Três vozes e o Mistério Dos Ocultos

3 Dentro de seus olhos amendoados


Notas iniciais
Pois é, a parte romântica da história está começando ♥

Não aconteceu nada do que eu esperava.

Não que eu não quisesse, ou ele não tentasse.

É só que cheguei a conclusão que não era a hora, e que não queria perder minhas amigas.

- Eu vou matar você! — a voz emburrada vinha de trás de mim, que escrevia de cabeca baixa no canto do quarto, levemente escorada na parede e com lágrimas nos olhos.

Me deixa em paz, Ellen, eu não estou bem — bufei — Me deixa sozinha. Ouvi os passos vindo na minha direção. Ela poderia ter voado como fada e estacionado no meu ombro. Mas ao invés disso, parou de pé, em forma humana, atrás de mim.

Virei-me chorando, com expressão de piedade no rosto, quase como uma criança. Ela deu para mim aquele sorriso amigo que me confortava, e abriu os braços, convidando-me a abraçá-la.

- Sempre vou estar aqui, mesmo sem sua inocência — ela disse — Mas se fizer isso, eu mato você.

Eu ri. Essa era a minha garota.

- Um dia isso vai acontecer, você sabe — alertei.[

- Claro — ela sorriu — E vai ser um dia triste para mim.

Enruguei a testa, confusa.

- Por quê?

Ela baixou a cabeça.

- Porque o dom que você tem — ela suspirou — Pode sumir nesse dia.

Fechei os olhos, tentando apagar isso da minha mente entristecida pelas últimas palavras.

Chorei, abraçada a minha melhor amiga.

Meu dom iria embora em breve. A lembrança dela, não.

♥♥♥

6 de fevereiro de 2005.

Estive pela primeira vez no mundo humano, na cidade de Floriánopolis, em uma praça onde todos os roqueiros se reuniam, sem ser incomodado pelas "pessoas comuns".

Me sinto mais viva quando ando entre os humanos. Eu gosto de ficar ali, observando. Às vezes fecho os olhos e deixo a música me atravessar. Me faz esquecer que sou diferente.

Cheguei com meu short jeans, allstar e blusa preta (meu sonho ainda é uma camiseta da banda Metálica, mas isso não existe no meu mundo, e conseguir moeda humana é quase impossível, a não ser que você trabalhe como um humano, e isso é impossível. Proibido).

Fiquei sentada no gramado verdinho por longos minutos até que ele chegasse. Vestia uma calça preta cheia de bolsos e suspensório caído para baixo da cintura. A camiseta da System e o allstar preto que vinha com um cadarço branco que não era dele. O cabelo quase na altura do ombro estava alisado pela chapinha e suas unhas e olhos eram pintados de preto.

Ele era lindo.

Sentou-se ao meu lado sem pedir licença, com as pernas cruzadas em pose "borboleta", e um sorriso meio torto, sem dentes.

- Quem é você? — ele não olhava para mim, mexia com os dedos na grama, formando um monte de pedaços verdes.

- Larissa — falei, meio constrangida — Larissa Bell.

- Nunca tinha visto você aqui — comentou.

- Minha família não permite que eu venha muito aqui — expliquei.

Ele assentiu, deu-me uma rápida olhada e voltou a brincar com a grama.

- Muita menina vem aqui vestida como você, mas não sabe nada de rock — ele falava de um jeito irritado — Vem só para provocar os pais ou beijar um roqueiro.

Eu o olhei, assustada. Não sei se sou roqueira, eu apenas gosto de ouvir rock e me vestir assim. Isso me torna um deles?

- Eu... não sou roqueira — falei, timidamente — Só curto rock e roupa assim.

Ouvi uma risadinha vindo dele, enquanto sua cabeça ia de um lado a outro. Ele estava rindo de mim?

- Quantos anos tem, Larissa?

- 15 — falei, automaticamente.

- Você é uma menina linda, como olhos tão claros e cabelos tão negros. Já disseram que você parece com a Amy Lee?

Eu ri, timidamente. Na verdade, nunca tinham dito. As pessoas que eu convivia não conheciam a vocalista do Evanescence.

- Qual sua banda favorita? — ele falou como quem entrevista, de um jeito formal.

- Linkin Park — falei automaticamente.

- Qual sua música preferida?

- Smile in the sleep — respondi, romanticamente.

Ele me olhou, surpreso.

- Quais as bandas que você gosta? — ele me olhava nos olhos, dava medo — De rock — especificou.

Pensei por alguns segundos.

- Evanescence, Linkin Park, Nirvana, Metallica, Beatles, Silverstein, 30 seconds for Mars, Guns'n Roses, Green Day, AC DC...

- Eu já entendi — ele disse finalmente — Você realmente conhece rock.

