Costumes faziam parte de qualquer ser, nisso Quaritch tinha que concordar. Depois de deixar a Terra e ir para Pandora, podia notar isso tanto nos humanos como nos Na'vi. E ainda mais agora, que tinha se tornado o consorte do Clã das Cinzas, podia notar costumes bem diferentes do que conhecia dos Omatikaya.

Mesmo assim, ele mantinha alguns costumes da sua própria cultura, como por exemplo, o que gostaria de manter intacto naquele momento. Depois de algum tempo, seu cabelo impecavelmente cortado de forma justa estava começando a crescer e isso o incomodava.

Depois de lavar brevemente os cabelos curtos que tinham crescido, Miles preparou a lâmina do facão e estava prestes a usá-lo quando alguém o puxou de suas mãos de forma rápida e furtiva.

Um tanto surpreso pelo ato repentino, ele se virou para trás, encontrando a figura de sua esposa, com um olhar reprovador dividido entre ele e o facão.

—O que pensa que está fazendo? — indagou ela, com toda autoridade possível na voz.

—Eu poderia dizer o mesmo a você — ele tentou tomar a faca dela, mas em vão, Varang se esquivou rapidamente.

—Estou cortando meu cabelo, eu nunca usei tão comprido assim — ele se justificou, sem muita paciência.

—Comprido? Não, seu cabelo ainda não tem o tamanho suficiente para um na'vi decente — ela fez questão de apontar.

—Eu não sou na'vi, se esqueceu? Pareço um de vocês, mas sou... outra coisa, um recombinante — ele reforçou essa ideia — e por isso, vou cortar meu cabelo.

Ele tentou tomar a faca dela a distraindo momentaneamente, chegando a agarrar seu pulso, mas Varang a manteve presa entre seus dedos.

Rapidamente, ela rodopiou, se desvencilhando do marido, se colocando ao menos três passos de distância dele.

Quaritch tentou tomar a faca dela, mas ela foi rápida outra vez, mudando de uma mão para a outra, ficando de costas para ele e chutando seu joelho. Ignorando a dor, ele a agarrou pela cintura com força, o que a fez se virar de frente para ele. Num ataque direto, Varang tocou o abdômen dele com a faca, o que o deixou paralisado. Sabia da fama de guerreira dela e tinha visto de perto sua ferocidade em combate, não queria testá-la, não enquanto ela estava armada.

—Não vai me querer ferido — ele arriscou dizer, se rendendo, com as mãos levantadas.

—Ah não meu querido Miles... — ela sussurrou, chegando a brincar com a faca bem perto do rosto dele, a devolvendo para seu abdômen logo em seguida — eu jamais te machucaria, confie em mim...

Depois de terminar sua frase, ela traçou uma linha curta pelo peito dele, de baixo para cima, o que deixou Miles ainda mais tenso.

Sentindo seus músculos retesados encostando a ponta da lâmina, Varang apenas soltou uma gargalhada gutural, uma comemoração de vitória que apenas fez seu marido se lembrar do quanto ela podia ser perigosa.

—Está vendo? — ela lhe mostrou a ponta da faca — nenhuma gota de sangue sequer... Tem razão, meu caro Miles... — ela largou a arma, que se fincou no chão perfeitamente, com a mão agora vazia, ela tocou o rosto dele — eu o quero são e salvo, intacto, de preferência, muito vivo, e com os cabelos compridos.

—Eu sei que seus homens tem cabelo comprido, mas não quer dizer que eu tenha que usar — ele tentou argumentar com cuidado.

—Ao contrário, você aderir ao costume das cinzas só mostraria mais seu comprometimento — ela explicou.

—Mas se essa é uma aliança entre dois povos diferentes, teria que aceitar as diferenças do meu lado também — ele tentou outra opção.

—Entendo, mas podia ao menos experimentar — ela sugeriu.

—E se eu ainda assim me recusar? — ele inclinou os ombros para frente, de forna desafiadora.

—Não vou desistir tão fácil assim — ela declarou, passando os dedos pelas orelhas dele, as vendo se mexer ao toque.

Completamente rendido, Varang o segurou pelos pulsos e o fez se sentar no chão.

—O que quer que eu faça? — ele respondeu, já esperando por uma ordem.

—Desfaça minhas tranças, uma por uma — ela ordenou, em voz baixa.

Agora um pouco mais relaxado por não ter uma arma apontada diretamente para seu peito exposto, Quaritch obedeceu alegremente, encontrando algum prazer inesperado na tarefa.

Quando Varang usava o cabelo trançado, as mechas batiam em seus ombros, mas agora, os fios iam se libertando e revelando uma cabeleira sedosa e comprida, muito agradável ao toque.

Depois de seu trabalho concluído, ela se virou para o marido, sorrindo inocentemente. Ele teve que assobiar, ela sabia exatamente o que estava fazendo.

—O que isso significa? — ela perguntou genuinamente — esse som?

—Que você consegue ficar mais linda ainda sem usar adorno nenhum — ele elogiou abertamente, a trazendo para mais perto — é isso que quer de mim? — ele beijou a orelha dela, se aproveitando da situação — quer que eu tenha um cabelo comprido pra que eu fique mais lindo pra você? Ou por que você gosta de trançar cabelos? Eu posso fazer isso...

—Sabia que no final das contas, iríamos concordar — ela sorriu para ela, de forma convencida e vencedora, mas à essa altura, Quaritch considerava toda disputa um empate.

Ele beijou sua astuta, porém de fato, deslumbrante esposa de cabelos selvagens.

Notas finais
Ainda acho que tem poucas fics deles na internet, então decidi escrever mais algumas histórias sobre eles e essa é uma delas. 'Té mais!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!