Traga-me Para A Vida
13 Capítulo 12
Notas iniciais
O Sr. D. julgava a tarefa de fácil cumprimento. Exaltado, incitava em um discurso poderoso e cheio de ameaças um prazo curto e tosco para que as ordens fossem executadas.
– Tenho certeza que fui bem claro com todos. A chance é agora. Lisa Hendrix está de férias em um local desconhecido e não deve ser muito longe, já que saiu de casa dirigindo seu próprio carro.
– Sou bom com computadores Sr. D., posso tentar rastreá-la com seus fãs clubes e também com os demais otários que vivem bajulando essa mulher nas redes sociais.
Reuniões com todos os membros da Sociedade Redutora juntos em um único lugar não eram comuns. A ocasião, no entanto, exigia o risco. Naquele sítio em péssimas condições de habitação estavam presentes cerca de oitenta membros.
– Excelente Sr. H. Quero que escolha entre os presentes dez recrutas de sua preferência e confiança para lhe ajudar na busca. Não farão mais nada a não ser encontrá-la. Já vivi muito para saber que celebridades como essa "talzinha" não valem o que comem. Deve estar em algum hotel luxuoso, na orgia, com um ou dois homens.
Soaram vários comentários e risadinhas maliciosas entre os convocados, apesar de serem todos impotentes não estavam mortos e sabiam muito bem como usar “certos” brinquedinhos para satisfazerem seu ego e sadismo.
– Escutem todos, prestem atenção. Os que não forem convocados pelo Sr. H, vão atacar e matar exclusivamente civis. Nada de confronto com os guerreiros da Irmandade, só quando for inevitável. Se puderem evitar e fugir... façam isso. Quero o maior número de civis mortos. Pilhas de corpos e todos de preferência extirpados e irreconhecíveis. Façam o que sabem fazer de melhor. Acabem com eles e não me importo nem um pouco que se para isso tiverem que matar humanos também. Sairão sempre em grupos de quatro redutores e não deixem rastros. Entenderam?
Gritos de aceitação encheram o ar. A maldade presente era capaz de enlouquecer qualquer pessoa sã, mas para aqueles morto-vivos tratava-se apenas de combustível, de um insuportável e delicioso estímulo maquiavélico.
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Vishous atravessou a mansão e caminhou diretamente para a Casa da Guarda ou Buraco como gostava de chamar. Levava consigo a sensação de um animal enjaulado que necessitava desesperadamente de liberdade.
Não conseguia pensar, portanto não entendia as conseqüências. Não conseguia raciocinar, portanto não ponderava sua última atitude. Seu cérebro só assimilava e só carecia do odor do sexo e do corpo ardente que ele havia negado cruelmente segundos atrás.
Chegando ao Buraco, passou pela sala de estar e deu graças aos céus por Butch não ter regressado ainda da rua e também por Marissa estar ausente. Entrou em seu quarto arrancando as calças de qualquer jeito. Quando chegou ao banheiro, só a camiseta o impedia de se meter debaixo do chuveiro. A cruciante necessidade de Lisa não diminuía e aquilo estava explicito, já que seu membro permanecia duro como uma rocha.
Forçou o corpo até penetrar embaixo do jato quente de água, semi despido ele sentia o cheiro da fêmea em sua camiseta e o gosto dela em sua boca. As imagens em seu cérebro se intercalavam como numa dança... ora o rosto de Lisa, expressando o pecado da luxúria, ora o corpo nu e perfeito sendo tocado minuciosamente por sua mão brilhante.
Praguejando, Vishous passou a mão pelo seu abdômen e continuou descendo até alcançar seu membro e envolve-lo por completo. O toque fez com que seu corpo oscilasse.
Ele serrou os olhos, apagando a imagem dos azulejos escuros a sua frente e sua mente doentia o levou ao meio das pernas daquela exuberante mulher. Ela era deliciosa, saborosa e com sua língua ele percebeu que se encontrava completamente pronta para recebê-lo. E que Deus o ajudasse, era isso que ele queria, era isso que ele precisava. Suas mãos desciam e subiam por toda a extensão de seu sexo e V. confundiu aquilo com o movimento da penetração que não aconteceu. Imaginou seu corpo afundando-se no dela por completo, tomando-a com investidas cada vez mais rápidas. Assim como sua mão fazia em seu membro, mais rápido, mais rápido... não conseguindo se conter, gozou pronunciando o nome dela.
Seu sêmen foi expelido de encontro à parede de azulejos e escorreu por ela. Tinha a respiração dificultada e descompassada como de um verdadeiro amante em seu deleite. Só que não existia a troca, só a aterradora solidão do box. Merda, a comoção do orgasmo não durou nem dez segundos e ele já tinha sido puxado para a realidade. A maldita realidade que ele conclamou.
