Trafficker's Curse
1 Capítulo 1 - Sombras de memórias
Notas iniciais
– Então você é a senhorita Angel Sinesis? A nova recruta? — Perguntou um homem, entregando o formulário de inscrição.
– Sim, sou eu... — A mulher respondeu com a voz baixa e controlada.
– É uma maravilha!! Você é irmã da Capitã Lira, certo? Ela tem feito um ótimo trabalho aqui!! Esperamos os mesmo tanto de você! — Ele falou entusiasmado, piscando um olho para Angel. Maravilha, outro lugar pra ser comparada com a minha irmã...
– Sim, darei o meu melhor. — A mulher alta de cabelos ruivos respondeu, forçando um sorriso.
– É só assinar aqui e aqui... E aqui!! Meu nome é Jean, ok? — Ele foi indicando espaços marcados por um "x" de caneta no formulário.
– Prazer, Jean. — Angel se curvou para assisnar a papelada. Pra quê preciso saber seu raio de nome?
– E só se sentar e esperar que te chamem. — Ele não perdeu a oportunidade de dar mais um sorrisinho antes da ruiva ir se sentar. Ele acha que vai ganhar alguma coisa me ajudando, riu-se Angel em pensamento. Desde que decidira ir para o mesmo ramo que sua irmã, sabia que iria ser paparicada por pessoas de patentes mais baixas. Se sentou em uma sóbria cadeira de metal, idêntica a muitas outras que preenchiam a frente do guichê da sala.
O número de cadeiras, na verdade, era desnecessário, além dela só havia um garoto magrinho e míudo, cheio de sardas, que tinha uma aparência um tanto frágil, e uma garota de cabelos curtos, pintados de roxo e com uma expressão revoltada. Não parecia nem um pouco uma sala para se inscrever na maior agência secreta, a Tracking, que formava os melhores militares, tendo destaque, entre eles, Lira.
Lira. Esse nome pulsava na cabeça de Angel. A irmã era sua única e preciosa família, desde pequena era classificada como uma super-dotada e tinha uma personalidade exemplar. Angel sempre lembrou com carinho as vezes em que ela e a irmã mais velha brincavam no jardim. A baixinha de cabelos pretos sempre amou pular em bolas grandes demais pra conseguir segurar e sair rolando barranco abaixo.
Angel deu um leve sorriso com as memórias quando ouviu seu nome ser chamado. Ela precisava passar. Queria estar novamente junta de sua irmã. Claro que teria que batalhar muito pra isso, Lira já era renomada no local e tinha a ficha impecável: nunca falhara em nenhuma missão. Angel toda vez se impressionava ao ver que sempre sorria quando lembrava de sua irmã.
Entrou em um pequeno cubículo onde um homem, de provavelmente 35 anos, ajeitava uns papéis e pediu que sentasse. Não importa o quão calma parecia, Angel se sentia nervosa.
Depois de organizar os papéis em pilha ao seu lado, o homem ajeitou seus óculos.
– Meu nome é João. E vou te entrevistar hoje. — Anunciou, pegando um papel e apertando o tampo de uma caneta. Angel só fez uma pequena reverência, séria. — O que foi, meu nome é tão difícil assim de lembrar? — João tentou descontraí-la, mas a mulher continuou com sua postura séria e olhar decisivo. Ai, ai, esse tipo é um pouco difícil de se lidar, pensou João para si próprio. Pigarreou. — O que te levou a vir aqui?
– Minha irmã. — O homem levantou uma sobrancelha, decidiu continuar.
– Então não tem nenhum interesse no ramo?
– Parece interessante, acho que eu me adequaria bem.
– Sabe de todos os riscos envolvidos?
– Sim, soube pela minha irmã. — Avá que ser um agente secreto é perigoso...
– Pelo resultados dos testes físicos e psicológicos acho que você será uma ótima agente. — Ele consultou um dos papéis. — Tem uma excelente formação, aptidão física fenomenal. É como se tivesse nascido pra isso. — Procurou alguma reação nos olhos meio violetas de Angel, nada achou.
– Obrigada.
– Então é só assinar aqui mais uma vez e você será uma recruta. — Passou-lhe mais um infernal papel. Ela assinou rápido, já poderia tirar um doutorado disso.
A ruiva levantou-se e saiu da sala, postura sempre rígida, cumprimentou João e foi pra casa segurando sua admissão contra o peito, ansiosa pelo seu novo emprego e pela perspectiva de ver novamente sua irmã.
Quando a jovem finalmente saiu da sala, João pegou um telefone.
