Três da manhã
1 Três da manhã
“São três da manhã. O telefone toca e ele levanta,sonolento,pensando que talvez seja mais um daqueles trotes. Mas não dessa vez. O telefone cai de suas mãos,assim como suas lágrimas insistem em molhar o carpete empoeirado. Seus joelhos já não suportam o peso do seu corpo, e tudo parece estar mais escuro,ou talvez embaçado. O peso que ele sente por fora não é nada comparado ao peso de sua consciência. Cada centímetro de seu corpo dói,como que em resposta ao esforço de seu choro sofrido. Ele está caído no chão,como uma folha seca que cai de uma árvore,mas sua alma é pesada como uma bigorna. É mais do que um fato: ele havia a matado. Quase que indiretamente,mas a matou. A culpa era completamente sua,e ele não hesitaria em pagar o preço.
Ele só conseguia pensar em como amava seu sorriso,seu olhar,seu jeito engraçado e meio irritado. Pensou nas brigas que ele mesmo causou,em suas mentiras,em seu egoísmo. Sabia que tinha errado,mas era tarde demais para consertar. Pensou também em como tudo estava estranho ultimamente,já que eles não estavam tão próximos como antes.São cinco e meia quando seu peito para de doer com tanta intensidade. Pouco mais de duas horas,foi o tempo preciso para sentir uma dor multiplicada por cem. Uma dor que foi se transformando em conformismo,em peso. Com muito esforço,consegue se levantar. Seu peito volta a doer quando ele começa a reunir alguns pertences de sua falecida namorada,que estavam em sua casa. Abraçado em uma blusa que ela costumava usar depois de sair do banho,ele sai de casa,indo de encontro com a família da qual um dia teria feito parte.Todos o olhavam de uma maneira fria. Todos sabiam que ele tinha culpa naquele acontecimento trágico. Ele pediu a autorização de sua sogra,para poder vestir sua garota para o funeral. Ela agradeceu e pediu que o fizesse,pois sabia que não teria forças para isso,afinal,era sua única filha. Ele seguiu o corredor e entrou na porta indicada. Sabia que ali,escondida no lençol,estava o amor de sua vida. Removeu então aquela única camada que os separava,e ali estava o corpo nu que ele já estava acostumado a ver,sempre em seu quarto,onde costumavam passar a maior parte do tempo,completando um ao outro. Mas havia algo diferente. Algo além de sua pele que agora estava pálida e gelada,algo além de cortes profundos em seu pulso esquerdo. A mão direita estava em sua barriga. Foi aí que ele desmoronou. O que ele não havia percebido em meses,percebeu na hora em que viu a mão dela em cima da barriga que começava a aparentar um volume estranho. Ele queria poder deitar ali naquela cama estreita com ela. Queria poder fazê-la viver de novo,queria poder dar o valor que não deu enquanto ela estava viva. Queria ter uma família com ela. Como ele não havia percebido antes? Suas alterações de humor,seus enjôos e tonturas,seu sono fora do comum. Bem,ele estava ocupado demais com outras garotas para perceber algo nela. Estava ocupado demais com os amigos,ou apenas bebendo. Ele também não havia percebido a última frase dela: “eu acho que é uma última chance…”. Depois disso,ele não a viu mais. A frase foi dita dois dias antes do seu suicídio. Droga,ele queria poder abraçá-la. Dizer que tudo ficaria bem,que os dois enfrentariam as consequências juntos,apesar da pouca idade. Droga,ele estava chorando e sentindo seu cheiro,ou o que restou dele. A culpa era sua. Ele a deixou ir.Antes daquele caixão se fechar,ele deu um último beijo em seus lábios frios. Viu sua falta de expressão,e sentiu mais uma pontada de dor. Então ela se foi mais uma vez. Enquanto aquele caixão descia, ele a viu pela última vez. Sabia que nada seria como antes, e queria que ao menos seu filho pudesse ter escapado. Ao menos ele levaria uma parte dela consigo. Mas a gravidez era recente,então isso não seria possível. Droga,eles poderiam ter tido esse filho. Eles poderiam estar juntos agora,esperando essa criança nascer. Ele já não tinha mais motivos para ficar ali,então saiu andando. Nada seria como antes. É mais do que um fato: ele havia a matado. Diretamente. A culpa era completamente sua,e ele não hesitaria em pagar o preço. Logo se juntaria a ela.”
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