Tragédias Gregas
1 I.
Surpreendentemente, fugir de casa na calada da noite foi uma das decisões mais fáceis que Oliver tomou nas últimas semanas.
Voltar para casa foi consideravelmente mais difícil do que o ex-náufrago previu, e não era apenas porque todos de sua antiga vida pareciam ansiosos para que tudo voltasse a ser como era, mas também porque, apesar de todos os anos de planejamento e antecipação, ele não conseguiu abrir o livro de seu pai ou encaixar uma flecha em seu arco nenhuma única vez.
Ao invés disso, Oliver se viu paralisado.
Suas mãos tremiam toda vez que ele segurava seu arco entre os dedos. A madeira polida e rígida do modelo recurvo parecia estranha em sua pele, onde antes era confortável e familiar. O contorno da aljava, a sensação de suas facas de lançamento, o peso da Glock em seu quadril, tudo isso era demais. Ele se viu sobrecarregado por tudo aquilo, pela missão suicida de seu pai, pelos olhares de pena, ódio e expectativa.
O capuz de Shado e Yao Fei pareceu se agarrar a seu pescoço e o sufocar até a morte na única vez em que conseguiu vesti-lo. Ele não conseguia respirar direito, e sua pele repulsava o tecido tanto quanto o tecido repulsava a ele.
A verdade o atingiu como um trem de carga dois dias atrás, quando ele conseguiu fugir de seu novo guarda-costas e se refugiar na Fundição. Por pouco ele não havia matado seus sequestradores quando ele e Tommy foram levados, então sua identidade como vigilante não precisou vir à tona, o que só tornou sua realização mais definitiva, e mais como um soco no estômago.
Ele não era forte o suficiente para fazer isso.
Não importava o quanto ele tivesse lutado para estar ali, naquele momento, em sua nova base de operações segurando a lista de seu pai e com seus alvos ao alcance de suas flechas. Não importava que agora ele dormia em sua antiga cama (na verdade não, ele dormia no chão ao lado dela) e que sua irmã vivia no quarto ao lado. Sua mãe, Raisa, Tommy, Laurel, Thea, nenhum deles importava. Oliver não conseguia se forçar a dar inicio a sua missão, ele não conseguia continuar sorrindo e colocando uma máscara para todos.
Voltar para Starling City foi um erro. Pensar que poderia assumir a responsabilidade de cuidar dos nomes da lista foi um erro. Tudo isso não passava de outro de seus inúmeros erros.
Pensar que tudo poderia correr como o planejado foi estupidez.
Oliver Queen estava morto. E deveria ter permanecido assim.
E foi dessa maneira que ele terminou onde estava, de pé em um apartamento sublocado em Coast City, com uma caixa de tinta de cabelo azul em uma das mãos e sua bagagem da ilha na outra. Fora isso, sua mochila com algumas trocas de roupa e alguns milhares de dólares em dinheiro fornecido pela Bratva eram tudo o que ele tinha. Ele não sabia exatamente como fora parar ali, porque embora tivesse uma ideia geral, os detalhes eram borrados e incertos. Sabia apenas que fazia um mês que ele tinha voltado dos mortos e cerca de dezessete horas desde a terrível briga que tivera com sua mãe e irmã, e que ele teria cabelo azul até o fim do dia.
Mas fora isso, não pela primeira vez, Oliver Queen se viu completamente sem ideia do que fazer.
O apartamento era mal iluminado e fedia a mofo. Os móveis eram uma mistura de decoração triste dos anos oitenta e decoração mais triste ainda dos anos vinte, e ele tinha quase certeza de que viu um rato passar por trás do sofá. Ao todo, tinha um pequeno quarto, um banheiro relativamente limpo e uma sala conjugada com cozinha, ambas em tonalidades ensebadas de amarelo e bege.
