Três amigas e o amor.
32 Raquel - Será que ele pode estar certo?
No sábado, já atrasada para o encontro no almoço com Ana, Raquel esperava o elevador, impaciente, quando sentiu algo macio roçar seus pés, assustou-se e olhou para baixo para ver Jujuba, o gato de Otávio, languidamente, esfregando-se nas pernas dela. Ela abaixou para pegá-lo no colo, o gato foi sem resistência e acariciou-o gentilmente, sentindo seu pelo aveludado e o seu leve ronronar.
— Jujuba, o que você está fazendo aqui fora? – Raquel, intrigada, perguntou para o gato, que permaneceu impassível.
Então, sem escolha, já que não podia deixá-lo ali sozinho, foi até o apartamento vizinho como uma boa desculpa, já que não se falavam desde o último estranho encontro no elevador. Tocou a campainha, esperou alguns segundos, ansiosa, sem saber como ele a receberia. Otávio abriu a porta, não parecia nem um pouco feliz em vê-la, sem falar nada a interrogou com o olhar duro e a expressão fechada.
— Olá, Otávio! Olha quem eu encontrei aqui no corredor! Ele deve ter escapado – Sem se intimidar, Raquel disse, em tom de alegre na tentativa de amenizar o clima, mostrou-lhe o gato em seus braços.
Sem esmorecer, Otávio tirou o felino dos braços dela, com um gesto brusco.
— Obrigado – agradeceu de um modo seco e já fechava a porta.
— Ei! Espere! O que foi que eu fiz para você? – Raquel o impediu, segurando a porta com a mão, perguntando, irritada pela atitude arrogante dele.
— Nada — respondeu, mas seu olhar demostrava ao contrário.
— Então, por que você está me tratando deste jeito? — Ela o confrontou, não podia aguentar ser tratada dessa maneira, sem saber o porquê.
— Que jeito? — Ele falou em tom de desafio.
— Como estivesse com raiva de mim – ela admitiu o que a deixava magoada.
— Eu não estou com raiva de você – Ele começou querendo parecer imparcial, depois mudou para um tom mais energético — Não, na verdade, eu estou com muita raiva de você! — Otávio parecia bem zangado com ela, Raquel ficou aturdida com aquela resposta.
— Por que? — quis saber qual era sua acusação, erguendo as sobrancelhas. – O que foi que eu fiz de errado para você?
— Para mim, nada! Mas ... – Ele estava reticente, não sabia como falar aquilo que o sufocava.
— Mas o que? – Raquel insistiu, enfrentando-o com o olhar.
— Olha, eu não tenho nada com a sua vida, Raquel. Mas como você deixa aquele homem de tratá-la daquela maneira? – Otávio a acusou, os olhos deles brilhavam de rancor.
— Que homem? — Raquel não sabia do que ele estava falando.
— O homem que tem a chave do seu apartamento. Seu amante — Otávio respondeu, exaltado.
Assustado com as vozes altas, o gato pulou dos braços de Otávio e correu para dentro do apartamento.
— Vitor! Ah! Realmente, você não tem nada com isso! – Ela replicou, de um modo impertinente, revirando os olhos. — Mas me tratar assim como? – quis compreender do que ele falava, cruzou os braços na frente do corpo e o desafiou com o olhar afiado.
— Como se fosse uma propriedade dele. Uma bela peça de coleção, que fica fechada em um cofre e que, de vez em quando, ele abre para admirar e depois a tranca novamente, deixando-a no escuro e sozinha. Como você deixa ele fazer isso com você, Raquel? — Ele sustentou o olhar, parecendo estar bastante aborrecido e ela chocada.
— Quem é você para dizer isso? Com que direito? – Agora, era ela que estava bastante irritada, sacudia os braços no ar, sentiu seu rosto queimar, o sangue flui para sua cabeça, enquanto ele permanecia impassível a encarando. Depois, Raquel respirou fundo para se recompôs e suas ideias clarearem.
— Eu? Eu não sou ninguém importante para você, mas ouvi a briga, na outra noite, através das paredes. Ouvi o que ele falou para você –confessou, referindo o dia que, depois da festa em que Vitor a seguiu, para saber, se ela estava sozinha, aquilo havia deixado Raquel muito magoada, eles brigaram feio, no fim, ela o perdoou. Mesmo assim, apesar de ter escutado a discussão do outro lado da parede da sua sala, Otávio não tinha direito de julgá-la, pois a vida era dela.
— Ele falou aquilo porque me ama! – Raquel rebateu, dando uma desculpa, mas que sabia que era mentira.
— Não, se ele realmente a amasse, ele ficaria com você u a deixaria livre para viver sua vida. Para ele, você é só um troféu, mais uma coisa bonita para guardar — retrucou, como um tapa na cara que a deixou tonta, pois já tinha pensado naquilo várias vezes, porém ouvir outra pessoa falar, era bem diferente, dava um tom mais realista a toda aquela ideia.
— Eu não quero ouvir mais nada! — Raquel encerrou o assunto, não podia ficar discutindo sua vida com um completo estranho, que lhe falava verdades que não queria ouvir, pois a machucava – Tenho um almoço agora e estou atrasada. Adeus, Otávio – virou-se e foi embora, ouvindo a porta ser fechada com força, atrás dela.
Raquel estava indignada, saiu batendo os pés. Pensando como aquele homem se atrevia a falar assim com ela, pois mal o conhecia e ele vem agora me dizer como a minha vida está errada. Estava furiosa.
Mas, no fundo, Raquel considerava se ele estaria certo, se eu estava vendo o que está na sua frente. Aqueles pensamentos rodaram na sua cabeça e deixaram-na ainda mais confusa, precisava que se acalmar para encontrar Ana, então respirou fundo. Na garagem, entrou no seu carro enorme, um utilitário novinho, presente de Vitor, mesmo que Raquel preferisse um carro menor, mas ele achava que ela ficava mais bonita e poderosa dentro de um modelo como esse. E enquanto, dirigia as palavras de Otávio não saiam de sua cabeça.
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