*Gerald*

Acordei. Pra variar, Tracy não estava ao meu lado. Me vesti e fui preparar o café da manhã de Emily. Para minha surpresa, a própria Emily já tinha aprontado seu próprio café. Ela não precisava ter feito isso, mal conseguia ficar de pé devido aos ferimentos que alguma coisa provocou. Passei a mão carinhosamente pelo topo da cabeça de Emily e perguntei:

-Cadê sua mãe?

-Da última vez que eu a vi hoje, ela estava no escritório. Não sei se ainda está lá.

-Obrigado, mocinha.

-Não gosto quando você me chama de ‘mocinha’.

-Por quê?

-Porque não.

-“Porque não” nunca foi uma boa resposta, você sabe.

-Ok, porque eu não gosto. Acho feio me chamarem de mocinha.

-Tudo bem. Te deixarei em paz, querida Emily.

-Ah! Assim está BEM melhor. – Ela sorriu.

-Certo… Daqui a pouco eu volto pra te importunar mais.

Deixei a cozinha. Abri a porta do escritório. E lá estava Tracy, falando ao celular. Ela sussurrava, pelo jeito era alguém muito importante. Quando ela me viu, tratou de desligar o celular rapidamente.

-Quem era? – Eu perguntei.

-Alguém.

-Ah... Sei. O outro Alguém.

-Como você é bobo! Não tem nenhum outro ‘Alguém’. Você é meu único.

-Então, se não era o outro, quem era?

-Se você PROMETER não dar chiliquinho, eu conto.

-Ok, senhorita. Não darei ‘chiliquinho’.

-Senta aí. A história é mais ou menos comprida. – Fiz o que ela mandou, sentei-me. – Era o meu Mestre. Acho que eu nunca te contei dele, não é?

-Seu Mestre? Quem é esse ser?

-Foi a pessoa que me ajudou a entender o que eu era quando me transmutaram.

-Entendo... Prossiga sua epopéia, minha cara.

-Não é nenhuma epopéia. Bom, continuando. Eu era meio bobona ainda quando virei vampira. Eu não sabia me defender e etc. Então, algumas vezes por semana, ele me contava as lendas relativas às criaturas sobrenaturais e como combatê-las. Ele me ensinou também a atirar com armas de fogo, a manejar algumas armas brancas, a utilizar arco e flecha, a bater nos outros direito, a aguçar os meus sentidos, a expandir minha criatividade e também me ensinou como viver no meio dos humanos sem querer voar no pescoço de cada um deles.

-Uau. Ele te ensinou bastante coisa. Só não entendi do porquê dele precisar ‘expandir sua imaginação’.

-Porque, uma vez, eu ‘esbarrei’ em uma criatura. E eu só conseguiria chegar nela se eu resolvesse uma série de adivinhações, sem errar nenhuma. Então ele me ensinou a adivinhá-las do modo certo.

-Que modo certo?

-Quase todas as vezes, as pessoas tornam as adivinhas mais complicadas do que elas são.

-Exemplo?

-Vou te propor uma adivinha, só pra você entender, tudo bem?

-Tudo.

-“À noite, me aquecem e me alimentam. De dia, sou pó e nem pra alimentar eu sirvo. Quem sou?”

-Deixe minha mente trabalhar um instante. – Parei pra pensar. O que podia ser? Eu não sou de desistir rápido, mas eu estava achando melhor pedir a resposta logo. – Eu me rendo. Qual a resposta?

-A resposta é “fogueira”. De noite ateamos fogo nela, que é o que aquece e alimenta. De dia, a madeira utilizada pra fazer fogo na noite anterior já virou pó e nem pra preparar alimento serve. Entendeu?

-Entendi. Mas, continuando com o assunto, o que esse Mestre queria?

-Ele estava pedindo pra eu ir até a casa dele amanhã. Acho que ele quer me propor um trabalhinho.

-Muito legal. Assim, eu acho isso ótimo. Quantos dias você vai ficar fora?

-Nenhum, oras. Eu vou lá, vejo o que ele quer, faço o que ele pediu e venho pra cá. Nada muito demorado, eu acho.

-Bom mesmo! Não quero minha coisa maravilhosa fora muito tempo.

-Eu? Coisa maravilhosa? Há quanto tempo você está precisando ir ao oftalmologista? – Como eu adoro essa ironia natural da personalidade dessa mulher.

-Deixe-me fazer contas. Eu te conheci, a Emily tinha dois anos. Eu lembro que ela pegava os seus batons e passava nas minhas camisas, só pra eu ficar sem roupa nenhuma pra vestir. Agora ela tem quinze anos. Quinze menos dois é igual a treze. Bom, faz treze anos que eu tenho uma visão perfeita.

-Ai, ai... Visão perfeita? Estou sabendo!

