Traga-me Para A Vida
22 Capítulo 21
Notas iniciais
Agradecer é pouco pra todas vocês.
Simplesmente porque vocês são fiéis, animadas, divertidas, companheiras, cúmplices, parceiras, amigas, coautoras, seguidoras, aliadas, entusiastas e o mais importante SOFREM comigo a cada capítulo que escrevo.
Obrigada!
Então... não me matem pelo que vem por aí. Tenham compaixão!!!! Ahahahahah
Agora vou deixar vocês sozinhas com as palavras e as emoções.
Beijos.
O Audi preto seguia pela Rota 22 deslizando seus pneus no asfalto macio convidando o motorista a pisar fundo e sentir sua potência, mas Lassiter dirigia como se estivesse passeando e aproveitando a maravilhosa manhã de sol.
– Mary você está bem? Eu sinto tanto por tudo que aconteceu.
Lisa virou-se para trás, estava sentada no banco da frente ao lado do anjo.
– Não. Não estou nada bem, nunca imaginei um dia...
– Quer que eu dê meia volta?
– Não – Ela colocou sua mão em cima do ombro de Lassiter – Se eu voltar agora, tudo continuará do mesmo jeito. E eu não sou a única nesse carro que está sofrendo, então serei forte.
Seu olhar encontrou com o de Lisa firmemente.
– Não venha comparar o meu caso com o seu. Você é a companheira, a shellan de Raghe. Eu sou, fui... tudo foi uma grande ilusão. Erros em cima de erros.
– Esse é o ponto, Lisa. Pensando dessa forma não posso voltar mesmo. Porque eu tenho um compromisso com meu hellren, uma cumplicidade. E ele não está me dando à mesma coisa em troca.
– Jesus Cristo... Mary, não foi isso que eu quis dizer. Você é mais importante do que eu, não percebe? Eu ocupei a cama de Vishous por um dia, algumas horas e nada mais. Vocês têm uma história.
– Exatamente. É por esse motivo que eu mereço mais consideração de Raghe. Em um relacionamento ambos precisam ceder e ultimamente só eu tenho cedido. Não é justo e não me sinto bem vivendo dessa maneira. Se eu não puder ficar na sua casa...
– Pode parar, nem ouse terminar a frase. Ficará o tempo que for necessário e eu tenho certeza que será uma estádia breve. Raghe irá buscá-la.
– Ahhhhh... o amor. Eu adoro histórias de amor é por isso que vejo tanta televisão.
As palavras proferidas por Lassiter tinham o objetivo de desviar o assunto e alegrar, ou melhor, distrair.
– Eu também, quando as histórias acabam com final feliz.
– Quem mandou não escolher direito. Vishous é um porre, ele é chato e arrogante. Quase sempre está de mau humor e também é metido a inteligente.
Dizendo isso ele virou o rosto para Lisa e piscou, exibindo um divertido sorriso. Ela não se conteve e socou de leve o braço do anjo.
– Sua opinião não é válida – Mary riu no banco de trás – Vocês não se dão muito bem e sim... ele é inteligente. E você reconhece a inteligência dele que eu sei.
– Talvez.
– Isso é o que eu chamo de opinião formada. O que rola entre vocês? Perguntou Lisa.
– Foi há muito tempo atrás e remexer no passado não é uma boa idéia.
– É segredo?
– O negócio é o seguinte: no começo éramos inimigos, depois eu salvei a vida de Wrath e Vishous salvou a minha. Agora conseguimos trocar algumas palavras, mas isso não quer dizer que mudo minha opinião sobre você ter escolhido mal – Novamente ele exibiu aquele sorriso divertido – Eu preciso do sol para viver e seu Guerreiro é muito frio. Então a convivência fica difícil.
O semblante de Lisa mudou, entristeceu. Apesar das brincadeiras o anjo tinha razão e o pior ela sabia que tinha deixado a mansão diferente, pela razão errada ela também estava fria.
– Nisso você tem razão. Tínhamos um relacionamento péssimo.
– Se fosse péssimo vocês não estariam apaixonados. E não tente negar, está estampado na sua cara. Parece até que carrega uma placa de néon com a frase piscando: Amo Vishous, Amo Vishous. E quanto a ele... V. não estragaria a Última Refeição da Irmandade e principalmente a de Wrath com toda aquela cena se também não estivesse. Ele é só razão! Expor seus sentimentos assim e de maneira desordenada como fez a pouco deve estar lhe custando horas pensativas de “porque” além de enxaquecas assombrosas. Vai por mim.
