Trade State: Mascarada

1 A Cidade por trás das Luzes


A CIDADE POR TRÁS DAS LUZES

Episódio 1 — Era do Oráculo

ATO 1 — A CIDADE NUNCA DORMECena 1 — O alto dos prédios

A noite havia tomado Trade State.

Do alto dos edifícios, a cidade parecia um imenso tabuleiro de luzes. Os faróis desenhavam linhas pelas avenidas, os letreiros comerciais iluminavam as fachadas e, entre as torres modernas, algumas construções antigas permaneciam mergulhadas em sombras.

O vento soprava com força no topo de um prédio comercial.

Mascarada estava junto à beirada, observando o movimento das ruas. A capa escura se agitava atrás dela, enquanto seus olhos percorriam os cruzamentos, as entradas dos estacionamentos e as saídas dos edifícios industriais.

Não procurava um criminoso específico. Procurava uma conexão.

Nos últimos dias, três carregamentos haviam desaparecido. As empresas responsáveis eram diferentes, os destinos não coincidiam e os registros de transporte pareciam regulares. Ainda assim, havia algo que não se encaixava.

Mascarada retirou um pequeno dispositivo do cinto e abriu os registros que havia reunido.

— Três empresas. Três carregamentos. Três rotas diferentes… — murmurou. — E o mesmo intervalo entre as movimentações financeiras.

Ampliou uma imagem capturada por uma câmera de trânsito.

Um automóvel preto aparecia perto de um depósito na primeira noite. Dois dias depois, o mesmo modelo fora registrado próximo a uma transportadora. Na terceira ocorrência, o veículo passara diante de uma instalação industrial supostamente desativada.

A placa não estava suficientemente nítida para confirmar a identificação.

— Você aparece em todos os lugares, mas nunca onde deveria.

Ela salvou as imagens e voltou a observar a cidade.

Mais adiante, um edifício industrial permanecia apagado, exceto por uma faixa de luz que escapava de uma janela no segundo andar.

Mascarada consultou os dados públicos da propriedade.

O local estava oficialmente desativado havia meses.

Entretanto, o consumo de energia daquela semana era muito superior ao registrado anteriormente.

Ela guardou o dispositivo.

Não tinha provas de que o edifício estava relacionado aos desaparecimentos. Também não sabia quem o utilizava ou o que acontecia lá dentro.

Mas tinha uma pista.

E uma pista merecia ser investigada.

Mascarada saltou para o telhado vizinho e desapareceu entre as sombras dos prédios.

ATO 2 — OS INTERESSES DE MADAME DUPONTCena 2 — Uma reunião reservada

Em outro ponto da cidade, Madame Dupont examinava documentos sobre uma mesa de madeira escura.

O salão era elegante, com iluminação discreta, móveis caros e grandes janelas voltadas para uma avenida movimentada. Tudo ali transmitia a imagem de estabilidade e influência que Dupont fazia questão de preservar.

Um de seus capangas aguardava diante da mesa.

— O carregamento chegou? — perguntou ela, sem erguer os olhos.

— Uma parte. O restante apresentou problemas durante o transporte.

Dupont fechou a pasta devagar.

— Problemas de que tipo?

— Alguns equipamentos estavam danificados. Durante os testes, uma das unidades falhou.

Ela ergueu o olhar.

— E por que estou sabendo disso somente agora?

O homem não respondeu imediatamente.

— Houve uma tentativa de corrigir o problema antes de comunicarmos à senhora.

Dupont apoiou as mãos sobre a mesa.

— Vocês confundem iniciativa com improvisação. Quando um equipamento desse tipo apresenta uma falha, ninguém tenta consertá-lo sem autorização. Ele é isolado, o ocorrido é registrado e eu sou informada.

— Sim, senhora.

— Recolha o material. Quero os registros separados e um transporte alternativo. Não destruam nada que possa ser útil.

— E a doutora?

Dupont pegou o telefone.

— Eu mesma conversarei com ela.

Assim que o capanga saiu, ela fez uma ligação.

— Precisamos nos encontrar. Houve um contratempo com os equipamentos.

A voz de Dra. Frankenstein respondeu do outro lado:

— Espero que não tenham perdido nada importante.

— Ainda não. Mas não gosto de receber notícias sobre falhas quando já não posso fazer nada a respeito.

— Então venha ao laboratório. Vou mostrar exatamente o que aconteceu.

Dupont encerrou a chamada, pegou o casaco e saiu.

Naquela noite, precisava resolver dois problemas: o equipamento instável e a possibilidade de que alguém estivesse seguindo os carregamentos.

Ainda não sabia que os dois problemas poderiam estar ligados.

Cena 3 — O laboratório proibido

Por fora, o edifício industrial parecia abandonado.

Por dentro, uma sucessão de corredores iluminados por lâmpadas brancas revelava um lugar completamente diferente. Havia caixas recém-abertas, bancadas equipadas, ferramentas organizadas e cabos que percorriam as paredes até uma sala protegida.

No centro do laboratório, Dra. Frankenstein trabalhava diante de uma estrutura cilíndrica.

O equipamento era formado por módulos metálicos, placas de controle e condutores que convergiam para um núcleo protegido por uma carcaça transparente. Pequenas luzes pulsavam em intervalos irregulares.

A doutora ajustou um dos controles.

Um zumbido grave preencheu a sala.

Por um instante, o núcleo brilhou. Em seguida, a luz oscilou violentamente e desapareceu.

Dra. Frankenstein afastou a mão do painel.

— Instável outra vez.

Uma assistente examinou os números na tela.

— A transferência perde eficiência sempre que a carga ultrapassa determinado limite.

— Eu sei o que os números mostram. Quero descobrir por quê.

— Talvez o módulo precise ser substituído.

— Talvez. Mas trocar peças sem compreender o problema é uma maneira bastante cara de continuar sem respostas.

A porta se abriu.

Madame Dupont entrou carregando uma maleta.

— Trouxe os componentes que você pediu.

Dra. Frankenstein aproximou-se e abriu o fecho. Examinou o conteúdo com atenção, conferindo as etiquetas e os números de série.

— Isso deve ajudar.

— Espero que sim. Não foi simples conseguir esse material.

— Não perguntei se foi simples. Perguntei se era o material correto.

Dupont ergueu uma sobrancelha.

