Traga-me Para A Vida
12 Capítulo 11
Notas iniciais
– Não aguento mais, só cai na caixa postal.
– Anne, entenda, Lisa não quer ser encontrada. Vamos ter um pouco de calma.
– Acha realmente que ela saiu de férias? Ela jurou que não faria mais isso, sair sozinha.
– Querida, me escute. Vai dar tudo certo, ela vai ligar.
Nick não acredita em nada do que estava dizendo, mas não queria ver Anne desmoronar. Então, tentava acalmá-la de qualquer modo, mesmo que para isso tivesse que esconder seus piores temores.
– Deus... como vou falar que ela sumiu para o Bob? Ele vai pirar e pior, se eu o conheço, vai jogar isso na mídia como uma bomba.
– Ela não sumiu... só pediu um tempo.
– Que seja... férias. Mas ele vai aproveitar a oportunidade e ganhar “publicidade gratuita” com o caso.
– O que acha que ele fará?
– Ele vai divulgar que Lisa está em algum lugar secreto e misterioso... de férias... descansando e... blábláblá. Fazendo isso colocará os fãs loucos atrás dela. O resto você pode imaginar.
Era isso... e era uma ótima ideia. Claro! Quanto mais gente a procurasse, mais fácil ficaria para encontrá-la.Pensou Nick. Ele nunca admitiria isso para Anne, mas já sabia o que fazer. Escolhendo bem as palavras para esconder suas verdadeiras intenções e não assustar sua amada ele disse:
– Anne, olhe, você deve ser bem direta com o Bob, diga a verdade, mostre o bilhete.
– Você acha?
– Claro... e pode estar certa de que Lisa sabia que você faria isso. Bob é o empresário dela e ele precisa saber, não é justo esconder a situação. O que acontecer depois, não é sua responsabilidade.
– Nick, você vê as coisas dessa forma? Não entendo. Se ela quer ficar sozinha e ter sossego, como pensa que Lisa se sentirá ao ouvir no rádio ou na TV essa notícia?
– Ela vai ter a certeza que você é à amiga honesta e verdadeira em tudo que faz. E entenderá que não havia como esconder do Bob a verdade. Agora ligue para ele e conte tudo. Se ele quiser conversar pessoalmente eu lhe levarei até o escritório. Faça isso meu amor, você vai se sentir melhor.
Ele avançou o rosto ao encontro do dela e a beijou ternamente, passando apoio incondicional. Anne segurou as mãos de Nick e depois de alguns segundos estava decidida. Pegou o celular e começou a discar.
– Ok. Você tem razão. Vou ligar para o Bob.
Bingo! Agora era só uma questão de tempo para que as suspeitas de Nick se confirmassem. Mas, se Lisa estivesse sequestrada... seus sequestradores nunca poderiam supor que haveria uma busca por ela de maneira indireta. A oportunidade era excelente, uma jogada de mestre.
–----------------------------------------.
Wrath estava em seu escritório, sentado em seu trono, atrás de uma pilha de papéis que devia ler, analisar e assinar. Depois do ocorrido no jantar não tinha concentração para nada daquilo. Sentia-se mal por ter que acabar com a discussão daquela maneira, porém era a única saída.
Não arriscaria colocar qualquer uma das shellans da casa em perigo, portanto nenhuma manteria contato com a prisioneira.
Como tal coisa tinha acontecido? Uma prisioneira dentro da mansão... Deus era testemunha que ele nunca fazia prisioneiros e sim... ele quase ordenou a execução e foi justamente quando V. avançou sobre a mulher por sua insubordinação.
As pesadas portas duplas do escritório se abriram e Beth surgiu com seus olhos azuis-escuros que tanto ele amava.
– Wrath? Posso entrar?
Ele assentiu com um movimento de cabeça, mas não falou nada.
– Eu queria conversar um pouco, será que agora é possível?
Wrath permaneceu quieto. Beth avançou até o sofá e se recostou, espreguiçando levemente os braços, ela estava tensa porque podia sentir que seu hellren estava particularmente feroz naquele momento. Então, deduziu que talvez fosse melhor se dirigir a ele como Rei que era e começou a falar mansamente.
– Meu Senhor, não tive o intuito de lhe aborrecer quando perguntei a Fritz sobre Lisa, mas admito que só fiz isso porque não conversou comigo sobre o assunto... mais cedo, em nosso quarto.
– Por que está usando “Meu Senhor” comigo? — ele estreitou os olhos tentando obter uma visão menos distorcida do rosto de Beth. Como se fosse possível.