– Nossa, ouvindo você falar parece tudo tão fácil.
– É fácil, só leva tempo... para as duas. Escutou Mary?
– Sim, mas...
– Qual é? Aquele vampiro não vai aguentar ficar muito tempo longe de você. Do jeito que ele é há essa hora deve estar chorando em algum lugar da mansão.
– Você não está me ajudando Lassiter.
Mary estava com os olhos marejados, suas mãos tremiam e ela se agarrava com unhas e dentes nas palavras de Lassiter. Ela realmente queria que Raghe não suportasse sua ausência, que não a esquecesse.
– Ok, agora é a sua vez – Disse Lisa fitando-o enigmaticamente.
– Minha vez?
– Sim. Onde ela está?
– Quem?
– Por favor, Lassiter não nos menospreze. Estamos falando de amor, então quero saber onde está a sua amada?
Ele não respondeu, apenas concentrou-se na estrada e continuou dirigindo como se a pergunta não houvesse ocorrido.
– Lassiter?
– Pensei que você pudesse ver “algumas coisas” do passado, Lisa.
– Não consigo ver nada sobre você. Só uma enorme escuridão.
– Não falo sobre ela – Sua voz saiu baixa e séria – Ela está desaparecida.
– Dezessete... dezoito... dezenove... vinte!
Raghe malhava na academia levantando cento e oitenta quilos, as sessões já haviam terminado, mas ele fazia mais uma e mais uma e mais uma, tentando chegar ao esgotamento. Tinha passado as duas últimas horas na esteira correndo e aquilo também não tinha resolvido nada. E o esforço físico se misturava as lágrimas que teimavam em correr e ele agradeceu aos Céus por seus Irmãos não estarem utilizando o centro de treinamento e não haver aula para os petrans.
Como tinham chegado àquele ponto? Raghe fez uma careta involuntária. Deus... seu coração, sua doce e bela Mary tinha partido. Ele fechou os olhos, preso entre a procura pelo cansaço físico e a angústia de perdê-la para sempre. Seu peito doía e teve a nítida sensação de que um enorme buraco negro instalava-se em seu coração.
Ele se sentia tão culpado e então lembrou-se da noite em que ainda não há tinha possuído, anos atrás. Mary estava em seu quarto e ele totalmente descontrolado. Era fim de noite, ele voltou da luta e também do sexo anônimo com as mulheres no One Eye.
Ela sabia o que ele tinha feito, ela queria ir embora. Estava totalmente dividida... mas apesar da monstruosidade que Raghe havia lhe proporcionado, depois de uma explosão de fúria por parte de Mary eles se amaram e se entregaram e depois a vida deles havia começado e por fim a Virgem Escriba lhe concedeu a dádiva de tê-la para sempre... sempre...
As palavras da Criadora da sua raça, da Força Mística Conselheira de se Rei ecoaram em seu cérebro nitidamente, ela falava com Mary:
... sinto uma profunda tristeza por você jamais vir a ter a oportunidade de carregar nos braços a carne de sua carne, ver seus próprios olhos no rosto de outra pessoa, de misturar sua essência com a do macho que você ama...
Raghe fechou os olhos em agonia e para piorar a vontade de chorar era maior que ele.
As pesadas portas se escancararam e Vishous entrou vestindo tênis de corrida e uma calça de moleton. O macho estancou ao ver Hollywood deitado sobre a prancha e...
– Merda!
Raghe deixou cair os braços num gesto passivo.
– Fique Vishous. Eu saio.
V. não demonstrou emoção alguma só ficou olhando.
– Ou talvez você queira ir para o tatame?
Raghe se levantou e lentamente se dirigiu para o tapete azul do outro lado da sala. Finalmente as coisas seriam acertadas e ele podia sentir o humor de V., agressivo e mortal.
– Você vem ou vai ficar aí parado como uma estátua?
O golpe rápido e preciso de um segundo para o outro arremessou Raghe contra a parede. Acertado com uma voadora na altura do peito ele pode ouvir o quebrar de algumas costelas, mas a dor proporcionada não podia ser comparada ao que causara a Vishous.