Passou o banho para frio, talvez assim pudesse regressar a sua racionalidade. Estava louco, completamente ensandecido. Enquanto a água caía sobre seus ombros se deu conta de que ainda vestia a camiseta que continha o cheiro dela. Não conseguia tirá-la de seu corpo. Aquela camiseta encarnava a sua necessidade. Ele pensou como um pedaço de algodão podia ser tão quente, tão suave ao ponto de confundir sua maciez com a pele de Lisa.
Em sua mente transtornada e delirante ressoou a verdade. A sentença máxima da realidade, a tão temida palavra... “Minha”.
De repente seu sentido de perigo foi disparado, havia algo de sombrio dentro da mansão!
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Primeiro foi o espelho e depois o "blindex do box". Tudo estilhaçou em milhares de pedaços. Fragmentos de vidro voaram para todos os lados. A iluminação do banheiro explodiu como se uma descarga elétrica com potência tétrica a tivesse atingido. Depois, foi a vez do quarto sentir a onda maléfica que se espalhava e destroçava tudo que ousasse ficar a sua frente. O sofá de couro, o tapete persa e a grande cama pairavam a quase três metros de altura, próximo ao teto. Rodopiavam como se estivessem contidos dentro de um poderoso tornado que com sua tremenda força triturava tudo, sem clemência.
Aterradoramente desvairada, no meio do cômodo, está Lisa com uma de suas mãos elevada, como se comandasse o terrível espetáculo. Numa fração de segundo uma fagulha vermelha rasgou a escuridão e atacou tudo que estava destruído. Os milhares de cacos de vidro e os móveis que foram moídos no turbilhão do rodamoinho... viraram cinza. Poeira fina a cair sobre o chão. Não sobrara nada, tudo pereceu, sucumbiu. O quarto jazia vazio.
Sentindo o esmorecer de seu corpo e quase desmaiando ela sentou em um canto do aposento. Estava completamente esgotada e tomada por febre alta. Sua boca encontrava-se seca e era difícil engolir, pois não havia saliva. Seu abdômen doía e sua cabeça estava a ponto de explodir. Todos os músculos do seu corpo sofriam de uma exaustão colossal, sua respiração era terminal igual à de um doente de enfisema pulmonar. O ar simplesmente não chegava e sua visão tornou-se turva.
Ela pensou consigo mesma e conversou com sua consciência em uma despedida melancólica. Pensou que o fim havia chegado, não sairia daquele local viva e não era porque os vampiros a matariam, depois do ocorrido, era porque não tinha mais forças para continuar. Seu corpo fora vencido, acometido por espasmos violentos, forçando-a a sangrar pelo nariz.
A estrondosa onda foi sentida em toda a mansão e todos os machos presentes na casa responderam ao sinal de perigo, com exceção de Vishous, que demorou a chegar.
Imediatamente postaram-se à porta do quarto de Lisa. Primeiro o Rei e logo atrás surgiu Tohr e Lassiter.
– Que diabos está acontecendo aí dentro?
– Não faço a menor ideia – disse o anjo, colocando a mão na fechadura – Então, é melhor descobrirmos e rápido.
Com a força do pensamento Wrath destravou e Lassiter escancarou a porta. A visão era incongruente, só poeira, nenhum móvel e num canto estava a mulher caída, totalmente nua, agonizando.
– Jesus Cristo, o que aconteceu? — perguntou Tohr.
Wrath caminhou a passos largos ao encontro de Liza e curvando-se sobre ela levantou cuidadosamente sua cabeça do chão. Ela buscou seus olhos por baixo dos óculos escuros, mas não conseguiu focar, com um murmúrio tentou falar enquanto o Rei sentava-se ao seu e a sustentava em seus braços.
– Sinto muito, Wrath... por todo o mal... que causei a você e ao seu mundo.
– Não fale agora, não está em condições.
V. adentrou ao quarto como um trem a todo vapor, com uma adaga na mão.
– Jesus Cristo, o que aconteceu?
– O Tohr acabou de fazer a mesma pergunta, mas ainda não obtivemos resposta – falou o anjo – Aliás, por serem vampiros, vocês usam muito o nome “dele” em vão, não é mesmo?
– Vá se foder Lassiter, agora não é hora para piadas. Quando eu...
– Não é uma piada. Mesmo porque o momento é crítico. Não sabemos se ela sobreviverá.
Wrath levantou a cabeça e dirigiu seu olhar diretamente para V. que guardava sua adaga.
– Pode me dizer algo, alguma coisa que explique isso?
