Notas iniciais
Aproveitem, esse é o último capítulo desse 'volume' da fic.
Vai ter uma continuação (talvez eu poste depois de amanhã o primeiro cap.).

*Gerald*

Eu tenho certeza que Tracy vai querer fazer um velório pra Emily. Por isso, fui até aquele depósito. Me preparei, pois, além de ter que estar atento a qualquer movimentação ofensiva, eu teria que encarar o corpo de Emily já em decomposição (além do corpo estar todo despedaçado).

Entrei discretamente no depósito e fui até o aposento em que o corpo estava. Para minha surpresa, o corpo não estava em decomposição. Os vampiros devem ter feito algo (com que objetivo?). Enxuguei meia dúzia de lágrimas que teimavam em cair diante daquele corpo. Ah! Tão jovem… Por que ela? Deve ser o que todo pai (mãe) pergunta quando vê seu filho morto “Por que justo meu filho, meu Senhor?”. O pai nem precisa ser biológico pra sentir isso.

Tentei fingir que eu não conhecia aquele cadáver e comecei a executar o que eu tinha ido fazer lá, sempre com os ouvidos atentos à qualquer coisa.

Imunizado psicologicamente de sentir aquele cheiro e aquela dor de perda, comecei a costurar um pedaço no outro.

Primeiro os braços. Posiciona-los no lugar correto e costurar com uma linha bem resistente, ver se está bom e passar pra próxima etapa.

Por último as pernas (pela graça Divina, os vampiros tiveram a misericórdia de manter a cabeça de Emily no lugar). Posicionar no lugar certo, costurar, verificar. Próxima etapa.

Até aqui, ninguém veio importunar o que eu estava fazendo. Por ali mesmo, arranjei um trapo qualquer e enrolei cuidadosamente o corpo de Emily. Fui pra casa pelo caminho mais escondido que consegui. Ninguém me notou.

Coloquei o corpo dela em cima da mesa e fui até o quarto que era de Emily. Peguei a roupa que ela mais gostava de usar no frio: uma calça de moletom preta e uma camisa de manga comprida lilás. Tão simples e ela ficava tão bonita naquela roupa.

A vesti com todo o cuidado, e a roupa comprida por si só ocultou os lugares que apareciam a costura que eu tinha feito para juntar os membros ao tronco.

Terminei penteando aqueles lindos cabelos negros compridos.

Fiquei velando Emily, à espera de Tracy.

Emily parecia que simplesmente dormia. A expressão era serena, como se não tivesse morrido na base de tortura e sim como se tivesse ido em paz.

Tracy chegou. Como era de se esperar, assustou ao ver o corpo da filha em cima da mesa de jantar, como se fosse o próximo prato a ser servido. Ela perguntou:

-Como você recuperou o corpo dela?

-Fui no depósito e peguei.

-E ninguém te viu? Ninguém falou nada? – Já podia ver lágrimas tentando escorrer pelo rosto dela.

-Não. Tudo transcorreu na maior tranqüilidade. – Pra falar a verdade, eu já recomeçava a chorar também.

-Por que você arriscou sua vida pra ir pegar Emily? – Ela falava como se a filha estivesse viva.

-Eu queria que tivéssemos, em especial você, uma chance de vê-la pela última vez e a chance de enterrá-la.

-Obrigada, Gerald.

A boca se retorcia em uma espécie de sorriso de agradecimento, mas os olhos dela choravam. Não, não deixavam transparecer que choravam. Eles mantinham aquela aparência firme, mas percebia-se que mandavam as lágrimas retornarem. Sem dúvida, Tracy endureceu. Eu chorava mais que ela.

Foi tudo muito solene, silencioso. Ambos cavamos uma cova, nem muito funda nem rasa, bem debaixo da árvore que Emily escrevera seu próprio nome certa vez. Terminada a escavação, colocamos o corpo de Emily dentro da cova.

Durante dez ou quinze minutos, ficamos a contemplar aquele jovem rosto a repousar. Depois começamos a cobrir a cova com terra, tudo bem devagar.

Tracy estava estranha, sem expressão. Parecia que todo e qualquer pensamento havia abandonado a mente dela. Impossível saber o que pensava, o que sentia.

*Tracy*

O que me resta agora além de sede de vingança e de uma vaga esperança?

Vingança? Nobre motivo pra continuar existindo.

Eu ainda, talvez, me considerasse capaz se eu não tivesse rompido meus princípios. Rompi todos os quatro. Do que me adiantava fazer algo?

Esperança? Ter esperança em uma história que minha mãe me contou certa vez? Um tanto quanto ridículo.

Ok, eu sei que a história diz que é possível trazer um ser humano do mundo dos mortos para o dos vivos. Essa história dizia também que essa proeza só poderia ser realizada por um vampiro. Mas quem vai acreditar nessas histórias pra hora de dormir? Eu não acredito muito, mas algo bem lá no fundo grita que é verdade. Pelo menos em parte verdade.

Se eu tivesse desmascarado Christopher antes, nada disso teria acontecido. Eu poderia até não ter conseguido recuperar minha parte humana (claro, isso é impossível), mas minha família ainda seria alegre e unida.

Ah, Senhor. Não espere que eu vá falar com vós, suplicar à vós, pois não atendeste ao meu pedido de proteção à Emily. Por que então eu deveria confiar em ti? Meu pai era muito religioso e sempre falava que Deus sempre nos ajudava nas horas mais difíceis. Então por que deixaste minha mãe ser assassinada por tão vil criatura? Claro, digo isso dos vampiros, mas os humanos (e qualquer outro ser, seja ele sobrenatural ou não) não são muito melhores também.

O que dizer de mim então? Uma assassina? Pior, assassina indireta da própria filha.

Filha, meu Deus! Era só uma garota recém-saída da infância. Por que precisava dela? Mais um anjo pra enfeitar teu céu? Mais uma alma pura à cantar no teu coro angélico de belas vozes? Ou só mesmo uma demonstração extremada que eu não sou superior (não que eu me ache), portanto não tenho direito de sair matando, mesmo que seja pra defender a humanidade?

Piedade! Não de mim, mas da alma de minha filha. A conduza pra um bom lugar, e me ajude – se não for pedir demais – a conseguir resgatar essa mesma alma. E junto com ela, resgatar um pedaço de minha própria alma. Alma essa que eu perdia um pouco a cada vez que dava ouvidos ao Christopher, a cada passo que eu dava em direção ao meu próprio cadafalso!

Agora essa ausência de alma impede-me de chorar sobre o corpo de minha filha. Antes eu ainda amava, sentia saudades, sorria, cantava de alegria quando me era permitido. Agora parece que algo se solidificou dentro de mim, parece que minhas entranhas são feitas da mais sólida e indestrutível pedra.

O que fazer agora? Começar uma jornada (que o meu lado racional acredita ser uma jornada vã) em busca da suposta forma de salvar Emily e procurar Christopher. Juro que vou procurá-lo como se eu tentasse achar sangue. E quando eu achá-lo, pode ter certeza que esse será, não digo o melhor, mas um dos melhores dias da minha vida.

Notas finais
Recadinho final:
Não é com grande pesar que termino essa fic, pois terá continuação (eu já disse isso). Mas eu gostei muito de escrever essa minha primeira fic. Vou me empenhar ao máximo pra que a continuação seja melhor.
Próximo volume: "Sombra e Vingança". Tenho quase certeza que vou postar quarta.

Obrigada a todos que leram, e espero que continuem lendo.

Mandem reviews a esse último cap., por favor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!