Romário

— Tá tudo bem? —eu perguntei meio sem jeito.

— Está sim — ela respondeu, secando os olhos — É só que... esquece! —Ela começou a caminhar pela sala, como se algo ali pudesse fazê-la segurar as lágrimas.

— O que foi? — perguntei. Ela voltou e se sentou ao meu lado. Então suspirou e começou a falar.

— Eu acho que eu não vou conseguir passar. Por mais que você me ajude, eu não consigo! Até o Jonah acha isso... Vou acabar voltando para a casa do meu pai!

Pela primeira vez eu estava vendo o lado pessimista da Brenda. Ela sempre foi forte, tinha o pensamento “eu quero, eu posso, eu consigo”. Agora ela parecia uma garotinha fraca. Ela não devia se sentir assim. Nem deixar que perdedores idiotas como o Jonah a fizessem se sentir assim. Espera, eu estou com pena dela?

Brenda

Não sei, mas acho que era a primeira vez que o Romário falava alguma coisa positiva para mim. Normalmente ele sempre me criticava. E acho que com razão. Eu nem sempre dou o meu melhor nas coisas e isso me deixa frustrada.

— Você pode sim, Brenda — disse o Romário — Você é a garota mais inteligente que eu conheço. O que aconteceu com aquela menina destemida que queria ser melhor que eu, e brigava até o fim por isso?

Não pude deixar de sorrir. Eu sempre fui muito competitiva, odeio perder. Mas agora é diferente. O meu futuro depende de eu passar nessa prova, e isso está me deixando mais nervosa do que o costume. O Romário não entendeu quando eu disse isso a ele.

Faz 9 meses que minha mãe morreu. Isso ainda pesa no meu coração. Ela sempre me disse que eu seria o orgulho dela. Acontece que agora o meu pai quer que eu vá morar com ele. Eu ainda estou pensando nessa possibilidade, mas então fizemos um trato. Se eu passar, poderei ficar morando com minha tia, fazendo faculdade e tal. Se eu não passar na prova, vou ter que ir para casa do meu pai. É por isso que eu estou tendo dificuldades. Eu nem sei se vou passar mas a questão é que... eu nem sei ainda se eu quero passar. Talvez ficar perto da minha família seja melhor, mas não sei o que fazer com minha vida.

— Você vai conseguir Brenda. Está com o melhor professor.

Sorrio de novo. Romário sempre foi otimista mas é competitivo que nem eu.

— Por que você não quer morar com seu pai? — ele perguntou.

— Porque eu gosto daqui, e ele mora em Guarulhos. Pra falar a verdade, minha família inteira mora pra lá, só que quando meus pais se separaram minha mãe, irmã e eu viemos para cá morar com minha tia. Eu sinto saudades deles mas... não quero abandonar esse lugar e nem minha tia. Minha vida está aqui, passei a maior parte da minha adolescência aqui! Mas eu nem sei se estou fazendo a coisa certa.

Romário apenas ouviu e não disse nada. Não sei por que, mas senti uma vontade de abraça-lo. De algum jeito ele me lembrou minha mãe. Diante disso eu encostei nele e apoiei minha cabeça em seu ombro. Eu me senti muito segura e preparada naquela hora. Queria poder me sentir assim sempre. Acho que o Romário ficou meio sem graça, pois vi ele disfarçando jogando no celular.

— Cara, esse jogo é o demônio! — eu disse, tomando o celular da mão dele. — Eu já cheguei no nível 58 e você?

— Sério? Eu também!

Até que enfim uma coisa que nós dois éramos iguais! Eu não sou muito fã de videogame mas, gosto de me distrair com jogos de celular. Estava tão legal o jogo, mas tivemos que voltar ao trabalho.