Três Batidas do Destino
4 Capítulo 4: A Última Melodia
Os convidados se despediam. Após abraçarem a todos, Matt e Sarah voltaram-se para Sam e Vitor — este último já demonstrando sinais claros de embriaguez. No sofá, Hannah permanecia alheia, imersa em seu próprio mundo.
— Por que não ficam até o amanhecer? Temos quartos disponíveis — convidou Sam, recostado na porta.
— O Papai Noel passará no nosso quarto assim que chegarmos — respondeu Matt, com um tom divertido e cúmplice.
— Melhor deixarem o bom velhinho no quintal; talvez o coração dele não aguente as cenas que virão — provocou Vitor, trocando um olhar sugestivo com Sam, que fingiu não entender a ousadia.
Sarah sorriu e seguiu para o carro com o marido. A porta do lado dela não fechou por completo na primeira tentativa, obrigando-a a abri-la novamente.
— Caramba! — exclamou ela, fechando a porta pela segunda vez, sem conseguir travá-la.
— Não é seu vestido que está impedindo o fechamento? — questionou Matt, observando-a tentar novamente.
— Não, amor, meu vestido é justo — respondeu ela. Sarah correu a mão pela borracha que contornava a porta, verificando se havia algum obstáculo, e a fechou pela terceira vez. Só então Matt conseguiu acionar o dispositivo de trava.
Já a bordo, acenaram para os cunhados e deram partida. Com o pensamento fixo na esposa, Matt lembrou-se do segurança da emissora; o homem ele havia pedido dicas de R&B, canções que servissem como um convite sem que fosse preciso dizer uma única palavra.
Ele pulou diversas faixas na playlist até encontrar a sugestão ideal: Freak Me, do grupo Another Level. Sarah, que organizava a bolsa no banco do carona, sentiu-se como uma presa diante do caçador ao ouvir Matt cantarolar, com voz rouca, as primeiras estrofes. Ela o encarou fixamente, impactada pelo peso da letra que preenchia o interior do veículo:
"Let me lick you up and down 'til you say stop... Let me play with your body, baby, make you real hot..."
O silêncio dela era o de um animal rendido ao desejo.
— Só não durma — murmurou Matt, deslizando a mão pela coxa dela, sentindo o calor da pele através do tecido, enquanto o carro ganhava velocidade rumo à madrugada de Natal
A neve caía em flocos densos, sufocando o som do mundo e cobrindo a cidade com um lençol de paz ilusória. No calor da cabine, Matt sentia a pele de Sarah sob sua mão — um toque morno que parecia ancorá-lo em tudo o que importava.
Quando as primeiras notas do teclado de Back at One flutuaram pelos alto-falantes, Sarah suspirou, fechando os olhos como se a melodia fosse um lugar onde pudesse morar.
— Essa música... — ela murmurou, um sorriso sonolento curvando seus lábios. — É a declaração de amor mais pura que existe.
— Um colega é viciado nela — Matt sorriu, apertando levemente os dedos dela. — Ele diz que o Brian McKnight escreveu o manual de como dizer "eu te amo".
Lá fora, o Natal pulsava em luzes de neon que se fragmentavam nas pupilas de Sarah. Um caminhão da prefeitura roncava em uma esquina, desviando o destino deles para uma via secundária, um desvio que parecia apenas um detalhe sem importância em uma noite feita de promessas.
— Mal posso esperar para abrir os presentes amanhã — Sarah sussurrou. O som do clique do cinto de segurança sendo liberado foi quase imperceptível. Ela se inclinou, mergulhando no escuro sob o painel para resgatar o batom que a lombada anterior lhe roubara. — Especialmente aquele que você prometeu.
Matt encarou o viaduto. O semáforo hesitou no amarelo, uma advertência âmbar que ele interpretou como um convite. Ele acelerou, o motor rugindo baixo, ansioso para cruzar a fronteira entre a rua e o refúgio do lar. Ele olhou para a esposa, o coração transbordando.
— Se eu te contasse, perderia toda a graça.
No rádio, a contagem da música começava: One, you're like a dream come true...
O sonho terminou no final do declive.
O mundo não se apagou; ele explodiu em um branco cegante. O guincho dos pneus no asfalto molhado foi o último grito de aviso. Então, o ferro encontrou o ferro. O impacto lateral foi uma violação física, um soco que dobrou o aço como se fosse papel. A cabine foi inundada por uma chuva de diamantes de vidro e o cheiro acre de pólvora dos airbags. O carro capotou, um turbilhão de metal e faíscas que riscavam o asfalto enquanto deslizavam de teto por metros que pareceram quilômetros.
Quando o movimento cessou, o silêncio não era paz; era um vácuo.
Matt estava pendurado pelo cinto, o mundo de ponta-cabeça. O sangue, quente e espesso, gotejava de sua testa, sujando o estofado que ainda cheirava a carro novo. Ao seu lado, o lugar de Sarah estava vazio. Sem o cinto, ela fora arremessada contra o teto esmagado, um anjo quebrado em meio aos estilhaços.
— Sarah... — O nome saiu como um estalo de osso, seco e desesperado. — Sarah!
No rádio entreaberto, a ironia era uma lâmina afiada. A música não parara. A voz de McKnight continuava, doce e imperturbável, contando os passos de um amor que Matt via escorrer pelo chão: Two, just wanna be with you...
— Meu amor, por favor... — Matt esticou o braço. Seus dedos tatearam o nada, encontrando apenas o frio do metal retorcido até que, finalmente, tocaram a mão dela.
Estava macia. Estava imóvel.
Three, girl, it's plain to see... dizia a canção, enquanto a visão de Matt escurecia.
Ele chamou por ela uma última vez, um sussurro que se perdeu entre o som das sirenes distantes e o ritmo da música que insistia em recomeçar. Antes que a escuridão o tomasse por completo, ele só desejava que a contagem parasse ali. Porque, sem ela, não haveria um "quatro".
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