Na realidade ele esperava por isso. Levantou-se e voltou para o tatame se posicionando em frente à V para o próximo “round”. O soco acertou-lhe o queixo jogando-o ao chão novamente. A força e o ódio contido nos ataques era algo desvairado e monstruoso.
Há quanto tempo lutavam juntos? Décadas? Mais de um século provavelmente. O que ele tinha feito? Vishous sempre foi o reservado e em parte isso se dava pela reputação criada dentro da raça. V. era o que era e possuía uma lista infinita de pessoas dispostas a lhe dar o que ele exigia, todos sabiam que sexo com ele era coisa pesada, apesar de nunca terem perguntado todos sabiam, ou pelo menos imaginavam, o que se passava naquela cobertura, tudo consensual, mas nunca... nunca pessoal.
Vishous não lidava bem com relacionamentos ou emoções. O cara era um gênio em frente aos computadores e brinquedinhos eletrônicos. Porém quando precisava expressar algum tipo de sentimento parecia carregar um interruptor dentro da sua alma que permanecia sempre no “desligado”.
Então apareceu Lisa que no meio daquele inferno gelado acendeu uma fogueira. Antes de se levantar Raghe cuspiu um coágulo de sangue no chão e mais uma vez ele se posicionou no tatame.
– Não vai lutar? Com um humor horrível V. rosnou a pergunta.
– Não, meu Irmão e se eu estivesse no seu lugar, arrancaria essa maldita luva da mão e terminaria logo o serviço. Sou culpado por tudo que aconteceu. Além de destruir com a minha vida afastando Mary para fora dela, eu ainda... empurrei Lisa junto. De jeito nenhum vou atacar ou lutar com você. Se eu fizesse isso ultrapassaria limites que jamais poderiam ser perdoados, se bem, que acredito que já os ultrapassei. Se eu perdesse Mary por sua causa provavelmente já o teria matado. A única paz que conheci foi ao lado dela e com o meu egoísmo não permiti isso a você, não lhe dei qualquer chance.
Vishous estava preparado para outro golpe, então balançou a cabeça e começou a praguejar.
Dane-se, pensou ele antes de aproximar totalmente seu rosto com o de Raghe, seus narizes praticamente se tocavam e ele viu quando as lágrimas molharam o rosto do Guerreiro. Sua voz saiu tão baixa que mesmo que houvesse mais alguém naquela sala não poderia ouvir o que estava sendo dito.
– Você não é o único culpado.
– Não diga isso. Eu sou, eu estraguei tudo.
Raghe fechou os olhos e permitiu que seu corpo se dobrasse até que terminou sentado em cima do tatame.
– Eu errei e talvez Wrath também tenha errado – Seus olhos se mantinham fixos no chão – Deveríamos ter conversado com Lisa quando você estivesse presente, afinal está vinculado a ela e nós não o respeitamos.
Aquele era Hollywood, pensou V. O cara que ele gostava e que já havia sofrido tanto por causa de sua maldição. O Guerreiro que chorava e sempre demonstrava seus sentimentos. Alegria, tristeza, raiva, as emoções eram nítidas e agora Raghe estava demonstrando todo o seu arrependimento.
V. passou a mão pelos cabelos jogando-os para trás. Suas tatuagens ficaram expostas e ele sentou-se ao lado de seu Irmão.
– Pode me contar o que aconteceu? O juramento?
– É o mínimo que posso fazer.
Enquanto Raghe contava e descrevia minuciosamente passo a passo o que tinha acontecido no jardim Vishous se esforçava em aceitar a atitude de Lisa. Ela foi embora para proteger sua raça, ela tinha medo da maldição que carregava e do que estava se tornando.
Seu peito bombeava sobre uma pressão descomunal, tinha os braços parcialmente dormentes e seu cérebro parecia não obedecer aos comandos sensatos e práticos que a sua razão teimava em emitir.
Desejou que tudo tivesse ocorrido diferente. De estar naquele jardim, de ter apoiado a escolha de Lisa e de ter ido embora com ela... mas que merda de pensamento é esse?
Sua raça estava em grandes apuros, ameaçada. Uma pobre fêmea tinha sido torturada até a morte e ele sentado ali, ao lado de Raghe... No entanto, era só isso que Vishous tinha forças para fazer.
