Após o almoço um mais demorado com Alberto, Ana chegou esbaforida ao escritório. Mergulhou no trabalho, não queria pensar em mais nada. Assim o resto da semana passou vagarosamente sem novidades e já era quinta-feira, quase no final do dia, quando o seu telefone tocou, lá estava o nome que nunca mais esperava ver. Assim, Ana demorou um pouco a atender, com dissimulada indiferença.

— Oi, Marcelo! Tudo bem? – Apesar de querer parecer fria e distante, seu coração dava pulos aflitos dentro do peito.

— Oi, Ana. Desculpe-me, por não ter ligado antes, mas esta semana foi bem complicada, tive que fazer uma viagem urgente, por problemas no trabalho. Mas senti muitas saudades suas — ele falou de um modo charmoso, cheio de culpa, isso derrubou defesas de Ana e, pronto, lá se foi a indiferença.

— Poxa, que chato! Espero que tenha conseguido resolve? — Sua voz já estava mais branda.

— Sim, agora está tudo bem. Liguei assim que retornei, no lugar onde eu estava a comunicação era muito difícil. Para me desculpar, eu estou ligando para convidá-la para sairmos outra vez.

— Para mim, está bem. Quando?

— Que tal hoje? – Marcelo quis saber, de modo casual, isso a pegou de surpresa.

— Hoje?! – exclamou, atônita com o convite totalmente inesperado.

— Sim, hoje. Posso pegá-la aí, no trabalho, se você quiser?

— Não! – Ana recusou, com veemência, pensando no cabelo desarrumado e na roupa sem graça do dia-a-dia. — Mais tarde, queria tomar um banho e trocar de roupa – confessou.

— Então, pego você mais tarde na sua casa, se é isso que você quer. Às oito, está bom para você?

— Está ótimo. Até mais tarde

— Ana, estou com saudades. Até mais tarde! — Ele falou de forma suave, que a fez se arrepiar.

Ainda bem que, já estava no final do dia de trabalho, então ela saiu correndo para casa, já que não tinha muito tempo, tomou um bom banho, se depilou, passou hidratante no corpo e colocou seu perfume favorito. Escolheu suas melhores roupas íntimas, por precaução, e seu vestido favorito e sapatos de salto alto, no final, aprovou sua imagem no espelho. Neste instante, recebeu uma mensagem no telefone que ele estava chegando. Então, desceu apressada, mas desacelerou, andando devagar, querendo parecer natural e relaxada, quando saiu do elevador.

Marcelo estava ao lado do carro parado na frente da sua portaria, ele veio ao seu encontro assim que a viu, mais bonito do que ela se lembrava, e a camisa clara que usava realçava o recente bronzeado. Sem cerimônia, ele lhe deu um suave beijo nos lábios, segurou sua mão e a levou para carro, abrindo a porta do carona para ela entrar, sempre ficava surpreendida com essa gentileza.

— Espero que goste de comida japonesa. Fiz uma reserva em um restaurante ótimo – Marcelo perguntou, animado, parecia feliz por reencontrá-la. Na verdade, Ana tinha um certo preconceito, aquela história de peixe cru, jamais havia experimentado, no entanto, não queria desanimá-lo.

— Um pouco — ela falou meia-verdade e continuou. – Espero que tenha resolvido seu problema de trabalho.

— Sim, foi tudo resolvido. Algumas reuniões difíceis, muitas negociações e, no final, todo muito ficou satisfeito — Ele parecia meio desanimado e cansado ao falar sobre aquele assunto, mas a resposta foi muito vaga, sem esclarecer nada sobre sua área de trabalho, então ela fez uma nova tentativa.

—Você costuma viajar muito?

— Depende se há algum empreendimento novo em andamento ou, mesmo, um antigo com problemas — Marcelo respondeu, sem dar detalhes.

— Você está bronzeado? — comentou, ele lhe devolveu um sorriso satisfeito.

— Você notou? — Ficou, agradavelmente, surpreso — Aproveitei para pegar um pouco de sol, nesta viagem.

Eles chegaram a um pequeno restaurante japonês, quase escondido, com uma decoração bem típica e com a recepcionista vestida em trajes característicos, que os levou a uma sala reservada. Ana nunca estivera em um lugar assim antes, teve que tirar o sapato para pisar no tatame, deu graças pelas unhas do pé estarem perfeitas, sentaram em almofadas um ao lado do outro e receberam toalhas quente, para limpar as mãos.

— Você vem sempre aqui? – Ana quis saber.

— Não, para falar a verdade, eu sempre quis vir aqui, mas não tive oportunidade.

Uma bebida quente foi colocada na frente deles, em copos de madeira.

— Prove! Você vai gostar. É saquê — Marcelo a incentivou e ela provou, sentindo sua garganta queimar.

— É forte! Mas eu gostei – respondeu, com franqueza, pois estava gostando de experimentar coisas novas, sair do lugar comum.

Quando a comida começou a ser servida, Ana olhou para os palitinhos intrigadas de como comer com aquilo.

— Você nunca usou hashi? – ele questionou, franzindo a testa.

— Não.

