Três vidas inteiras
1 Um
Notas iniciais
Ela estava se sentindo anestesiada. Desde quando a vida resolvera lhe pregar peças, brincar com ela? Ela estreitou os olhos e tentou se lembrar do primeiro evento que serviu como gatilho, disparando uma sequência de acontecimentos que eram no mínimo transtornantes. Fora a morte de Frost? Ela fechou os olhos e suspirou, ainda inconformada com a fatalidade. Ela desejava que não tivessem ligado para ela. Ver o homem morto, estendido ao chão... Ela nunca havia contado para Jane — ela não podia — mas tinha sido a primeira vez que ver alguém sem vida tinha lhe embrulhado o estômago. Frost era família, e ser aquela que tinha o colocado em um saco preto diante da mais terrível constatação que ela podia dar para alguém, tinha destruído uma parte de si.
Balançando a cabeça ela tentou se livrar das imagens da noite trágica. Ela já estava em paz com a morte dele, mas isso não significava que deixara de ser dolorido ou que às vezes ela não se perguntava o porquê. Ela não queria passar por aquilo tão cedo novamente, mas apesar de sua esperança, todo o medo e dor de perder alguém tinha se repetido quando Jane, imprudentemente, havia se jogado daquela ponte. Maura era controlada e dificilmente mostrava suas preocupações e ansiedades, porém, naquela noite que se transformara em dia, na busca incessante por notícias da morena — que a médica temia estar morta no mar — ela havia falhado. Ela tinha deixado pessoas verem o quão vulnerável ela podia ficar se se tratasse da ameaça de perder Jane. Perdida. Frágil. Naquela noite ela tinha deixado de ser a Doutora Maura Isles, Médica Legista Chefe da Comunidade de Massachusetts, para ser apenas 'Maura', a amiga desesperada e desolada, a imagem das pessoas com que elas lidavam todos os dias. Aliviada quando Jane fora finalmente resgatada, encontrada viva e abatida por conta do longo período no mar, Maura havia deixado de se preocupar, cedendo espaço para outras percepções. Envergonhada por sua reação, ela simplesmente abraçou a morena para soltá-la em seguida, um gesto que pareceu pura frieza, mas que na verdade serviu como máscara para tantas outras emoções, cujas quais ela preferia não pensar agora.
Seguindo a mesma linha de perda, ela havia sofrido uma última: Jack. A médica gostava dele, realmente. Era alguma coisa sobre se sentir protegida e segura, alguma coisa sobre seu intelecto e o modo como ele parecia disposto a mudar parte da vida por ela, e definitivamente, alguma coisa que faltava. Alguma coisa que ela não sabia exatamente o que era, mas que facilitava a fuga. Uma falta que justificava seu completo envolvimento, o risco de assumir algo ainda mais sério, como mudar partes de sua vida por ele. Eles haviam tentado, mas não o suficiente para permanecerem juntos. Agora que o homem tinha se mudado de estado, a loira sabia que qualquer chance de reatar o que tinham eram impossíveis, até mesmo inconveniente.
Ela girou o anel no dedo e encarou o papel deitado em sua mesa. Com as persianas do seu escritório fechadas, ela se sentia mais à vontade para enfrentar o pedaço de papel. Mas não confiante e corajosa o suficiente. Suspirando, ela apenas segurou o envelope em seus dedos. Era melhor encarar a verdade o quanto antes. Ela saberia de qualquer forma. Em suas desconfianças, ela havia pedido para Susie fazer o exame. A mulher sempre discreta e prestativa tinha se certificado de recolhê-los com as próprias mãos e entregado à ela. Com um olhar firme e nada revelador, ela simplesmente transferiu o exame para Maura e deixara o escritório. A loira desejou que, pelos menos por essa vez, Susie tivesse exposto algo pelo olhar. Em vez disso, a mulher havia deixado sua chefe sozinha com a mesma sensatez que a acompanhava nos dias de laboratório.
Determinada, Maura abriu o envelope e desdobrou a folha de resultados. Uma lida rápida revelou logo o que ela estava procurando. Para sua agonia. Um tremor tomou conta de seu corpo e ela soltou de uma vez a folha antes de enterrar a cabeça nas mãos. Ela já desconfiava, mas mesmo assim ela esperava que estivesse enganada, que a resposta fosse negativa. Ela não entendia como tinha acontecido, porque ela fora sempre tão cuidadosa. Agora, aparentemente, não vinha mais ao caso. Estava feito, estava ali, num pedaço de papel jogado sob seus cotovelos. E em seu corpo. Em seu corpo. Ela podia até mesmo sentir.
