Notas iniciais
A música é "Lover, you should've come over" do Jeff Buckley. Achei apropriado retomá-lo porque, sem as músicas dele, eu absolutamente não teria escrito essa história. Obrigada, Jeffinho. Eu tendo a acreditar que combina muito com a leitura desse capítulo. Ouçam se quiserem.

A fumaça subia tortuosamente devagar, escapando pela boca e pelas narinas do loiro que segurava o cigarro entre os dedos trêmulos, próximo ao rosto, deslizando a língua pelo lábio inferior machucado, engolido pela escuridão azul daquele quarto familiar. Kenny ainda sentia um pouco do efeito do álcool que deixava sua cabeça leve a ponto de ele precisar abaixá-la, apertando os olhos com força. Estava sentado na beirada da cama com as pernas separadas e os cotovelos apoiados nas coxas nuas. Parte do lençol cobria seu colo, escondendo o membro flácido entre as suas pernas, os pelos pubianos úmidos de suor e sujos de alguns respingos de porra que podia ou não podia ser dele. Quando ergueu a cabeça novamente, separando as pálpebras para revelar seus olhos azuis como o próprio oceano sob um dia claro, Kenny limpou a garganta e segurou a respiração durante alguns segundos, sentindo aquele pé estranhamente macio deslizando pelas suas costas úmidas, fazendo o caminho da sua coluna vertebral torta pela posição, subindo e descendo numa carícia quase dolorosa. Kenny tentou fingir por um segundo que não sentia aquele toque. Coçou o nariz com o polegar e depois deu mais uma tragada longa, deliciosa, fechando os olhos de prazer. A fumaça se esvaía no ar pouco a pouco quando ele soprou mais um bocado, alisando o dedão sobre isqueiro na sua outra mão antes de brincar de acendê-lo algumas vezes, distraído.

Os lábios carnudos de Kenny, unidos em uma linha reta tão séria, enrugavam um pouco no superior como se ele tentasse conter alguma palavra amarga na boca. Era um homem magro, cujas clavículas se mostravam salientes e o maxilar quadrado era visível, mesmo naquela penumbra. Os cabelos dourados estavam mais bagunçados do que de costume.



Looking out the door I see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe I'm too young
To keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so (you'll never know)

I'm broken down and hungry for your love
With no way to feed it
Where are you tonight? Child, you know how much I need it
Too young to hold on and too old to just break free and run



A música vinha do pequeno som preto que estava sobre a escrivaninha encostada sob a janela. A capinha do cd continuava aberta, vazia, esquecida, com a face de Jeff Buckley virada para baixo. Kenny não fazia ideia de que alguém ainda usava cds naqueles dias, mas tinha essa sensação forte de nostalgia que tornava a coisa toda muito deliciosa. Murmurava o ritmo lento da música e chegou a cantarolar baixinho o começo do refrão, mas não se delongou muito. Alcançou a mesa de cabeceira para largar o isqueiro sobre a pequena bagunça ali na superfície, junto com o jornal enrolado e o papel amassado de bombom, batendo as cinzas do cigarro no cinzeiro antes de dar a última tragada e esmagá-lo. Precisava diminuir, estava fumando uma carteira por dia e era uma batalha constante não abrir a segunda. Ele sempre gostou de acreditar que tinha pleno controle sobre seus vícios, e não o contrário, mas aquilo não parecia ser mais o caso há muito tempo. Se fosse, Kenny tinha certeza absoluta de que não estaria naquele quarto novamente.

Quando voltou a se virar na cama, deu de cara com Kyle Broflovski bocejando em uma careta que lhe pareceu absolutamente hilária, espreguiçando-se na cama até bater o punho na cabeceira sem querer, rindo fraco, com os olho lacrimejando de sono. Kenny sorriu ao engatinhar por cima dele, encaixando a coxa entre suas pernas grossas, alisando os cachos selvagens para trás, ainda molhados de suor. O rosto de Kyle continuava corado, quente pelo orgasmo que ele teve há menos de dez minutos. Kenny havia acabado de fodê-lo com tanta força que Kyle gemia para se mexer, sentindo a ardência incômoda entre as nádegas com marcas tão vermelhas dos dedos grosseiros do loiro, da palma da mão dele, as coxas brancas com chupões assustadoramente roxos de horas antes, assim como o pescoço logo dele, talvez tantas outras partes que Kenny não podia enxergar no escuro. Tudo o que fizeram naquele maldito dia foi trepar.