Levantei do lugar que eu estava e abracei Tracy. Não só abracei, beijei também, e abracei de novo.

-E é bom voltar logo mesmo. Quero ficar bastante tempo junto com você, Tracy.

-Eu também quero passar bastante tempo com a vossa magnífica pessoa. – Eu sentei ao lado dela, de novo.

-Tracy…

-O que?

-Quando é que você vai aceitar casar comigo?

-Não sei, Gerald. Eu juro que um dia eu ainda caso com você, mas eu só não sei quando.

-Ai, que saco. Eu queria oficializar nossa união rápido.

-Um anel e umas assinaturas em um papel não vão fazer diferença no que eu sinto por você, nem o que você sente por mim.

-Eu concordo com você, mas eu quero esse anel e esse papel logo.

-Espere e terás.

-Eu odeio quando você deixa uma situação meio resolvida.

-Já falei, espere. Te garanto que morrer eu não vou.

-Precisava falar de morte?

-Querido, morrem milhares de pessoas todos os dias. Eu mesma sou uma assassina. Você dorme com a morte, docinho.

-Interessante essa sua revelação. Você é a morte...

-Pra você ver. – E nosso diálogo acabou por aí.

*Tracy*

Sábado. Dia que os mortais descansam de suas rotinas tediosas. E eu, imortal que sou, saio para mais uma jornada de “trabalho”. Foi com muito receio que deixei Gerald e Emily sozinhos, mas não tinha jeito, eu precisava sair.

Fui andando. Passei por todos aqueles lugares que eu já conhecia. Bares, restaurantes, bordéis (a essa hora do dia estavam fechados), escolas, pontos de ônibus, de táxi, salões de beleza, super-mercados, lojas e mais lojas. Entrei em um beco um tanto obscuro. Foi aí que a paisagem começou a mudar. Latas de lixo por todos os lados, jovens se drogando, gatos farejando o lixo, ratos e mais ratos. Parei em frente a uma casinha simples e toquei a campainha. O meu Mestre veio me atender e me mandou entrar. Eu obedeci. Sentei em uma poltrona e perguntei:

-O que o Sr. deseja, Mestre?

-Tracy, por favor, não me chame de Mestre. Me chame de Christopher.

-Certo... Christopher. O que deseja?

-Eu quero que você faça uma coisa que vai ajudar no seu desenvolvimento como vampira. – Ele me olhou tanto tempo nos olhos, que até me deu um calafrio. – Tracy, há um grupo de vampiros que andam matando crianças. Já deve até ter saído na mídia. – Claro que tinha saído, eu tinha mostrado a matéria para o Gerald. – Eu quero que você acabe com eles. E é claro que eu sei que você fará isso com louvor.

-Eu acabei com dois deles. Não acabei?

-Aqueles dois idiotas? Eles eram só a ponta do iceberg. Tanto que você deve ter percebido que eles foram fáceis de eliminar. Não foram?

-Sim, foram. O Sr. sabe quantos mais existem?

-Acho que uns nove.

-Nove? São muitos para uma vampira só!

-Alguns deles são fracos. Dois ou três que devem ser fortes. Acha que está pronta?

-Acho que posso encarar essa. O Sr. tem alguma recomendação pra me fazer?

-Não leve as suas adagas. Leve apenas as pistolas.

-E vampiros podem ser eliminados com míseros tiros?

-Você tem de atirar bem aqui. – Ele apontou para o centro da própria testa

-Tudo bem… Christopher, eu queria falar de um assunto com você...

-Pois bem, fale.

-Outro dia, entrou uma criatura em casa e feriu minha filha. Você, por acaso, tem alguma pista do que poderia ser? – Eu SEMPRE pergunto as coisas a ele, porque ele SEMPRE sabe.

-Já ouviu falar dos Sombras?

-Já. Mas eu não sei ao certo o que são.

-São criaturas malignas, travessas. Elas trabalham para as criaturas superiores, em geral, para os vampiros. Os Sombras não são muito espertos, mas são muito fortes e, como não podem ser vistos, é difícil de eliminá-los .

-Você acha que era um Sombra?

-Eram quantas as marcas na sua filha?

-Três em cada perna.

-Pois bem, os Sombras tem quatro dedos em cada mão, e como o polegar não é usado para ferir, sobram três dedos. Que seriam os responsáveis pelos ferimentos. Se tivesse sido ou um lobisomem ou um vampiro, que tem cinco dedos em cada mão, seriam quatro marcas. Eu tenho certeza que foi um Sombra.

-Só tenho mais uma pergunta. Em que lugar eu posso começar a minha busca por esses vampiros?

-Comece por aquele depósito. Se não tiver mais nenhuma pergunta, pode ir.

-Quando eu completar minha missão, eu volto aqui. Até.

