Trabalhando com o Inimigo
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Notas iniciais
Romário
Eu fiquei completamente surpreso. Eu estava achando que conseguiria passar, que eu tinha ido bem... mas por causa de 2 % eu não vou fazer a faculdade dos meus sonhos? Depois de tanto estudo e noites mal dormidas, exercícios e questões que atormentaram, e depois de tanto esforço eu não passei?! Eu fiquei arrasado! E obviamente eu não era o único.
— Droga! — disse a Brenda. Ela estava um pouco nervosa. — Droga, droga, droga!! Eu já imaginava... eu não... droga!
— Estou tão surpreso quanto você, Brenda. Eu não esperava isso...
— Acabou! Minha vida vai de mal a pior.
— Você não está exagerando um pouco?
Ela não respondeu, mas é claro que a vida dela não acabaria por causa disso. Afinal, poderíamos prestar a prova de novo no próximo ano. Mas mesmo assim, a decepção e a preocupação estavam estampadas na nossa cara. E uma das coisas que me faz sentir melhor é comer. Pizza.
— Vamos comer uma pizza?
A Brenda ficou alguns segundos me olhando e então pegou a bolsa.
— Vamos lá.
Então lá fomos nós, afogar nosso fracasso garganta abaixo junto com um delicioso pedaço de pizza de calabresa e frango, e para acompanhar, refrigerante. O fracasso é gorduroso e calórico.
Enquanto comíamos, tentávamos entender onde erramos. Agora batia o arrependimento de ter escolhido a alternativa A em vez da B. Ah mas como é que eu ia saber?
— E agora você vai ter que ir para a casa do seu pai? — perguntei.
A Brenda apenas comia sem falar nada, como querendo esquecer da prova e se entregar àquele pedaço de pizza prazeroso. Depois de um tempo ela respondeu.
— Esse foi o acordo.
— Você quer ir morar para lá? — pude notar os olhos dela se encherem de lágrimas, mas então continuei a comer. Não tive intenção de fazê-la chorar mas, foi isso o que aconteceu. As lágrimas escorreram pelo rosto, silenciosamente, enquanto ela cada vez mais empurrava pizza boca adentro. — Desculpe...
— Tá tudo bem — ela respondeu, secando o rosto. — Eu ainda não pensei nisso. Quer dizer, eu pensei mas não me decidi. Acho que eu estava contando em conseguir passar, mas ao mesmo tempo...
Fiquei pensando nisso enquanto comia. Eu estava convivendo com ela por apenas um mês e havia descoberto uma nova pessoa. Não parecia ser a mesma garota que deu um soco na cara da ex-amiga. Ela estava diferente. Então fiquei surpreso com um pensamento que me veio. Se ela fosse embora, eu iria sentir falta da companhia dela.
— Bem, acho melhor eu ir — disse a Brenda, juntando a louça suja. Eu também fiz o mesmo.
— Tchau, até amanhã — ela disse, saindo do ônibus.
Brenda
Eu estava triste, decepcionada, mas ao mesmo tempo aliviada. Como isso era possível? Eu estava triste e decepcionada comigo mesma por não ter passado na prova, mas também aliviada por tudo ter acabado. Pelo menos uma parte. Até que consegui dormir um pouco.
No dia seguinte no trabalho, fomos avisados que eles contratariam um novo diretor de loja, já que o Jonah saiu. Eu e o Romário fizemos nosso trabalho, almoçamos juntos, depois voltamos a trabalhar e depois que saímos, fomos à livraria. Acho que ele despertou o gosto pela leitura.
Até que o Romário não era tão chato assim quanto eu pensava. Quer dizer, se eu mudei, ele também mudou. Não tínhamos muitas coisas em comum, a não ser o mesmo gosto por filmes e séries. Acho que eu sentiria falta de conviver com ele.
— Você vai ver, não vai conseguir largar esse livro. — Eu disse enquanto seguíamos caminho no ônibus.
— Vamos ver — ele respondeu sorrindo.
O ônibus estava cheio, eu estava em pé escorada na porta e o Romário também, do meu lado. Eu estava cercada de pessoas, por isso quando o ônibus sacolejava eu me segurava no Romário. Até que numa virada brusca meu corpo foi praticamente lançado pra cima do dele, que me segurou na cintura.
— Desculpe.
— Não tudo bem, pelo menos você não caiu.
Enquanto o ônibus seguia veloz, e os outros passageiros reclamando com o motorista, nós seguíamos em silêncio, eu apoiada nele e ele ainda me abraçando pela cintura.
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