— Imagino que essa seja sua maneira de agradecer.

— Minha maneira de agradecer será quando o equipamento funcionar.

A doutora levou a maleta até a bancada e separou os componentes necessários.

Dupont observou a máquina.

— Quanto tempo até termos resultados?

— Não posso prometer um prazo. A tecnologia ainda não está respondendo como deveria.

— E se alguém descobrir o que estamos fazendo?

Dra. Frankenstein interrompeu o trabalho e olhou para ela.

— A segurança do laboratório é sua responsabilidade. A pesquisa é minha.

— E o financiamento é meu. Não se esqueça disso.

— Não esqueci. Mas dinheiro não resolve todas as falhas técnicas.

Por alguns segundos, as duas permaneceram em silêncio.

Então a doutora voltou ao equipamento.

— Se conseguirmos estabilizar o núcleo, poderei avançar para a próxima etapa. Até lá, qualquer interferência externa será um problema.

Dupont olhou para a porta.

— Então não haverá interferência.

Naquele momento, uma câmera de segurança girou lentamente em direção ao corredor de acesso.

Alguém havia acabado de entrar no edifício.

ATO 3 — A INVESTIGAÇÃOCena 4 — A visitante inesperada

Mascarada entrou por uma passagem lateral parcialmente escondida por caixas antigas.

A porta não estava trancada. Isso, por si só, já era estranho: um edifício oficialmente desativado deveria estar fechado, não ter energia constante e muito menos apresentar marcas recentes de movimentação.

Ela avançou junto à parede, observando os pontos de vigilância.

Havia câmeras novas instaladas sobre suportes antigos. Os cabos desapareciam por canaletas que pareciam ter sido montadas às pressas. No chão, marcas de pneus atravessavam uma camada fina de poeira.

Mascarada se abaixou e examinou uma embalagem caída.

O rótulo havia sido arrancado, mas um número de lote permanecia visível.

Ela fotografou o código.

— Isso já é alguma coisa.

Continuou pelo corredor até encontrar uma porta entreaberta.

Do outro lado, viu o laboratório.

A máquina ocupava o centro da sala. Dra. Frankenstein examinava uma série de gráficos enquanto uma assistente anotava resultados. Madame Dupont estava junto à bancada, conferindo documentos.

Mascarada tentou fotografar os papéis sem se aproximar.

O aparelho emitiu um ruído agudo.

Ela se afastou instintivamente.

Um pequeno objeto metálico escorregou de seu equipamento e caiu no chão.

Clinc.

O som foi discreto, mas suficiente.

Dra. Frankenstein levantou a cabeça.

— Quem está aí?

Mascarada recuou.

Uma luz vermelha acendeu no corredor.

O alarme começou a soar.

— Droga.

Ela correu.

Dois guardas surgiram na extremidade do corredor. Mascarada mudou de direção, saltou sobre um carrinho de ferramentas e atingiu o primeiro homem no peito com os dois pés, derrubando-o contra a parede.

O segundo tentou agarrá-la pelo braço.

Ela girou o corpo, escapou da pegada e aplicou uma chave que o fez perder o equilíbrio. Antes que ele caísse, Mascarada já havia retomado a corrida.

Uma porta se abriu à sua frente.

Mais três capangas entraram no corredor.

Ela parou por uma fração de segundo, avaliando as posições. À esquerda havia uma passagem estreita. À direita, uma porta de serviço.

Mascarada escolheu a passagem estreita.

Um dos homens tentou interceptá-la. Ela desviou, golpeou-lhe o antebraço e usou o impulso dele para fazê-lo colidir com o companheiro. Os dois se atrapalharam, abrindo uma brecha.

Mas o terceiro conseguiu agarrar a capa.

Mascarada soltou o fecho antes que ele pudesse puxá-la para trás, virou-se e acertou-lhe um golpe preciso no abdômen.

O homem caiu de joelhos.

Ela alcançou a porta de serviço.

Estava trancada.

Mascarada puxou a maçaneta uma vez, depois outra.

— Claro. Seria pedir demais.

Os passos se aproximaram.

Ela se virou, ergueu a guarda e esperou.

Desta vez, não havia uma rota de fuga fácil.

E os capangas estavam prestes a descobrir que capturá-la exigiria muito mais do que cercá-la.

ATO 4 — A LUTA DE MASCARADACena 5 — Uma contra muitos

O primeiro capanga avançou com os braços erguidos, tentando agarrar Mascarada e imobilizá-la.

Ela esperou até o último instante.

Quando ele estendeu a mão, Mascarada desviou para o lado, segurou-lhe o pulso e usou o próprio movimento do homem para lançá-lo contra outro que vinha logo atrás.

Os dois se chocaram.

Mascarada aproveitou o espaço e avançou.

Acertou o primeiro no queixo, girou sobre o próprio eixo e atingiu o segundo com um golpe lateral. Um terceiro tentou acertá-la pelas costas, mas ela percebeu a sombra se aproximando na parede e abaixou-se a tempo.

O punho do homem passou sobre sua cabeça.

Mascarada agarrou-lhe o braço, puxou-o para a frente e o derrubou sobre uma pilha de caixas vazias.

O estrondo ecoou pelo corredor.

Por um instante, os demais hesitaram.

— Vocês vão precisar de mais do que isso — disse ela, recuperando a postura.

Do outro lado do corredor, Dupont apareceu acompanhada por dois homens.

Observou a cena com uma expressão difícil de interpretar.

— Estou vendo que nossa visitante sabe se defender.

Mascarada olhou diretamente para ela.

— E você parece estar acostumada a mandar outras pessoas fazerem seu trabalho.

Dupont não perdeu o sorriso.

— Cada pessoa tem suas habilidades.

— Então deve ser uma pena você não ter nenhuma que possa usar aqui.

Um dos capangas deu um passo à frente, irritado.

Dupont ergueu a mão, impedindo-o de avançar.

— Não se precipite. Quero saber o que ela viu.

Mascarada não respondeu.

Seus olhos percorreram o corredor. Cinco homens ainda estavam de pé, dois se recuperavam dos golpes e outros começavam a se aproximar pelas laterais.

Ela precisava evitar que fechassem o círculo.

O primeiro atacou novamente.

