Três Batidas do Destino

3 Capítulo 3: Então é Natal!


Notas iniciais
Oi, eu sou a Hannah, da história do Matt. Com certeza eu não perderia a chance de aparecer por aqui, ainda mais como prima do protagonista! E claro, eu tinha que colocar essa música que já virou um meme clássico de Natal. Aproveitem a leitura! https://youtu.be/aAkMkVFwAoo?si=p4BHp5OIiIqgtaRV

Assim que cruzaram a porta, Sarah e Matt foram atingidos pela onda de choque que dominava a sala. Os convidados, em silêncio paralisado, eram a plateia das palavras de Vitor e Sam, que narravam os eventos da rua com um inconformismo indisfarçável.


— E por que vocês não querem? — questionou Hannah, prima de Matt e Sam. — Por mim, eu iniciaria uma live agora mesmo na porta dessa senhora. Mostraria ao mundo que nem todos possuem bom coração.


Hannah vivia sob os holofotes. Influenciadora de beleza, sua popularidade fora construída com avaliações ácidas e técnicas precisas. Para ela, a exposição era a única justiça possível.


— Não irá mudar o que aconteceu, querida — ponderou uma tia de Vitor, observando Hannah remover os últimos vestígios de uma maquiagem elaborada que usara em uma transmissão horas antes.


— Eu sei que não muda o passado — retrucou a moça, o rosto limpo revelando uma determinação fria. — Mas deixaria essa senhora "famosa" e, de quebra, arrecadaríamos doações para o senhor.


Matt, alheio ao debate, deixou os pensamentos vagarem pela sala. A casa estava impecavelmente decorada com duendes de pelúcia e uma suntuosa árvore em vermelho e dourado, cujos enfeites subiam em cascata até o segundo andar.


— Essa decoração é a cara do Sam — sussurrou Matt para Sarah.


— Matt, deixa para lá... — Sarah respondeu com um sorriso contido, atenta para não atrair a atenção da roda.


— Quanta extravagância! Olhe as taças todas verdes e vermelhas — continuou ele. — E o Sam ali, fazendo questão de exibir que a única taça dourada é a dele.


— Ai, amor... Você não é nada discreto — murmurou Sarah, disfarçando o riso diante da ostentação quase infantil do cunhado.


Vitor, notando a chegada do casal, adiantou-se com uma bandeja.


— Quem será o motorista após a ceia? — perguntou ele.


— O Matt — Sarah adiantou-se, pegando uma taça de vinho e caminhando em direção a Sam. Vitor estendeu ao motorista da noite uma taça pesada com um vibrante suco de frutas.


— Vitor — Matt segurou o antebraço do cunhado antes que ele se retirasse. — Meus pais... eles ainda não chegaram?


— Avisaram hoje, após o almoço. Disseram que não conseguiriam vir devido a uma emergência de última hora.


— Uma emergência real? — O tom de Matt carregava um ceticismo antigo.


— Foi o que disseram. No entanto, Sam preferiu acreditar na ilusão para não estragar a noite — respondeu Vitor com um suspiro resignado.


— Meu primo favorito e mais gato, me dê um abraço! — Hannah surgiu inesperadamente. — Fico feliz em vê-lo quebrando as tradições. Roupas pretas são chiques, elegantes e combinam com tudo.


— Você está linda, Hannah — ele sorriu. — Mas faz tanto tempo que não vejo seu rosto natural que achei que fosse uma penetra.


O som de um pequeno sino ecoou, assustando os Yorkshires da casa, que dispararam para suas camas. Todos os cães estavam vestidos a caráter, seguindo o tema natalino. Sam retornou ao centro da sala, trazendo Sarah pela mão.


— Queridos convidados... e Hannah — anunciou ele. — Minha amada cunhada me procurou para se desculpar por praticar uma boa ação. Ela e meu irmão doaram parte da nossa ceia para uma família no caminho.


Sarah, envergonhada pela exposição, sinalizou para Matt se aproximar. Ele a acolheu e começou a detalhar o ocorrido para o grupo.


— Por que não fazemos uma live de doação? — sugeriu Hannah. — Ou um sorteio de produtos, revertendo o valor para eles?


— Vamos combinar isso nos próximos dias, com a autorização dos envolvidos — considerou Matt. — Não podemos expor alguém na internet sem consentimento, prima..


Hannah semifechou os olhos para Matt, articulando em silêncio: — Você é muito chato. Sarah, por sua vez, afastou-se do abraço do marido e foi até a mesa para pegar um pedaço de bolo de frutas. Sem perder a oportunidade, Sam aproximou-se para concluir a abordagem.


— Sarah... — Sam começou, baixando o tom enquanto observava Matt rir de uma piada de Hannah, ao longe. — Cunhada, você colocou "aquilo" no carro?


