Três amigas e o amor.
35 Ana - O que você quer fazer da sua vida?
Ana acordou atordoada no quarto já escuro, com o som insistente da campainha. Demorou a reconhecer o seu quarto, considerando se o que aconteceu naquela tarde não havia sido apenas um pesadelo. Sem forças, pensou simplesmente deixar a pessoa tocar até desistir e ir embora, mas, que poderia ser sua mãe e ela ficaria preocupada. Então, passou a mão nos cabelos e no rosto para limpar as lágrimas secas nos cantos dos olhos, na tentativa inútil de melhorar a aparência, ainda meio atordoada, arrastou-se até a sala e acendeu as luzes. Quando olhou pelo visor, não pode acreditar, a raiva intensa a dominou.
— Meu Deus! O que você está fazendo aqui? – Irada, gritou através da porta.
— Eu tenho que falar com você, Ana. Por favor, abra a porta! — Marcelo respondeu, querendo demonstrar calma.
— Eu não tenho nada para falar com você! Vá embora! – ela falava mais alto, sem disfarçar o rancor, sem entender o que ele ainda queria, depois de toda a sua mentira ser revelada.
— Não! Não vou! Você não vai querer discutir através da porta com os vizinhos nos ouvindo? — Ele também começou a falar alto, por isso ela pensou um pouco, não queria um embate público, já que a fofoca poderia chegar aos ouvidos da sua avó, respirou fundo e abriu a porta. Marcelo tentou não parecer surpreendido com a aparência dela, os olhos estavam vermelhos, o rosto inchado de tanto chorar, sentindo-se mais culpado ainda, tinha vontade de abraçá-la e beijar seus cabelos, carinhosamente, para confortá-la, mas não devia nem Ana deixaria.
— Como você entrou no prédio? – perguntou, entredentes, Ana nunca se sentiu assim antes, tão desamparada e, ao mesmo tempo, com tanta raiva.
— Um vizinho me deixou entrar, não achou que eu parecia perigoso — explicou, dando de ombros.
— Nossa! Como ele está enganado! — retrucou cheia de sarcasmo.
— Posso entrar? — Marcelo pediu com a voz mansa.
— Você não tem um jantar para ir e um casamento para organizar? Sua noivinha deve estar esperando — Ela rebateu com acidez, lembrando-se da conversa no restaurante, e isso lhe deu mais ódio ainda.
— Posso tentar me explicar? — ele pediu outra vez em voz baixa, parecendo arrependido.
— Se você acha que há alguma explicação, está bem. Entre, não quero que os vizinhos fiquem sabendo da minha vida.
Marcelo entrou e sentou-se no sofá, abatido, com os ombros caídos e cotovelos apoiados nos joelhos e ela ficou de pé na sua frente, com os braços cruzados em frente do peito, encarando-o de modo desafiador.
— Por favor, Ana, sente-se — solicitou, pois não aguentava mais olhar para os olhos delas, vermelhos e inchados, ardendo de rancor.
— Eu não quero me sentar. Vamos fale o que tem para falar e vá embora! Seja rápido! — replicou, pois estava agitada demais para ficar ali, parada ao lado dele.
— Esta história é complicada — começou, inseguro.
— E só isso que você fala, desde que nos conhecemos! – Ana disse, com impaciência. – Tudo para você é complicado, está sempre repetindo isso!
— Por favor, Ana, deixe me falar — Marcelo suplicou.
— Continue — Ela o incentivou, pois queria ouvir as desculpas que ele daria.
— Você já deve saber quem é minha família? – indagou e ela assentiu com a cabeça. — Nasci e fui criado para um único objetivo, ser herdeiro de uma grande empresa, não tive opção quanto a isso. Escola e universidade, tudo direcionado para este único objetivo, mas isso não me incomodava.
— Realmente, deve ter sido muito difícil para você! – Ana rebateu com ironia.
Marcelo suspirou conformado, entendendo toda raiva que ela sentia, então continuou:
— Lembra quando contei a você que morei em Paris?
Ana balançou a cabeça afirmativamente.
— Foi quando conheci Mariane, através de amigos em comum. Ela estudava design de moda na época. Eu estava sozinho e ela também. Você a viu como ela é bonita — Ele prosseguiu. Ana sentiu um aperto no peito, quando ele falou da noiva daquela maneira, estava como ciúmes. — Começamos a sair e, depois, a namorar, não era para ser nada sério. Aí, nós dois voltamos para nossas casas e continuamos a nos ver. Foi quando as nossas famílias souberam sobre nosso relacionamento, ficaram entusiasmados. Mariane é herdeira de uma rede de lojas de roupas e ela era a candidata perfeita para ser minha esposa, bem-educada, rica e bonita, pertence a uma família tradicional. Então, tudo foi muito rápido, que quando percebi, já estava noivo e, agora, este casamento mirabolante marcado.
— Coitadinho, quer dizer que você está sendo obrigado a casar? — Ana disse com um sorriso mordaz.