Em algum momento, ele conseguiu se forçar a caminhar até o banheiro, onde abriu a caixa de tinta e leu o manual de instruções. Oliver não usou luvas ao aplicar a tinta nos fios curtos, e acabou lavando a cabeça na pia mesmo quando o tempo de ação se esgotou e, cerca de quarenta minutos após colocar os pés naquele cativeiro de cinquenta dólares por semana, ele parecia a versão ainda mais deprimida de Clementine Kruczynski do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
Levando em consideração de que ele estava mais próximo dos trinta do que dos vinte, Oliver sabia que estava velho demais para aquela cor de cabelo. Ele provavelmente deveria ter escolhido castanho escuro ou preto, que chamariam menos atenção e seriam mais discretas, mas seu modo automático o levou a agarrar o ‘Azul Mirtilo’ da prateleira daquela mercearia abafada. Mas não fazia diferença, não realmente. Azul não era uma cor que levariam em conta quando pensassem nele, e embora fosse chamativa, talvez fosse um melhor disfarce do que qualquer outra.
Mas por que ele estava divagando sobre tintas de cabelo mesmo?
Ele tinha coisas a fazer.
Diligentemente, ou o mais próximo disso que aquele peso em seus membros o permitia ser, ele abriu a dispensa que tinha sido estocada pela garota da Bratva que arrumou tudo aquilo para ele, e tirou de lá cloro, detergente e limpa-chão com aroma de lavanda. Ele gostava de lavanda. Gostava do tom bonito de roxo, e de como o cheiro era diferente de todos os outros dos últimos cinco anos, e da mansão, porque as flores favoritas de sua mãe eram lírios e ela absolutamente detestava lavanda.
Ele passa a tarde toda andando de um lado para o outro, limpando cada superfície duas ou três vezes, porque Oliver se recusa a viver na sujeira mais do que já viveu. Ele não aguenta – não suporta a sensação de imundice e o cheiro de mofo. A gordura, a oleosidade, tudo o isso levava ao limite. Talvez esse fosse o motivo por trás de seus banhos excessivos, e do desconforto em tocar as pessoas. Ele não suportava se sentir sujo, mas fazia anos desde que ele se sentiu verdadeiramente limpo.
Quando ele finalmente termina, é noite. Ele encontrou um saco de dormir e alguns cobertores no quarto, e fez um bom trabalho criando algo que parece ligeiramente com um ninho no canto que julgou mais seguro da sala. Ele também encontrara duas pistolas e alguns cartuchos de munição escondidos dentro de um pequeno cofre, juntamente com passaporte e identidade falsificados.
Às vezes se aliar a máfia russa deixava de ser apenas um peso enorme na consciência e passava a ser conveniente.
(isso não queria dizer que ele provavelmente devia algo a eles por todos aqueles favores, mas Oliver ainda não estava pensando tão à frente)
Quando ele finalmente acaba de arrumar tudo, ele se joga no sofá e preguiçosamente liga a televisão, ignorando o ronco de seu estômago. O mês que passou em casa o deixou mal acostumado, com suas refeições regulares e chiques. O homem que ele era há três meses teria facilmente passado três dias sem comer e nem pensaria duas vezes com isso. No entanto, apesar disso, é fácil deslizar de volta para aquela mentalidade e ignorar as necessidades de seu corpo. Não que ele precisasse racionar a esse ponto ou algo do tipo, mas é que Oliver não sentia muita vontade de se alimentar naquele momento, mesmo com a fome.
O ancora na tela agradece a repórter que conduzia a matéria sobre culinária japonesa e assume uma expressão séria, que Oliver observa com pouco interesse. Isso até ele começar a falar.
— Uma fonte anônima entrou em contato com o jornal com notícias chocantes sobre o primigênio de uma rica família do Oregon. Há cerca de um mês atrás Oliver Queen foi encontrado com vida em uma ilha da China Oriental após cinco anos dado como morto. No entanto, essa manhã a matriarca da família Queen teria supostamente feito um boletim de desaparecimento na delegacia de Starling City. Nossa fonte não foi capaz de dizer muito sobre as ações da polícia acerca desse caso, mas vale ressaltar que apenas dois dias após voltar para sua família, o herdeiro Queen fora sequestrado juntamente com Tommy Merlyn, filho do CEO das Indústrias Merlyn.
— Sinceramente, considerando seu histórico, o Sr. Queen deve estar apenas se recuperando de uma grande ressaca na casa de uma supermodelo. – a outra ancora diz sarcasticamente, e Oliver escolhe aquele momento para desligar a maldita televisão.