– Porque você é o Rei e esse é um tratamento adequado.
– Sim é verdade, mas parece que está falando com um completo estranho.
Ela se remexeu no sofá, inspirou fundo e enquanto soltava o ar dos pulmões arqueou levemente seus seios.
– Você nunca foi um estranho para mim. Nem mesmo no dia que entrou pela primeira vez no meu apartamento fumando uma cigarrilha avermelhada, pensando que a fumaça poderia me relaxar. Lembra-se Wrath?
O sangue do Rei corria como um tiro por seu corpo e ele sentiu seu membro se pronunciar fortemente em uma ereção colossal. A lembrança do que acontecera naquela noite entre os dois estava vívida em sua memória, nunca tinha se apagado e nunca se apagaria.
Sentindo a mudança no humor de seu macho e seu desejo crescente, Beth estremeceu e lá estava sua chance.
– Wrath, quando você me disse o que era meu pai e o que eu era... não acreditei, corri feito uma maluca. Estava confusa, assustada, com muita raiva e em pânico por ter que passar pela transição, mas eu tinha você... você cuidou de mim e quando eu lhe pedi que fizesse amor comigo naquela noite, mesmo faminto e precisando se alimentar você não me negou. Você nunca me abandonou e...
O Rei saltou de trás de seu trono e num instante estava ao lado dela. Envolveu-a em seus braços e puxou-a para seu colo, pressionando seu quadril contra o dela.
Beth segurou Wrath pelos ombros e subiu uma das mãos enroscando-a nos longos cabelos do Rei. Arqueou seus seios contra o peito dele. Sua respiração estava pesada e desejosa, todavia a rainha não podia se entregar a ele como tanto desejava, tão facilmente, sem resolver o assunto que estava pendente.
– Me escute — ela quase ofegou — Lisa está passando pelo que eu passei.
– Não mesmo! — disse ele com o maxilar travado, enquanto afastava os cabelos dela e passava suas presas pelo pescoço.
– Oh Deus... Wrath, não faça assim.
– Por quê? Não gosta shellan?
– Sabe que sim... mas não consigo pensar com a sua boca no meu pescoço e...
– Talvez queira que minha boca desça um pouco mais. — ele correu suas mãos pelo corpo dela e só parou quando ao levantar a saia encontrou a calcinha totalmente úmida.
– Wrath... eu...
– Shhhhh... falaremos depois sobre isso.
Aquela frase ressoou no cérebro de Beth como se uma bala estivesse ricocheteando pelo escritório. Ela já tinha a ouvido anteriormente, antes do jantar. Eles estavam no quarto e ela havia perguntado por que a humana tinha sido ferida e por que a mantinham como prisioneira... nenhuma pergunta foi respondida. Wrath apenas desconversou e naquele momento ele tentava a mesma coisa, só que agora estava usando o desejo, o sexo. Arrancando forças não se sabe de onde Beth estancou.
– Pare agora, Wrath!
Mesmo que ela não tivesse dito uma palavra ele teria percebido a mudança em seu temperamento. Procurou ficar calmo e somente aguardou pelo que viria a seguir.
– Já imaginou o que teria acontecido com a minha sanidade se eu não tivesse você para me apoiar?
– Vejo que sabe muito mais do que eu desejaria que soubesse sobre tudo isso. Foi Lassiter, não foi?
– Sim. Eu e Bella esperamos até que saísse do quarto. Ele não nos contou tudo, só uma parte.
– Droga eu deveria matá-lo por ter uma boca tão grande.
– Mas não vai, porque sabe que é da natureza dele ajudar. Eu não sei o que ela é, mas ela também não sabe ou pelo menos não sabia até chegar a esta casa. O que eu sei é que ela deve estar apavorada e não tem ninguém para ajudá-la e isso não é justo. Não é justo, não é digno... é desumano. E você não é desumano, Wrath.
– Beth, eu amo você. Temos uma ameaça aqui, dentro do nosso lar, e no momento ainda estou pensando como vamos lidar com isso. Então, serei desumano o quanto for necessário. Não colocarei você ou outra shellan em risco porque pensam que aquela mulher está sendo maltratava por um mero capricho da Irmandade. Você sabe que isso não é verdade. Conhece muito bem a mim e também aos meus Irmãos para saber que não faríamos nada que não fosse preciso.
– Sim. E foi por essa razão que eu e Bella ficamos surpresas quando a vimos sangrando e sendo carregada. Vai me contar tudo que está acontecendo ou não?