Franzi a testa.

- Estava duvidando de mim? — perguntei, irônica.

Ele riu, agora me olhando, meio de lado.

- Não, só queria ter certeza.

- Mas eu avisei que não era roqueira — resmunguei.

Ele segurou minha mãos, me obrigando a olhar para ele.

- Você é sim, Larissa — ele explicou — Quando só se escuta rock e se veste assim, é isso que você é.

Revirei os olhos, teimosa.

- Odeio ser rotulada — expliquei — Se eu fosse loira, usasse coroa e vestido, você me diria que sou uma fada princesa?

Ele me olhou, confuso, sem conseguir entender do que eu falava.

- Gostei da tatuagem — ele mudou de assunto — Combina com o colar.

- Obrigada — senti meu rosto avermelhar-se.

Ele riu, de novo.

Isso foi no dia 30 de janeiro, quando o sol estava quente o suficiente para me dar energia para esconder as asas e aparecer na forma humana.

Desde então, tenho ido lá todos os dias. Esse garoto que conheci se tornou meu melhor amigo, e eu estou apaixonada por ele.

Tenho muitos amigos agora. Todos são roqueiros, e se encontram pelos três gostos em comum: Sexo, drogas e rock.

Eu só com o rock, fui aceita por eles.


Conversamos por horas. Sobre Amy Lee, Linkin Park, Nirvana, e até sobre Beatles. Ele parecia surpreso que eu realmente conhecia as bandas — acho que esperava que eu fosse só mais uma "poser".


Não sei se gosto disso.


Mas gosto dele.


Caio.


Vi outros hoje também. Um casal punk que sempre discute e depois se beija. Um menino que canta muito bem, mas parece faminto. Uma garota que escreve letras em um caderno azul, e sempre olha para o céu, como se esperasse resposta.


Cada um deles me inspira. Cada um deles é... humano.


Talvez estar aqui me faça sentir mais real

♫♪♪♫

20 de fevereiro de 2005.

Era meu primeiro emprego.

Eu tinha dezoito anos e acabara de passar no concurso da velha cidade de Mariluz, alguns quilômetros da minha casa. Pretendia alugar um quarto de hotel, até conseguir um bom apartamento para mim.

Conversei com a diretora, uma senhora elegante e simpática, por minutos. Ela me disse a minha turma e o principal problema do primeiro ano da tarde.

- Ele é superquerido e educado — explicou ela — Mora com a mãe e a irmã e eles passam muitas necessidades, eu nunca vi comida naquela casa.

Ela baixou os olhos e sentiu um calafrio, depois respirou fundo, me olhando nos olhos.

- De vez em quando porém — ela estava muito perto de mim — Ele simplesmente vira líder de uma criança ou duas e ordena que elas façam as piores coisas. De arrancar as próprias unhas a cortar os pulsos.

Estremeci e fiquei esperando a hora que ela fosse gritar "brincadeira, ele é o anjo da classe", mas ela continuou em silêncio.

- Seja bem vinda — disse, finalmente.

As aulas andaram normalmente com minha nova turma, e as crianças colaboraram. E eu conheci o pequeno Mikael, durante a tarde. Era uma criança educada e prestativa, com carinha de anjo que eu logo me perguntei se a diretora não imaginara tudo aquilo.

No intervalo, eu fiquei na sala de aula, fazendo a ficha dos alunos. Mikael foi o último a sair, e me procurou, colocando os olhos no meu lanche.

- Posso eu? — ele perguntou, assim mesmo, em linguagem estranha.

Eu ia lhe dizer que o lanche da escola era delicioso, mas algo nos seus lindos olhos de amedoa me fez recuar.

- Claro, Mikael, fique a vontade.

Ele saiu da sala com o sanduíche entre os dentes. Eu sorri. Para um garoto que mandava outros se matarem, ele parecia só um esfomeado.

No fim da aula, pedi a Mikael que me esperasse.

- Posso levar você até sua casa? — perguntei.

Ele me olhou meio suspreso, mas sorriu.

- Claro — falou — Hoje é o aniversário a minha mãe, acho que meu pai vai estar lá.

Sorri, colocando a mão no ombro dele, que ele carinhosamente retirou.

- Que legal! — falei — E quantos anos ela está fazendo?

Ele hesitou por uns segundos. Depois me olhou.

- Treze — disse.

Engoli em seco. Fiz as contas, pensei, repensei, mas não fazia sentido. Ela teria quase a idade do filho agora, quando ele nasceu. Mikael deveria chamar a irmã de mãe, ou algo assim.

- Posso conhecer sua mãe, Mikael?

Ele assentiu, o sorriso meio irônico.

- Ali — ele apontou, quando chagamos a uma casinha simples, rústica e parecendo meio abandonada.