Mascarada desviou de um soco, acertou-lhe o joelho com um chute baixo e usou o braço dele como apoio para saltar sobre uma bancada lateral. Do alto, empurrou um segundo capanga para trás e caiu do outro lado, quebrando a formação dos homens.

Dois tentaram cercá-la.

Ela avançou antes que conseguissem coordenar os movimentos.

Um golpe no peito afastou o primeiro. Um giro rápido fez o segundo errar a tentativa de agarrá-la. Mascarada acertou-lhe o ombro, escapou por baixo do braço e o empurrou contra a parede.

Um terceiro homem veio pela lateral, brandindo um bastão retrátil.

Mascarada ergueu o antebraço para bloquear o golpe. O impacto reverberou até seu ombro, mas ela não recuou. Segurou o bastão, puxou o homem para perto e acertou-lhe uma joelhada no abdômen.

O bastão caiu.

Mascarada o chutou para longe.

— Próximo.

A confiança não era exibicionismo. Era uma maneira de impedir que os homens percebessem o quanto ela já começava a sentir o cansaço.

A luta estava consumindo energia rapidamente.

Os golpes exigiam concentração. O corredor era estreito, as paredes limitavam seus movimentos e cada segundo dava aos capangas mais oportunidades de se reorganizarem.

Mas ela ainda estava vencendo.

Um homem tentou agarrá-la pela cintura. Mascarada deslocou o peso, bateu com o cotovelo no ombro dele e o lançou contra um carrinho de ferramentas. As peças metálicas caíram com estrépito.

Outro avançou imediatamente.

Ela aparou o golpe, girou e acertou-lhe o rosto com a palma da mão. O capanga cambaleou para trás e tropeçou nos próprios companheiros.

Mascarada respirava com dificuldade, mas manteve a guarda erguida.

Dupont acompanhava tudo em silêncio.

Pela primeira vez, sua expressão perdeu parte da tranquilidade.

Aquela mulher não era apenas uma invasora. Era uma adversária capaz de desmontar uma equipe inteira se lhe dessem espaço suficiente.

— Parem de atacá-la individualmente! — ordenou Dupont. — Cerquem-na!

Os capangas mudaram de estratégia.

Dois avançaram pela frente, enquanto outros três tentaram fechar as laterais. Um sexto permaneceu atrás, esperando o momento de agarrá-la.

Mascarada percebeu a manobra.

Em vez de recuar, avançou contra o lado mais fraco da formação. Atingiu um dos homens com o ombro, desviou de um golpe e escapou pelo espaço que se abriu entre dois deles.

Por alguns segundos, conseguiu manter os capangas uns contra os outros.

Um homem tentou acertá-la, mas atingiu o companheiro. Outro perdeu o equilíbrio ao tentar evitar a colisão. Mascarada aproveitou a confusão, derrubou um dos últimos que ainda estava em pé e alcançou uma bancada próxima à saída.

Ela estava quase livre.

Quase.

Cena 6 — A sorte de Dupont

Mascarada viu uma abertura entre dois capangas e correu em direção à passagem.

Um deles tentou interceptá-la, mas ela desviou e o atingiu no peito. O homem caiu para trás, derrubando uma pequena mesa com ferramentas.

O barulho fez os demais hesitarem.

Mascarada aproveitou a oportunidade e avançou.

À sua frente, Dupont recuou para perto de uma porta lateral. A mulher parecia ter finalmente percebido que o confronto estava saindo de seu controle.

— Acabou, Dupont! — disse Mascarada. — Afaste seus homens e talvez eu me contente em levá-la para interrogatório.

Dupont soltou uma risada breve, sem humor.

— Você acredita mesmo que está em posição de fazer exigências?

— Olhe ao redor.

Mascarada tinha razão. Vários capangas estavam caídos ou tentando recuperar o fôlego. Os demais já não avançavam com a mesma confiança.

Dupont olhou rapidamente para os lados.

Ela não era uma combatente capaz de enfrentar Mascarada em igualdade de condições. Sabia disso. Sua vantagem estava no controle do local, na quantidade de homens e na possibilidade de escolher o momento certo para agir.

Mas, naquela noite, até essas vantagens estavam desaparecendo.

Mascarada deu mais um passo.

Dupont recuou e esbarrou em um carrinho de transporte que havia sido deixado próximo à parede. Sobre ele, uma caixa de componentes estava mal equilibrada.

O carrinho se moveu.

A caixa escorregou, caiu e se abriu contra o chão.

Peças metálicas se espalharam pelo corredor. Uma delas atingiu uma luminária portátil, que tombou e se partiu. Um líquido transparente vazou de um recipiente danificado e começou a escorrer pelo piso.

Mascarada ouviu o ruído e virou a cabeça por um instante, tentando identificar se havia risco de incêndio ou de algum produto perigoso.

Foi o bastante.

Dupont percebeu a distração.

— Agora!

Um capanga que ainda estava de pé lançou-se contra Mascarada por trás.

Ela ouviu os passos e tentou girar, mas o piso molhado fez seu pé deslizar. Perdeu o equilíbrio por uma fração de segundo — tempo suficiente para o homem agarrá-la pelo braço.

Mascarada reagiu imediatamente. Acertou-lhe o rosto com o cotovelo, libertou-se e o derrubou.

Entretanto, a queda a obrigou a apoiar uma mão no chão.

Dupont, que por acaso havia ficado junto ao carrinho, encontrou ali uma pequena arma de contenção usada pela equipe de segurança. Um dispositivo elétrico portátil, destinado a imobilizar intrusos.

Ela o apanhou.

Mascarada se levantou e voltou a avançar.

Dupont ergueu o dispositivo, mas a heroína desviou do primeiro disparo. A descarga atingiu a parede e provocou um estalo luminoso.

— Você vai precisar de mais sorte do que isso! — gritou Mascarada.

Ela avançou, golpeou o braço de Dupont e quase arrancou o dispositivo de sua mão.

Dupont cambaleou para trás.

Mascarada estava a um passo de desarmá-la.

Então o pé de Dupont bateu contra uma peça metálica caída. Ela perdeu o equilíbrio e, ao tentar se segurar, apertou acidentalmente o gatilho do dispositivo.

A descarga atingiu Mascarada de raspão no lado do tronco.

O efeito foi imediato.

Seus músculos se contraíram, e o braço direito perdeu força por um instante. Ela caiu de joelhos, lutando para recuperar o controle do corpo.