Sarah suspirou, o semblante escurecendo por um instante. Ela sabia exatamente do que ele estava falando.


— A barra de ferro? Por instinto, acabei guardando-a no porta-malas de novo.


— Eu achei que as sessões de terapia tivessem ajudado o Matt a processar o que aconteceu naquela tarde, quando ainda morávamos com nossos pais — disse Sam, levando uma uva à boca com um ar pensativo.


— Terapia? Eu nunca soube que o Matt... — Sarah cruzou os braços, a preocupação vincando sua testa.


— Eu sinto que ele ainda se culpa por não ter chegado minutos antes — Sam respondeu, a voz abafada pelo peso da lembrança.


— O que aconteceu, Sam? O Matt é meu marido e eu nunca tinha visto aquele objeto, muito menos soube de algum trauma passado.


Sam soltou um suspiro profundo, o olhar perdido nas memórias.


— Ah, cunhada. Posso garantir que ele não fez por mal em nunca ter te falado a... Anos atrás, eu me envolvi com um homem. Na verdade, eu não sabia que ele era casado. Eu estava apaixonado e fui ingênuo; trocávamos mensagens, confidências. Um dia, a filha dele viu as mensagens, mas era muito nova e não entendeu bem. Para se safar, ele reverteu a situação, fingindo que eu estava me insinuando. Marcou um encontro perto de um bar, a poucas ruas da casa dos nossos pais. Era uma emboscada. Ele queria me ridicularizar; o "macho alfa conservador" espancaria um "afeminado" junto com sua matilha para provar sua moralidade.


— Sam, que horror... — Sarah sussurrou, chocada.


— Eu apanhei muito, Sarah. Muito mesmo. A agressão me deixou sequelas na perna porque um dos valentões passou com a moto por cima de mim. Alguém viu a cena e correu para avisar em casa. Dizem que o Matt estava ajudando nosso pai com a poda das árvores; ele largou tudo e disparou. Mesmo exausto pela distância, ele enfrentou aquele "pai perfeito". Como o Matt sempre treinou, ele teve vantagem no início... até que o cercaram.


Sam fez uma pausa, o rosto contraído pela dor antiga.


— Um dos homens usava aquela barra de ferro. Por sorte, o Matt conseguiu tomá-la e acertou o braço de um dos agressores, quebrando-o na hora. Foi quando meu "namorado" sacou uma arma e a apontou para o peito dele. O Matt não se acovardou. Disse na cara do sujeito que ele ficaria conhecido como o assassino que espancou um gay e tentou matar o irmão protetor. O dono do bar interveio, a polícia chegou e, graças às testemunhas, o Matt não foi levado. Ele ficou comigo no chão o tempo todo, e não saiu do meu lado durante toda a internação, mesmo estando ele próprio ferido.


Sarah desviou o olhar para o esposo. A imagem do homem gentil que ela conhecia mal cabia naquela descrição de violência.


— São oito anos com o Matt, Sam. Entre namoro e casamento... e ele nunca me contou. Eu achava que sua limitação fosse de nascimento e nunca me senti no direito de perguntar.


— Ele acha que ser "imponente" não é o suficiente se não tiver algo para garantir que ninguém mais encoste em quem ele ama — explicou Sam, tocando suavemente o ombro da cunhada. — O Matt sempre carregou o mundo nas costas. Nossos pais sempre foram distantes, frios. Aquela tarde mudou algo dentro dele. Ele desenvolveu um instinto protetor que beira o sufocamento. Só espero que ele nunca precise usar aquilo... que o medo não o transforme em alguém que ele não é.


— E o que aconteceu depois? — Sarah perguntou, a voz em um fio. — E seus pais?


— A família "perfeita" se mudou da cidade para manter a reputação do pai. Nunca mais soubemos deles. Matt já dedicado aos estudos deixou nossa casa na primeira oportunidade. Eu me mudei para Ville, uma comunidade próxima daqui dois anos depois. Durante um trabalho, conheci o Vitor. Tudo o que você vê nesta casa é dele, mas ele faz questão de dizer que construímos juntos. Já os nossos pais... eles também se mudaram. Por vergonha de ter um filho gay e com sequelas físicas. Após anos de silêncio, tentei reunir todos neste Natal. Ainda bem que você, o Matt e a Hannah vieram.


Um grito animado de "Feliz Quase Natal!" ecoou da sala principal, seguido por uma risada coletiva e o tilintar de taças. O som alto da música natalina, que até então era só um pano de fundo, pareceu invadir a bolha de confidências em que estavam. Sarah piscou, voltando à realidade da festa que acontecia a poucos metros dali.