Entrei na escuridão da casinha, e só o que tinha eram dois quartos com uma cama de casal cada um. As duas mulheres era tão brancas e lindas quanto uma branca de neve brasileira. A garotinha era alta e com rostinho de criança e a mãe era bonita, com aspecto de trinta e tantos anos.

- Mãe, vó — anunciou Mikael — Essa é Márcia, minha professora nova.

A menina me pareceu encantada.

- Seja bem vinda, professora — ela sorria, alegre — Meu nome é Manuela, sou a mãe de Mikael.

Olhei aquela menina, que acabara de entrar na adolescência. Como podia ser mãe do garoto de seis anos?

A mulher me olhou como se eu fosse de comer.

- Meu nome é Paula, sou avô desse garoto aí.

Agradeci. Conversamos sobre diversos assuntos e eu lhes contei que ia dormir em um hotel. Elas me olharam como se eu tivesse dito que ia matar alguém.

- Nada disso, durma aqui com a gente — falou a menina. E insistiram.

Acabei aceitando, dando de ombros.

A noite foi estranha. Ninguém jantou, nem mesmo um alface. Eu estava morrendo de fome, mas sabia que eles passavam necessidade, então silenciei. Mais ou menos no meio da noite, um relâmpago me acordou. Olhei e na porta vi um homem de preto, de rosto pálido e olhos amendoados como o de Mikael. Ele me lembrava o Drácula.

- Quem é a garota? — perguntou, a voz grossa e autoritária.

- É a professora de Mikael — respondeu a voz de Manuela — Eu a convidei para posar.

O homem pendurou o sobretudo na porta e deu um beijo apaixonado na menina.

- Treze anos, né, pequena — falou, apaixonadamente — Já pode se considerar adolescente — e riu.

- Tenho um filho de seis anos dormindo no outro quarto, acho que já sou adulta.

Ele riu, e deu um beijo gracioso na testa dela.

- Claro, minha pequena — falou — Posso ver Mikael?

- Pode — ela deu de ombros.

Por muito tempo, não ouvi mais nada. A criança gritava, feliz ao ver o pai.


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Quando ele apareceu, eu devia ter corrido. Mas alguma coisa em mim... congelou.

Ele disse meu nome. Como se me conhecesse há mil anos.

"Márcia... você tem raiva. Eu também."

Não sei explicar o que senti. Foi como se tudo em mim rasgasse e ao mesmo tempo... renascesse.

Depois, só lembro da dor — e do gosto metálico na boca.


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Eu desmaiei, e quando acordei, já era dia. Olhei em volta e vi a família de vampiros conversando. Mikael bebia um copo de sangue, com as mãozinhas pequenas.

- Acordou — sorriu Manuela — Peço desculpas pelo meu marido, ele não resiste a sangue fresco.

Não respondi precisava de respostas.

- Como você pode ter treze anos? — perguntei.

Ela sorriu.

- Tive esse aí aos doze, mas ele cresceu rápido demais — explicou — Entre vampiros, só existe uma forma de se reproduzir. Precisa ser um vampiro e uma criança humana. Ele é vampiro e humano ao mesmo tempo, entende?

Ela sorriu. Eu enruguei a testa.

- Então ele só tem um ano?

Eles assentiram.

- Faço um ano no mês que vem — falou o menino, limpando os lábios de sangue — Mas já sei ler e escrever!

Engoli em seco. Onze meses. Eu ia dar aula para um menino de onze meses.

- A história na escola é que eu sou a mãe dele, ok? — era Paula falando — E Manu a irmã. E ele tem seis anos, não esqueça.

- O que vai acontecer comigo? — finalmente, a principal pergunta saiu.

Eles riram.

- Bem, quando você é mordida por um vampiro, ou você morre, ou se torna um de nós.

Talvez Mel tivesse razão. O sobrenatural existe.

Eu vi meu reflexo num vidro quebrado. Meus olhos estavam vermelhos. Literalmente.

Não contei pra ninguém. Nem vou.

Mas eu não sou mais a mesma.

postado por Márcia, agora vampira ás 10:10


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Trecho do Narrador


Arquivo encontrado entre as ruínas. Data ilegível.


Entre os escombros da cidade, restaram poucas coisas. Três diários, parcialmente queimados. Um deles pertencia a uma criança que acreditava em fadas. Outro, a uma mulher que acreditava em nada — até que foi tomada pela noite. O terceiro, de uma jovem que observava os humanos como quem estuda um espelho.


Eles não se conheciam. Mas as palavras deles se cruzam como trilhas de poeira estelar.


Algo estava prestes a acontecer.


E eu estou tentando entender.


Quem sou eu?


Por ora... apenas um leitor.


Mas essas páginas têm me levado para mais perto da verdade. E do fim.