Dupont também caiu, assustada com o próprio disparo.

Por alguns segundos, nenhuma das duas se moveu.

Mascarada tentou se levantar.

— Você… teve sorte.

Dupont respirava depressa. Olhou para o dispositivo em sua mão, como se também não acreditasse no que havia acontecido.

— Talvez — respondeu, recuperando a voz. — Mas, neste momento, isso é suficiente.

Mascarada forçou o corpo a se erguer, ainda atordoada. Conseguiu ficar de pé e acertou um golpe no primeiro capanga que tentou agarrá-la.

Mas o efeito da descarga ainda prejudicava seus movimentos.

Dois homens a seguraram pelos braços. Ela lutou para se libertar, acertando um chute e quase derrubando um deles. Outro capanga tentou imobilizar-lhe o ombro, e Mascarada o afastou com uma cabeçada.

Ainda não havia desistido.

Mesmo cercada, ferida e com os músculos parcialmente enfraquecidos, continuava a resistir.

Dupont se levantou devagar.

O confronto havia sido decidido por uma sequência de acidentes: a caixa derrubada, o líquido no chão, a distração de Mascarada e o disparo involuntário. Nenhum daqueles acontecimentos fazia parte de um plano perfeito.

Mas o resultado estava diante dela.

— Imobilizem-na — ordenou Dupont. — E desta vez, não deixem que ela se aproxime de mais nada.

Os capangas reforçaram o cerco.

Mascarada ainda conseguiu libertar um braço e derrubar mais um homem, mas o esforço a fez cambalear. A descarga havia reduzido sua capacidade de reação, e os adversários restantes finalmente conseguiram dominá-la.

Um dos homens prendeu-lhe os pulsos.

Outro a segurou pelos ombros.

Mascarada tentou se soltar mais uma vez.

— Isso não vai ficar assim, Dupont.

Dupont aproximou-se, ainda recuperando a compostura.

— Não. Imagino que não.

Ela olhou para o corredor destruído, para os homens caídos e para o dispositivo em sua mão.

— Mas, por hoje, você perdeu.

Mascarada ergueu a cabeça, furiosa. Não havia sido derrotada por falta de habilidade, nem porque os capangas fossem melhores do que ela. Havia sido vencida por uma oportunidade inesperada, aproveitada no momento em que seu corpo estava vulnerável.

E Dupont sabia disso.

— Levem-na para o veículo. Quero saber tudo o que ela conseguiu descobrir.

Os capangas conduziram Mascarada para a saída de serviço.

Ela tentou caminhar com firmeza, apesar da dor e da fraqueza que ainda percorriam seu corpo.

Não daria a Dupont o prazer de vê-la arrastada.

Do lado de fora, a noite continuava silenciosa.

Mas alguém estava observando.

ATO 5 — A SOMBRA QUE DESCEU DOS CÉUSCena 7 — Harpia Negra vê a captura

Harpia Negra sobrevoava a região industrial de Trade State.

Suas asas negras se abriam contra o céu, aproveitando as correntes de ar entre os edifícios. Ela patrulhava sozinha, como costumava fazer, observando as ruas de cima e procurando movimentações que parecessem fora do comum.

Ao passar por um conjunto de galpões, percebeu uma movimentação na saída de um edifício.

Um grupo de homens atravessava a porta lateral. Alguns pareciam feridos. Outros caminhavam com pressa, olhando repetidamente para trás.

Madame Dupont vinha logo atrás.

Entre os capangas, uma mulher mascarada era conduzida pelos braços.

Harpia Negra reduziu a velocidade e perdeu altitude.

A capa escura. A máscara. O modo como a prisioneira tentava manter a postura apesar da dificuldade para caminhar.

Ela reconheceu a companheira imediatamente.

— Mascarada…

Harpia Negra mergulhou atrás de um edifício próximo e pousou em uma plataforma elevada, escondida da vista do grupo. Dali, observou melhor a cena.

Mascarada estava ferida. Seus movimentos eram rígidos, e ela parecia ter dificuldade para firmar os pés no chão.

Um capanga abriu a porta traseira de um veículo preto.

Mascarada resistiu quando tentaram empurrá-la para dentro. Mesmo debilitada, conseguiu afastar um dos homens com o ombro.

Dupont fez um gesto impaciente.

Dois capangas a seguraram com mais força.

Harpia Negra não esperou mais.

Abriu as asas e mergulhou em direção à rua.

O vento aumentou ao redor dela. Os capangas só perceberam sua aproximação quando uma sombra enorme cobriu o veículo.

— Afastem-se dela!

Harpia Negra pousou sobre o teto do automóvel, fazendo a estrutura metálica afundar ligeiramente sob o impacto.

Os homens recuaram, surpresos.

Mascarada ergueu a cabeça.

— Harpia…?

A voz saiu baixa, mas carregada de alívio.

Harpia Negra saltou do carro e abriu as asas por toda a extensão, ocupando o espaço entre a companheira e os capangas.

— Você está bem?

Mascarada tentou endireitar o corpo.

— Já estive melhor.

Harpia Negra notou a tensão nos ombros dela e a dificuldade para mover um dos braços.

— O que fizeram com você?

— Dupont teve sorte.

Madame Dupont ajeitou o casaco e avançou alguns passos.

— Que entrada dramática. Vocês sempre chegam acompanhadas de tanto espetáculo?

Harpia Negra não desviou os olhos dela.

— Solte Mascarada.

— Não acredito que você compreenda a situação.

— Compreendo perfeitamente. Você está levando uma heroína contra a vontade dela.

Dupont olhou para os homens ao redor.

— E você está se colocando entre mim e a saída.

— Então terá que passar por mim.

Por um instante, as duas mulheres se encararam.

Dupont ergueu discretamente a mão.

— Vocês sabem o que fazer.

Cena 8 — O combate no estacionamento

O primeiro capanga avançou com um bastão.

Harpia Negra desviou do golpe, girando o corpo para que a arma passasse ao lado de sua cabeça. Em seguida, atingiu o homem no peito com um empurrão das asas, lançando-o contra a lateral do veículo.

Outro tentou agarrá-la por trás.

Ela percebeu o movimento pelo reflexo na janela, abaixou-se e girou, atingindo-lhe as pernas com um chute. O homem caiu de joelhos.