— Não obrigado, mas não estava me importando. Para mim estava tudo bem e todo mundo parecia feliz. Eu não a amo, mas gosto dela. E eu pensava: “Por que não? ” Seria mais fácil — ele continuou. – Mas naquela noite, fui àquela festa, Mariane tinha viajado para um lançamento das coleções europeias e Robert me convidou, ele é sócio dela. Eu sequer queria ir, estava lá, entediado, quando a vi. Na verdade, esbarrei em você.
— Foi de propósito?
— Foi. Você estava tão deslocada, mas tão bonita e sexy naquele vestido, era tão diferente daquele ambiente e das outras pessoas dali. Eu fiquei curioso, queria conhecer você, por isso aproveitei a oportunidade da carona para ficarmos sozinho e pegar seu telefone, sem que ninguém soubesse. Demorei muito, para decidir se deveria ligar ou não.
— Mas você ligou — Ela concluiu, ressentida.
— Sim, porque queria encontrá-la mais uma vez, no entanto, não poderíamos ser vistos juntos, para não haver insinuações — explicou, com um ar culpado. Aquilo mexeu com Ana
— Ah! Agora entendo os restaurantes discretos e o hotel longe de tudo. Você está me escondendo! Como pôde? Com que direito, você aparecia e desaparecia da minha vida, sem dar explicações? Contando estas histórias de reuniões e viagens a trabalho. Você não podia ter feito isso comigo, sem eu saber de nada — falou furiosa, o interrompendo.
— As reuniões e viagens eram verdade. Estamos, realmente, planejando um grande empreendimento, algo de milhões, com muitas empresas envolvidas — Ele tentou se defender.
— Você mentiu até sobre o seu sobrenome! — Ela se lembrou do nome dado no hotel.
— Eu não menti. Você nunca me perguntou, e Larsson é o sobrenome de solteira da minha mãe. Eu uso, sempre, quando quero passar despercebido. Somos muitos discretos, minha família não gosta de se expor ou de estar na mídia, por isso, usamos nomes diferentes – Marcelo esclareceu aquele mal-entendido, mas não a convenceu.
— Ou melhor, dissimulado, você queria passar despercebido até para mim, Marcelo – disse, sua voz não disfarçava sua desilusão.
— Eu não queria que você soubesse da minha história pela internet ou coisa parecida. Meu maior temor era Raquel que sabia de tudo, estava sempre sobressaltado, imaginando quando você descobriria tudo.
— Mas, eu descobri da pior maneira possível. Você sabe, como eu me senti, ali, parada, ouvindo falar sobre o seu maravilhoso casamento? Magoada, ferida, enganada! – Enquanto falava, Ana sentiu o seu coração pesar no peito, triste e traída.
— Sinto muito! — Marcelo lamentou, com sinceridade, não sabendo mais o que dizer.
— Você não pensou em mim. Quando pretendia me contar? Ou eu só saberia, quando, visse as fotos do seu casamento, em alguma revista de fofocas?
— Eu estava dividido. Muitas vezes, pensei em sumir, não ligar mais para você, por isso, ficava tanto tempo sem dar notícias. Mas, de repente, eu estava aqui, na sua porta, não conseguia ficar muito tempo longe.
— Estou com muita pena de você! – Ana disse com ironia. – O pobre menino milionário obrigado a casar com a linda e rica herdeira. Em que século você vive, Marcelo? E por que eu? Não sou tão interessante assim! – Ana retrucou, com aspereza.
— Eu não estou sendo obrigado a casar – falou com tristeza. – Como disse, eu só deixei a situação chegar até este ponto, talvez, por comodismo. E por que você? Você sacudiu meu mundo, com seu jeito, seu modo de ser, com sua esperança cheia de sonhos e planos. Eu descobri que não tinha nenhum sonho ou algo que, realmente, desejasse. Então, você se tornou meu sonho, Ana.
— Como não tem sonhos? Todo mundo tem sonhos!
— Não, eu não tinha, sempre tive tudo e nunca precisei pensar no futuro. Nunca quis algo, com tanta vontade para lutar por isso. Até conhecer você, então a desejei como mais nada nesse mundo.
— Se você sentia isso por mim, por que não ficou comigo? Por que não terminou com esse noivado indesejado?
— Eu não sei como fazer isso – Marcelo respondeu, vencido.
— Então, é hora de resolver, o que você quer fazer da sua vida, se quer casar ou não? Eu não posso ajudá-lo, essa decisão é só sua. Agora, é melhor você ir embora. Você tem um jantar e sua noiva está esperando – A voz de Ana estava calma, quando abriu a porta para Marcelo sair — Adeus, Marcelo – disse, sem olhar para ele.
Ele se levantou e caminhou, lentamente, para porta, antes de sair, parou em frente a ela e a olhou nos olhos.
— Adeus, Ana — ele se despediu com um tom de amargura.
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