Ele esboçou um discreto sorriso.
– Às vezes me esqueço de como você é durona e teimosa.
– Pois não deveria. Se eu não fosse desse jeito não teria se apaixonado por mim. Wrath, por favor, fale comigo, me conte o que está acontecendo, talvez eu possa ajudá-lo ou pelo menos compreender suas razões.
– Como faz isso? Como consegue de mim tudo o que quer leelan?
Ela riu maliciosamente e balançou seu quadril sem decência alguma no colo dele. Wrath fechou os olhos e soltou um ronronar de prazer.
– Então, hellren... que tal começar a falar, assim chegaremos ao sexo mais cedo do que pensa?
Uma gargalhada cortou o ar e ele sem perceber inclinou a cabeça para trás, encostando-se ao sofá, totalmente relaxado.
– Minha linda, Beth... quem é que está sendo o desumano nesse momento?
– Eu, sou eu. — ela também sorria divertida.
– Está bem. Vou lhe contar o que está acontecendo, mas vai ter que me prometer que não saíra do meu colo até que eu termine.
– Prometo – ela levou a mão ao peito dele e apoiou-a sobre o coração – Só me levantarei quando quiser que eu faça isso ou quando o fato de que você permanecer vestido me incomode demais.
Ambos sabiam que teriam uma longa e séria conversa, com opiniões bem diferentes. Porém, o ato de estarem unificados em seu poderoso amor lhes fornecia a força necessária para acreditarem que não havia nada que eles não pudessem discutir abertamente, afinal o desfecho prometia o tipo de sexo que ambos adoravam: quente e selvagem. O que tornava tudo mais interessante.
–------------------------------------------.
Vishous foi o primeiro a adentrar no saguão. Voltou sozinho da luta. Trazia um corte pouco acima do cotovelo em seu braço esquerdo. Nada que não pudesse ser resolvido com agulha e linha.
Investiu diretamente para o Buraco, precisava de um banho. Quando entrou em seu quarto, tirou a jaqueta e guardou todas as armas e munições em seu closet. Deixando tudo perfeitamente arrumado. Depois foi para o chuveiro.
Enquanto a cascata de água quente caia sobre seu corpo, V. pensava em tudo que estava acontecendo. Apesar de ter saído, lutado e cumprido seu dever de Guerreiro tinha que admitir que o ferimento fôra por causa de sua distração e não por habilidade do redutor.
Droga, ele estava descuidado e imprudente. Não havia como adiar mais, tinha que falar com a mulher. Pegou agulha e linha, tratou de desinfetar o corte e começou a se costurar. Depois de terminada essa parte se vestiu e saiu em direção à mansão.
Quando chegou ao vestíbulo e avistou Wrath que caminhava em sua direção, pensou que realmente aquele macho havia nascido para ser Rei. Era altivo e magnânimo, além de fiel e seu amigo, ou melhor, Irmão.
– Como está V.? Fritz me avisou de seu ferimento.
– Não foi nada. Estou bem. Só alguns pontos.
– Fico feliz em saber. E então, como foi sua noite?
– Voltei mais cedo porque eu... sabe, estou um tanto...
– Eu sei V., sei como se sente. E acredite não gosto de ficar podando suas ações. Mas que merda... faço isso porque não quero perder você.
Eles fixaram seus olhares um dentro do outro como uma comunhão. Era uma troca mútua de cumplicidade. Eles entendiam o que cada um precisava fazer e quanto o fardo era pesado para um Guerreiro, mas eles nunca reclamavam. Só seguiam em frente.
– Desculpe ,meu Senhor. Desculpe por minha conduta ultimamente.
O Rei esticou o braço e o apoiou no ombro do amigo apertando-o com vigor.
– Vai passar, Vishous. Só não carregue tudo isso sozinho. Afinal já passamos por muito.
– Sim, eu sei – respondeu V. retribuindo o gesto da mesma maneira – Mas há outra coisa. Eu gostaria de ir ao quarto da humana. Por favor, preciso falar com ela e mantenho minha palavra, eu não a machucarei.
– Quer dizer que tenho sua palavra?
– Sim! Eu não tocarei nela.
– Sendo assim, vá. Tenha uma conversa clara e objetiva.
– Obrigado, meu senhor.
Esperou até que Wrath se distanciasse dele, para depois seguir direto pelo corredor das estátuas no segundo andar. Chegando em frente à porta do quarto da prisioneira, destrancou-a com a mente e entrou sem hesitar.