Harpia Negra aproveitou o espaço e correu até a porta traseira.

— Mascarada, saia do carro!

Mascarada tentou se mover, mas o capanga que a segurava puxou-a para trás.

Ela reagiu com um golpe de cotovelo, conseguindo se libertar por um instante.

— Estou tentando!

Harpia Negra alcançou a porta, mas dois homens se colocaram em seu caminho.

Ela abriu as asas e bateu-as com força. A rajada de ar levantou poeira, papéis e pequenos detritos, obrigando os capangas a protegerem os olhos.

Harpia Negra avançou por entre eles.

Um dos homens tentou golpeá-la no ombro. Ela bloqueou o ataque e o empurrou para longe. O outro conseguiu agarrar uma das penas maiores da asa, mas ela girou rapidamente, fazendo-o perder o equilíbrio.

Por alguns segundos, parecia que conseguiria libertar Mascarada.

Então Dupont gritou:

— A rede!

Dois homens que haviam permanecido atrás do veículo puxaram uma rede reforçada. Lançaram-na contra Harpia Negra, que tentou ganhar altura.

A rede atingiu a extremidade de uma das asas.

O peso puxou-a para baixo.

Harpia Negra perdeu o equilíbrio e caiu sobre o capô do automóvel. O impacto fez o alarme do veículo disparar.

Ela tentou se levantar, mas a rede se prendeu em uma das articulações da asa.

Um capanga aproximou-se.

Harpia Negra acertou-lhe um golpe no rosto e afastou outro com as pernas. Mesmo presa, continuava perigosa.

Mas os homens eram numerosos.

Dois seguraram a rede. Um terceiro tentou imobilizar-lhe os braços. Harpia Negra conseguiu libertar uma das mãos e atingiu o homem mais próximo, mas uma descarga de um dispositivo de contenção atingiu o chão junto a ela, obrigando-a a recuar.

Dupont se aproximou.

— Chega.

Harpia Negra levantou o rosto.

— Você acha que isso vai acabar aqui?

— Não. Mas pretendo encerrar esta conversa.

Os capangas imobilizaram Harpia Negra e a afastaram do veículo.

Mascarada, ainda debilitada, tentou avançar em sua direção.

— Não encoste nela!

Um dos homens a segurou.

Ela lutou para se soltar, mas seu corpo ainda não respondia como deveria. O esforço fez suas pernas fraquejarem.

Harpia Negra viu a companheira perder o equilíbrio.

— Mascarada, pare! Você precisa se recuperar!

— Não vou deixar que façam isso com você!

Dupont observou as duas por um momento.

— Comovente. Vocês realmente têm dificuldade em aceitar quando uma situação não está sob seu controle.

Harpia Negra puxou as amarras, furiosa.

— Você não vai sair impune.

Dupont inclinou a cabeça.

— Talvez não. Mas vocês não estarão aqui para impedir minha saída.

Ela fez um sinal aos capangas.

As duas heroínas foram colocadas no veículo, em compartimentos separados. As portas se fecharam, e o automóvel deixou o estacionamento.

Harpia Negra virou-se para Mascarada.

— Olhe para mim. Você consegue respirar normalmente?

Mascarada assentiu, ainda tentando recuperar as forças.

— Sim. Só estou com os músculos… um pouco lentos.

— Foi a descarga?

— Foi. Ela não me venceu na luta. O disparo me atingiu quando eu estava tentando me levantar.

Harpia Negra apertou os punhos.

— Então vamos garantir que ela não tenha uma segunda oportunidade.

Mascarada respirou fundo.

— Primeiro precisamos sair daqui.

O veículo seguiu pelas ruas escuras, levando as duas para o interior do complexo industrial.

Desta vez, nenhuma delas sabia o que as esperava.

ATO 6 — PRISIONEIRASCena 9 — O destino das duas heroínas

O veículo atravessou um portão de metal e entrou no complexo.

Os capangas retiraram as duas heroínas do automóvel e as conduziram por um corredor estreito. Mascarada caminhava com dificuldade, mas recusou-se a ser carregada. Harpia Negra mantinha as asas recolhidas, impedida de abri-las pelos homens que a escoltavam.

Mascarada observava tudo.

Contava portas, câmeras e guardas. Tentava memorizar os caminhos e identificar as saídas.

Dupont caminhava à frente.

— Dra. Frankenstein, temos duas visitas.

A cientista apareceu na entrada do laboratório. Seu olhar passou de Mascarada para Harpia Negra.

— Você capturou duas heroínas?

— Elas insistiram em interferir nos meus assuntos — respondeu Dupont.

Dra. Frankenstein examinou rapidamente os ferimentos de Mascarada.

— A descarga foi usada?

— Foi necessário — respondeu Dupont. — Ela derrubou quase todos os meus homens.

A doutora olhou para Mascarada com renovado interesse.

— Então ela representa um risco maior do que imaginávamos.

— Representa um inconveniente — corrigiu Dupont. — E inconvenientes precisam ser controlados.

Harpia Negra soltou uma risada curta.

— Você deveria ter visto o que ela fez com seus homens antes de ter sorte.

Dupont voltou os olhos para ela.

— Não se preocupe. Terei tempo de ouvir todas as suas observações.

Dra. Frankenstein fez um gesto para os guardas.

— Levem-nas para salas separadas. Quero que permaneçam sob vigilância constante.

Harpia Negra ergueu o queixo.

— Está com medo de que façamos perguntas?

— Estou preocupada com o tempo que vocês vão me fazer perder — respondeu a doutora.

As duas foram separadas.

Mascarada foi levada para uma sala de contenção com uma cadeira metálica e um painel eletrônico na parede. Harpia Negra foi colocada em outra sala, onde suportes reforçados mantinham suas asas recolhidas.

As portas se fecharam.

O silêncio tomou conta dos dois ambientes.

Mascarada puxou as amarras, testando a resistência. Seu corpo ainda estava dolorido, mas a descarga parecia estar perdendo o efeito.

— Muito bem… vamos ver o que vocês instalaram aqui.

Ela examinou o painel ao lado da cadeira. Havia uma sequência de luzes, uma fechadura eletrônica e um mecanismo de segurança.

Não tinha ferramentas.

Mas tinha tempo.