Se ele quisesse ficar sendo comparado com seu antigo eu, ele nunca teria saído de Starling em primeiro lugar. Ele nunca teria viajado mil e duzentos quilômetros até o sul da Califórnia e se enfurnado em um apartamento mequetrefe em Coast City de todos os lugares.
Cerca de cinco minutos depois que o lugar se afunda em silêncio, a campainha chiante toca e Oliver geme de desagrado. Pegando e silenciosamente uma das armas de seu esconderijo, ele a destrava quase ao mesmo tempo em que desliza uma das facas da cozinha no cós da calça, porque ele era bom assim em multitarefa, e tem pouco tempo para contemplar o tanto que essas ações são terrivelmente fáceis quando ele não está tentando ser um vigilante.
(não que ele considere sua missão vigilantismo propriamente dito, talvez paramilitarismo de um homem só?)
Com cautela, ele olha pelo olho mágico, encontrando do outro lado um homem que, a primeira vista, não parecia particularmente ameaçador.
Oliver abre a porta.
oOo
Callahan tem cerca de cinco problemas urgentes no momento, e um deles tem a ver com seu novo vizinho.
Veja bem, ser professor de latim e mitologia grega na universidade local pagava menos do que se poderia pensar, até porque não era como se Coast City Academy fosse lá essas coisas, e seu senhorio era um grandessíssimo filho de uma-
—que aumentou o aluguel em vinte dólares com a desculpa de que seu apartamento era o maior do prédio, portanto deveria pagar mais. O interessante é que Callahan morava naquele mesmo maldito lugar há dois anos, desde que sua mãe adoeceu de vez e ele teve de recusar uma oferta de emprego única na vida. E em nenhum desses dois anos houve discussão alguma sobre aumento do aluguel. O ruivo desconfiava que por trás daquela desculpa esfarrapada havia camadas e mais camadas de homofobia, mas não é algo facilmente provado em tribunais. Como se ele ao menos tivesse dinheiro para isso.
O que ele diria? Meu senhorio aumentou meu aluguel porque soube que eu gosto de chupar o pau de alguém ocasionalmente. Acho que é inveja, já que a esposa dele não lhe dá um boquete desde 1990.
Juiz nenhum aceitaria isso. Principalmente se vindo de um imigrante – embora que legal – com o nome mais sujo do que a lavanderia do prédio onde morava. Ah, as maravilhas de ser pobre.
As contas de luz atrasadas vinham se empilhando na mesinha de canto da sala havia meses, e ele quase se eletrocutou uma ou duas vezes ligando a energia por si mesmo, porque sabia que caso pedisse diminuição da dívida a companhia de luz exigiria uma revista pelo local, assim encontrando o ‘gato’ na energia que tornava as contas mais baratas. Besteira contratual, de fato. Era por isso que ele estava contando com seu bônus de natal para quitar tudo.
Mas o fato era: sua mãe – sua odiada mãe – gostava de passar todo seu tempo livre, ou ao menos aquele em que era capaz de reunir dois ou três pensamentos, o câncer e as sessões de quimioterapia custeadas pelo governo roubando aos poucos sua lucidez, gritando com ele sobre sua irresponsabilidade. Como se ele tivesse culpa, como se ele sentasse sua bunda no sofá e assistisse televisão o dia inteiro, e não como se tivesse dois empregos e menos de cinco horas de sono por noite.
Foi nisso que ele pensou conforme subia as escadas – o elevador estava estragado há oito meses e sem previsão de concerto – bufando com o esforço. Embora fosse magro como um palito (tente ganhar uns quilinhos trabalhando tanto quanto ele trabalhava e sofrendo com os efeitos colaterais da Ritalina e falhe), ele não era particularmente atlético, e sofria de um quadro leve de asma. Tudo isso para dizer: seu vizinho o pagaria por estacionar sua moto na vaga de seu Monza. E pagaria em dobro por fazê-lo ter que subir aquelas malditas escadas duas vezes.
