cima e os pés ligeiramente levantados.


Ela o olhava com tanto ódio que os objetos começaram a vibrar, sacudir. Exatamente igual ao dia que tudo havia sido queimado no quarto da mansão.


Percebendo a energia que se formava, V. tirou a luva e sua mão brilhante agarrou o pescoço de Lisa, mas não apertou. Pelo contrário, ele deslizou os dedos suavemente pela jugular lembrando-se de quando a mordeu. Sua ereção pulsou.


– Seu truque não funciona comigo, fêmea. Se você é a Feiticeira do Fogo, então eu sou o próprio fogo.


A forte energia se dissipou somente com o toque dele.


– Eu estudei, fiz o dever de casa. O Guerreiro da Luz sou eu, Lisa. Se posso curar seus machucados físicos, então também posso curar sua alma. E se posso fazer isso, posso dominar você e no que vai se transformar.


Ela não se permitiu lutar, sequer emitiu um pedido de soltura, ficou estática. Sabia que ele não cederia. Agora se encontrava no mundo dele e não tinha como voltar. A única coisa que podia fazer era continuar sustentando seu olhar raivoso e ofendê-lo com palavras.


– Você não é nada pra mim.


Foi a vez dele, rir sarcasticamente.


– Olhe para o chão e cale essa maldita boca. Submissas não falam, só obedecem.


– Eu não sou...


Olhos no chão. – Gritou V. duramente.


Lisa se assombrou com o momento. Vishous tinha o rosto cruel, impassível. Suas tatuagens pareciam sinistras e as coisas pioraram quando ele pegou a máscara que ela havia largado em cima da mesa.


– Se não pode manter os olhos onde eu mandei, então não verá nada e se pronunciar a porra de uma única palavra, colocarei uma mordaça em sua boca. Portanto, vá em frente, fêmea! Me dê um motivo para fazer exatamente isso... é assim que eu gosto, é assim que fico cada vez mais exitado.


Quando ele terminou de colocar a máscara, só a boca e o nariz ficaram visíveis, os longos cabelos sumiram encobertos também pelo couro. V. foi minucioso e era essa a intenção, quanto menos identidade melhor, se não tivesse contato visual com aqueles olhos azuis esverdeados poderia ter a ilusão de ser outra qualquer e a pratica da dominação sairia perfeita. Prazerosa e ofensiva.


Na total escuridão, no breu angustiante Lisa se questionava como duas pessoas podiam se afundar por completo no limo de suas almas corrompidas e deturpadas... um puxando o outro cada vez mais para baixo, para o fundo do poço onde seus demônios interiores ensandecidos e famintos os devorariam mansamente aproveitando o banquete repugnante.


O barulho de um chicote zuniu no ar e explodiu ao lado dela, na mesa de trabalho. Isso significava que...


Deus... ele teria coragem?... Ela forçou seu cérebro a parar com tais indagações porque sabia que tinha instigado Vishous a chegar tal a ponto.


Novamente o chicote zuniu e com um puxão a toalha enrolada em seu corpo foi retirada. Lisa estremeceu e reprimiu a enorme vontade de gritar.


Ele vai fazer, vai me chicotear.


Seu esforço por controle ruiu, sua respiração disparou uniforme, parecia não haver ar suficiente para encher seus pulmões. Seu peito subia e descia rapidamente enquanto esperava pela primeira chibatada. Queria implorar para que V. não a machucasse, mas a ordem dada era para não pronunciar nenhuma palavra e apesar de estar sem a mordaça, como uma boa menina ela lutava para obedecer bravamente.


Esperou enquanto um silêncio profundo se espalhava como um nevoeiro espesso, crescia como erva daninha. A expectativa do ato era infame.


Um minuto... Silêncio.



Dois... três... quatro... cinco... seis... sete... sete minutos em companhia de seus fantasmas execráveis, na total ausência de luz, na completa solidão.



Com a musculatura contraída, percebeu quando Vishous caminhou para perto. Agora se encontrava parado à sua frente. O ar que emanava por respirar, lixava a pele de Lisa. Tão junto, tão próximo que podia sentir o calor que ardia no corpo dele.


– Vamos começar.


V. escorregou a ponta do chicote de couro pela extensão de toda a coluna vertebral, ela pulou... Serpenteou pelas costas até chegar ao belo traseiro, a tensão era visível e a intensidade só aumentava enquanto ela fazia uma força descomunal para ficar calada... Desceu pelas coxas e subiu lentamente até tocar sua vagina... parou.


Silêncio mortal.


– Eu sinto muito – Disse ele devagar em voz baixa totalmente controlada – Sinto não ser uma pessoa sociável, de fácil trato. Sinto por não gostar de humanos. Sinto por tê-la atacado e machucado. Sinto pelo meu temperamento destrutivo e pela minha frieza. Sinto por todo o desprezo e por dizer aquelas palavras sobre dinheiro, quando foi embora, na frente de todos os meus Irmãos e suas shellans.