Nunca antes havia passado por tal situação, sequer imaginado. Como uma mulher conseguiu virar sua vida de um dia para o outro e porque justo ela carregaria o fardo de ser uma mestiça feiticeira?
– Eu mereço passar pelo que estou passando Vishous, mas você...
– Se serve de consolo, ambos merecemos – Sua voz saiu triste e amarga.
– Pensei ter perdido Mary uma vez, não sei se consigo passar por isso de novo.
– Vá atrás dela. Vá buscar sua fêmea, Irmão.
– E você ainda me chama de Irmão.
– Todos cometem erros, quer que eu enumere os meus? Pode levar dias e sua bunda ficaria quadrada em cima desse tatame.
– Me perdoe Vishous – A voz de Raghe saiu embargada – e assim como fiz um juramento a Lisa, faço agora outro a você. Juro por minha honra que farei o possível e o impossível para...
Vishous olhou para o macho sentado ao seu lado que se encontrava totalmente destruído. Não havia o que negar ele tinha valor e... droga... era seu camarada. Colocou sua mão enluvada no ombro de Raghe e apertou fortemente como se estivesse aceitando o juramento.
– Obrigado, meu Irmão.
Raghe não disse nada. Somente encostou sua cabeça no ombro de V. e chorou não se preocupando em esconder sua dor.
Quase uma hora depois Lisa avistou os muros de sua casa, completamente forrados com diferentes tipos de trepadeiras de folhas pequeninas e que proporcionam além de uma cobertura verde exuberante a presença de inúmeras borboletas coloridas. No meio de um turbilhão de emoções ela sentiu um bálsamo ao ver tamanha beleza.
O carro parou em frente aos portões de ferro onde um porteiro eletrônico esperava passivamente o código de segurança ser digitado para permitir a passagem.
– Lassiter, o código é 23452345.
– Mas que porra é essa? Não tinha um mais fácil? Vai trocar assim que entrarmos.
– Está me dando ordens?
– Quando se tratar de segurança, sim, sempre. Além é claro, que Vishous não me perdoaria se eu deixasse passar um código infantil como esse.
– E por falar em Vishous, nesse exato momento você está muito parecido com ele. Mandão.
– Talvez, mas sempre serei o mais charmoso.
Rindo Lassiter acelerou, cruzando os portões e adentrando a residência.
Nick e Anne corriam em direção ao carro. Ele com uma expressão preocupada. Ela com um sorriso enorme de felicidade, enquanto balançava as mãos acenando sem parar.
Lisa não teve tempo de abrir a porta e sair do automóvel calmamente. Anne jogou-se em cima dela abraçando-a.
– Graças a Deus, está de volta. Senti tanto sua falta.
– Eu também. Disse Lisa retribuindo o carinho.
Logo atrás parado, Nick analisava o homem alto de cabelos estilo anos 80 que vestia calça camuflada com camiseta preta colada ao corpo e coturnos. Notou que pela postura sabia lutar, provavelmente era um “amiguinho” do sujeito arrogante que havia lhe feito uma visita noites atrás.
– Quem é ele? Perguntou secamente.
Avançando na direção de Nick e o abraçando calorosamente Lisa percebeu a preocupação do amigo.
– Também senti sua falta e estou bem. Obrigado por perguntar.
Lassiter abriu a porta de trás para Mary descer e estendeu a mão gentilmente para ajudá-la.
– Ele é um amigo e ela é Mary, uma amiga que vai passar uns dias aqui.
– Que sequestro interessante. Vejo que fez muitas amizades no cativeiro.
O mau humor de Nick juntamente com seu sarcasmo não estava ajudando muito naquele momento. E a última coisa que Lisa precisava... ela ou Mary, era de uma discussão.
– Nick, está tudo bem. Eu estou bem. Acabou.
– Claro que está. Você some por quase uma semana e volta pra casa me apresentando novos amigos. São amigos ou estão aqui apenas para vigiá-la? Porque eu estou disposto a procurar a polícia e contar...
– Chega – Lisa foi dura e sua fisionomia expressava uma face insensível – Não vou falar sobre o que aconteceu.
– Por que precisa proteger o bonitão de cavanhaque que veio aqui me ameaçar e me socar.