Quando finalmente chegou ao sexto andar – ele sabia que seu novo vizinho morava ali porque os dois primeiros estavam interditados desde aquela enchente no início do verão, e ninguém em sã consciência moraria no terceiro ou no quarto, então sobrava os dois últimos, dois quais apenas um apartamento estava vazio – seu coração parecia estar prestes a explodir em seu peito e ele precisou de um momento para recuperar o fôlego.
Dois minutos depois, ele estava batendo na porta do 602 apenas ligeiramente irritado. Onde normalmente ele deixaria aquilo de lado e conversaria posteriormente com o novo vizinho para que tudo fosse esclarecido, ele se viu cheio daquela raiva cansada que o fazia mais confrontador do que o normal.
Quando a porta foi finalmente aberta – após um barulho que soava suspeitosamente com uma arma vir do lado de dentro – o ruivo passou a reconsiderar sua decisão, e começou a se sentir nervoso. E se o outro cara (ou mulher, vai saber) estivesse armado? E se ele fosse do tipo que não gosta de ser incomodado?
Era tarde demais para voltar atrás.
A primeira coisa que o atingiu foi o forte cheiro de produtos de limpeza e lavanda que vinha de dentro do apartamento. A segunda foi a visão impressionante de um Adônis dos tempos modernos o encarando com curiosidade.
O homem era lindo, foi o que ele notou. Seus traços eram o que se esperaria de alguém nascido da elite, com olhos surpreendentemente azuis contornados com cílios escuros e sobrancelhas loiras que contrastavam com o cabelo curto tingido de turquesa. Ele era alto também, mais alto do que o próprio Callahan, e parecia forte debaixo do moletom preto.
— Olá? – a voz profunda o cumprimentou, conseguindo soar ameaçadora e reconfortante ao mesmo tempo. Ou talvez fosse apenas o nervosismo do ruivo interpretando as coisas da maneira errada.
— Oi? – ele se estapeou mentalmente por soar tão inseguro. Ele não sabia se era pelo medo de que o cara estivesse realmente armado, ou se era pela beleza que o pegou de surpresa. No fundo, Cal era um idiota quando se tratava de homens bonitos, embora tentasse não ser – Meu nome é Callahan Hawthorne, sou seu vizinho. – ele encontra forças para dizer.
— Alastor Hawke. – o homem, Alastor, diz – Como posso ajuda-lo? – suas palavras eram carregadas por um leve sotaque europeu, mas parecia também ter algo a mais, da maneira como pessoas que passam muito tempo fora costumavam ter.
— Você estacionou sua moto na minha vaga. – Cal diz, subitamente mais corajoso do que se sentia há poucos momentos. A cautela tinha se dissipado e o estonteamento passou.
— Sério? – Alastor arregala os olhos ligeiramente, e então franze a testa em confusão – Não sabia que as vagas tinham marcação, erro meu.
— Não tem. É que eu meio que preciso da vaga mais próxima das escadas por causa da minha mãe, então eu estaciono sempre no mesmo lugar. Os outros vizinhos já sabem, mas como você é novo...
— Entendo. – ele acena com a cabeça e Cal tem um segundo para contemplar a linha forte da mandíbula e a pequena porção de cabelo que não foi tingida quando Alastor se vira ligeiramente para dentro do apartamento – Vou pegar minhas chaves e tiro ela de lá, só um momento.
— Ok. – ele murmura e passa os olhos distraidamente pelo interior, conforme a batente se esvazia da presença do outro homem. Parecia bem limpo até, mas as paredes e a mobília eram quase deprimentes. Não muito diferente de seu próprio lugar.
— Aqui, vamos? – Alastor aparece tão rápido quanto se foi, a chave da moto entre seus dedos. Callahan tem, por um segundo, a impressão de que seu rosto é estranhamente familiar, mas o pensamento se vai tão rapidamente quanto vêm.
— Claro. – ele se obriga a sorrir, mas acha que parece tão falso quanto é. Alastor devolve o sorriso com um próprio, nada mais do que um simples levantar de lábios.
Eles descem as escadas, sendo isso mais fácil do que a subida anterior, e em poucos minutos a moto já foi recolocada em outra vaga e seu Monza, apesar de precisar de duas tentativas para que realmente ligasse, está estacionado no lugar de sempre.