Havia uma névoa ondulando por todo o ambiente e ele ouviu o som do chuveiro. Sentou-se no sofá de couro e esperou que ela terminasse o banho. Só então notou a profunda tristeza que fluía do banheiro.
Levantou-se e foi ao encontro dela, preparando-se para ser xingado e expulso do quarto, mas ao olhar a cena ficou sensibilizado.
Encontrava-se sentada no chão do box, encostada na parede. Com a cabeça baixa, o rosto direcionado para suas mãos que permaneciam entrelaçadas sobre seu colo. Estava usando o vestido, agora totalmente molhado. A água caia sobre sua cabeça fazendo com seus cabelos lhe cobrissem a face e suas mãos enrugadas denunciavam que a humana jazia naquela posição há longo tempo.
Dentro daquele box ela parecia estar emparelhada. Vishous caminhou até ficar em frente à porta e a abriu.
– Lisa?
Ela não disse nada. Sequer se mexeu, não esboçou reação nenhuma. Estava petrificada.
V. a olhou por um instante, pensando no que fazer. Sentiu suas emoções e percebeu que ela encontrava-se em uma espécie de transe. Precisava de ajuda.
Fechou o chuveiro e curvou-se diante dela.
– Não vou machucar você — disse calmamente e em tom baixo — Mas precisa sair desse banheiro.
Como não houve réplica, nem objeção ele fez o que precisava ser feito. Entrou no box e tomou-a no colo, levando-a para o quarto. Colocou Lisa sentada no sofá. Foi até o closet e pegou três toalhas brancas.
Seu autocontrole era estrondoso, agia como um verdadeiro enfermeiro. Tirou-lhe o vestido e a pequena lingerie, depois a envolveu com uma das toalhas felpudas. Com a outra secou os braços e as pernas, passando pelo corte logo abaixo do joelho... então, foi a vez dos cabelos, só que quando começou a afastá-los do rosto, notou o grande hematoma.
O lado direito de seu rosto estava tomado por uma cor que ia do roxo até o esverdeado escuro. Espalhava-se descendo da sobrancelha até o meio da bochecha. Em seu supercílio não havia sangue, mas notava-se nitidamente um corte de uns três centímetros.
De repente, Vishous sentiu-se péssimo. Ele suspirou fundo enquanto deixava cair os braços ao lado do corpo dela. Porém não desviou o olhar das marcas arroxeadas que demorariam pelo menos uma semana para desaparecerem por completo.
Deus, o que lhe tinha feito? Aquilo estava muito feio, sem contar, é claro, que ela não respondia a nenhum toque em seu corpo e que provavelmente encontrava-se em um profundo e traumático estado de choque.
Daquele jeito, ali parado, não iria melhorar a situação. Então, pegou o telefone e pediu a Fritz uma bolsa de gelo.
Terminava de secar os cabelos da quando bateram na porta.
Foi até lá, pegou a bolsa de gelo, mas não permitiu que o doggen entrasse no aposento. Em seguida achou melhor deitar Lisa na cama. Arrumou os travesseiros para que a cabeça ficasse bem acomodada, cobriu-a com um edredom e só depois retirou a toalha que lhe envolvia o corpo.
Sentou no chão, ao lado da cama e depositou suavemente a bolsa gelada no hematoma. Fez seis sessões de cinco minutos, com intervalos de dois. Ao perceber um sútil relaxamento no corpo dela, sentiu uma trégua em sua consciência e apoiou os cotovelos na cama a fim de olhá-la mais de perto.
Lisa estava dormindo profundamente.
Vishous estava confuso e pesaroso,o melhor a fazer era continuar ocupado, fazendo algo. Começou recolhendo as toalhas e também as roupas molhadas de Lisa, colocou-as empiladas no banheiro, deixando tudo separado para serem lavadas mais tarde. Ainda inquieto, voltou para o sofá e se sentou, esperando. Suas ideias pareciam com teias de aranha, vários caminhos que não levavam há lugar algum, somente a mais dúvidas.
Quando foi àquele quarto estava disposto a conversar civilizadamente, encontrar algumas respostas e compreender porque ela tinha aquele tipo de ligação com ele. Mas o que encontrou foi desolador. Uma mulher totalmente fragilizada e no limite de sua resistência.
Bruscamente seu sono tranquilo foi roubado e uma pequena agitação física tomou o corpo de Lisa. V. sabia que não podia, na maioria das vezes, não conseguia mais entrar no cérebro das pessoas para ler seus pensamentos, mas não custava tentar olhar o que se passava nos sonhos dela.