– Ela é ótima, só falta um pouco de sentimentos. — O homem informou.
–-x--
Dois anos depois.
– Bom dia, Angie!! — O cozinheiro do refeitório comprimentou a mulher, esta deu um leve sorriso. Jogou algum tipo de pasta estranha em seu prato.
– Bom dia Jimmy!!! — Uma garota pequena e de cabelos pretos apareceu por trás da ruiva, cumprimentando o cozinheiro enquanto abraçava a irmã.
– Lira!!! De bom humor como sempre, hein!? — Com habilidade Jimmy colocou a gororoba no prato de Lira com a forma de um coração.
– Lira!! Bom dia!! Dormiu bem? — Disparou Angel, sorrindo.
– Dormi bem, sim, e você?
– Também. — As duas caminharam para uma mesa de alumínio vaga. A menor acenou para Jimmy, enquanto este pensava como a personalidade de sua irmã se transformava na presença da outra.
Se não deu pra perceber, mesmo depois de 2 anos na agência, Angel continuou sendo uma antissocial com complexo de irmã, mas como era muito efetiva nas missões não demorou muito para que fosse extremamente respeitada por todos os outros funcionários, sendo antigos ou não. Angel já tinha alcançado seu objetivo: Participava de missões com a sua irmã.
A única pessoa que conseguia lidar mais ou menos bem com a ruiva, além de sua irmã, era João. Ele era uma pessoa tão da paz que várias pessoas acham que ele devia ter virado hippie, mas isso não vem ao caso.
– Angie. — Chamou Lira, se sentando. — Confirmaram nossa próxima missão. Acho que essa vai ser barra pesada.
– Desde que eu esteja com você tenho certeza que tudo dará certo!! — Respondeu a irmã confiante.
– É melhor não ser tão confiante nesse caso, maninha... — Lira falou com a voz doce. — É um traficante de armas. Um peixão dos grandes. Parece que a empresa dele está enriquecendo adicionando robótica em seus produtos...
– Parece realmente complicado. Mas se dermos o nosso máximo vamos conseguir!!
– Sim... — Concordou a morena, insegura.
– x--
Atrás de sua irmã, Angel observava o corredor revestido de placas de aço e reluzindo luzes avermelhadas, como se fosse uma nave do futuro. E realmente o era. Lira era responsável por checar se o corredor estava limpo enquanto a ruiva tomava conta da retaguarda. Enquanto sua irmã se espremia na parede pra ver se tinha alguém na área, Angel refletia que havia sido fácil se infiltrar na nave. Fácil demais.
Apenas quando já estavam chegando no coração da nave que começaram a aparecer tripulantes. Com uns poucos golpes em algumas nucas dos infelizes, em poucos minutos o trabalho já estava feito e todos os tripulantes nocauteados.
Souberam que tinham chegado à cabine central da nave quando viram um letreiro de neon rosa choque escrito: Cabine de Comando. Era óbvio que era uma armadilha, mas não tinham outra opção a não ser avançar. Dá-se um jeito, esse era o lema delas.
Com cuidado Lira encostou na porta, abrindo uma pequena fresta, quando Angel sentiu algo pesado passar ao seu lado, virou para trás e viu: Sobre sua irmã havia uma enorme armadura metálica. Como ela havia atravessado por sua vigília com aquele tamanho?
O monstro prateado se levantou, pressionando o pescoço de Lira enquanto ela batia em seus grossos braços inutilmente, tentando escapar. Pegando um extintor de incêndio a ruiva pulou em cima da armadura, batendo em sua cabeça com toda a força. Não surtiu nenhum efeito, nem um mísero arranhão. Só deixou o bicho mais furioso ainda, que, com a mão que não estava segurando Lira, deu um soco em Angel, jogando-a longe, fazendo-a bater na parede com força.
Desnorteada, a irmã mais nova tentou se levantar. Tinha um rosto na armadura. Deve ser o filho da puta do traficante. Com as pernas bambas, seguiu a armadura apoiando-se na parede. Apresse-se, apresse-se!! Ordenava aos pés que cismavam em se arrastar lenta e inultimente. O monstro carregava sua irmã por uma porta, esta dava ao lado de fora da nave, onde o vento batia com violência.
Angel logo percebeu que a armadura pretendia arremassá-la da nave depois de matá-la. E também percebeu que seria muito difícil lutar naquele ambiente sem ter uma armadura como aquela. Mas mesmo assim correu atrás da irmã, que cada vez ficava mais roxa pela falta de ar. Os cabelos pretos de Lira chicoteavam as suas costas, com esforço ela olhou pra irmã mais nova.
