Três amigas e o amor.

57 Raquel – Correndo contra o tempo


Assim que voltou, Ana ligou para Raquel para lhe contar as novidades.

— Eu não acredito que você viajou com Marcelo! – Raquel não se conteve, com um misto de surpresa e reprovação.

— Você não ouviu nada do que eu disse, não é, Raquel?! Eu não viajei com ele. Ele simplesmente apareceu no aeroporto.

— Mas ficaram no mesmo quarto.

— Não tinha outro, na pousada.

— E foi só isso? – Raquel indagou, já esperando pelo que viria.

— Bem... – Ana fez um breve silêncio.

— Vocês transaram?!

— Sim... Sílvia havia sumido com o tal holandês. E nós dois ficamos sozinhos no quarto. E aconteceu...

— Preciso conversar com Sílvia sobre isso, também. Mas, e agora, Ana, como ficam você e Marcelo?

— Eu disse a ele que acabou.

— Você não aparece muito certa disso. – Raquel questionou, mas Ana não respondeu.

— Você pode me ajudar com essa história dos papagaios? – Ana mudou de assunto.

— Não na minha revista, mas posso pensar... Espera um pouco! Eu sei quem é a pessoa certa, posso ligar para ele.

— Muito obrigada, Raquel.

Assim, Raquel procurou e achou o telefone de Lucas Fergus, o repórter aventureiro, que apesar de um tanto ressabiado por ter sido dispensado por Raquel, gostou da ideia da luta da sobrevivência de uma espécie em extinção contra um grande holding hoteleiro, o velho clichê de David contra Golias sempre funcionava bem e dava muito audiência.

O tempo estava passando rápido demais, não obstante, Vitor ainda não ter voltado ao trabalho oficialmente, contudo, de vez em quando, surgia de surpresa no apartamento de Raquel, só por alguns minutos, em que andava pelo quarto e pela sala, como se procurasse por algo, falava sobre os seus exames, reclamava de Vera e dos médicos e da falta que sentia do seu uísque, e apenas trocavam apenas fugidios e castos beijos, na chegada e antes de embora. Por sorte, ela sempre estava em casa, quando isso aconteceu, já que passava muito tempo no apartamento de Otávio, nesses últimos tempos.

— Ele está checando! É o olho do dono! – Otávio ironizava, não muito satisfeito com aquela situação.

— Pare com isso! Ele só quer me ver — Raquel respondia, aborrecida, mas, no fundo, achava que Otávio estava certo.

— Ele quer se certificar, que você está quietinha em casa, esperando por ele. Seu tempo está acabando, Raquel. Você tem que resolver isso.

Foi, nessa época, que Raquel começou a se sentir esgotada, estava terrivelmente cansada. Imaginou que deveria ser o estresse de resolver a sua situação com Vitor. Além disso, o seu trabalho andava intenso e, várias vezes, ficava até mais tarde na redação, durante a última semana. Isso a deixava ansiosa, então ela sentia muita fome. Otávio percebeu essa mudança, quando ela se serviu, outra vez, do espaguete.

— Nunca vi você, comer tanto assim – observou, espantado, pois Raquel, sempre, comia porções mínimas.

— Desculpe-me, mas estou faminta, deve ser o trabalho, eu tenho comido muito, ultimamente – confessou, um tanto envergonhada. — Acho que estou engordando, preciso me controlar. – E afastou o seu prato para longe, Otávio o empurrou, de volta para ela.

— Não! Coma! Você não está engordando, continua linda, pare de se cobrar tanto e relaxe um pouco – tranquilizou-a, então, ela sorriu agradecida, e continuou a comer, pois, ainda, estava com muita fome.

Na semana seguinte, Raquel sentiu um imenso mal-estar, achou que era algo que havia comido na redação, já que não tivera tempo para almoçar direto, só um sanduíche e achou que poderia ele estar estragado. Comentou isso com Otávio, durante o jantar, na casa dele.

— Você está trabalhando demais, Raquel. Anda muito cansada, deveria desacelerar um pouco, senão, vai acabar doente – Otávio aconselhou, preocupado.

— Não dá, porque estamos no final da edição especial e com Vitor fora, temos que tomar muitas decisões, tivemos que mudar todo o projeto em pouco tempo, mas já está quase tudo pronto. – Admitia que estava exausta, mas era sua grande chance de mostrar sua capacidade profissional, pois, foi a responsável por quase toda a montagem da edição especial de fim de ano, queria dar o máximo de si.