O relógio marcava o início da última hora antes da meia-noite. Apesar da conversa profunda entre Sarah e Sam, o clima geral era de pura festividade: convidados erguiam taças, cantarolavam clássicos natalinos e eternizavam cada instante em fotos e vídeos. Hannah, aproveitando a distração coletiva, saiu "à francesa" e subiu as escadas, ocupando um dos quartos do andar superior.


Vitor aproximou-se de um tio e convidou-o a compartilhar uma mensagem de reflexão sobre a simbologia do Natal após a virada. Prontamente, o senhor de cabelos grisalhos sacou o celular, buscando versículos bíblicos que servissem de alicerce para suas palavras.


À medida que os quatro minutos finais se esgotavam, a expectativa crescia. Sam procurava seu sino cerimonial sem sucesso, questionando os convidados sobre o paradeiro do objeto. No entanto, antes que pudesse encontrá-lo, o som profundo de seu relógio antigo — adquirido especialmente para badalar à meia-noite — ecoou por toda a casa. Os convidados se levantaram, reunindo-se na sala sob o som grave e solene das badaladas.


Durante a efusão de abraços e beijos entre os casais, algo inesperado aconteceu. O rádio de Sam disparou uma música que não constava na playlist escolhida, ao mesmo tempo em que o som de seu sino desaparecido começou a ecoar, vindo do segundo andar.


Todos os olhares se voltaram para o topo da escada. Hannah surgiu no corredor, ostentando um visual milimetricamente planejado: uma capa vermelha sobre um vestido verde, acinturado por um cinto dourado, com meias listradas em vermelho e branco e saltos pretos nada discretos. Ela descia triunfante, seguida de perto por um dos primos de Vitor, que a gravava em uma live frenética ao som de All I Want For Christmas Is You, de Mariah Carey.


A sala parou para assistir. Hannah dublava com perfeição, acompanhada pelo "cameraman" que se arriscava na segunda voz masculina.


— Agora o Sam foi destronado de vez... — comentou Matt entre risos para Sarah, que já abria a bolsa rapidamente para registrar a cena no celular.


- Eu não sabia que ela tem a voz tão bonita. — Disse Sarah um tanto surpresa.


- Ela cantou por alguns anos no coral da igreja. — Explicou Matt.


Vitor, ao lado do marido, não resistiu e entregou-se à coreografia, executando os passos que lembrava e puxando as palmas no ritmo da música. A exibição da influenciadora já bombava em curtidas e comentários. No ápice do refrão, canhões de confetes metálicos, acionados por outros convidados no andar de cima, explodiram no ar, cobrindo a sala com uma chuva colorida e brilhante.


No término da canção, Hannah segurava o celular com um sorriso radiante, pedindo que os convidados acenassem para a câmera.

— Feliz Natal, meus seguidores! Amo cada um de vocês! Este vídeo é um presente de alegria para todos — exclamou a influenciadora. Ela então se voltou para os presentes na sala, puxando Sam para um abraço apertado e organizando todos ao seu redor para o grand finale. — Vamos lá, todos juntos... no três! Três, dois, um...


— FELIZ NATAL! — O coro uníssono selou a transmissão com sucesso, entre risos e aplausos que ecoavam pela casa.


Passado o momento de vaidade e a euforia contagiante, o silêncio começou a se instalar suavemente, como a neve que caía lá fora. O tio de Vitor, com sua postura serena e o peso da experiência nos cabelos grisalhos, deu um passo à frente. Ele não precisava de microfone; sua voz era calma e preenchia o ambiente de forma reverente.


— Meus queridos — começou ele, guardando o celular onde antes consultara os versículos. — O Natal é uma celebração de luz, mas também é um lembrete sobre a fragilidade das nossas bênçãos. Celebramos hoje o nascimento de uma Esperança que veio para nos ensinar que o amor é a única coisa que realmente possuímos.


Ele olhou brevemente para cada casal na sala, parando os olhos por um segundo a mais em Matt e Sarah, que trocavam um olhar terno.


— Muitas vezes, acreditamos que teremos todos os "amanhãs" do mundo para dizer o quanto amamos alguém. Mas o verdadeiro significado do Natal não está nos embrulhos que abriremos pela manhã, e sim no "agora". O presente é a presença. É o calor da mão que seguramos, o brilho no olhar de quem caminha ao nosso lado e a paz de saber que, aconteça o que acontecer, o amor foi plenamente entregue hoje. Valorizem cada segundo deste abraço, pois a vida é como um sopro na noite de inverno: bela, intensa e, por vezes, breve demais. Que o amor de vocês nunca seja deixado para amanhã.


Um silêncio reflexivo e emocionante tomou conta da sala. Matt apertou a mão de Sarah, sentindo um calafrio estranho, mas reconfortante, sem imaginar que aquelas palavras seriam o último conselho que ouviria antes que o destino se partisse em mil pedaços de vidro na estrada escura.