Três amigas e o amor.
20 Sílvia - Só mesmo por amor.
À medida que a sua viagem para a França se aproximava, cada vez mais ansiosa, Sílvia cuidava dos preparativos com toda atenção, não querendo queria que algo saísse errado, assim, arrumou uma mala com bastante antecedência, somente com o essencial, já que lá era verão por lá, não precisaria levar muita roupa, para ficar mais fácil de se locomover, assim se sentira mais segura. Retirou dinheiro das suas economias para comprar euros, pegou o passaporte. Finalmente, tudo pronto, agora era só viajar. Não podia negar que estava assustada, só mesmo por Pedro se aventuraria em uma empreitada dessa. Só mesmo por amor.
Fez algo, até então, para ela imperdoável, mentiu para os seus pais, dizendo a eles que Pedro a esperaria no aeroporto em Paris, para que não ficassem preocupados por sua filhinha se aventurar, sozinha, em um país estrangeiro cheio de perigos desconhecidos.
Na tarde da viagem, seu irmão a levou até o aeroporto, por nunca ter feito uma viagem para tão longe, ainda mais sozinha, estava com um friozinho na barriga, seu estômago dava voltas, mas ao mesmo tempo, sentia-se empolgada e confiante, cheia de esperança de salvar todo seu futuro planejado, ao lado de Pedro.
A longa viagem noturna na classe turística foi cansativa e desconfortável, a comida a bordo não era boa e, para se distrair assistiu, vários filmes e, por fim, vencida pelo cansaço, conseguiu dormir um pouco. Acordou com as janelas da aeronave sendo abertas e a claridade do dia invadindo a cabine e com o movimento do despertar dos outros passageiros, o piloto anunciando o serviço de bordo e a chegada iminente. Nesse momento, seu coração bateu mais forte, estava tão próxima do seu destino, da sua missão e, ainda, iria pisar ela primeira vez em um outro país, gostaria de ter tempo para conhecê-lo melhor, mas se não desse o que poderia fazer, deu de ombros.
Devido ao fuso horário, chegou à tarde em Paris, porém como era verão, no hemisfério norte, os dias eram mais longos, demorando a anoitecer. Levou algum tempo para passar pela imigração e pegar a sua mala, pois o aeroporto estava lotado de turistas, na alta temporada, isso a deixou um pouco assustada e confusa, enfim, com toda a parte burocrática resolvida, pode continuar com seus planos de surpreender Pedro.
Seguiu à risca o seu projeto original. Primeiro, a viagem trem até Paris, depois metrô e, outra vez, trem, a noite já se anunciava, quando começou a viagem para a cidade onde Pedro morava, o que levaria cerca de duas horas, durante às quais apreciou a paisagem, que passava velozmente pelas janelas, antes que a luz do dia desaparecesse por completo, transformando tudo em sombras e pontos luminosos. Chegando a estação, seu coração acelerou ao se perceber tão perto do seu objetivo, pegou um táxi bem na saída e entregou o endereço do seu destino, escrito em um papel para o motorista. Após um curto trajeto, ele a deixou em uma pequena rua pouco iluminada, com calçamento de pedra, na frente de um prédio de poucos andares, com porta de vidro e um porteiro eletrônico.
O coração de Sílvia batia mais forte ainda, parecendo querer fugir do peito, ela estava receosa do que poderia acontecer, de como seria recebida, porém, tinha certeza, que Pedro não a trataria mal, mesmo assim, hesitou em apertar o botão correspondente ao apartamento dele. Pensou como era boba, já que tinha vindo até ali, não iria desistir agora, não dava para voltar atrás, assim, pressionou o botão, esperou pela resposta, e nada, tentou de novo, sem sucesso.
Achando aquela demora muito estranha, pois era um dia no meio da semana e já bem tarde para Pedro ainda estar na rua, por isso, Sílvia tentou mais uma vez, imaginando que, talvez, estivesse dormindo pesado, mas não obteve resposta, de novo. Então, resolveu esperar, sentou-se no meio-fio, com a mala ao lado, porque alguém poderia aparecer e deixá-la entrar no prédio. Esperou por mais de uma hora, já estava quase desistindo, cansada e faminta, pensou em procurar um hotel para passar a noite, tentaria no dia seguinte, bem cedo. Sentia-se frustrada, uma vez que estava pronta para a grande surpresa, o surpreendente encontro. Quantas vezes, imaginou a expressão dele ao vê-la, o que diria, o que faria, discorreu todas as hipóteses possíveis, contudo, ainda tinha esperança.
Considerou a possibilidade de Pedro estar viajando, algum passeio turístico pela redondeza, então, o que faria? Foi nesse momento que ouviu passos na rua deserta, ao olhar naquela direção, ficou receosa ao ver dois vultos se aproximando. Contudo, logo percebeu ser um casal de namorados, abraçados, rindo e conversando, ficavam mais visíveis ao se aproximar do facho de luz que vinha do poste, o homem era de porte médio, um tanto fora de forma e com entradas no cabelo, já começando a aparecer. A partir daquele instante, tudo aconteceu como em câmera lenta, Sílvia olhou espantada, não podendo acreditar no que via, pois, aquele homem era o seu Pedro, abraçado com uma outra mulher do tipo mignon, de cabelos castanhos e compridos, trocavam beijinhos e carícias de um jeito apaixonado, assim ela se levantou bem devagar, com os olhos arregalados e a boca aberta.