— Eu, também, vou ter que trabalhar até mais tarde, estes dias. Sabe a sociedade com os MontReggio deu para trás. O hotel não vai sair, parece que descobriram que a região é o local de reprodução de algum tipo de papagaio em extinção ou coisa parecida. A associação local de pescadores descobriu isso do nada e mantivera segredo, até entrar com um mandado embargando a obra, aí, foi uma correria. A sociedade está sendo desfeita, porque as empresas não querem seus nomes envolvidos em um escândalo ecológico, pega mal, principalmente, para os europeus. – Otávio explicou o que Raquel ficou satisfeita, mas havia jurado segredo as amigas.

— Jura! – Ela fingiu surpresa, porém, prometeu a si mesmo, que um dia, se continuassem juntos, contaria toda a verdade.

— Agora, você quer saber uma novidade em primeira mão? – Otávio fez suspense.

— Lógico!

— Outro dia, em uma destas reuniões, o velho MontReggio estava furioso, soltando fumaça pelo nariz, ninguém entendeu até que um assessor me confidenciou, que o filho dele, Marcelo, tinha terminado o noivado, no dia anterior, com o casamento todo pronto. Por acaso, não foi esse Marcelo que andou saindo com sua amiga Ana?

— Foi, mas não sei, se devo contar isso a ela – Raquel ficou em dúvida, não queria alimentar uma esperança incerta em Ana.

— Quem tem que contar para Ana, deve ser o próprio Marcelo, se ela quiser ouvir. É melhor, você não falar nada, por enquanto, pois se, de repente, eles voltarem atrás e casam, é a sua amiga que vai sofrer, outra vez – Otávio racionalizou e Raquel não estava segura que ele estava certo, não queria que Ana sofresse mais por aquela paixão.

Certa manhã, a redação ficou mais agitada do que de costume, porque Vitor apareceu por lá. Ele foi cumprimentado, mimado e bajulado por todos a sua volta, parecia mais bem-disposto, tinha recuperado em parte sua boa aparência. Alguém perguntou quando ele voltaria definitivo ao trabalho.

— Acho que em mais ou menos um mês, os médicos devem me dar alta. E aí, a vida voltara ao normal — Ele deu um discreto sorriso e uma sútil piscada de olho para Raquel, cheia de insinuação.

Ela congelou, pois só teria um mês, então, ficou um pouco tonta, teve que se sentar depressa, mas, felizmente, ninguém percebeu. Por isso, prometeu a si mesmo, que depois que a edição de fim de ano estivesse pronta, procuraria um médico para um check-up completo. Naquele dia, voltou para casa mais cedo, sentia-se enjoada e cansada, sentiu uma forte pressão na barriga, foi para o banheiro e vomitou muito, arrastou-se até a cama e deitou-se, ainda com a roupa do trabalho, e dormiu pesado, só acordou, com Vitor entrando no apartamento e chegando no quarto.

— Raquel, o que houve? Está doente? — questionou, preocupado.

— Acho que sim. Não me sinto bem, só quero dormir – respondeu, sonolenta, com a cabeça pesada, continuou deitada.

— Vamos, levante-se! Eu quero um abraço de boas-vindas! — Vitor exigiu, não acostumado com aquela atitude dela.

— Não, Vitor, pode ser uma virose e você ainda está se recuperando. É melhor você ir embora. — Ela se desculpou, com a fala arrastada, mal levantando a cabeça do travesseiro.

— É, talvez seja melhor mesmo. Espero que fique boa rápido. Até mais, Raquel – E ele foi embora, rapidamente, sem se aproximar dela.

Um pouco mais tarde a campainha tocou, ela tinha certeza que era Otávio, então, se arrastou da cama até a sala e abriu a porta, mal conseguindo ficar de pé.

— Raquel, você está péssima! O que houve? Está doente? – Otávio a fitou assustado com a aparência de Raquel.

— Acho que sim, estou me sentindo horrível – respondeu com a voz arrastada.

— Deixa eu cuidar de você – Otávio disse, a erguendo no colo e a levou para cama, trocando-lhe a roupa, com delicadeza, como ela fosse uma boneca — É melhor você ficar deitada. Quer comer alguma coisa?

— Não, por favor! Não fale em comida! Estou com o estômago embrulhado — respondeu, segurando a ânsia de vômito que lhe chegava quase à boca.

— Quer que fique aqui com você? – Otávio perguntou com a voz branda.

— Sim, por favor, deite aqui comigo – Ela queria a companhia dele, aconchegar-se contra o seu corpo, sem se importar com mais nada.

Porém, Otávio vacilou, em ficar naquela cama, onde Raquel dormia com Vitor, mas acabou cedendo e deitou-se ao lado dela, a abraçando.

— É melhor, você procurar um médico amanhã. Quer que eu vá com você? – Ele a aconselhou, com suavidade, em seu ouvido.

— Não se preocupe, é apenas um mal-estar, deve ser uma virose, vai passar logo. Mas, prometo, que se eu não melhorar em alguns dias, vou procurar um médico.