Deixando de sustentar a cabeça e também o corpo, Lisa cedeu deixando todo o peso em seus braços esticados e sua respiração que já estava difícil atingiu outro ritmo. Ela não esperava por desculpas, ela esperava por... Dor!


Sinto por minha teimosia. Sinto ter ido a sua casa e não acordá-la para dizer que não era preciso beber ou se drogar, porque eu estava ali... e nunca deixaria de estar.


Soluços de um choro emocionado preencheram o lugar enquanto V. soltava as correntes e abria as algemas, suportando em seus braços o peso frágil do corpo de Lisa.


– Sinto tanto por não ser normal, por não saber usar as palavras, por não expressar meus sentimentos, por não saber como lidar com um relacionamento... – Desabafou, enquanto lhe tirava a máscara do rosto.


Quando enfim seus olhares se encontraram fixos um no outro, eles entenderam que ambos sofriam do mesmo mal: Abandono!


Nenhum dos dois tinha força suficiente para sair do local onde estavam. Como se os joelhos tivessem vontade própria eles se dobraram e Vishous acabou sentado ao chão com Lisa aconchegada sobre as suas pernas e apoiada em seu largo peito. Abraçando-a ele se sentiu com um tesouro inestimável em suas mãos.


Ela tentou dizer algo, mas o choro incessante não permitiu. Porém isso não importava. O que realmente importava é que Vishous continuou falando tudo que sentia.


– Não sei porquê alimentei tanto sofrimento, nem explicar o ódio que meu pai sentia por mim e nem o fato da minha mãe nunca ter interferido, mas agora eu sei que preciso deixar tudo isso no passado e seguir em frente... por mim, por nós. Droga... eu não suportaria perder você. Eu não posso perder você, Lisa. Você é tudo pra mim, é o meu mundo!


Ele afastou gentilmente o rosto dela do seu peito e enxugou as lágrimas com seus dedos, depois sustentou seu queixo e seu olhar cintilante penetrou naquele olhar molhado.


– Amo você Lisa Hendrix. Sou um perfeito idiota, frio e masoquista que não tem a mínima idéia de como lidar com esse sentimento e muito menos com a vinculação. Mas eu amo você e se ainda me quiser, se achar que podemos tentar, se me ensinar a amar, eu...


– A boca dele... a boca dele não era macia. – A frase saiu impregnada de uma verdade extrema, soando como um pedido de perdão – E em todos... eu procurei por você.


Vishous ficou imóvel e agora ambos choravam. Não havia barreiras, nem muralhas, sequer uma cerca. Apenas um homem e uma mulher... um macho e uma fêmea, expostos, libertos das amarras, das masmorras que eram suas vidas rançosas e amarguradas. Agarrou-se a Lisa apertando-a fortemente.


– Eu sei lellan.


– Não, você não sabe – Lisa balançava a cabeça em negativa sem parar – Eu preciso dizer que aqueles caras... eles não são nada... anônimos... só sexo... Merda, estou piorando tudo.


Ele tentou esboçar um leve sorriso, para contornar a gravidade da situação e consolá-la, mas não funcionou.


– Eu pensei que a mistura de drogas e sexo sem compromisso me fariam esquecer você por alguns minutos – Lisa baixou seu olhar em direção ao chão – Deus... eu queria que a dor da sua ausência parasse de queimar.


– Por esse motivo fui ao seu encontro todas as noites. Não suportava sua ausência e a culpa por tudo isso é minha...


Ouvindo a tristeza das palavras que V. pronunciava tudo ficou claro. Lisa aproximou tanto a sua boca que quase tocou a dele e murmurou em seu ouvido.


– Possua-me Vishous. – Ela baixou as mãos pelo corpo dele e acariciou seu pênis, fazendo-o enrijecer instantaneamente – Faça amor comigo, quero você em mim... quero você em meu corpo.


A cabeça de Vishous foi jogada para trás e o rugido poderoso do macho vinculado ecoou pelo apartamento. Não precisou pedir duas vezes.


– É uma... ótima idéia — Ele silvou.


Com um grande impulso e como se Lisa não pesasse absolutamente nada V. a ergueu do chão, tomou-a em seus braços e a levou para sua enorme cama.


Notas finais
Vishous é o mais inteligente dos Irmãos, um verdadeiro nerd, fala dezesseis idomas!!!
Será que desta vez ele finalmente entendeu a lógica do amor?
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria!
Comentem, falem tudo... mesmo que não tenham gostado, mesmo que sejam críticas.
Espero que eu não tenha desapontado a nenhuma de vocês.
Aguardarei desta vez muuuito, mas muito mais ansiosa do que das outras vezes pela opinião de todas.
Um grande beijo e bom feriado!
Fênix