– Acho que posso... mas primeiro vou tocá-la com esta mão — ele começou a tirar a luva.
– Está louco? Quer matá-la?
– Não, meu Senhor... eu a toquei... antes... quando... quando conversamos – Vishous estava gaguejando? Era só o que faltava na sua vida. – Maldição, que droga! Eu toquei nela e ela se curou dos hematomas e dos cortes. Olhe seu rosto.
Lisa agarrou-se a Wrath, colando seu peito contra o dele. O Rei estranhou tal atitude e sentiu um desgostar pela tamanha proximidade de seus corpos.
– Não quero que ele me toque. Não permita que ele se aproxime de mim.
“Minha”... Era o que continuava a ressoar no local mais profundo do cérebro de V. e ele não gostava do que estava vendo.
Lisa encontrava-se nua, totalmente exposta na frente de quatro machos. Os seios dela roçaram na camiseta preta de Wrath. V., quase perdeu o controle. Ela não podia fazer aquilo. Deu um passo à frente, por instinto, e não conseguiu conter-se. Um rosnado gutural saiu pela sua boca.
– Afaste-se dela, agora!
– V., o que acha que está fazendo? — Tohr perguntou colocando-se na frente dele.
– Droga, não se meta Irmão... Afaste-se, Wrath.
Vishous estava concentrado unicamente em chegar até Lisa, não importava como e por cima de quem teria que passar. Não podia negar sua natureza.
– Estou enganado ou está sugerindo que eu...
– Estou lhe avisando, tire suas mãos de cima dela.
– Isso é uma ameaça V.? Está ameaçando o seu Soberano?
A tensão entre os dois aumentou ao ponto de ser quase palpável. Embora Wrath não tivesse sequer afastado seu corpo da humana, que agora se encontrava pior fisicamente, os lábios estavam roxeados e a respiração por um fio.
Lassiter não teve dúvidas, antes que a situação piorasse passou por Tohr e avançou para cima de Vishous golpeando-o inesperadamente e jogando-o contra a parede. Avaliando a expressão mortífera do anjo podia-se jurar que só um deles sairia com vida daquele confronto.
Mas, como em tudo na vida é necessário sorte, a ventura chegou trazendo uma cavalaria. Zsadist e Phury seguraram Vishous. Rhage apenas encobriu a visão de Lassiter que se acalmou e desistiu da luta prontamente.
Atrás deles surgiram Beth e Bella. Ao ver toda aquela tragédia a tristeza das shellans foi sentida por todos.
– Meu Deus, Wrath ela está...
– Ainda não Beth, mas não sei se resistirá.
– Posso salvá-la. — gritou V.
– Não fará mais nada a não ser calar-se, não quero ouvir nenhuma palavra que venha da sua boca. Ela foi bem clara, prefere morrer a sentir seu toque. O que, particularmente acho uma ótima escolha. — o Rei cuspia as palavras, furioso — Sempre soube que era instável Vishous, mas nunca imaginei que se tornaria um psicopata. Z., Phury levem-no daqui. Butch deve estar passando mal, já que não está entre nós. Então, por enquanto, ainda serve para alguma coisa e esteja certo de que nossa conversa não termina aqui! Quero você mais tarde no meu escritório e só apareça quando eu lhe chamar.
Lisa começou a tossir pondo sangue pela boca. Recolhendo a pouca energia que lhe restava ela tentou falar. Primeiro engasgou com seu próprio sangue, mas insistiu temendo não ter uma segunda chance com o Rei.
– Perdão Senhor... eu nunca...
– Shhh... está tudo bem, você não poderia saber.
– Por Deus, ela não pode morrer – falou Bella chorando enquanto caminhava para ficar ao lado de Beth e Wrath que permaneciam sentados no chão segurando o corpo de Lisa – Lassiter não há nada que você possa fazer?
– Talvez. Não sei se vai funcionar, mas vou tentar.
Ele olhou para Tohr e Raghe e pediu que se afastassem. Em seguida fechou os olhos e instantaneamente começou a brilhar. Todos que estavam presentes sentiram uma áurea de paz, tranqüilidade e harmonia.
– Se Vishous pode tocá-la sem a queimar, então é possível que a minha luz também a ajude de alguma forma.
– Faça – disse a Rainha agoniada.
– Preciso que a deixem no chão e também se afastem.
Os três se levantaram e foram para o lado onde Tohr e Raghe já estavam. O anjo caído impôs suas mãos sobre ela tocando a cabeça como se estivesse administrando um passe. Após dez minutos sentiu a respiração melhorar e o coração bater fraco, mas compassadamente.
Lassiter inclinou-se e recolheu Lisa do chão. Sustentando-a em seus braços.