Quando eu já estava abrindo a porta, ele concluiu:

-Não quebre seus princípios. Quais são eles, Tracy?

-Não beber sangue humano, apenas sangue animal; Não agredir seu Mestre; Nunca quebrar uma promessa e jamais se entregar à morte.

-Muito bem. Pode ir.

Virei-me, saí e fechei a porta. Estranho Christopher fazer eu me lembrar dos princípios. Ele só fazia isso quando sabia que eu ia enfrentar um grande perigo. Era melhor eu tomar cuidado.

Entrei em casa, me equipei com as minhas pistolas com cabo de sândalo¹, relíquias, se me permitem dizer. Amarrei o coldre na cintura e coloquei as pistolas lá. Coloquei um sobretudo por cima, para esconder minhas relíquias. Deixei um bilhete em cima da mesa, avisando Gerald que eu só voltaria à noite.

Saí de casa novamente. Andei até o depósito. Entrei pela porta do fundo, como da outra vez. Olhei todas aquelas salas. Nada novo. O que ele queria que eu visse ali? Comecei uma busca mais cuidadosa.

Primeira sala: muita poeira, sujeira e sangue. Como era de se esperar, sangue de criança.

Segunda sala: poeira, mais poeira, aranhas, alguns ratos e sangue.

Terceira sala: sangue, mais sangue.

Quarta sala: nada. Mas o que eu estava procurando?

Quinta sala: tinha algumas cordas que não estavam aqui antes.

Sexta sala: nada de novo. Aliás, tudo ali era muito velho.

Sétima sala: nada. Nem o cadáver do vampiro de outrora. Agora eu ia avançar para as outras salas. Da outra vez eu só tinha vindo até aqui.

Oitava sala: algemas no chão, correntes, poeira, sangue.

Nona sala: Para um humano, seria impossível enxergar algo naquela sala de tão escuro que estava.

Eu estava sentindo cheiro humano. Mas não era uma criança, era um adulto. Acreditem, o cheiro envelhece, e quando isso acontece dá pra saber mais ou menos quantos anos tem o humano. Presumo, pelo cheiro deste, que ele deve ter entre trinta e trinta e cinco anos. O que um humano faz por aqui? Bisbilhotar um lugar velho? A não ser que os vampiros tivessem mudado de gosto. Trocaram criança por adulto. Eu tenho uma leve impressão de que eu já senti esse mesmo cheiro. Será que eu conheço esse adulto?

Olhei pra uma parede: correntes presas na parede, respingos de sangue.

Continuei sentindo aquele cheiro. A pessoa ainda estava ali. Virei-me pra ver a outra parede. Ouvi sons, como se o humano se arrastasse e, ao mesmo tempo, tentasse falar através de mordaças.

Quando fui olhar o chão, senti duas mãos masculinas segurarem meus braços. Não tentei me desvencilhar, podia ser pior.

-Até que enfim! Estávamos te esperando há um tempo. Como está?

-Muito bem. – Pelo modo de falar, esse vampiro não era o único ali. Mas eu não estava vendo os outros.

-Tem certeza?

Ao dizer isso, ele forçou minha cabeça de um modo que eu fitasse o chão pra ver quem estava lá. Era Gerald. Mesmo eu não tendo um coração ativo, parecia que algo ia explodir dentro do meu peito. Eles tinham pego Gerald! A essa altura, deviam ter pego Emily também. Tentei não transparecer meus sentimentos.

-Você pretende me atingir com ele? – Desafiei o vampiro.

-Uhum...

-Não entendo de que maneira.

-Simples. Vamos deixar você e ele presos aqui, no mesmo lugar, até você não resistir e voar no lindo pescocinho dele. O que acha?

Tentei me desvencilhar dele. Não consegui, aquele filho de ninguém era muito mais forte que eu. Ele continuou:

-Não, querida. Não tente fugir, senão eu mato seu amorzinho aqui na sua frente. É o que você quer? – Parei de tentar fugir. – Isso, adoro obediência.

Ele me jogou com toda força no chão. Depois ele tirou as mordaças de Gerald e desamarrou as cordas que o prendiam.

-Pronto, agora se comportem.

Virou as costas e foi embora. Esperei um tempo até ter certeza que o vampiro não voltaria e chamei em um sussurro:

-Gerald?

-E...Eu.

-Eles machucaram você?

-Não. – Ele estava com uma voz chorosa.

-Eles pegaram Emily?

-Não sei como, mas não pegaram.

-Como sabe?

-Porque eles estavam todos juntos e a Emily não veio comigo. Não sei onde ela está.

-Por que eles me trancaram junto com você? Qual a finalidade? – Eu estava indignada e arrependida ao mesmo tempo. Dei mais importância ao que Christopher me mandava fazer do que ficar com a minha família. Agora eu estava colhendo o resultado disso.