Sometimes a man gets carried away
When he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that, really
He has no one...

So I'll wait for you... And I'll burn
Will I ever see your sweet return, oh, or will I ever learn
Lover, you should've come over
Cause it's not too late



Kenny não teve, nem por um segundo, a pretensão de acreditar que aquilo não aconteceria. Ele foi até aquele apartamento perfeitamente ciente disso. Qualquer que tivesse sido o pecado deles – medo, luxúria, egoísmo, amor -, já estava feito.

Kyle ria, mesmo que não houvesse motivo algum – no caso, o que lhe pareceu absurdamente engraçado foi a maneira com que o cabelo de Kenny, repicado daquele jeito, tomava vida própria quando se molhava de suor e permanecia de pé, bagunçado, com um tufo loiro para cada lado, quando os fios se secavam – porque seu riso sempre era frouxo depois que gozava e Kenny amava isso. Poucos minutos antes, Kyle esteve no colo dele enquanto Kenny tinha o corpo largado na cama, a cabeça mal encostada no travesseiro, as mãos distraídas passeando pelas coxas macias daquele homem que – ele jurava – seria seu fim. O que Kyle sabia fazer com o quadril, Kenny procurou muito mundo a fora. Era difícil se satisfazer, mesmo com uma tibetana toda tatuada rebolando no seu colo, uma vez que ele tinha experimentado Kyle Broflovski subindo e descendo devagarzinho no pau dele, gemendo como se fosse a coisa mais deliciosa desse mundo, apoiando-se nos ombros ou nas coxas de Kenny, sabendo exatamente quando forçar inteirinho dentro para ficar só movimentando o quadril em círculos e contraindo. Daquela posição, Kenny podia ver o corpo inteiro daquele ruivo desgraçado, inclusive o sorriso sacana que insinuava aparecer por trás daquela carinha ruborizada de dor. Não cabia em seus dedos a quantidade de vezes que pensou nisso para se masturbar ao longo dos oito anos que passara longe de South Park.

–O que foi? — Kyle perguntou para a expressão dele, lendo naqueles olhos azuis brilhantes que ele pensava em sacanagem.



Lonely is the room the bed is made
The open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that won't ever come

It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when I sleep so soft against her...
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she is the tear that hangs inside my soul forever



Kenny pressionou os lábios quentes nos dele em um selinho demorado, sem beijá-lo, apenas aproveitando o toque e a respiração, sussurrando contra eles:

–Como é que eu vou ficar sem você, hein? Me diz.

Kyle ergueu um pouco o pescoço para retribuir o movimento dos lábios, segurando a cabeça de Kenny com firmeza contra ele como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento, mas logo desencaixou a boca dele e se afastou alguns centímetros para encará-lo sério, com uma expressão ilegível. Umedeceu os lábios trêmulos.

–Não precisa ficar sem mim.

O loiro riu, ou quase, num reflexo inconsequente, como se não levasse a sério as palavras do outro.

–Kyle...

–O quê?

–Por favor. A gente já falou sobre isso.

A verdade era que eles não tinham propriamente falado sobre isso. Kenny não soube ao certo porque disse que tinham. Talvez fosse a inquietável sensação de que não havia mais nada para ser discutido e desperdiçar o pouco tempo que ainda tinham em South Park debatendo coisas impossíveis e imutáveis soava como um estúpido gasto de energia. Por isso que já entrou naquele apartamento envolvendo o ruivo nos braços e tirando seus pés do chão, encostando-o na parede e beijando-o com tanta fome que a boca de Kyle continuava inchada. A expectativa nos olhos verdes bem à sua frente fez com que ele esfregasse a nuca e rolasse para o lado, caindo com o corpo ainda próximo ao de Kyle, a perna ainda entre as dele, mas afastando-se o suficiente para enxergá-lo direito.

Passou alguns instantes em silêncio, com as mãos sobre o peito, encarando o teto.

–Eu não vou te pedir pra ficar, Kenny. Só estou dizendo que é uma escolha. Ir embora é uma escolha.

–Mas ficar não é. Não é uma opção.

–Por quê? Eu não entendo.