Na sala ao lado, Harpia Negra testava os suportes das asas. Eram resistentes, mas não pareciam feitos para suportar uma tentativa cuidadosa e prolongada.

Ela respirou fundo e começou a procurar uma falha.

Nenhuma das duas pretendia permanecer prisioneira por muito tempo.

Cena 10 — O que a doutora procura

Dra. Frankenstein observava Harpia Negra através de uma janela de vidro reforçado.

Na sala, a heroína tentava libertar uma das asas sem piorar a própria situação.

— A estrutura muscular é impressionante — comentou a cientista, anotando algumas observações.

Dupont permaneceu atrás dela.

— Não quero que você transforme isso em uma distração.

— Não é uma distração. É uma oportunidade de estudar algo que não aparece todos os dias.

— Você pode estudar o que for necessário, desde que não comprometa o equipamento principal.

Dra. Frankenstein fechou o caderno.

— Você continua tratando a pesquisa como se fosse apenas um investimento.

— Porque é um investimento. E investimentos precisam produzir resultados.

A doutora voltou os olhos para Harpia Negra.

— Ainda não sabemos como a máquina reagirá quando estiver funcionando corretamente.

— Então descubra. Mas não deixe nossas prisioneiras destruírem meses de trabalho.

Dupont saiu da sala.

Dra. Frankenstein permaneceu observando a heroína por mais alguns segundos antes de voltar ao laboratório.

Harpia Negra percebeu que estava sendo observada, mas não conseguiu ouvir a conversa.

Ela não sabia o que Dupont e a doutora estavam tentando construir.

Sabia apenas que as duas consideravam a máquina importante o bastante para arriscar tudo a fim de protegê-la.

ATO 7 — PEDINDO AJUDACena 11 — Uma brecha no silêncio

Mascarada havia conseguido deslocar uma das mãos o suficiente para alcançar a borda da cadeira.

Não era o bastante para se soltar, mas permitia tocar o painel lateral.

Ela examinou os fios que entravam na estrutura e percebeu que a trava dependia de uma sequência eletrônica simples. Não poderia abrir o mecanismo imediatamente, mas talvez conseguisse interromper o bloqueio.

Antes que tentasse, ouviu passos no corredor.

Mascarada voltou à posição original e fingiu estar imóvel.

Um guarda abriu a pequena janela de observação.

— Algum problema?

— Estou começando a achar sua hospitalidade decepcionante — respondeu ela.

O homem fechou a janela sem responder.

Mascarada esperou até os passos desaparecerem.

Então localizou um pequeno intercomunicador instalado perto da porta. O aparelho parecia ligado ao sistema interno do edifício, mas ela não sabia se havia uma linha externa disponível.

Conseguiu aproximar-se o suficiente para acioná-lo.

— Alguém me ouve?

O intercomunicador chiou.

Mascarada tentou novamente.

— Preciso de ajuda. Estou em um complexo industrial, provavelmente na zona de depósitos. Madame Dupont está envolvida. Há uma máquina experimental no laboratório.

Uma voz respondeu após alguns segundos:

— Mascarada? Aqui é Tec-Blue. Você consegue me ouvir?

Ela soltou o ar, aliviada.

— Alto e claro. Não sei quanto tempo tenho.

— Onde você está exatamente?

— Não consegui identificar o endereço. O prédio tem um portão metálico, corredores internos e uma sala de pesquisa. Vou tentar descobrir mais.

— Não se arrisque. Vou localizar o sinal.

Mascarada olhou para a porta.

— Há outra pessoa aqui. Harpia Negra. Ela tentou me ajudar quando Dupont estava me transportando, mas acabou capturada também.

— Entendido. Vou procurar as duas.

— E, Tec-Blue…

— Sim?

— Não venha sozinho se puder evitar.

Houve uma breve pausa.

— Vou fazer o possível.

A comunicação foi interrompida.

Mascarada voltou a examinar o painel.

Agora, pelo menos, alguém sabia onde começar a procurar.

Cena 12 — O rastro de Tec-Blue

Do outro lado da cidade, Tec-Blue estava diante de um conjunto de monitores, analisando os sinais captados pelo sistema de comunicação.

Ao seu lado, Dog-Blue farejava uma peça de tecido que havia sido encontrada perto de um dos locais investigados.

— O sinal está fraco — disse Tec-Blue. — Mascarada deve estar em algum lugar com interferência eletrônica.

Dog-Blue levantou a cabeça e farejou novamente a peça.

— Você encontrou alguma coisa? — perguntou Tec-Blue.

O cão cibernético aproximou-se da tela e emitiu um sinal curto.

Tec-Blue analisou os dados.

— Um padrão de interferência repetido… isso pode nos ajudar.

Ele cruzou as informações do sinal com os registros de consumo de energia dos edifícios industriais da região.

Vários locais apareceram na tela. Um deles chamou sua atenção: um complexo oficialmente desativado, mas que consumia energia suficiente para manter equipamentos de grande porte em funcionamento.

— Acho que encontrei você.

Tec-Blue guardou o equipamento e ajustou os dispositivos do traje.

Dog-Blue posicionou-se ao lado dele.

— Vamos. E tente não fazer barulho antes de sabermos quantos guardas estão lá dentro.

O cão soltou um som eletrônico que parecia uma resposta indignada.

Tec-Blue sorriu de leve.

— Sim, eu sei. Você é muito discreto.

Os dois partiram em direção ao complexo.

ATO 8 — A FUGACena 13 — Harpia Negra contra as amarras

Na sala de contenção, Harpia Negra havia encontrado uma pequena folga em um dos suportes.

Ela girou o pulso, pressionou o mecanismo com cuidado e conseguiu liberar parte da asa esquerda.

O movimento provocou um ruído metálico.

Ela parou imediatamente.

Do lado de fora, um guarda se aproximou da porta.

— O que foi isso?

Harpia Negra recolheu a asa e permaneceu imóvel.

O homem observou a sala por alguns segundos antes de se afastar.

Ela esperou.

Quando os passos desapareceram, voltou a trabalhar no mecanismo. Desta vez, usou a força da asa parcialmente liberada para pressionar a trava no ângulo correto.

O suporte abriu.

Harpia Negra soltou o outro braço e se levantou, mantendo as asas próximas ao corpo para evitar que batessem nas paredes.

A porta ainda estava trancada.