... E lá estava ele em um beco, perto da Rua Trade segurando um medalhão de ouro nas mãos quando um redutor surgiu na sua frente.
Começaram uma luta mortal.O fantasma era rápido e apesar de estar em desvantagem conseguiu acertar-lhe com uma faca logo abaixo da caixa torácica. Ele cambaleou, mas a dor o estimulou a terminar o serviço e com rapidez girou o pescoço do homem pálido até sentir seus ossos se partirem. Tirou uma das adagas da bainha, levantou os braços e enfiou no peito. O clarão iluminou todo o beco, tudo foi queimado, resumido a pó.
Por um breve momento recostou na parede, puxou o ar com força para os pulmões, estava ofegante e a dor tinha aumentado consideravelmente, procurou o celular para pedir ajuda...
Um tiro ecoou no ar.
Sentiu a pressão em seu peito, caiu ao chão, o sangue escorria por sua camisa, não conseguia se mexer.
Tinha levado um tiro, um tiro no meio do peito.
Lisa despertou abruptamente para a realidade, respirando com dificuldade, sentou na cama assustada, tentando recompor seu estado emocional. A luz do banheiro continuava acessa, então, ela se levantou para lavar o rosto. Estava nua?
Enquanto Lisa foi ao banheiro, V. tentava raciocinar sobre o que tinha visto no sonho. O medalhão que ele não sabia o que era. A Rua Trade, o redutor, a luta, o tiro... parecia um filme. O filme da sua vida. Será que sua morte chegaria tão cedo? Talvez... porque aquele devaneio passava-se em um presente breve, como ela já havia lhe dito, no próximo inverno!
Lisa tinha tantas interrogações em sua mente e estava bastante confusa que achou melhor fazer uma ação de cada vez. A primeira, lavar o rosto e a segunda se lembrar de como saiu do box e onde colocou suas roupas. Caminhou cambaleando para o banheiro e viu as toalhas jogadas de forma organizada em um canto.
Apoiou-se sobre a pia e abriu a torneira, quando a água bateu em seu rosto sentiu dor mas, a sua memória voltou como num passe de mágica. A única janela faltante era como tinha saído do banho. Demorou alguns minutos, pois analisou no espelho sua terrível aparência. Hematomas, corte no supercílio, cabelo embaraçado, olheiras... estava péssima, porém viva.
Após tal constatação, voltou para o quarto para procurar por seu vestido. Foi então que ela viu Vishous sentado no sofá.
– O que... há quanto tempo está aqui?
E agora? Ela estava nua. Como deveria se comportar? Com o quê poderia se cobrir? Uma coisa ela tinha certeza não agiria como uma garotinha tentando esconder com as mãos partes do seu corpo só porque estava na frente dele. Imediatamente assumiu uma postura altiva.
– Não entendeu a pergunta? Quer que eu repita?
A voz de Liza era avinagrada, áspera e principalmente firme.
– Tem toalhas no closet, você pode usar para...
– Se não gosta do que vê, apenas não olhe. E você ainda não respondeu.
– D.u.a.s.h.o.r.a.s.– disse V. compassadamente.
Ela percebeu o tom da voz dele mudar, estava ficando irritado. Mesmo assim continuou, porque ninguém no planeta poderia estar mais enraivecida do que ela.
– Duas horas? Então foi você que tirou minhas roupas e...
– Você não tinha condições de fazer, então eu fiz.
– Tocou em mim? Quero dizer você...
– Não! Só toquei o suficiente para lhe ajudar.
– Ajudar? – ela soltou um riso sarcástico – Veio para me ajudar. Talvez fazer curativo nos ferimentos que me proporcionou? Seu Rei o mandou aqui, não foi? Porque você não viria de livre e espontânea vontade... Então o que quer de mim?
Aquilo não ia dar certo, pensou V. Estava quase perdendo a paciência e se isso acontecesse iria ensinar aquela humana como deveria falar com ele, mostraria a ela qual o timbre correto de voz que ele desejava escutar.
– Meu Rei não me mandou aqui. Vim porque quero apenas conversar e civilizadamente.
Outro riso sarcástico emitiu Lisa.
– Civilizadamente? Você?... ok. Então... comece a falar – disse ela sentando-se na cama.
– Será que você poderia se enrolar numa maldita toalha?
–Já disse, não!