–É claro. — Ele correu os dedos pelas entradas do cabelo loiro, mas a mecha voltava a cair sobre seus olhos. — É claro que você não entende. A cidade em que você cresceu é bonita. É charmosa, as pessoas se tratam bem, é segura e não tem muita fila no trânsito, todo mundo conhece todo mundo, a sua rua era um lugar maravilhoso pra jogar bola. Você fez uma excelente faculdade, tem um emprego bom, eu não consigo imaginar porque você iria querer sair daqui. A cidade em que eu cresci é um antro de gente fofoqueira que sussurrava “aquele garoto McCormick precisa mesmo de um banho” toda vez que eu passava. E todo mundo sabia que meus pais alugavam a garagem pra uns caras fabricarem metanfetamina. É um lugarzinho caipira de merda em que neva a porra do ano inteiro e se eu conseguisse ser mais do que um mecânico eu teria muita sorte, porque aqui, todo mundo sabe que eu vim do lixo. Eu não tenho problema nenhum com o fato de que eu vim do lixo, mas todo o resto dessa cidade tem. É um... — Ele ergueu as mãos em frente ao rosto, gesticulando. — É um buraco, Kyle. Isso aqui é um buraco em que te enquadram, te rotulam, te enfiam nessa ideia de que... — Kenny fez uma pausa inesperada, esfregando o rosto com as duas mãos. — De que você nunca vai ser porra nenhuma na vida quando você vem de onde eu vim. Eu não consigo lidar com os meus pais apodrecendo naquela mesma casa, repetindo as mesmas brigas, com as escolhas de merda do meu irmão... Eu amo a minha família. Tá bom? Eu amo pra caralho. Mas a ideia de fazer parte dessa vidinha medíocre, de precisar beber e se intoxicar pra segurar a barra e não saber quando vão cortar a eletricidade porque você tava drogado demais pra lembrar se pagou a conta... Isso é ser um McCormick aqui. É isso que eu sou quando eu tô aqui, e eu odeio isso.

–Você não é... — Kyle finalmente disse, intimidado pela ideia de intervir naquela fala tão intensa, pois era como se Kenny estivesse vomitando coisas que estavam encrostadas dentro dele há muito tempo. O ruivo o encarava com certa fascinação. Estava com o cotovelo dobrado sobre o travesseiro e a cabeça apoiada na mão. Levou a outra ao peito nu de Kenny para acariciá-lo. — Você não é medíocre. Nem aqui, nem em lugar nenhum.

–Mas é exatamente como eu me sinto. Um filho da puta ordinário que qualquer hora vai ser encontrado morto numa lixeira e não vai fazer diferença nenhuma. — Kenny se sentou de repente, abraçando os joelhos. — O que é patético. De verdade, é patético, porque eu descobri que existe vida fora daqui. Existe um mundo inteiro lá fora, eu vivi em lugares que me tiravam o fôlego todo dia, Kyle. Todo santo dia. Eu acordava e olhava pela janela... E porra, fazia sol. Você sabe como é delicioso morar num lugar em que tem brisa do mar e sol? Onde ninguém sabe quem você é, ninguém te olha como o filho do fulano, o pobre coitado que vai limpar privada a vida toda? Eu era garçom, caralho, mas eu era feliz porque eu podia ser qualquer coisa. Eu já trabalhei num aquário limpando tanque, eu já fui instrutor de esqui, eu já pulei de para-quedas quando eu morrei em Camberra.

Kyle coçava o topo da cabeça e ria pelo brilho nos olhos dele. Havia um esboço de sorriso triste em seus lábios por compreender, pelo menos em parcela, o que Kenny queria dizer com aquilo tudo.

–E pra onde você vai agora? — Perguntou, surpreso com o fato de que não tinha se dado ao trabalho de questionar isso até aquele momento.

–Pra Alemanha. Rostock. Eu morei lá uns dois anos, tenho bastante amigo lá, gente que vai me arrumar emprego. É apaixonante, Kyle. Parece que é uma cidade toda feita daqueles bloquinhos de madeira de montar que você tinha, que o Ike engoliu uma peça, lembra?

O ruivo cobriu a boca ao soltar uma gargalhada, um dos sinais do seu senso metódico de educação. Não era realmente engraçado, Kyle se lembrava do pavor de sua mãe gritando, ainda que tivesse sido uma reação tipicamente exagerada. Ike engoliu uma peça pequena, um dos triângulos do telhado, e já tinha uns quatro anos quando a coisa aconteceu. Não era o que se podia chamar de fase oral, talvez ele apenas estivesse genuinamente curioso com o gosto da madeira. Mas a forma como Kenny tocava em uma lembrança tão traumática, com aquela leveza natural dele, sempre arrancava uma risada do ruivo.