– Ela vai precisar de um médico? — perguntou Bella retirando um casaquinho que vestia e cobrindo parcialmente o corpo de Lisa.
– Não, ela está passando pelo “despertar”. Começou.
– Mas você disse que ainda demoraria uns seis meses. Que aconteceria no aniversário dela. O que mudou Lassiter?
– Eu sei Wrath, mas simplesmente começou. Alguma coisa fez com que o processo se desencadeasse, talvez o estresse que ela está passando ou o fato de V. ter lhe tocado.
O Rei estava possesso de raiva, trincava os dentes como uma fera pronta para atacar.
– Maldição. Vou fazer V. me explicar essa palhaçada toda minuciosamente. E que Deus me segure, se eu não gostar da explicação.
– Podemos levá-la para outro quarto? Aqui não tem condições...
Lisa mesmo estando no colo do anjo e muito fraca estendeu uma das mãos em direção a Rainha quando ouviu a pergunta demonstrando preocupação e caridade para com ela.
– Rainha, deixe-me aqui, não quero estragar mais nada.
– Não há condições para que permaneça neste quarto, Lisa.
– Por favor, Senhora. Deixe-me.
– Que tal a enfermaria Beth? — sugeriu Tohr.
Ela olhou juntamente com Bella em direção ao Rei, como ele acenou concordando, Beth continuou.
– Ótima ideia. Enquanto isso pedirei que limpem e façam os reparos neces...
– Vou até o depósito no subsolo, agora mesmo, pegar algumas coisas para consertar esse quarto, acho que ainda temos algumas folhas de Blindex sobrando e muitos fios para a iluminação.
– Espere Raghe, vou com você. Em dois terminaremos mais rápido — disse Tohr seguindo-o através da porta.
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No Buraco, Marissa olhava Butch contorcendo-se na cama do quarto de Vishous, sem nada poder fazer. Quando chegava à mansão depois de V., Butch sempre preferia esperar por seu amigo no quarto dele e nunca no quarto que ele dividia com sua shellan. Não queria que Marissa tivesse contato com a maldade dos redutores que estava contida dentro dele. Ouviram-se passos frenéticos e no segundo seguinte às portas se abriram com V. surgindo primeiro e logo atrás dele Z. e Phury.
– Pronto. Já estou entregue podem ir — rosnou o vampiro.
– Não vamos a lugar algum V. e comece a curar o tira.
A expressão facial de Z. era digna de um assassino. Fria e calculista. Ninguém o moveria daquela sala a não ser um chamado de Wrath.
– O... que... houve?
– Calma Butch, não aconteceu nada. Agora me deixe ajudá-lo.
Vishous retirou a luva de sua mão direita e deitou-se no sofá, aconchegando o amigo carinhosamente em seus braços.
– Vou fazer um café. Alguém quer? — perguntou Phury.
– Pode deixar que eu faço. — disse Marissa apressando-se em direção a cozinha. Ela também sentiu o ar pesado, então era melhor deixar que eles conversassem em particular.
Ao passo que Marissa se afastava, Z. e Phury se acomodaram pelo espaço, dando tempo para que Vishous cumprisse sua cura.
Começaram a brilhar. O momento era de profunda intimidade e V. esperava por aquilo como um andarilho perdido espera encontrar água no deserto. Não que ele gostasse do que o tira passava ou sentia depois de inspirar aqueles malditos redutores, mas o que ele queria era estar perto de alguém que o compreendesse e não lhe exigisse nada em troca e o amigo que estava em seus braços era assim. A cura era somente uma pequena parte do que aquele contato corporal significava. Naquele instante Vishous sentiu falta de uma coisa, ou melhor, sentiu falta de “sentir” desejar Butch.
– Está melhor, tira?
– Completamente curado. Obrigado V. – olhado para o lado percebeu que Z. e Phury ainda estavam ali. – Então, qual é a novidade?
– Estamos esperando que Vishous se acalme. É só.
– É só o cacete! — falou Z. — Quero saber o que foi aquilo, Phury. Fale V.
– Desde quando lhe dou satisfação dos meus atos, Zsadist? Você nunca deu nada a saber de sua maldita vida antes de Bella entrar nela.
Z. esboçou um leve sorriso e sacudiu a cabeça várias vezes.
– Você tem razão. Tem toda a razão V. Sendo assim, vou lhe contar a mais recente novidade... Lisa Hendrix está sendo procurada,por todos, em todo o mundo. Que tal?
– Não entendi, dá pra ser mais claro, Z?
– Ouvimos no rádio. Para resumir: ela sumiu e quem a encontrar ou der a pista certa, vai ganhar além de um jantar com a “diva” ,um belo carro esporte.