Ela respirou fundo, tentando tomar controle das próprias emoções. O que diabos havia de errado com esse ano? Por que as coisas simplesmente não podiam dar um tempo, pelo menos até ela se recuperar de tudo o que passara? Irritada, ela dobrou o pedaço de papel novamente e o colocou dentro do envelope, lançando-o ao lado da mesa, perdido entre os quatro intermináveis relatórios que havia feito naquele dia. As pastas grossas deveriam ter sido arquivadas, mas desde que Susie ainda estava liberando os corpos para as famílias, ela ainda poderia se dar ao luxo de esperar pela última folha, a que receberia a assinatura de um membro familiar, provando que o corpo fora recebido por ele.
Ela se inclinou na cadeira e olhou para o teto e voltou a atenção à sua situação. O que ela deveria fazer em seguida? Ela não tinha idéia. Ela não estava preparada para aquilo, não estava preparada para enfrentar as consequências e lembranças de que aquilo iria trazer. Ela apertou as mãos na borda da mesa, como se quisesse espremer uma resposta de lá. O som de batidas na porta a tirou do transe e automaticamente ela respondeu para quem quer que fosse entrar.
'Dra. Isles.' Susie havia enfiado a cabeça pela abertura da porta para só então abri-la completamente. 'Acabei de liberar o último corpo. Você gostaria que eu arquivasse os relatórios?' Ela apontou para a pilha de papel em cima da mesa.
Transtornada, Maura demorou para interpretar as palavras. Ela correu os olhos pela própria mesa quando Susie apontou a direção, e num manear de cabeça autorizou a mulher. Ela juntou os arquivos e entregou-os á legista mais nova.
'Obrigada, Susie.' Ela agradeceu, a voz soando fraca devido ao nó na garganta.
'Você está bem?' A morena perguntou em suspeita.
Maura se limitou a abrir um sorriso forçado e balançar a cabeça em sim, um gesto que ela não tinha muita certeza de ter sido evidente o suficiente.
'Certo.' E ela levantou uma mão para revelar um saco marrom. 'Detetive Rizzoli me fez jurar de que eu entregaria isso à você. Me encontrei com ela enquanto acompanhava o último visitante até o andar de cima.' Por 'visitante', Susie se referia ao homem que viera retirar o corpo do filho desaparecido por meses.
'Oh, muito obrigada.' A loira sorriu mais verdadeiramente dessa vez.
'E ela disse para eu dizer...' Ela espremeu os olhos, 'de que é melhor você comer, e não guardar no refrigerador dos mortos. Se é que isso faz sentido.'
Maura deu uma pequena risada dessa vez e rolou os olhos. Tão típico de Jane. 'Se acabar acontecendo vou me certificar de deixar claro que você não tem culpa nenhuma nisso.' Ela ofereceu um sorriso simpático e Susie balançou a cabeça veementemente.
'Até mais, Dra. Isles.' Ela se despediu com um manear de cabeça, sabendo que só encontraria a loira no dia seguinte.
'Boa noite, Susie.'
Ela esperou até que a morena saísse e respirou finalmente quando ficou sozinha. Ela nem se importou em abrir o pacote que, certamente, era comida chinesa. Só o pensamento de ingerir algo a enjoava. Inquieta, ela se levantou e andou em círculos, tentando em vão encontrar as respostas para todas as perguntas que rodopiavam em sua cabeça. Ela sabia que Jane estava no prédio ainda, trabalhando em um caso complicado, a obsessão falando mais alto do que as necessidades do corpo. O sono seria ignorado, abatido com café. A exaustão nas primeiras horas da manhã seria negligentemente ignorada, Jane usaria da adrenalina correndo no sangue — a familiar sensação da caça — para adiar o descanso.
Jane. Maura sabia que não era uma boa hora para a morena lidar com seu drama, mas não era hora para ela também. Nunca seria hora para aquilo, e em nome da amizade, do conforto que ela precisava agora, ela digitou uma mensagem curta para a detetive.
Podemos conversar? M.
Nada surpresa quando o aparelho vibrou segundos mais tarde, ela leu a mensagem.
Passo na tua casa. Espero que tenha recebido o jantar. J.
Ela digitou novamente, mas apenas depois de hesitar.
Seria muita inconveniência se for agora? M.
Ela tamborilou os dedos na mesa durante a espera. Havia se passado um minuto e ela se sentiu terrivelmente culpada por pedir por atenção enquanto a morena estava trabalhando. Mas então o celular vibrou de novo, e ela sorriu com a mensagem.
Nunca é inconveniência quando se trata de você. Estou descendo. J.
Ela respirou aliava. Jane saberia o que dizer. Olhando em volta, ela pensou em como aquele escritório parecia tão familiar para ela, e em como ela desejava que hoje tivesse terminado simplesmente como ontem. Ela teria olhado para o lugar em geral, conferindo se tudo estava onde deveria estar, lançaria um último olhar para a mesa, onde estava olhando agora, e só então apagaria as luzes e sairia. A mesa. Aonde estava aquele maldito envelope?