– Qual é o seu problema? Quer me provocar, me deixar mais irritado do que já estou?
– Qual é o seu problema? Não consegue conversar com uma mulher nua? Diga-me, é tão puritano assim? Porque eu sei que você não é. Já vi nos meus sonhos o que se passa naquela cobertura.
– Encerramos por aqui – falou V. se levantando – Não chegaremos a lugar algum. Foi um erro.
– Não... quem cometeu o erro não foi você. Fui eu. Eu me iludi com o Guerreiro dos meus sonhos. Deixei-me levar, desejei...
– Desejou o quê? Desejou a mim?
– Também. Mas, principalmente, desejei mudar o final, desejei mudar a direção do tiro e olha só onde isso me levou — ela abriu os braços e apontou o quarto — Que idiota eu fui. Cheguei ao ponto de tatuar no meu corpo a letra do seu nome. Sabe, eu deveria ganhar o troféu da “ingênua do ano”.
– Ingênua? – agora foi a vez dele de ser sarcástico e ferino – Ingênuas, não trabalham em “clubes de stripeers” como você trabalhou em Chicago e não fazem sexo oral na primeira vez que botam os olhos em cima de um homem.
Lisa, precisou de alguns segundos para se refazer do que tinha ouvido. Ele, um pervertido sexual, a estava julgando de maneira dura e cruel.
– E homens de verdade não enganam a si mesmos — retroucou ofendida — Coisa que você tenta desesperadamente fazer. Negar que não gostou. Quer saber, você é frio e muito parecido com seu pai. O que você não entende, Vishous... você tortura e destrói.
V. percebeu seu ódio se solidificando como uma locomotiva em alta velocidade. De seu corpo emanava um calor que aqueceu o quarto a uma temperatura de quarenta graus e sua mão brilhava tanto que incendiou a luva que vestia.
– Vá em frente. No fundo nós sabemos que vou morrer mesmo. Sei que é capaz, afinal, você não é mais o herói dessa estória. Você naõ passa de um carrasco.
As palavras ecoavam claras no ambiente e V.tremia da cabeça aos pés, visivelmente tentando se conter.
– Nunca mais me compare ao meu pai, vadia... e não fique animada, porque eu não te matar. Dei minha palavra aos meus Irmãos. Quero ver até onde consegue aguentar, quero assistir seu sofrimento.
Lisa caminhou na direção de V. e só parou quando seu corpo quase encostou-se ao dele. Encarou aquele olhar furioso sem medo algum, pois não tinha mais nada a perder, sua vida não valia nada.
– E você nunca mais me chame de vadia. Você é tão ou mais promíscuo do que eu. Tenho certeza de que não se importa nem um pouco com as mulheres... ou vampiras... que leva para sua cobertura. Você só as usa para satisfazer seu prazer de sexo e dominação. Será que se lembra do nome delas depois da transa?
– Isso não é da sua conta e se eu fosse você começaria a ter medo de mim.
Para provar que não sentia medo algum, pelo menos naquele momento. Ela apoiou uma de suas mãos no peito dele.
– Só que você não é. Não tenho medo de você, tenho apenas pena. E quer saber por quê?
– Não!– gritou ele.
– Mentiroso!– ela revidou, na mesma altura.
No instante seguinte V. agarrou-a, segurando-a pelos dois braços.
– Está me testando? Porque sou forte o bastante para suportar.
– O que você não suporta, a verdade que não aceita, é estar apaixonado por seu melhor amigo... o tal, Butch.
– Agora chega!– Ele gritou balançando-a com seus braços.
– Se não aguenta a verdade, Guerreiro, não deveria ter vindo aqui. Você só quer ouvir e fazer o que lhe interessa.
– Até onde quer chegar com isso, mulher?
– Já fez amor com alguém V.? — perguntou passiva e calamente — Com alguém que realmente você se importa? Com alguém que quisesse compartilhar e não tornar submisso? Não... acho que não... é por isso que tenho pena de você. Eu, a vadia... não fiz apenas sexo oral com você, eu fiz algo mais, eu queria aquilo, eu desejava você. Só que infelizmente eu não sabia o quanto você é frio e insensível. Agora me solta, está me machucando.
Lisa deu um tranco com seus ombros para trás conseguindo soltar um dos braços, graças à alta temperatura do quarto e o suor acumulado em seu corpo, estava escorregadia. Mesmo assim, ele ainda a segurava com a mão direita.
– Eu disse para você me soltar.