– Sinto muito por isso, mas ficarei calada. Quanto menos você e Anne souberem melhor será e nada de polícia, estamos entendidos?
Nick não podia acreditar no que estava ouvindo. Sequestrada, aprisionada e Deus sabe mais o quê e Lisa oferecia a ele apenas o silêncio. Ele sofreu por ela, se desesperou, buscou por informações e chegou a pensar que jamais retornaria. Não, não aceitaria aquela situação passivamente.
– O que você quer que eu entenda? Que lhe fizeram uma lavagem cerebral? – Sem perceber ele subia o tom de voz gradativamente – Porque só pode ter acontecido isso ou talvez tenha perdido a noção de que está defendendo e encobrindo homens perigosos, talvez até assassinos. Sim, eles são considerados suspeitos por várias mortes segundo a polícia de Caldwell e a maioria de mulheres. Alvos fáceis.
O tempo naquele momento parecia não ter nenhum significado, assim como a continuação do viver de Lisa, do infinito dia após dia, dos séculos ou milênios que passaria sobre a Terra vagando sem um objetivo. Porém ela não aguentava mais ouvir de ninguém o que deveria ou não fazer. Ela sentiu quando um sentimento quase que sinistro ocupou seu peito e foi refletido no seu olhar e nas palavras gélidas que proferiu calmamente a Nick.
– Foi você quem ameaçou primeiro perdendo a cabeça quando lhe telefonei. Não cobre dos outros, o que não pode dar. Não estou viva graças ao que fez, porque com seus insultos declarados, se eles fossem tão perigosos como imagina, eu jamais voltaria viva e certamente não permitiriam que você estivesse respirando nesse minuto. Quem precisa de seus cuidados é Anne, ela é sua mulher. Eu não faço parte significativa da sua vida e nem da sua família. Portanto a partir de hoje nunca mais me diga o que devo fazer – Ao dizer tudo isso, Lisa começou a andar em direção ao seu lindo jardim – E quanto à segurança, dobre o pessoal e também troque o código de acesso do portão, quero tudo pra hoje. Para evitar maiores discussões, vamos deixar tudo no profissional entre nós. Pelo menos até você se acalmar.
No rosto pálido e confuso de Anne as lágrimas escorriam silenciosas.
– Mary, Lassiter venham, vamos entrar! – Ela virou o rosto e disse olhando para Anne – Cuide dele. Está mais descontrolado do que jamais o vi.
Sob a luz amarelada de um galpão abandonado, Paul dava ordens a seus discípulos. Os homens que tinha escolhido para lhe ajudarem com o assunto Lisa Hendrix, que nunca seria mencionado, eram realmente fiéis a ele. E todos ouviram a mesma promessa: Seja fiel e será o homem mais importante dentro da Sociedade... depois de mim.
A maioria deles era bem jovem, assim como Paul. Só que havia uma gritante diferença, eram imaturos, despreparados e emocionalmente instáveis o que não acontecia com Paul. Para ele tudo era cuidadosamente planejado para proporcionar uma execução perfeita e em sua mente defeituosa ele já assistia a próxima matança. Sempre sedento por destruição e morte, assim era Paul. Nada podia detê-lo. Suas leis eram as que ele criava e sua necessidade por poder aumentava com o passar dos dias.
Nunca imaginou trabalhar no “negócio” que trabalhava. Quando foi recrutado pelo seu professor de karatê, as explicações soaram meio obscuras, mas ele também não estava muito interessado nelas, depois de ouvir que poderia matar sem qualquer preocupação. Seu pesadelo começou depois da iniciação, depois de passar pelas mãos de Ômega.
Impotente. O tornaram impotente e por algumas semanas era só nisso que pensava. Claro que tudo era bom demais, a proposta certa para um psicopata como ele... Caralho, deveria saber que cobrariam um alto preço. Agora só o poder supremo acalantaria seu coração... o poder supremo junto com a mulher que tanto desejava, Lisa Hendrix.
– Esta noite quero que me tragam um macho vivo. O primeiro a capturar o vampiro avisará ao resto de vocês que seguirá pela noite. Não o machuquem.
– E se ele resistir? Um dos seguidores perguntou.