— Sílvia! – Pedro exclamou, espantado, ao vê-la ali sentada no meio-fio, na frente do prédio onde morava, enquanto, Sílvia não conseguia falar pois sua voz não saía, presa na garganta, sufocando-a, sua respiração estava ofegante, o coração batia muito forte, mãos trêmulas e a boca seca, parecia estar em um pesadelo.
— Sílvia, o que você está fazendo aqui? – ele indagou, sua voz saiu falha, em um misto de aborrecida e surpresa.
— Eu vim para conversarmos! — Com o resto de fôlego, ela respondeu em um sussurro.
— Já dissemos tudo que precisava ser dito. O que houve entre nós acabou. Foi uma fantasia adolescente, massa eu cresci, quero outra vida, conhecer outras pessoas – Pedro retrucou, sem esconder a irritação na voz. – Agora, eu estou com Anete – afirmou, sem piedade, olhando para a mulher ao seu lado e apertando mais o abraço.
Anete assistia tudo, intrigada, sem entender a conversa naquela outra língua, até ela percebeu quem poderia ser aquela mulher parada ali adiante, com aquela cara de assustada, e ficou irritada com aquela cena.
— Por que, Pedro? Por que você deixou de me amar?
— Não tem um porquê, Sílvia. Simplesmente aconteceu, longe de você, vi o mundo diferente, ampliei meus horizontes. Eu e Anete nos conhecemos, nos apaixonamos e estamos juntos agora e só isso, não tem nada a ver com o que tivemos — ele explicou como se fosse uma equação matemática.
Anete já estava bastante aborrecida com aquela situação, havia cruzado os braços em frente aos peitos pequenos e batia um dos pés no chão, para deixar bem claro isso seu desagravo. Então, começou a discutir em francês com Pedro e, mesmo sem entender o que falavam, Sílvia sabia o que ela queria era uma explicação.
Pedro segurou, carinhosamente, o rosto de Anete com as duas mãos, olhou nos olhos dela e falou algo com uma voz melosa entre um beijinho e outro, na tentativa de a acalmar, enquanto ela resmungava fazendo biquinho. Até que, aparentemente, ele conseguiu convencê-la, pois ela se dirigiu para portaria, batendo os pés, com raiva e, antes de entrar deu uma olhada de cima a baixo para Sílvia, que assistia tudo como em um pesadelo, sentindo-se humilhada, descartada como uma peça de roupa velha, que não servia mais.
E agora, na rua deserta e pouco iluminada, Sílvia e Pedro estavam sozinhos depois de tanto tempo, frente a frente, ela se sentindo em um filme de terror.
— Você não devia ter vindo, principalmente, sem me avisar. Eu falei que acabou, Silvia, não vou voltar atrás, eu mudei – Pedro falou, com uma voz mais branda, ao ver a face de aflição dela.
— Eu precisava saber sobre nós, os nossos planos e sonhos, nosso futuro junto. – Sílvia questionou, desesperada, ainda não conseguia acreditar, que aquele era o mesmo homem que dizia que a amava, há tão pouco tempo atrás.
— Sílvia, você precisa entender que acabou. Planos mudam, não podemos congelar nosso futuro. Eu mudei. Minha vida e minha visão do mundo mudaram. Agora, eu amo Anete e quero ficar com ela – Pedro declarou, impiedosamente.
Desesperadamente, Silvia procurou nos olhos dele algum resquício do antigo amor, mas não o encontrou, seu olhar era frio e distante, não havia nada ali.
— Não posso acreditar, que você não sinta mais nada por mim, depois de tudo que vivemos juntos, Pedro – ela insistiu, entre lágrimas.
— Lamento, Silvia, eu não planejei que isso acontecesse desse jeito, no entanto, acabou não posso mudar isso. Eu gosto de você, mas não te amo mais, não podemos mais ficar juntos – ele reiterou, com a voz calma.
Sílvia sentiu uma dor aguda com se levasse um soco no estômago, ao ponto de gemer de dor, nesse instante, Pedro sentiu muita pena daquela mulher desamparada e sozinha, demonstrando preocupação, afinal, um dia, ele a amou.
— Onde você está hospedada? – quis saber, suavemente, querendo acalmá-la
— Em lugar nenhum, eu pensei em ficar com você, aqui – respondeu, apática.
— Comigo? De maneira alguma! Anete nunca aprovaria! – Pedro declarou exaltado, como se ela houvesse falado um absurdo.
— E para onde eu vou? — murmurou, desnorteada, sem saber o que fazer, já que estava sozinha, abandonada, em uma cidade estranha, em um país estrangeiro, cuja a língua não falava, a milhares de milhas de sua casa e das pessoas que a amavam.
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