Então, ela tentou tirar a mão que lhe segurava o braço, puxando-a com força, segurando-a entre suas mãos. Com esse ato... o mundo parou!
A mão brilhante de Vishous estava diretamente sobre a pele de Lisa, tocando-a, agarrando-a sem provocar qualquer tipo de queimadura. Com olhos fixos naquela visão, ambos perderam a noção do tempo. O silêncio que se fez em seguida, só serviu para deixá-los mais assombrados.
Os segundos pareciam ter se tornados horas e as horas... dias.
– V., porque não estou queimando?
Ele ameaçou retirar a mão, mas Lisa não permitiu.
– Por Deus, não solte. No momento não tenho certeza se posso me manter em pé sozinha.
A raiva e a aflição de ambos haviam desaparecido. Continuando a olhar para onde estavam conectados, V. começou a falar:
– A cada 300 ou 400 anos nasce no mundo uma mulher marcada pelas trevas. Ela pode ler sua alma, porque a luz que habita nela é energia gerada pelo fogo.
– Eu realmente sou uma feiticeira, não é? — murmurou Lisa como se falasse para si mesma — E você pode me tocar porque sua mão é energia pura. Assim como o fogo que habita dentro de mim.
– Sim, é isso.
– Acho que é melhor você relatar o que aconteceu aqui ao seu Rei.
– Eu irei assim que você se acalmar.
Com muito custo, ela se virou em direção à cama. Em vez de se deitar, puxou o lençol de cetim preto dobrou-o e enrolou cada uma de suas pontas superiores prendendo-as ao seu pescoço. Depois pegou as outras duas pontas que ficaram dobradas em diagonal e amarrou sobre sua cintura. Quando terminou o lençol tinha se transformado em um lindo vestido preto que lhe cobria o corpo e caía até a altura de seus joelhos.
Pela primeira vez Vishous olhou-a de uma forma diferente, quase que admirando sua praticidade.
– Que foi? Acha que vou sair nua pela casa?
– Não, claro que não vai. Porque não vai a lugar algum.
Ela o encarou e já estava pronta para argumentar que não ficaria sozinha naquele quarto quando notou que V. estava perplexo.
– Seu rosto... ele está...
– Deus, V., está me assustando. O que foi? Queimou?
– Não, pelo contrário. Os hematomas sumiram assim como o corte no supercílio.
Lisa correu para o banheiro, procurando o espelho. Nada, nenhuma mancha roxa, nenhum sinal. Só o seu belo rosto refletido. Seus olhos estavam mais brilhantes do que nunca e aparentava estar com o corpo mais bronzeado do que de costume, como se tivesse acabado de tomar sol. Esplendorosa... era assim que se sentia. Ela sorriu e com seu belo sorriso voltou para o quarto.
– Obrigado V.
– Só pode estar de brincadeira?
– Por quê? Você me curou.
– Foi... mas, eu não sabia que era... possível.
– Isso não faz diferença. O que interessa é que aconteceu. Você tem um dom incrível, um poder especial, divino.
– Não é bem assim.
– Claro que é, olhe pra mim e me diga se não estou linda ou no mínimo adorável.
Sua alegria era contagiosa, parecia que tinha esquecido que era uma prisioneira e que acabara de escapar da morte, mesmo que fosse involuntariamente. Mas esse sentimento não foi suficiente para abrandar a culpa da desatenção que Vishous sentia.
– Eu podia ter matado você, nem percebi que a toquei sem a luva. Caralho, você me tira fora do sério, me deixa louco. E se isso acontecesse, como eu explicaria que foi um acidente? Acha que a Irmandade acreditaria?
– Sim. Tenho certeza de que eles acreditariam. Assim como seu Rei está acreditando agora. Você está aqui, comigo. Isso quer dizer que sua palavra é valida e respeitada.
Vishous foi pego de surpresa. Aquela humana sabia exatamente o significado de amizade e lealdade. O que o levava a imaginar que ela tinha amigos fiéis que procurariam por ela e não demoraria muito.
– Porque se cobra tanto V.? — indagou curiosa — Não precisa carregar essa culpa, afinal nada de grave aconteceu.
– Para você tudo parece fácil. Não é?
Haviam retornado ao ponto de partida... brigas e insultos!
– Sim... tão fácil que você teve que me tirar daquele box. Quer saber de uma coisa, saia daqui. Não há diálogo entre nós. Você não passa de um arrogante petulante.
– Eu posso viver com sua opinião.