– Merda! — praguejou V. — Wrath já sabe?
– Só se Raghe contou — falou Phury.
– V., você permanece aqui e eu vou com Zsadist ver como andam as coisas. Está bem?
– Podem ir. Ficarei aqui até que Wrath me chame.
– Ótima escolha, meu Irmão. Ótima escolha — disse Z. afastando-se.
Phury e Z. já estavam saindo quando Marissa chegou com o café.
– Hei, onde pensam que vão? Primeiro o café... depois podem ir.
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Na enfermaria, Beth cuidava de Lisa. Velando seu sono.
Lassiter voltara para junto de Raghe e Tohr, aliando-se a eles com os reparos do quarto. Bella foi amamentar Nalla depois de ajudar Beth dar banho em Lisa e Wrath voltou para seu escritório.
Já haviam se passado duas horas e a humana continuava em um sono pesado e relativamente agitado por causa da febre que não cedia. Beth levantou-se e saiu um pouco da enfermaria para esticar as pernas. Não foi longe, somente até a sala de equipamentos, onde percebeu que Mary caminhava ao seu encontro.
– Você deve estar cansada, vá tomar um banho, relaxar um pouco eu ficarei com ela, Beth.
– Obrigada Mary, mas o problema não é o cansaço físico é o mental.
– Compreendo o que quer dizer.
– Olhando para ela, desse jeito, não enxerga um pouco de você, Mary?
– Nossa... não faz ideia do quanto. Principalmente agora que está tão doente.
– Eu me lembro da surpresa que tive quando soube deste mundo — comentou Beth tristemente — Como fiquei perturbada e perdida. Cheia de dúvidas.
– Bem... o que eu sei é que você presenciou o meu desmaio, a primeira vez que pisei nesta casa. Então, não preciso lhe dizer o que eu enfrentei.
Beth abriu um sorriso sincero e de cumplicidade.
– Nossos machos formam uma Irmandade poderosa, mas nós, as shellans, de alguma forma também formamos uma, não é verdade?
– Claro que sim. E com ela não será diferente. Está totalmente envolvida por V.
– Deus. Isso é o que me preocupa. Ele anda tão arredio ultimamente.
– Beth... minha querida amiga – Mary riu desdenhosamente – e qual deles não ficou arredio até se entregarem ao sentimento que nutriam por nós? Ou já se esqueceu da loucura que foi com Zsadist e Bella ou talvez de um certo Rei tremendamente sexy... é verdade... mas totalmente preconceituoso quanto aos humanos?
Beth cobriu seu rosto com as mãos e balançou a cabeça divertidamente, não contendo o brilho dos seus olhos azuis.
– Sabe de uma coisa... é por isso que gosto tanto de conversar com você. Seu senso de humor e a maneira como encara o futuro é sempre tão simples.
– Pode ser simples, mas já discuti com Raghe por causa de Lisa.
– Então... junte-se ao clube. Eu também já briguei com Wrath e Z. só está falando o necessário com Bella.
– Credo... o que tínhamos na cabeça para nos vincularmos a machos tão temperamentais?
– Que tal amor e sexo... mas, não necessariamente nesta ordem.
– Quê? Tem certeza de que sou eu que simplifico a vida R.a.i.n.h.a?
Enquanto gargalhavam esquecendo do “problema” que dormia na sala ao lado, avistaram Bella.
– Qual foi a piada? Necessito rir um pouco.
– Estamos simplificando a vida entre sexo e amor, como Beth mesmo disse.
– Bom, não sei exatamente sobre o que estavam falando, mas posso afirmar que no momento sexo com Z. infelizmente não está no programa. Acabo de deixá-lo em nosso quarto com Nalla e saí porque se eu ficasse mais cinco minutos com ele, brigaríamos novamente.
– Está tão ruim assim, Bella?
– Acho que pior, Beth.
– O que foi desta vez? É sobre Lisa?
– O assunto é o mesmo. Ele não gostou quando eu lhe disse que aos olhos de Lisa nossa raça ou a Irmandade bem dizendo... está exatamente igual aos redutores que me sequestraram, ou seja, mantendo uma mulher em cativeiro porque pensam que ela é uma inimiga ou uma ameaça.
– Jesus Cristo... Bella, você disse isso a ele?
– Com todas as letras, Mary e repetirei se for necessário para quem quer que seja. É assim que me sinto vendo toda essa situação.
– Eu também. Só que...
Lisa tossiu atrás delas. Encontrava-se escorada no batente da porta envolta em um roupão branco felpudo. Seu olhar tinha um misto de espanto e admiração e segurava em uma das mãos um copo com um pouco de água.
– Desculpe, acho que eu interrompi algo.