Secretamente, Callahan está triste que o tempo passou tão rápido. Não por causa do vizinho, ele mal conhecia o cara, mas porque isso significava que ele teria que voltar para seu apartamento, e por consequência para sua mãe. Era meio triste que um homem de vinte e seis anos tenha medo de ficar sozinho com a mãe, mas você não precisa de tempo o suficiente ao lado de Druella Hawthorne para entender o porquê. Ela era uma pessoa difícil, o câncer só piorou isso.
Eles, que permaneceram em relativo silêncio, voltaram a subir para o sexto andar, Alastor se movendo no mesmo ritmo que ele. Seus pulmões se contraiam em sua caixa torácica e tornavam a subida ainda mais difícil do que deveria ser. Sua asma piorava conforme o tempo esfriava, e o outono aos poucos se transformava em inverno ao seu redor. Eventualmente, na metade do terceiro andar, ele teve que parar para se encostar no corrimão e tentar inutilmente voltar a respirar de maneira regular.
— Você está bem? – os ‘T’s’ do loiro (ou seria azulado?) eram marcados e ligeiramente chiados, parecidos com o da Sra. Sokolova que era a única outra moradora do sexto andar, e é apenas nisso que a mente com pouco oxigênio de Cal consegue se concentrar.
— Me dê- me dê só- ele mal consegue articular as palavras, esticando os dedos trêmulos para o casaco onde sua bombinha ficava, mas a tremedeira o impede de conseguir fazer isso.
— Com licença. – diz o Hawke conforme ele mesmo tira a bombinha de seu casaco, a ponta fria de seus dedos longos tocando rapidamente a pele da cintura do Hawthorne, onde a blusa que era pequena demais não cobria. Ele leva o nebulímetro até seus lábios e Cal sente um alívio quase imediato quando a alavanca do spray é acionada.
Pelos próximos dois minutos, conforme o remédio fazia efeito e sua respiração se acalmava, Alastor continuou sentado ali com ele, seu cenho franzido e seu olhar atento. Eventualmente, Callahan se acalma e consegue ficar de pé. Ele sorri para o vizinho, dessa vez mais honesto, e passa a língua por trás dos dentes conforme pensa no que dizer. Não há muitas opções, mas o cérebro dele funciona assim. Pense, repense, pense de novo.
— Obrigado. – ele diz, sentindo a vergonha se instalar. Ele mal conhecia o cara há vinte minutos e já tinha tido um ataque de asma na sua frente. Patético.
— Disponha. Consegue subir? – o loiro parece verdadeiramente preocupado, e o ruivo se sente grato por toda aquela demonstração de decência humana básica. É algo do qual ele sentiu falta.
— Vai na frente. Eu chego lá eventualmente. – ele acha que vai precisar de mais de cinco minutos para completar a subida, e seriam cinco minutos torturantes e gloriosos, como cada momento longe de sua mãe parecia ser.
— Eu posso ajudar, se quiser. – diz Alastor – Pode subir nas minhas costas, eu te carrego.
Pela primeira vez durante toda a conversa, Callahan sente o rosto ficar vermelho. Aqui estava ele, Callahan Hawthorne, de vinte e seis anos e um metro e setenta e sete de altura, e o homem bonito que acabou por ser seu novo vizinho estava oferecendo para carrega-lo nas costas por mais três andares, porque ele teve uma crise de asma.
O Cal de cinco horas atrás, exausto ainda que apenas no segundo período, teria rido da ideia caso você dissesse que era assim que sua tarde terminaria. O Cal de agora não sabe bem o que dizer, principalmente porque toda a ideia de estar tão próximo assim de alguém, fora suas escapadas sexuais, era meio opressor.
— Eu não quero ser um incômodo. Não precisa mesmo, é sério. – ele garante, e Alastor deve ter visto algo em seus olhos que o faz desistir de insistir, porque ele apenas assente e sorri novamente antes de voltar a subir as escadas rapidamente.
Mais do que a decência humana básica, Callahan pode apreciar uma pessoa que reconhece quando recuar.
O vizinho se vai, e ele fica para trás.
Havia muitos degraus a percorrer.
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