Ela correu os dedos desesperadamente por alguns papéis que estavam milimetricamente organizados ali, mas ela sabia que o que estava procurando tinha ido no meio do relatórios com Susie.
Droga!
Ela se levantou num pulo e abriu a porta da sala, e mais do que depresse se dirigiu para a esquerda, direção em que a sala de arquivos ficava. Ninguém poderia ver aquilo. Ninguém poderia saber que aquilo era referente à ela. Não, aquilo deveria permanecer sob total sigilo, principalmente pelo fato de que... Dentro de alguns dias, deixaria de ser verdade.
Um arrepio percorreu pela sua espinha com o pensamento. Era frio, mas ela sabia que nesse momento de sua vida era a melhor decisão. Ela quase trombou com Susie no corredor, tão distraída estava em seus pensamentos.
'Dra. Isles!' A mulher exclamou.
'Oh, Deus. Eu sinto muito.' Maura se desculpou, levantando as mãos.
'Sem problemas. Eu estava voltando para lhe... entregar isso.' Ela ergueu o envelope e notou quando a loira suspirou, visivelmente relaxada agora.
'Obrigada, Susie.' Ela tomou o papel em mãos.
'Você tem certeza que está bem? Você está pálida.' A mulher perguntou com cautela. Ela não queria ser intrometida.
'É só esse dia, Susie.' A médica observou.
Susie não insistiu. Ela e a médica haviam criado um tipo de amizade. Por vezes Maura lhe contava coisas que aconteciam com ela, coisas rotineiras e nada sérias. Aparentemente, se algo novo estava acontecendo nesse momento na vida dela, era importante, delicado. Isso era um assunto para Jane, com certeza, mas não para ela. Ela sorriu educadamente e encolheu os ombros. 'Amanhã é um novo dia.' Ela tentou pelo otimismo, o que não pareceu funcionar muito bem.
'Vamos esperar que sim.' Maura sorriu e com um singelo balanço de cabeça se despediu.
Ela caminhou vacilante em direção ao seu escritório e, cansada e atormentada, sentou-se na poltrona vermelha. Jane tinha razão. Ele era demasiadamente desconfortável. Ela pegou ar em uma quantidade exagerada quando se lembrou de que, em poucos momentos, estaria lançando uma bomba em cima da detetive. Jane... aonde Maura estava com a cabeça? Jane, sua melhor amiga que tinha perdido um bebê. Como ela tinha esquecido disso? Se sentindo terrivelmente culpada, ela apoiou os cotovelos nos joelhos, e a cabeça nas mãos. Ela estava à beira de lágrimas. Parecia que o dia tinha se voltado contra ela, de um ponto em que ou ele estava lhe causando danos, ou ela estava causando a si mesma. Interminável, ele parecia amargo.
Uma leve batida na porta a sobressaltou. Ela se levantou tão rápido que a visão escureceu por um segundo, e ela quase perdeu o equilíbrio. Quando se orientou novamente, Jane a olhava com um olhar preocupado.
'Ei.' Ela disse, mãos no bolso da calça.
'Oi.' Maura apontou para a porta. 'Feche, por favor.'
Jane, cansada, apenas atendeu ao pedido. Ela se voltou para Maura e pensou em se sentar, mas quando a loira não o fez, ela deu de ombros e trocou o peso de pé. 'E aí? Espero que você não tenha me chamado aqui para reclamar da comida. Até onde eu sei, quinta-feira é dia de comida chinesa.' Ela ofereceu um sorriso com a pequena provocação, que morreu em seus lábios tão logo Maura abaixou o olhar.
A loira estendeu o braço, passando o exame para a detetive.
Ela pegou de cenho franzido e perguntou enquanto abria. 'O que é isso?' Ela correu os olhos pelo papel, e era óbvio que ela jamais saberia o que aquilo significava se Maura não dissesse. 'O que é isso, Maur?' Ela perguntou de novo quando leu, na última linha, 'positivo'.
Maura se remexeu em seu lugar e em nervosismo pressionava sem parar uma mão na outra. Não era justo. Ela estava sendo absolutamente egoísta. Em seu desespero ela só pensara em si, e não pensara em como Jane reagiria à isso, em como ela se sentiria diante disso. Se antes, sozinha naquela sala, ela se sentira mal por não ter nem sequer lembrado de que Jane havia perdido um bebê, agora que a morena estava frente a frente ela se sentia minúscula, envergonhada e ainda mais desamparada. Antes que sua garganta se fechasse de vez, antes que ela perdesse a coragem e decidisse contar uma mentira pelo motivo do chamado — uma que a faria hiperventilar, ou até mesmo que ela saísse correndo dali, ela juntou a coragem restante e murmurou, numa voz tão baixa que pareceu fraca aos próprios ouvidos.
'Eu estou grávida.' E levou a mão a boca e começou a chorar.
Fale com o autor