“Terceiro dia de tortura. Terceiro dia sem sair do quarto. Terceiro dia sem dormir. Terceiro dia sem ela. Ele sentia como se estivesse pagando por seus pecados,pois a dor o consumia. O que ele havia feito de errado tornou tudo isso real,mas já não conseguia chorar,o que tornava sua dor pior ainda. Não sentia fome e nem vontade de levantar da cama,não conseguia dormir,não queria viver. A culpa estaria sempre consigo e ele a aceitaria de bom grado,como uma visita permanente em sua casa. Era impossível esquecê-la,e ele não queria isso. Queria encontrá-la. Queria estar com ela para todo o sempre. Queria senti-la novamente,mas ainda não havia reunido forças o suficiente para isto. Nada estava claro para ele. Mas,o buraco em seu peito era tão grande e doloroso,tão impossível de suportar,que sua única opção agora pairava diante de seus olhos. Queria e faria de tudo para a manter viva dentro de seu coração.
Não foi fácil convencer sua sogra a deixa-lo entrar no quarto de sua falecida filha,mas com um pouco de esforço,o que antes pareceu impossível tornou-se fácil de fazer. Ao entrar em seu quarto,livros e discos que pendiam na estante o fizeram tossir,e em um suspiro pode sentir o cheiro dela. Em seu guarda-roupas,tudo permanecia igual. Seu rosto corou ao abraçar uma blusa dela. Seu perfume emanava por todo o ambiente. Demorou-se em suas roupas,mantendo sua memória viva,guardando consigo aquele cheiro que tanto lhe fazia falta. Era sua intenção mantê-la em seu coração,não deixar aquele sentimento esfriar. Ao menos enquanto ele estivesse neste mundo. Por isto,queria explorar o quanto pudesse de seu quarto. Doeu olhar para sua cama,onde passavam as noites juntos algumas vezes. Abriu a gaveta do criado-mudo e encontrou alguns adesivos,seu celular e um envelope verde-limão: era sua cor favorita. “Algo estaria guardado ali dentro?”, questionou e,quase que como resposta,ao abrir o envelope percebeu que havia uma carta. Uma longa carta que ele não hesitaria em ler. Sentou-se na cama e reparou algumas marcas d’água na borda da folha,presumindo que ela havia chorado ao escrever. Tomou fôlego e começou a ler.
"Sei que vai encontrar isto aqui uma hora ou outra,nem que demore. Talvez minha mãe encontre primeiro,mas tanto faz,uma hora você vai ficar sabendo. Hoje completariamos três anos de namoro. Parece que foi ontem,né?Nem somos maiores de idade ainda,e mesmo que fossemos,você ainda seria mais novo. Sempre gostei disso,algo te tornava inocente. Você costumava me proteger,cuidar de mim no primeiro ano. Era tão bom sentir que alguém me amava tanto assim. Éramos amigos,éramos amantes. As brigas eram por minha conta,mas nunca chegavam a ser algo sério. Você cuidou da minha insegurança,dos meus medos. Mas algo começou a mudar quando você se envolveu com pessoas erradas. Talvez elas sejam de seu colégio,talvez não. Não sei de nada. Não sei,porque desde então você começou a mudar. Não só comigo,mas com sua mãe também. Sai sem avisar,vira a noite sabe-se lá onde,está sempre ocupado e até passou a beber. Beber,é isso mesmo? Antes dizia que nunca faria isso,mas perdi as contas de quantas vezes me ligou bêbado,dizendo que sou insuportável. Passou a falar mal de mim para todos. Achou que eu não descobriria? Eu sempre soube que você mentia,que nunca foi exatamente o que me mostrava. Você usava uma máscara. E sabe por que eu nunca me desliguei de você mesmo sabendo de tudo isso? Porque eu nunca consegui. Eu te amava. Acreditava que no fundo você gostava de mim. Mas acho que eu estava errada,a única que se sacrificou fui eu. "Eu amei por nós dois",é isso que a música diz,não é? Pois ela está certa. E agora,eu achei uma única maneira de me desligar completamente de você. Qualquer um diria que posso superar,que vou ter alguém melhor,mas isso não é possível. Não com uma criança nossa em meu ventre. Algo que seria sempre um elo entre nós dois,algo que me faria lembrar de você a cada instante. Não quero arriscar sofrer o risco de te contar que estou grávida de quase três meses,pois sei que não assumiria tamanha responsabilidade. Te conheço e sei como és covarde,foge de todos os tipos de problemas. Você nem deve ter reparado em minhas mudanças físicas ridiculamente aparentes. Perdão: talvez tenha notado e escondido,por isso foge tanto de mim. Minha barriga já começou a ganhar volume,até minha mãe reparou. Tive que dizer que engordei,mas ela é esperta,já deve saber o que aconteceu. Ela te odeia cada dia mais. Eu te amo cada dia mais. E é por isso que não posso continuar aqui. Talvez eu pudesse seguir em frente e arrumar um outro alguém,mas quem iria querer uma jovem com um filho? Eu não aceitaria o fato de você não assumir,de fugir. Eu queria fazer tudo certinho: cuidar dessa criança com você,formar uma família como sempre quis,passar pelas dificuldades junto dos meus dois amores e ser feliz. Sei que não vai ser dessa forma,você me evita porque quer me ver longe,já sabe o que tá acontecendo. Por isso,vou fazer tua vontade e ir bem longe. Pensei em abortar,mas isso não seria justo com o bebê,então vou junto com ele. Pode me chamar de fraca se quiser. Não estou pronta para viver as consequências sozinha,nem a pressão. Antes de ser abandonada,te abandonarei. É assim que tem que ser. Eu nunca mais seria da mesma forma,não conseguiria namorar e casar com outro cara que não fosse o pai do meu filho. Família é uma só. Talvez se eu fosse mais velha… Mas não sou. Você vai lembrar de mim. Só peço para não viver mais essa vida de mentiras. Salve-se enquanto há tempo,ou a vida vai tratar de lhe dar uma lição. Enterro aqui o meu amor por você,junto com minha morte. Eu te amei. "Chorar foi tudo o que ele conseguiu. Deus,como isso aliviava. Sentiu-se descarregando todas as tristezas em lágrimas,todas elas acumuladas desde o enterro. Elas desciam com rapidez,assim como seus sentimentos eram esvaziados a cada minuto.
Sabendo exatamente o que fazer,saiu dali levando consigo apenas a carta. Estava sozinho em casa. Abraçou a carta pela última vez,e pode sorrir por um momento. A varanda era pequena,o vento da noite já começava a soprar,quase que como um prenúncio do que estava prestes a acontecer. De longe,as luzes da cidade brilhavam,e ele lembrou de como ela adorava a noite. Era fascinada pela lua e pelas estrelas. Muitas vezes o beijou ali,rindo e dizendo que olhar para baixo lhe dava medo. Demorou-se um pouco mais nas lembranças,saboreando-as por um último momento. Olhou para o chão,sentiu vertigem,assim como ela costumava sentir. Afinal,morava no 12° andar. Sem muito tempo para pensar,apoiou-se na grade e saltou. Nunca havia se sentido tão vivo. Levou apenas alguns segundos,e ele quase não sentiu dor. Estava tudo acabado. Para todo o sempre.”
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