– Façam somente o necessário para rendê-lo. Preciso dele consciente, sem maiores machucados. Quero interrogá-lo. Quanto aos outros... matem.
Os gritos de concordância soaram pelo lugar decrépito e mal iluminado.
– Tenho outro assunto, uma ordem na verdade. Qualquer informação sobre Lisa Hendrix deve ser primeiro passado a mim. O Sr.H está ocupado procurando pistas sobre a localização de nossos inimigos e quero que esta equipe receba todas as glórias por capturar essa mulher. Manteremos sempre contato, não importa se for dia ou noite e tenham certeza de que serão muito bem recompensados do que depender de mim.
Mais gritos ecoaram, todos carregados de uma obstinação bestial.
Raghe vestia camisa e calça branca e o colar de pérolas negras estava envolto ao seu pescoço, como mandava a tradição. Encontrava-se do Outro Lado, no pátio brilhante de mármore branco. A grande fonte continuava a jorrar a água para o alto e a árvore branca como suas flores brancas ainda era o lar dos lindos pássaros coloridos que se destacavam no cenário. Desde a sua última visita, quando implorou pela vida de sua shellan nada havia mudado. Ele esperava quieto, como se estivesse entorpecido e em sua mente a cena de Mary partindo era o que o mantinha determinado a prosseguir.
– Como vai Guerreiro? Disse a Virgem Escriba flutuando sobre o piso.
Ele suspirou fundo e levantou a cabeça para olhá-la. Com seu manto negro e capuz erguido quase nada podia ser visto da divindade.
Raghe tinha plena consciência que o pedido a ser feito poderia irritá-la profundamente e ele mais do ninguém conhecia a capacidade da Virgem em ser cruel, porém ele também conhecia sua benevolência. Afinal Mary era sua e estava viva por um milagre concedido por ela. No ponto onde ele se encontrava não haviam outras alternativas.
– Eu lhe fiz uma pergunta Guerreiro. Veio até mim para permanecer calado?
– Minhas desculpas é que não sei por onde começar.
Ela se aproximou ainda mais de Raghe e parou a sua frente.
– Simplesmente fale. Sei que sofre por sua shellan.
– Sinto como se não pudesse fazer tal pedido. Já me foi dado tanto.
– Fico feliz que não tenha se esquecido da dádiva que lhe foi concedida.
– Nunca! Minha shellan é meu coração. Eu a amo e serei grato até o último dia de minha existência.
– Eu sei o que quer Guerreiro. Quer que eu lhe conceda um filho.
– Sim, se esse pedido não for por demais ofensivo.
– Sua shellan não pode conceber e você está ciente disso.
– Mary sente falta de um filho que seja meu. Falamos sobre adoção...
– Por que adotar se você é fertil e viril? Mesmo sabendo qual era a resposta, ela fez questão de fazer a pergunta.
– Para isso... teria que usar uma Escolhida e não quero...
– Uma fêmea de valor lhe causa repulsa? São educadas por mim e além das funções espirituais também servem, ou serviam num passado distante, para acasalar com Guerreiros como você a fim de reproduzir nossa espécie. Algumas delas são treinadas para serem Ehros e, no entanto permanecem Inthocadas.
– Não questiono tal organização nem sua preocupação com a raça. Só não consigo me imaginar com outra fêmea.
– Não há outra opção. Não concederei a sua shellan o dom da procriação.
– Então não tenho escolha.
– Mas se pudesse escolher, não faria. Será que é um fardo tão pesado deitar-se com uma fêmea da aristocracia a fim de manter sua linhagem e presentear sua shellan?
– Para mim é. Só desejo Mary! Raghe disse aflito.
– Então está conversa está terminada, chegamos ao fim.
– Por favor, Virgem Escriba. Não há sacrifício que eu não faça por ela, já lhe disse isso anteriormente e continuo com minha convicção. É por esse motivo que lhe faço tal pedido.
– Caso eu lhe conceda está dádiva, sim, porque trata-se de mais uma dádiva. Ela será servida por você até o término de sua necessidade plenamente e dignamente como uma fêmea no cio merece e permanecerá sobre seus cuidados pelos próximos três dias até termos certeza de que não sangrará e que o filho foi concebido.
– Como desejar. Só peço-lhe que não seja Layla. Ela alimenta a mim e também a outros guerrei...