Ela procurou um controle de emergência, mas não encontrou nenhum acessível. Tentou o painel eletrônico e percebeu que a fechadura estava ligada ao sistema central.

— É claro que não seria tão fácil.

Um ruído distante chamou sua atenção. Parecia vir do corredor principal.

Gritos. Passos rápidos. Uma porta metálica batendo.

Alguém havia entrado no complexo.

Harpia Negra se aproximou da porta e aguardou a oportunidade de agir.

Cena 14 — Tec-Blue entra em ação

Tec-Blue encontrou uma entrada de serviço nos fundos do edifício.

Dog-Blue identificou marcas recentes no chão e seguiu o rastro até uma passagem que dava acesso ao corredor interno.

— Bom trabalho — sussurrou Tec-Blue.

Ele examinou o painel da porta e conectou um dispositivo de leitura. A fechadura cedeu após alguns instantes.

Os dois entraram.

O complexo estava mais movimentado do que parecia por fora. Vozes vinham do laboratório, e os guardas se deslocavam em direção ao setor de contenção.

Tec-Blue manteve-se junto às paredes, evitando os corredores iluminados.

Dog-Blue seguiu à frente, identificando o rastro deixado pelas duas heroínas.

Ao chegarem a uma bifurcação, o cão virou à esquerda e parou diante de uma porta reforçada.

Tec-Blue examinou o painel.

— Harpia Negra deve estar aqui.

Ele começou a trabalhar na fechadura.

Dentro da sala, Harpia Negra ouviu os ruídos do outro lado.

— Quem está aí?

— Tec-Blue. Vim tirar vocês daqui.

— Só tem um pequeno problema — respondeu ela. — A porta não abre.

— Estou trabalhando nisso.

A fechadura emitiu um estalo. A luz vermelha mudou para verde.

Tec-Blue abriu a porta.

Harpia Negra saiu imediatamente, recolhendo as asas para passar pelo vão.

— Mascarada está em outra sala — disse ela. — Não vamos embora sem ela.

— Concordo. Dog-Blue, encontre a outra porta.

O cão seguiu pelo corredor.

Tec-Blue e Harpia Negra foram atrás dele.

Cena 15 — A escolha de Mascarada

Na sala de contenção, Mascarada ouviu os sons de movimentação no corredor.

Ela já havia conseguido soltar uma das mãos e estava concentrada em manipular o painel lateral.

Uma sequência de luzes piscou.

A trava da cadeira se abriu.

Mascarada libertou-se e ficou de pé, esfregando os pulsos.

No mesmo instante, a porta se destrancou.

Harpia Negra apareceu primeiro, seguida por Tec-Blue.

— Você está bem? — perguntou Harpia Negra.

— Já estive melhor. Mas ainda consigo correr.

— Ótimo. Porque temos companhia a caminho.

Tec-Blue apontou para o corredor.

— Precisamos sair antes que os guardas bloqueiem as rotas de fuga.

Mascarada olhou para a direção do laboratório.

— Não podemos simplesmente ir embora sem tentar descobrir o que estão fazendo.

Harpia Negra franziu o cenho.

— Você mal conseguiu sair da cadeira.

— E você acabou presa porque tentou me ajudar. Não vou fingir que não importa.

Tec-Blue interrompeu antes que a discussão avançasse.

— Vocês duas podem discutir depois. Temos menos de um minuto antes de alguém perceber que as salas estão vazias.

Mascarada respirou fundo. Sabia que ele tinha razão.

— Certo. Vamos sair daqui. Mas precisamos pegar qualquer informação que esteja acessível no caminho.

Harpia Negra assentiu.

— Dessa vez, seguimos juntas.

Mascarada assumiu a dianteira, observando os corredores e indicando a rota que acreditava levar à saída de serviço.

Tec-Blue ficou atrás, atento aos sinais do sistema de segurança. Harpia Negra cobriu o flanco, pronta para reagir caso algum guarda aparecesse.

A fuga finalmente havia começado.

Cena 16 — O resgate

Os três chegaram a uma área de trabalho próxima ao laboratório. Sobre uma bancada havia documentos, um terminal ligado à máquina e uma pequena unidade de armazenamento.

Mascarada aproximou-se do terminal.

— Se houver alguma informação útil, deve estar aqui.

Tec-Blue examinou a conexão.

— Posso copiar os arquivos disponíveis. Mas não vou conseguir acessar tudo sem acionar alguma proteção.

— Copie o que for possível — disse Mascarada. — Harpia, vigie a entrada.

Harpia Negra posicionou-se perto da porta.

Tec-Blue iniciou a transferência.

Na tela, alguns arquivos começaram a ser copiados. Outros estavam bloqueados ou corrompidos.

— Não é muita coisa — disse ele. — Mas pode ser suficiente para começarmos.

Um alarme soou.

Mascarada olhou para o teto.

— Eles descobriram.

Vozes se aproximaram pelo corredor.

— Temos que ir! — alertou Harpia Negra.

Tec-Blue retirou a unidade de armazenamento e guardou-a no equipamento.

Os primeiros guardas apareceram na entrada.

Harpia Negra avançou, usando as asas para desviar de um golpe e empurrar um dos homens para longe da passagem. Mascarada aproveitou a abertura para desarmar outro guarda e bloquear o acesso ao corredor.

— Tec-Blue, leve os arquivos! — ordenou ela. — Harpia, comigo!

As duas avançaram juntas. Harpia Negra manteve os guardas afastados, enquanto Mascarada conduziu o grupo até uma passagem lateral identificada durante sua primeira investigação.

Um dos capangas tentou fechar a porta de segurança.

Mascarada correu e conseguiu impedir que ela se fechasse por completo. Harpia Negra usou a força das asas para manter a abertura tempo suficiente para que Tec-Blue e Dog-Blue atravessassem.

— Agora! — gritou Mascarada.

Os três escaparam para o corredor de serviço.

Tec-Blue localizou a saída externa e abriu a porta. O ar frio da noite entrou de uma vez.

Harpia Negra foi a última a sair. Antes de abandonar o complexo, olhou para trás.

Ao longe, Dupont observava a movimentação do alto de uma plataforma. Dra. Frankenstein estava ao lado dela, já recolhendo documentos e desligando parte dos equipamentos.

Harpia Negra deu um passo na direção delas, mas Mascarada segurou seu braço.

