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1 Prólogo
Notas iniciais
John Kalenger. Poderia dizer que esse é o meu nome, mas sei que não é. Este é o nome que recebi após eventos que resultaram na morte de meus pais. John Kalenger é o nome que meu pai adotivo escolheu para evitar que eu fosse encontrado por aqueles que causaram a morte de minha família. Não tenho idéia de quem eu sou de verdade. Daniel, meu pai adotivo, nunca fala sobre esse assunto e apenas me contou o essencial sobre minhas origens e a razão de eu ter me tornado orfão. A minha lembrança mais antiga é de quando Daniel me trouxe para morar junto com ele. Portanto, não possuo nem uma mísera lembrança de minha "antiga vida". Tudo o que conheço é relacionado com o meu "novo" eu, John Kalenger. Às vezes gosto de imaginar que tipo de vida teria se a tragédia que abalou a minha vida não tivesse acontecido. Imagino-me em uma familia normal, feliz e que apenas tivesse problemas comuns, mas sempre sou puxado pela realidade e a realidade não é algo bonito. A realidade em que vivo é perigosa. Estou sempre temendo que minha vida acabe como a dos meus pais, temo ser morto por saber demais ou por ser filho de pessoas que irritaram alguém perigoso. Daniel sempre me diz que ter medo não é algo ruim, ele diz que um ser humano sem medo tende a se colocar em situações que invariavelmente levam a sua destruição, ou seja, alguém sem medo procura pela morte. O medo para ele é um sentimento necessário e só não podemos deixar que ele consuma nossa mente por completo. E essa é uma tarefa difícil, impedir que o medo se espalhe é algo que não domino por completo, mas venho treinando com o passar do tempo.
Admito que a vida que levo não é ruim. Daniel tem uma grande fortuna que tem origem na empresa que ele fundou há quinze anos e com esse dinheiro ele pôde me criar sem maiores problemas, pelo menos sem problemas financeiros. Até hoje não entendo muito bem a relação que ele tinha com meus pais. Quando pergunto sobre esse assunto, recebo sempre a mesma resposta:
-Devia muitas coisas à seu pai. Ele era um grande amigo.
Essa resposta nunca me satisfez por completo, porém não gosto de insistir nesse assunto, pois percebo que é algo que Daniel ainda não está pronto para revelar e também porque eu sei que ele só deseja o meu bem-estar. Se ele julga que não estou pronto para ouvir a verdade eu acho então que isso deve ser o melhor para mim.
Daniel sempre me protegeu de tudo e sempre me manteve em segurança. Ele tomou muitas medidas para evitar que minha verdadeira identidade nunca viesse à tona. Desde que meus pais morreram, eu tive que deixar todo o meu passado guardado em um grande cofre e enterrá-lo completamente, o passado não existia mais, o que importava era o presente e o futuro. O meu antigo nome deveria ser esquecido e o mais impressionante é que eu realmente fiz tudo isso, o que deve ter garantido minha sobrevivência por todos esses anos.
Minha vida após tudo isso foi um pouco diferente da maioria das crianças de minha idade. Nunca fui à escola, pois esse era um ambiente em que poderia acabar sendo exposto e descoberto, mas Daniel nunca relaxou na minha educação e sempre estudei pesado em casa, mesmo que realmente não precisasse, pois possuía uma habilidade bem peculiar, a memória fotográfica. Tudo que via e escutava acabava gravado na minha mente e isso facilitou muito meu aprendizado. Minha habilidade com números também era acima do normal. Nenhuma equação era impossível de ser resolvida ou pelo menos era o que acreditava. Tive aulas que muitos considerariam pouco "convencionais", praticava diariamente com armas de fogo com um instrutor que era amigo do meu " pai adotivo" e com esse mesmo instrutor também aprendi várias artes marciais. Também praticava atividades físicas e esportes todos os dias à exaustão. Me sentia muito cansado no final do dia, mas com o tempo acabei me acostumando com essa rotina "diferente". Sabia que tudo que fazia era para o meu próprio bem. Sei que em outra situação Daniel não cogitaria deixar uma criança de dez anos ter aulas sobre armas de fogo, mas ele sabia que eu sempre estaria em perigo e o melhor era que eu estivesse preparado para me defender de ameaças à minha vida.
Minha vida não é nada tradicional, mas já estava acostumado com ela. Consegui sobreviver por nove anos sem ser descoberto por sei lá quem seja o assassino de meus pais. Tudo parecia calmo, mas eu não sabia que tudo iria mudar rápido demais.
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