– Basta, Guerreiro – Disse ela enfaticamente. Vocês da Irmandade tendem a pedir demais. Pensarei sobre o seu caso e se eu concordar A Escolhida será tratada com todo o respeito e também permanecerá em sua casa até o nascimento da criança. Será alimentada somente com o seu sangue e assistida por você e também por sua shellan. Ambos cuidarão dela. O sacrifício será mútuo neste caso, já que a sua humana deseja tanto segurar em seus braços uma cria que descenda diretamente de sua nobre linhagem, que seja carne de sua carne.
Raghe estremeceu. Como poderia dividir a vida que tinha com Mary com outra fêmea e por longos meses de gestação? E sua shellan estaria disposta a tal sacrifício? Seu primeiro impulso foi questionar, mas pensando melhor a Virgem Escriba não tinha nenhuma paciência e então ele perderia Mary para sempre.
– Eu aceito.
– Muito bem, deixe-me com meus pensamentos. Agora vá, saberá de minha decisão quando voltar da batalha ao amanhecer.
Ao abrir os olhos Raghe estava de volta ao seu quarto, ajoelhado sobre o piso.
O que tinha feito? Levantou-se apressadamente e saiu. Passou pelo corredor das estátuas e encontrou Fritz, o doggen fiel ao pé da grande escadaria.
– Meu senhor, posso ajudá-lo em alguma coisa?
– Sim, pode me dizer onde está Wrath?
– O Rei está em seus aposentos com a Rainha descansando.
– Obrigado, cara.
Quase correndo Raghe subiu direto para o terceiro piso em direção ao quarto. Quando chegou bateu fortemente na porta e chamou pelo Rei. Não demorou quase nada e Wrath apareceu com seus longos cabelos e somente com uma toalha enrolada na cintura. O odor da vinculação era forte em seu corpo e para complicar ainda mais, não usava seus óculos escuros. Portanto Raghe podia ver seu olhar raivoso claramente sobre ele.
– Que porra é essa?
– Preciso falar com você, eu...
– E não dá pra esperar até... – Ele notou que o Guerreiro usava branco – O que fez? Porque está usando essa roupa?
– Fui até ela... Eu pedi um filho para Mary, para nós... para mim... Deus eu não sei realmente o que fiz.
Wrath fechou a porta do quarto. Raghe tremia por completo, não conseguia pensar direito sobre tudo que tinha acontecido, então faltavam as palavras e suas fraszes saiam incompletas.
– Deixe-me colocar umas calças e iremos até o escri...
– Não, só me escute. Wrath eu preciso que me escute. Aqui no corredor está bom, não é necessário.
– Acalme-se Hollywood. Droga, porque não falou comigo antes? O que a Virgem Escriba lhe disse?
– A Escolhida virá até mim, se a Virgem assim permitir e se a gravidez ocorrer eu terei que alimentá-la por todo o período e Mary também terá que cuidar... ela exigiu sacrifício mútuo... Por Deus... eu nem mesmo sei se conseguirei uma ereção diante da fêmea, se ficarei ríhgido e minha shellan...
– Layla?
– Não. Eu pedi que fosse outra. O que Mary vai dizer?
Raghe passou as mãos pelos cabelos, como se tal atitude o fizesse raciocinar melhor.
– E a Escolhida terá que ficar... vivendo aqui até o nascimento e eu... se você não permitir... merda, acho que estraguei tudo, acabei de passar por cima de sua autoridade. Essa casa é sua... perdão Meu Senhor, perdão – Sua voz saiu embargada – Não posso viver sem Mary e não sei como fazer o que tenho que fazer.
– Raghe posso sentir sua dor, você é um macho valoroso e tudo acabará bem. Eu e todos que moramos aqui apoiaremos você e sua shellan. Esta casa é a nossa casa, isso sempre foi o desejo de Darius e no Fade ele deve se sentir orgulhoso por tê-la construído. Aqui vive reunida a Irmandade. Seus problemas são os meus problemas, somos amigos, somos Irmãos.
Notas finais
Quero tudo comentado, tintin por tintin.
Vamos lá, sem preguiça.
Afinal eu AMO todos os reviews.
Acharam a atitude de Raghe correta? E Lisa ela aetá mudada?
Fico esperando pelas respostas...
bj
Fênix
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