— Não temos condições de enfrentá-las aqui. Não sabemos quantos homens ainda estão no prédio.

Harpia Negra apertou os punhos.

— Elas vão escapar.

— Sim — respondeu Mascarada. — Mas nós também.

As duas se afastaram com Tec-Blue e Dog-Blue, desaparecendo nas ruas próximas antes que os guardas alcançassem a saída.

ATO 9 — SEM RESPOSTASCena 17 — O que restou da investigação

Em um local seguro, Mascarada, Harpia Negra e Tec-Blue examinaram os arquivos recuperados.

A maior parte dos documentos estava incompleta. Havia listas de componentes, cálculos técnicos e registros de testes, mas faltavam as informações necessárias para entender o funcionamento da máquina.

Tec-Blue ampliou uma das páginas.

— Temos referências a uma transferência de energia, alguns módulos experimentais e parâmetros que não fazem sentido sem o restante dos dados.

— Você consegue descobrir para que serve o equipamento? — perguntou Harpia Negra.

— Não com isso. Os arquivos mais importantes estão protegidos ou foram apagados antes de copiarmos os dados.

Mascarada cruzou os braços.

— E os nomes dos fornecedores?

— Alguns registros financeiros, mas nenhuma ligação que possamos comprovar. As empresas citadas também aparecem em transações legítimas.

Harpia Negra inclinou-se para a tela.

— Então não temos como provar o que Dupont está fazendo.

— Ainda não — respondeu Tec-Blue.

Mascarada permaneceu em silêncio, encarando os fragmentos de informação.

Ela havia entrado no complexo em busca de respostas. Em vez disso, fora capturada, colocara Harpia Negra em perigo e precisara de ajuda para escapar.

E Dupont continuava livre.

— Passei a noite inteira tentando descobrir o que estava acontecendo — disse Mascarada, finalmente. — E saí de lá com alguns arquivos que não explicam quase nada.

Harpia Negra olhou para ela.

— Você descobriu que havia algo errado naquele lugar.

— Eu já suspeitava disso.

— E agora sabemos que Dupont está envolvida, que Dra. Frankenstein conduz a pesquisa e que elas estão dispostas a capturar heroínas para proteger o laboratório. Isso não é nada?

Mascarada desviou o olhar.

— Não é o suficiente.

Tec-Blue guardou a unidade de armazenamento.

— Às vezes, uma investigação não termina com uma resposta. Termina com uma pergunta melhor.

Mascarada não respondeu.

Ela sabia que ele estava tentando ajudar, mas não conseguia afastar a sensação de que havia falhado.

Cena 18 — A fuga de Dupont

Enquanto as heroínas examinavam os arquivos, Dupont e Dra. Frankenstein deixavam o complexo por uma saída secundária.

Os capangas carregavam caixas menores e equipamentos que haviam sido separados às pressas.

— Perdemos parte do material — disse Dra. Frankenstein. — E agora elas sabem que a pesquisa existe.

Dupont manteve a expressão controlada.

— Elas sabem que há um laboratório. Não sabem o que estamos construindo, de onde vieram os componentes ou para que pretendemos utilizá-los.

— Isso não significa que vão parar de investigar.

— Eu não esperava que parassem.

Dra. Frankenstein olhou para trás, na direção do edifício.

— Precisaremos de outro local.

— Já estou cuidando disso. Você deve se concentrar em salvar os dados que ainda temos.

— E o equipamento?

Dupont demorou um instante para responder.

— Levaremos o que puder ser transportado sem chamar atenção. O restante ficará para trás.

A doutora assentiu, contrariada.

As duas entraram em um segundo veículo. Os capangas fecharam as portas do compartimento de carga, e o automóvel deixou a região industrial.

Nenhuma delas sabia exatamente quanto as heroínas haviam conseguido recuperar.

Mas ambas compreendiam que o segredo do laboratório corria mais riscos do que antes.

EPÍLOGO — O PESO DE UMA NOITECena 19 — O mesmo telhado

Perto do amanhecer, Mascarada voltou ao alto do edifício onde começara sua investigação.

A cidade parecia diferente sob a luz pálida da manhã. Os primeiros ônibus percorriam as avenidas, algumas lojas abriam as portas e os prédios começavam a refletir o sol.

Ela permaneceu junto à beirada, observando as ruas.

Harpia Negra pousou alguns metros atrás dela.

— Imaginei que estaria aqui.

Mascarada não se virou.

— Eu deveria ter percebido a armadilha antes de entrar.

— Você não tinha como saber que elas estavam preparadas para capturar alguém.

— Eu deveria ter saído com provas.

Harpia Negra aproximou-se.

— Você enfrentou quase uma dúzia de homens e só foi capturada porque uma sequência de acidentes favoreceu Dupont. Não transforme a sorte dela em prova de que você falhou.

Mascarada finalmente olhou para ela.

— E você acabou capturada porque tentou me ajudar.

— Eu vi o que estava acontecendo e tomei minha própria decisão. Não tire isso de mim.

O silêncio entre as duas durou alguns segundos.

— Dupont escapou — disse Mascarada.

— Sim.

— Não sabemos o que a máquina faz.

— Não.

— E não conseguimos provar nada.

Harpia Negra cruzou os braços.

— Então vamos descobrir. Mas da próxima vez, fazemos isso com mais cuidado e sem tentar resolver tudo sozinhas.

Mascarada baixou os olhos para a cidade.

Ainda sentia que havia falhado. A investigação não terminara como esperava, e as poucas informações recuperadas não eram suficientes para revelar a dimensão do que estava acontecendo.

Mas havia algo que ela não podia ignorar: agora sabia que Dupont estava disposta a esconder aquela pesquisa a qualquer custo.

E não pretendia deixar o assunto morrer.

— Da próxima vez — disse Mascarada —, não vamos sair de mãos vazias.

Harpia Negra abriu as asas.

— Essa é a atitude.

Ela saltou do telhado e ganhou os céus de Trade State.

Mascarada ficou mais alguns instantes observando a cidade antes de partir também.

Aquela noite não havia revelado o segredo da máquina.

Não havia revelado os objetivos de Madame Dupont.

E não havia encerrado a investigação.

Mas, por trás das luzes de Trade State, uma nova disputa acabara de começar.

Notas finais
Sejam bem-vindos a este universo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.