– Com a minha opinião, sim! Mas não consegue viver com o que pensa sobre si mesmo.
– Como se com você fosse diferente.
– Sou muito diferente de você. O que estou vivendo agora é assustador, mas o que está feito está feito. Não posso mudar o que sou ou quem foi meu pai. Só estou tentando achar um meio de entender tudo isso. Se bem que... sinceramente, não sei se sua raça me dará essa chance.
– Nunca poderá voltar para o seu mundo.
– E quem decide isso? Você? Você é apenas um soldado. Faz o que seu Rei manda fazer. Se ele deixar você sair, você sai... senão, fica em casa de castigo, como um cachorro.
Vishous avançou sobre ela jogando-a na cama. Ele a agarrou pelos pulsos levantando-os e segurando-os com apenas uma de suas mãos. Lisa se debatia com força, mas de nada adiantava, então ele pressionou seu corpo contra o dela, esfregando-se sem nenhum pudor, sem nenhuma vergonha.
– É isso que você quer?
– Me solta.
Ele não soltou, pelo contrário beijou-lhe o pescoço enquanto acomodava sua quente ereção no meio das pernas dela.
– Está frustrada, humana? Então, extravase toda essa raiva em mim. Beije-me.
Por um momento Lisa hesitou, mas a voz dele tremia sobre seu corpo e ela prendeu seus lábios dentre os dele. A boca era macia e urgente, ela ergueu os seios como se pudesse colar ainda mais o seu corpo contra o dele. Depois de tudo, dos maus tratos, das ofensas ela ainda o queria.
– Sim, Lisa... posso sentir que você me quer.
Ele correu sua mão brilhante por todo o corpo dela, vasculhando todos os cantos, memorizando cada centímetro. V. desnudou suas presas, enquanto soltava o nó do vestido improvisado, deixando-a nua. Arranhou sensualmente seu pescoço, desceu pelo ombro até que encontrou um dos mamilos, brincou e o envolveu totalmente com sua boca.
Ela estava tomada por um desejo ardente, quase animal e Vishous comandava tudo aquilo como um maestro.
– Agora, abra suas pernas para mim.
Gemendo, ela obedeceu.
– Vou tocar seu sexo e quero que seu olhar permaneça fixo nos meus olhos.
Ela assentiu e esperou seu toque. Também queria tocá-lo, mas ele ainda segurava seus braços para cima. Estava completamente úmida quando a mão dele chegou onde ela desesperadamente queria. Ela gritou de prazer.
– Isso continue olhando para mim... vou soltar seus braços e quero que você permaneça exatamente como está. Não se mexa.
Deslizando a boca pelo corpo dela, atingiu a barriga plana e beijou-lhe os ossos dos quadris,admirando a bela tatuagem em forma de flor e mordiscando seu baixo ventre. Imediatamente foi acometido com uma pontada em seu cérebro. Era Lisa, seu cheiro, sua umidade, seu sexo. V. ficou alucinado, seu membro pulsava fortemente dentro de suas calças querendo sair para penetrá-la de todas as maneiras possíveis.
Ela deixou escapar um suspiro de êxtase, estava quase lá, mas em nenhum momento desviou o olhar daquele homem incrível. Ele curvou-se entre as pernas dela, colocando sua língua exatamente no centro do sexo. Ele esfregou seu cavanhaque, seu rosto e a mordeu pecaminosamente.
– Lisa... você vai gozar pra mim. Aqui e agora.
Quando ela estava à beira do orgasmo, a beira do êxtase... V. parou. Afastou-se dela rapidamente e foi se encostar na porta de saída do quarto. Ela ainda não tinha compreendido o que havia se passado quando notou o sorriso sinistro e aterrador que marcava o rosto do Guerreiro. Uma satisfação quase insana. Sua voz saiu grave e danosa.
– Você tem razão em uma coisa... o Rei manda em mim — enquanto dizia as palavras, passava o rosto pelas mangas da camiseta em seus ombros. Parecia que estava se limpando dela.
– O quê? — ela o olhava incrédula. Não conseguia assimilar.
– O Rei manda em mim... e eu mando em você, acabei de dominá-la. E você nem se quer percebeu. Se isso fosse uma cadeia alimentar. Você ocuparia a parte mais baixa da pirâmide.
Ele se virou e saiu do quarto sem sequer olhar para trás. Trancou a porta com o pensamento e levou consigo a prazerosa sensação de que havia vencido a batalha. Ela caíra sob seus pés.
–-----------------------------------------.
Fale com o autor