-Você ainda não descobriu? Eles nos colocaram aqui, juntos, porque sabem que você não vai fugir diante da ameaça de me matarem. Ou seja, eles vão esperar até você não agüentar mais e me transformar em um vampiro. Eles são patéticos, ridículos.

-Mas ardilosos, tenho de admitir. Eles querem fazer eu quebrar meus princípios...

-Princípios?

-É, são quatro. Um deles é não beber sangue humano. Concorda que eles mesmos podiam ter te transmutado? Mas não, querem que eu quebre meus princípios. – Eu estava ficando com medo, muito medo.

-Sabe, se eu tiver de virar vampiro, prefiro que seja com você do que com qualquer outro.

-Gerald! EU não quero te transformar!

-Por que motivo?

-Os vampiros são seres malditos. Viver pra sempre, é isso que você quer?

-Não deve ser tão ruim.

-Eu não vou discutir com você agora.

-Mas você vai TER de me transformar! Eles não vão te deixar sair enquanto você não fizer o que eles querem.

-Estou percebendo.

-Tudo bem, estou preparado.

-Eu não vou fazer a vontade deles tão fácil assim.

-Quantos dias você agüenta?

-O máximo que eu fiquei sem me alimentar? Deixei-me ver... Dois dias, eu acho.

-Maravilha.

-Tenho a impressão que vai ser menos. Talvez hoje mesmo.

-Como assim?

-Daqui a pouco essa sala via começar a ficar quente, por que está fechada e não tem janelas. Ou seja, o seu cheiro vai embaralhar minha mente e eu não vou agüentar mais. Incrível como eu sou fraca, não?

-É... Ok, vou esperar.

E essa foi nossa última troca de palavras antes que o coração dele parasse de bater.

Primeira hora

Tudo normal, estou controlada e concentrada para tentar não fazer besteira.

Segunda hora

Só ouço Gerald respirando e o coração dele batendo mais rápido que o normal. Eram os únicos sons por aqui.

Terceira hora

Sinto que a sala está aumentando de temperatura gradativamente.

Quarta hora

O cheiro de Gerald... O cheiro de Gerald...

Estou me descontrolando, tenho que assumir o meu próprio controle.

Quinta hora

Minha mente estava começando a desligar o lado da razão. Daqui em diante eu não vou conseguir mais saber quantas horas tinham se passado.

Desligando.

*Gerald*

Estava muito escuro, eu não conseguia ver a Tracy. Também não consegui ouví-la. O que ela estaria fazendo ou pensando? Queria que tudo isso acabasse, que ela me transformasse logo para podermos ir embora e procurar Emily.

*Tracy*

Religando.

Quantas horas haviam se passado? Não tinha a mínima idéia.

O cheiro estava ficando insuportável. Eu nunca tinha desejado o sangue de Gerald antes, mas agora eu desejava. Era um desejo quase luxuriante

Minha mente oscilava e eu tentava manter a razão no poder. Mas não consegui.

Desligando.

*Narrador*

Tracy estava de olhos abertos, mas não via nada. Uma parte dela queria atacar Gerald, a outra quase gritava o contrário.

Gerald já havia se acalmado, aceitado a situação. Esperava pela hora dele.

*Tracy*

Religando.

Eu não estou agüentando.

Eu não estou agüentando.

Quero Gerald. Agora.

Eu não estava no domínio de meu corpo. Me ergui, contra a minha própria vontade, e fui na direção de Gerald.

*Gerald*

Ela está vindo. Graças a Deus.

*Tracy*

Com uma mão, inclinei a cabeça de Gerald pra trás, deixando o pescoço a mostra. Levei minha boca até o lugar que eu não queria perfurar, e o mordi.

*Gerald*

Ela estava me mordendo. Como doía. Tomara que ela pare logo. Por favor, meu Deus, faça com que isso acabe logo.

*Tracy*

O sangue dele era muito bom, o melhor que eu tinha experimentado. Eu tinha que parar, do contrário eu ia acabar o matando. Mas era impossível. Não, não podia ser impossível.

Parei.

Gerald ficou inerte nos meus braços. Será que… eu o tinha matado? Não, não podia ser.

Ele se mexeu um pouco, ainda bem.

Gerald sentou e fez um barulho como se ele estivesse engasgando. Típico de quem está em fase de transmutação.

Agora não tinha mais volta. Quebrei meu primeiro princípio.

O que seria daqui pra frente?

Notas finais
- reviews? ¹:as pistolas com cabo de sândalo é um elemento da série "A Torre Negra" do Stephen King. Nessa série, essas pistolas são passadas de geração em geração dos pistoleiros. Os pistoleiros são lendas do velho oeste e protetores (deveriam ser, pelo menos) que todos respeitam. Só vou explicar o porquê de Tracy carregar essas pistolas em uma continuação dessa fic.