— Não é difícil. Faça assim – primeiro, Marcelo mostrou, contudo Ana teve certa dificuldade no começo, então ele segurou na sua mão e a ensinando a maneira correta, pegando um pedaço de peixe e levando a sua boca – Agora, tente sozinha, com algo pequeno – sugeriu, e após algumas tentativas, ela conseguiu e sorriu para ele, vitoriosa.

Seguiram-se vários pratos bem diferentes, outros bem gostosos e outros nem tanto, mas Marcelo a incentiva colocando na sua boca e Ana estava gostando daquilo. Ele falava sobre o Japão e sua cultura, como se os conhecesse bem, deixando-a cada vez mais interessada e mais saquê foi servido, aquilo a esquentava por dentro e a deixava um pouco alegre.

— Espero não está sendo um chato, falando tanto assim – ele confessa.

— Não, eu estou gostando de ouvir suas histórias, pelo menos, são diferentes.

— E você, não tem nenhuma história diferente para me contar, Ana?

— Não, minha vida não tem nada de emocionante.

— Então, fale-me dessa sua vida nada emocionante – ele a instigou.

E conversa flui leve e descontraída, os risos soltos. No final do jantar, ele pediu e pagou a conta, que devia ter sinto bem cara, sem pestanejar, saíram e esperaram o carro trazido pelo manobrista.

— Eu nunca me diverti tanto em um jantar como hoje – Marcelo confessa.

— Você está exagerando

— Não estou falando sério. Depois dessa semana, foi muito bom rir assim. Você é engraçada.

— Eu posso ser muitas coisas, menos engraçada.

— Não, você não percebe, mas é divertida.

Ao entrarem no carro, havia uma certa tensão no ar, parecia que ambos tinham medo de dar o próximo passo e colocar tudo a perder, ficaram algum tempo em silêncio. Ana tentava racionalizar, mas o saquê a deixou um pouco confusa, quis começar uma conversa corriqueira, quando sentiu a mão dele deslizar suavemente pela pele nua do seu antebraço, um friozinho subiu pela sua coluna arrepiando os pelinhos da nuca. Infelizmente, o trânsito está tranquilo e eles chegaram rapidamente na frente da casa dela, não dando tempo para ela colocar suas ideias em ordem, nem Marcelo deu oportunidade para isso, pois assim que o carro parou e ele a puxou para si e a beijou, um beijo quente e apaixonado, cheio de desejo.

E agora? Ela pensava, não querendo ele parasse ou que a noite acabasse, como por vontade própria as palavras saíram da sua boca.

— Você quer subir? — Ana se espantou com a própria ousadia. Por um segundo, Marcelo parou, como se tivesse refletindo.

— É isso que você quer? – perguntou, olhando nos olhos dela.

— Sim, é isso que eu quero — Ana respondeu, com certeza.

Eles saíram do carro, meio tensos, esperaram o elevador no hall do prédio. Assim que entraram e porta se fechou atrás deles, Marcelo a abraçou apertado e a beijou ardentemente, mãos deles passeavam por todo seu corpo. Enfim, ela quase, não conseguiu abrir a porta do apartamento, entraram e nem acenderam as luzes, ele a segurou contra a parede, as mãos desceram para debaixo do vestido e que, agora, passeavam sobre pele nua dela, eram macias, quentes e exigentes, ela não conseguia pensar, só o desejo, abrindo a camisa dele, sentindo o seu peito contra o dele, os beijos ficavam mais e mais intensos e vorazes, mas já não saciavam.

— Vem! – Ela o segurou pela mão e o guiou até o seu quarto, parou na frente dele, tirou o vestido, enquanto ele apreciava aquela visão, como um presente. Agora, era vez de ele tirar suas roupas e abraçá-la, ele era esguio e forte, os ombros largos, quadris estreitos, as mãos de Ana passearam pelas suas costas, pelo seu peito, pelos seus braços, em um atrevimento, que ela nunca esperaria que fosse capaz. Os corpos quentes e cheios de desejos, largaram-se sobre a enorme cama, uma relíquia de família, que gemia a cada impulso como se fosse desmontar, açoitada, pelo vai-e-vem frenético, os gemidos, na busca de dar e receber prazer, até adormecerem exaustos.

No meio da noite, Ana acordou meio zonza, com a movimentação no quarto, Marcelo estava em pé ao lado da cama, já vestido.

— Estou indo – ele se curvou, sussurrou junto aos lábios dela e a beijou – Vem fechar a porta.

— Você precisa ir mesmo agora? É muito tarde — ela indagou, sonolenta, com medo que fosse a última vez que o veria.

— Sim, eu queria ficar, mas tenho uma reunião hoje, bem cedo, preciso trocar de roupa — Ele se desculpou, a puxou, suavemente pela mão – Vem, me leve até a porta — disse com tom suave e ela o seguiu, embrulhada no lençol.

— Ligo para você assim que puder — Marcelo prometeu, a beijando mais uma vez, antes de sair, ela fechou a porta, suspirou, resignada, e voltou para cama, precisava dormir mais um pouco, mas custou a pegar no sono, pensando se aquela noite não teria sido a única.