Gerald ficou sem dormir a noite inteira. Coitado, ele tem de ser muito forte para agüentar a pressão de saber o que se passa no mundo por causa dos vampiros, saber que tinha uma vampira observando nossa casa e não poder fazer nada. Eu o amo muito (creio que o sentimento seja recíproco, do contrário ele se livraria de mim e de todas as complicações de viver comigo), mas apesar disso, tem vezes que eu penso se não seria melhor eu me afastar deles um tempo. Eu sempre descarto essa idéia. Afinal de contas, quem é que gostaria de ficar longe da própria família?

Algumas pessoas podem achar estranho eu ainda ter uma família humana. Digo \"ainda\" porque fui transmutada três anos depois da Emily nascer. E o que eu ia fazer? Abandonar minha família? Não é porque meu coração parou de bater que eu vou deixar de amá-los. Pelo contrário, minha transmutação só reforçou meu vínculo com os dois.

Era segunda-feira, o que significava ter de levar a Emily na escola. Com todos esses sanguinários por aí, eu é que não ia deixar minha filha sair sozinha.

Eu não queria chamar atenção, então, ao invés de carro, pegamos um táxi.

Deixei-a na porta da escola e fui embora.

Quando cheguei em casa, Gerald já havia tomado café. Eu perguntei:

- Comeu alguma coisa, querido?

- Comi. – Ele estava me dando uma evasiva.

- Você está abatido. O que aconteceu?

Ele se largou em uma cadeira da cozinha e deu um soco de indignação na mesa.

- Como assim, o que aconteceu? Tem alguém rondando nossa casa, querendo nossa filha, e você ainda pergunta \"O que aconteceu\"?

- Mas eu já matei aquela nojenta!

- E como você pode saber que era só ela? Como sabe que não têm outros? – Eu não sabia o que dizer – Uma hora vamos descobrir mais criaturas nos observando. – Percebi que ele estava fazendo um grande esforço para não chorar.

- Você está certo, eu admito. – Me limitei a abraça-lo – Chore, amor. Vai fazer bem. Chorar não é nenhuma vergonha.

Ele ficou chorando algum tempo. Consolei-o da melhor maneira que pude.

Quase meia hora depois, fui dar uma volta no jardim. No percurso, encontrei um bilhete grudado (não sei com o que) na parede externa de casa. A letra garranchada dizia:

\"Vá até a rua mais próxima de sua casa, vire na segunda à esquerda. Você irá ver um depósito. Encontre-me lá\".

Sem pistas de quem poderia ser o remetente. Pela letra garranchada, arrisco dizer que é um homem.

Entrei em casa. Falei para o Gerald que eu ia fazer umas compras. Eu não queria que ele ficasse mais preocupado.

Saí. Segui a pé pelo percurso indicado no bilhete. Parei em frente ao tal depósito. Estava em excelente estado, o que me fazia pensar que ainda podia estar em uso. A porta da frente estava trancada a cadeado. Eu não queria chamar atenção só para arrombar uma porta. Dei a volta no depósito. Nos fundos tinha uma porta, como eu já esperava. Girei a maçaneta, e vejam só que surpresa: a porta estava destrancada! Entrei.

Era um local mal iluminado que cheirava a poeira velha. Teias de aranha por todos os lados. A aparência externa era, literalmente, só fachada. Resolvi vasculhar o lugar. A grossa camada de poeira, que continuava se acumulando há anos, abafava o som dos meus passos.

Andei por um extenso corredor repleto de portas. Abri a primeira porta. Nada. Abri a segunda porta. Nada. Terceira Porta. Destroços de madeira muito, muito antigos. Quarta porta. Na parede ao fundo estava escrito \"É melhor parar com o que você faz\". Até parecia aquelas frases que os mocinhos ignoram em filme de terror. Cheguei mais perto da parede. Aquela frase exalava um cheiro nojentamente doce. Claro, tinha sido escrita com sangue de criança. Quinta porta. Outra frase: \"Você vai se arrepender\". Acho que não. Eu me arrependeria de não seguir em frente. Sexta porta. \"Às vezes, os que vão não voltam\". Sétima porta. \"Você quem escolheu\".

Senti duas mãos masculinas me segurarem. Deixei-me levar. Ele me encostou na parede e disse:

- Tudo bem com você, Tracy? – Analisando a voz, os traços físicos e as roupas, julguei que era um vampiro com aparência de trinta e poucos anos.

- Tudo bem comigo. E com você?

- Como você se sentiria se eu matasse o seu namorado? – Ele me olhava com ódio.

- Eu iria querer quebrar seu pescoço, te esquartejar e arrancar fora suas vísceras.

- Então acho que já sabe como estou. – As mãos dele apertavam meu pescoço cada vez mais. Decidi esperar um pouco mais.

- Aquele bicho feio que eu matei ontem era sua namorada?

-Era.

-Você devia me agradecer. Igual àquela você arranja dez em cada esquina.

Ele desferiu um soco no lado esquerdo do meu rosto. Tentei imobilizar os braços dele, e quase consegui. Ele me chutou bem no estômago. O impacto foi tanto que eu bati com a cabeça na parede. Coitada da parede. Dei um soco no tórax dele e logo em seguida empurrei-o para trás. Ele caiu de costas no chão. Eu queria zoar mais um pouco antes de matá-lo, mas não ia dar. Sem hesitar, quebrei o pescoço dele. Já que eu não tinha fósforos, tive de arrancar a cabeça dele. Pronto, estava feito.

Olhei mais uma vez para a frase na parede. Quantas crianças eles tinham matado? Se eles queriam matar, porque, pelo menos, não pegavam um humano do tamanho deles? Matar crianças não estava certo.

Iniciei meu retorno. Saí do depósito e voltei pelas mesmas ruas. Quanto tempo eu havia ficado lá? O Sol já estava a pino, o que significava que era meio-dia.

Vocês devem estar pensando \"E você pode sair no Sol?\". Pois eu respondo: Sim, eu posso. Não são todos os vampiros que são sensíveis aos raios solares.

Deixe-me explicar. Existem muitos tipos de vampiros. Desde os mais fracos até os mais fortes, dos mais sensíveis aos menos sensíveis, dos mais sedentos de sangue até os menos sedentos. E tinha ainda os indestrutíveis. Eu os chamo assim, porque ninguém nunca descobriu como elimina-los. Dizem que, dependendo da conduta do vampiro, quando a morte chegar para ele, é possível retornar, e retornar mais forte. É daí que se originam os indestrutíveis. Creio que sou ruim. Então quando eu morrer, quer dizer que eu morri.

Cheguei em casa. Em cima do sofá da sala tinha o jornal do dia. Não culpo Gerald por ter saído para comprar um mero jornal, tendo em vista que eu não o deixava sair nem quando ele queria arranjar um emprego. Sair era, e ainda é, perigoso.

E lá estava, na primeira página do jornal:

\"Nove crianças estão desaparecidas. Polícia diz que ainda procuram vestígios dos seqüestradores\".

Filhos da puta. Eles tinham matado nove crianças!

Uma coisa eu garanto. Melhor, garanto duas:

Primeira coisa: a polícia nunca ia encontrar nada, a não ser que o chefe deles fosse o Van Helsing.

Segunda coisa: eu ia acabar com todos os vampiros assassinos de crianças.

Notas finais
- reviews?