– Fuj...a — Pronunciou com dificuldade.
– Não, não!!! — Gritou de volta. Dá-se um jeito, dá-se um jeito!! O lema martelava em sua cabeça. Pôde ouvir um risinho irônico vindo da armadura.
Com os últimos esforços, Lira mediu a distância entre ela e a porta e bateu-a com força, fazendo que fechasse, para depois deixar de resistir às mãos do traficante. Não morreu com arrependimentos, na verdade sorriu, pensando se sua irmã mais nova acharia alguém além dela pra conversar.
– x--
Do outro lado da porta, Angel socava-a, sabendo ser impossível abri-la. As lágrimas escorriam quentes e salgadas pelo seu rosto. Não iria desperdiçar a chance que a irmã lhe dera, reunindo um restinho de energia saiu correndo pela nave, procurando onde fugir. Ouviu um estrondo atrás de si e viu um grande amassado na porta que sua irmã fechara. Não demoraria muito pra que a armadura conseguisse entrar na nave novamente.
Recuperando o equilíbrio, corria pelos corredores prateados com sua sinistra luminosidade vermelha piscando quando deu de cara com uma porta grandiosa,extremamente alta e larga. Com certeza deve ter algo aqui... Apertando um botão ao lado da porta, surpreendentemente ela abriu com cuidado, (a nave de um traficante deveria ser mais protegida...) revelando um avião de tamanho médio, mas obviamente muito tecnológico.
Desesperada Angel procurou onde ela poderia abrir uma passagem pra sair com o avião. Primeiro trancou a porta de onde entrou. Analisou um painel cheio de botões coloridos, e apertou algum deles rezando para que fossem parecidos com o da sua agência. Sorte ou não uma outra porta abriu, como a de uma garagem, mostrando um lindo céu azul. Como um dia pode ser tão lindo sem Lira?
Pulou pra dentro do avião, dando de cara com mais um painel cheio de botões, mas pelo menos a chave estava na própria máquina, e Angel agradeceu ao idiota que a tinha deixado lá. Tentou dar partida e o avião respondeu com um baixo ronronar, a ruiva de cara gostou do automóvel.
Decolando, sentiu algo batendo do seu lado direito, dando um curto circuito em uma parte dos painéis. Colocando a cabeça pra fora com cuidado, Angel viu a armadura jogando restos da porta que arrebentara nela e no pobre avião. Puxou uma alavanca com toda a sua força e o aviãozinho disparou por entre as nuvens. Deixando pra trás um monstro metálico mostrando o que seria seu dedo do meio.
–-x--
Passado o susto, Angel relaxou, não sabia onde estava, mas aprendeu a controlar melhor o seu novo companheiro. Não que isso fosse difícil, logo percebeu que era feito com tecnologia de ponta, o mínimo movimento que fazia no volante a máquina respondia imediatamente. A viagem corria sem turbulências, mesmo com parte do painel queimado. O vidro que revestia a parte de cima, certamente era a prova de mísseis, estava impecavelmente limpo. A ruiva ficou realmente impressionada com a qualidade dos produtos do traficante.
–-x--
Quando achou que estava distante o suficiente procurou algum lugar pra pousar. Tinha que ser beeeeeeem longe de qualquer aeroporto ou algo do tipo. Não queria voltar à Tracking e muito menos ser rastreada pelo traficante. Logo encontrou em uma pequena cidadela uma casa quase que completamente envidraçada, com um grande campo ao lado. Um lugar perfeito para pousar.
Escondeu o avião em uma garagem abandonada e se aproximou da construção de vidro, achando-a curiosa. Lá dentro vários velhinhos jogavam xadrez, extremamente concentrados. Quando um deles, depois de dar um xeque-mate no outro se levantou e gritou:
– Alguém mais vai me encarar? Ou eu vou ficar com todo o dinheiro? — Deu um risinho de superioridade.
Ao ouvir essa frase Angel entrou na casa, determinada, tinha que consertar o painel do avião. Já havia decidido seu objetivo: Não ia voltar à agência, ia ficar forte pra se vingar daquele traficante.
Agradeceu aos anos jogando xadrez com João quando venceu o último velhinho com cara de magoado. Pegou o dinheiro e foi embora. Precisava achar um bom mecânico.
–-x--
Decidiu que teria que encontrar urgentemente um lugar melhor pra esconder o seu avião, e voltou à garagem abandonada, olhando com cuidado pra ver se não tinha ninguém a seguindo. Fechou a porta devagarinho olhando para fora.
– Ô moça, o seu avião tem um rastreador nele!!
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