– Há quanto tempo você está aí? — perguntou Bella.
– Tempo suficiente para perceber que vocês não devem discutir com seus maridos por minha causa. Eu logo irei embora ou... enfim, logo não estarei mais aqui e não posso admitir que estraguem...
– Você não está estragando nada. – Mary caminhou rapidamente para amparar Lisa, que estava prestes a cair ao chão, tocando-lhe a testa para verificar sua temperatura – E ainda tem febre.
– Não tive a oportunidade de me apresentar... sou Lisa Hendrix. Vocês já me conhecem, mas eu só conheço Beth que é a Rainha.
– Eu sou Bella, shellan de Zsadist.
– E eu Mary, shellan de Raghe. O termo soa esquisito, mas é a mesma coisa que esposa.
– Certo, entendi! Quero agradecer por cuidarem e se preocuparem comigo, não acho que deveriam...
– Não devia ter levantado. Que tal voltar a se deitar? — Bella já estava do outro lado da humana ajudando a sustentar o peso do corpo.
– Não posso me deitar. Podem por favor, me levar até o escritório do Rei, sinto que algo aconteceu e que logo virão me buscar.
– Não acho uma boa ideia. Wrath não gosta de interrupções é melhor...
– Por favor, Beth confie em mim.
Houve um minuto de silêncio e as shellans se entreolharam em um impasse.
– Então, vão me levar?
– O que mais pode acontecer? Todas nós já brigamos! — disse Mary.
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A Irmandade estava reunida novamente no escritório do Rei e desta vez o assunto era o desaparecimento de Lisa, que estava em todas as rádios do País. A notícia do dia.
Vishous também foi convocado para a reunião, mas com a condição de permanecer o tempo todo calado.
– Era só o que faltava. Uma cambada de loucos fanáticos atrás dela. O que faremos Wrath? — perguntou Phury
– Podem procuram o quanto quiserem. Ninguém a encontrará aqui, mas por precaução é melhor que ela telefone para seu agente. Vá buscá-la Lassi..
Bateram na porta do escritório e sem perder tempo Beth adentrou andando com Lisa ao seu lado. Mary e Bella permaneceram do lado de fora, no corredor.
Os olhos de todos os vampiros se arregalaram tamanha a surpresa.
– Com licença, mas ela pediu que a trouxéssemos aqui. Disse que algo importante tinha acontecido.
– Como soube? — interrogou Butch, olhando-a com todo o jeito de policial que havia nele.
– Na realidade não sei o que aconteceu. Só pressenti que me chamariam.
Tohr que estava sentado em sua horrorosa poltrona verde, ao lado do Rei, levantou-se e cedeu o lugar para Lisa.
– Obrigada shellan, agora se nos der licença, gostaríamos de continuar a reunião.
– Claro, Wrath.
Beth se retirou e o Rei calmamente explicou tudo o que tinha acontecido para Lisa.
– É por esse motivo que você vai ligar para seu agente e pedir que toda essa palhaçada acabe.
Tohr discou o número e deixou o telefone no viva-voz para que todos acompanhassem a conversa... mas Bob não atendeu, afinal eram dez horas da manhã e como era um boêmio nato, nunca acordava antes das onze. A não ser que houvesse muito dinheiro envolvido na jogada.
– Posso ligar para minha casa? Anne, minha secretária deve estar lá e eu poderia...
– Faça!
Após a permissão do Rei, Tohr novamente discou os números.
– Alô.
– Anne, sou eu. — a voz de Lisa saia calma e baixa.
– Oh meu Deus... Lisa, você está bem? Onde você está? Como é que...
– Calma, Anne. Por favor...
– Calma? Você some e quer calma?
No escritório todos permaneciam em silêncio ouvindo claramente.
– Lisa, espere um pouco –Nick... Nick... É Lisa no telefone. Ggritava Anne exasperada.
– Ponha no viva-voz, também quero falar com ela.
– Pronto... Lisa pode falar, coloquei no viva-voz por que...
– Eu já entendi, Anne. Agora escute...
– Onde diabos você se meteu?
– Nick, eu posso explicar.
– Responda a porra da pergunta, sem enrolação.
Ela se sentiu mal com o tom de voz de Nick, mas afinal o que poderia esperar? Aquela era a reação mais lógica que um grande amigo e segurança dedicado podia ter. Mesmo assim percorreu o escritório do Rei com os olhos captando a reação dos vampiros em sua mente, especialmente a de Vishous que contorceu o corpo discretamente e travou o maxilar.
– Hei calma! Eu deixei um bilhete. Você não leu?
– Acha mesmo que eu engoli aquela estória de que precisa de um tempo?
– Pois deveria. E é por esse motivo que estou ligando. Vocês contaram para o Bob e veja o que isso se tornou. Uma verdadeira caçada. Eu só queria descansar uns dias. Não tenho esse direito Nick? Não posso tirar férias?
– Vou lhe dizer quais são os seus direitos, já que perguntou. Você tem direito a proteção e a segurança da sua casa, junto com seus amigos e das pessoas que te querem bem.
– Não estou entendendo.
– Está sim, não é burra. Está com “Ele”, não é? De algum modo “Ele” a levou.
Lisa perdeu por um momento o chão. Nick sabia e esperto do jeito que era, deduziu tudo rapidamente.
Na sala todos olhavam para ela esperando suas respostas e ela tinha a nítida certeza de que se errasse em alguma delas morreria ali mesmo. Aliás, Raghe já estava com uma adaga nas mãos. É claro que brincava com ela para disfarçar o verdadeiro objetivo.
– Nick, você confundiu tudo. Meu Deus, que mente mais fértil, o tal “Ele” não existe. É só uma viagem e quero que diga ao Bob para parar com isso.
– O cacete que não existe. Você foi seqüestrada.
– Claro que não...
– Não minta pra mim. Lisa. Se esse filho da puta lhe fizer mal, se ele encostar a mão em você... eu mesmo o cobrirei de pancada e posso afirmar que sentirei um grande prazer em deixar esse palhaço sangrando no chão.
É lógico que Lisa encontrava-se apavorada, porém no fundo do seu íntimo seu humor negro floresceu. Era ótimo escutar Nick esculachar com Vishous, nem que isso acontecesse de modo indireto. E o melhor, era que V. simplesmente tinha que ouvir tudo aquilo calado. Contendo um rizinho atroz, voltou a argumentar.
– Que idéia mais absurda. Me escute...
– Merda! Quem vai me escutar agora é você Lisa. Eu sei que eles existem. Não sei o que são ou o que fazem, mas são bem reais. Tão real, que na delegacia de Caldwell existe registrado um incidente mencionando um homem alto de cabelos negros que usa óculos escuros e veste couro como sendo o principal suspeito do desaparecimento do policial Butch O'Neal, como me relatou o detetive José De la Cruz.
O tom de voz que saia pela garganta de Nick soava como uma britadeira. Forte e implacável. Não havia como negar nada daquilo, ele não tinha ficado em casa esperando. Ele foi até a polícia investigar por conta própria. No meio daquele turbilhão, Lisa agradeceu aos céus pelo amigo que tinha.
– Não sei do que está falando. Disse ela murmurando e sem um pingo de confiança.
– Ainda não terminei... sabe o que é mais surpreendente nisso tudo? É que quando vi a foto do policial desaparecido, me surpreendi ao perceber, como ele lembrava um daqueles quatro homens que eu e Anne vimos naquela boate da Rua Trade chamada ZeroSum.
– Nick... por favor... você tem que...
– Vai dizer a esses sequestradores estúpidos... isto é... se eles já não estiverem ouvindo, que eu a quero de volta nesta casa até o cair da noite. Caso contrário procurarei o FBI e farei uma descrição minuciosa do cara das cicatrizes, do que tem cabelos semelhantes a uma maldita juba de leão, do loirinho metido a ator de Hollywood e do saudoso detetive da homicídios, Butch. Juro por Deus, Lisa... vou jogar toda essa merda no ventilador e que Deus me ajude, vou caçá-los, nem que isso seja a última coisa que eu faça na vida. Não vou perder você, está me entendendo? Teve pessoas que passaram por sua vida que simplesmente desistiram de você, mas eu e Anne não desistiremos. Vou procurar em todos os lugares possíveis e impossíveis e achar você, nem que para isso tenha que chegar ao inferno. Somos uma família e se eu fosse esses Idiotas, começaria a ter respeito e medo do bom e velho Nick.
Não havia mais nada para ser dito. Ela não tinha mais nada para argumentar e sabia que com todas aquelas ameaças e informações, Nick estaria morto numa questão de horas e junto com ele... Anne. As duas pessoas que ela mais amava na vida.
A fisionomia daqueles vampiros era inexpressível. Um bloco de gelo. Mas a morte dançava solta por entre seus corpos. Era evidente que estavam a ponto de explodir. Em um determinado momento, Lisa poderia jurar que alguns tentavam dominar o tremor dos seus corpos.
Sentiu seu rosto molhado, lágrimas escorrendo. Mesmo lutando para não demonstrar fraqueza diante de todos, não conseguiu conter o choro.
– Lisa? Lisa, ainda está aí?
Profundo silêncio.
– Fale comigo.
Zsadist fez um gesto com a mão simbolizando uma garganta cortada e Wrath aprovou balançando a cabeça. No cair da noite, não sobrariam mais testemunhas.
O desespero tomou conta das entranhas de Lisa. Tinha que impedir, não deixaria que fossem massacrados.
– Lisa?
– Não faça nada... estou lhe implorando.
– Está sendo coagida a dizer isso e...
– Não, não é isso... pelo amor que sente por mim... Nick. Por todos os momentos que passamos, pela cumplicidade e amizade... não faça nada.
– Me dê um bom motivo para que eu não faça!
– Estou morrendo, Nick... tenho uma doença grave, terminal... e antes de morrer gostaria de descobrir o que eu sou de verdade.
– Está mentindo, não é possível...
– Não estou mentindo, é verdade. Agora mesmo estou com febre alta, há algumas horas atrás tive um acesso de tosse e sangrei pela boca e também pelo nariz.
– Jesus Cristo... não!
– Se eu lhe prometer que ligarei mais tarde, provando que estou bem... você me promete, também, que não falará com ninguém sobre tudo isso que descobriu? Promete que guardará segredo? Que me dará mais um tempo?
Lisa podia ouvir Anne chorando baixinho. E pela primeira vez Nick não sabia como agir ou o que fazer. Mesmo gaguejando ela prosseguiu.
– Anne, não chore... por favor. Mantenha a calma... preciso que você mantenha a calma por mim. Se você desmoronar, então eu não terei mais nenhuma esperança... não terei no que me agarrar. Você sempre foi mais forte... eu...
– Não estou chorando, está me ouvindo? Eu não estou chorando e Nick promete... está escutando Lisa. Nick não fará nada, não falará com ninguém... nós prometemos. Eu prometo...Tem nossa palavra!
Wrath fez sinal para desligar o telefone.
– Agora tenho que desligar.
– Nunca esqueça que nós amamos você.
– Eu realmente preciso desligar.
– Jure... jure que nunca se esquecerá que amamos você.
– Eu juro, Anne.
Tohr desligou o telefone, finalizando a ligação!
– Mate a mim — suplicou entre as lágrimas — Queime minha casa e faça parecer um acidente... apague a memória dos meus amigos... eu tenho 27 anos, então entrarei para a Lista das Celebridades que carregam a maldição dos 27 e isso será motivo suficiente para desviar qualquer foco que possivelmente levaria ao seu mundo.
Wrath não disse nem que sim e nem que não. Ficou impassível. Em seu desespero, Lisa levantou-se do sofá e humildemente atirou-se aos seus pés, ajoelhando-se perante ele e fazendo o seu pedindo sempre olhando para o chão.
– Não o conheço bem, mas Lassiter me disse, aqui, neste escritório que você é um Rei sábio e justo. Não sou digna de lhe pedir qualquer coisa, mas em nome do amor, do afeto, da amizade, do respeito e principalmente da admiração que sinto por Anne e também por Nick, eu lhe suplico que pense a respeito. Só o que eles querem é o meu bem estar e não é certo morrer por isso. Por favor... tenha misericórdia! Faça o que tem que ser feito comigo... mas poupe meus amigos. Com o devido respeito eu lhe suplico.
Nenhum dos Guerreiros ousou qualquer gesto ou opinião. Nas circunstancias apresentadas só ao Rei competia à palavra final. Ele era o soberano, cabia a ele decidir sobre o futuro dos humanos.
– Levante-se.
– Por favor...
– Mandei levantar, não me faça repetir.
Lisa postou-se diante dele ereta, porém continuava evitando olhar para Wrath. A temperatura despencou mais de 20 graus, conseqüência do humor do Rei. Suas presas alongaram e seus punhos estavam serrados sobre a mesa.
– Nosso mundo está exposto. Surpresas acarretaram descuidos imperdoáveis. Rádio, videoclipe e agora um humano arrogante, que nos ameaça, supondo que somos meros bandidinhos idiotas. Acha que isso merece perdão? — o Rei segui implacável — Como ele mesmo teve a audácia de dizer, acha-se capaz de nos caçar. A Irmandade não aceita ameaças, não se curva. Principalmente a humanos.
– Qual sua ordem, o que devemos fazer para consertar tal situação, meu Senhor?
– Por enquanto nada, Raghe. Preciso pensar. Saiam todos e a levem com vocês. Não quero ser incomodado por ninguém. Isso é uma ordem.
Um por um, todos começaram a deixar o escritório. Torh saiu ao lado de Lassiter, que por sua vez gesticulou chamando Lisa para perto dele. Depois os guerreiros...
– Vishous, você fica! Vamos ter a nossa conversa,agora.
Sentenciou o Rei.
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