Maybe I'm just too young to keep good love from going wrong
Oh... Lover, you should've come over...
'Cause it's not too late...

Well I feel too young to hold on
And I'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage I've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love, well I'm waiting for you

Lover, you should've come over



–Você amaria Rostock. — Kenny disse de repente, encarando o nada no quarto escuro, passando a língua pelo lábio inferior devagar. — Eu lembrava tanto de você lá que chegava a me fazer mal. Sabe?

–Por quê?

–Porque você combina com um lugar maior. Não uma metrópole, só um lugar em que não se pense tão pequeno, em que você tenha espaço pra esse seu intelecto insano, pra trocar ideia com gente livre, sabe, em que você não tenha que abaixar o tom pra falar com os caipiras.

–Eu amo esses caipiras, Kenny.

–Eu sei. Eu sou um deles, só tô dizendo que eu não acho que você pertença a esse lugar também.

O ruivo franziu a testa como se não quisesse confiar no primeiro instinto da interpretação daquelas palavras. Sentou-se também, puxando o lençol para cobrir as pernas dobradas. Ele nunca gostou de continuar completamente exposto depois do sexo, mas Kenny nunca acreditou que fosse exatamente por vergonha, pois a vergonha não combinava em nada com Kyle. Era mais uma questão de preservar a nudez para os momentos íntimos em vez de banalizá-la, como se aquilo pudesse preservar o mistério que só existe no começo de uma relação. De uma forma curiosa, funcionava. A nudez de Kyle continuava sendo algo extraordinário para Kenny, mesmo que conhecesse aquele corpo inteiro de cor.

–Onde quer chegar com isso?

–A lugar nenhum. — O loiro respondeu quase em defensiva, encolhendo os ombros.

–Eu tenho um emprego aqui, Kenny. Eu não falo alemão. Todos os meus amigos e família estão aqui, então se você estiver insinuando alguma coisa...

–Seria tão ruim assim se eu estivesse?

Kyle não tinha uma resposta para isso. Separou os lábios como se tivesse, mas nenhum som foi emitido, então ele apenas deixou o ar escapar pelas narinas num suspiro cansado e riu constrangido, sacudindo a cabeça. Kenny não sorriu. Permanecia com os olhos fixos nele, a cabeça pendendo para frente, com algumas mechas do cabelo caindo por cima dos olhos, que ele logo afastou para o lado.

Diante do silêncio dele, depois de esperar mais alguns segundos, Kenny correu a mão pelo topo da cabeça e começou a falar duas vezes, gaguejando, tropeçando nas palavras que ele não podia encontrar, tentando ao seu máximo parecer racional.

–Eu sei que isso é ridículo, talvez eu ainda esteja meio chapado de orgasmo, sei lá. Mas eu sei que a gente tem algo aqui. Algo forte o suficiente pra te assustar e você tentar correr pro teu relacionamento, eu sei que você não terminou porque tava louco de amor pelo Cartman. Kyle... — O loiro esticou a mão para tocar o rosto quente dele, correndo o polegar pela bochecha corada. Kyle o escutava com atenção. — A gente fez tudo errado. Mas isso não muda o fato de que isso aqui é a porra mais certa da minha vida.

–E você quer que eu vá com você? É disso que nós estamos falando?

O dedo correu por cima dos lábios rosados dele, apenas por um segundo, pois logo Kenny abaixou a mão como se a pergunta tivesse, de repente, deixando-o tímido. Ele finalmente conseguiu sorrir ao ficar de frente com o absurdo daquela proposta.

–Bom, eu quero um monte de coisa.

–Kenny... — O loiro conhecia aquele tom de cor, o tom de um adulto que tentaria explicar o óbvio a uma criança. O tom era ainda mais intensificado pelas mãos do ruivo que gesticulavam, os dedos finos que ele erguia um pouco abaixo do rosto, que falavam junto com ele. — Eu tenho trinta anos.

–Vinte e nove. — Ele interrompeu de uma forma dolorosamente charmosa, como se esperasse um agrado pelo elogio, sorrindo com o canto da boca. Kyle riu, concordando com a cabeça.

–Tanto faz, a gente já passou muito da hora de ser mochileiro na Europa.

–E quem é que vai ser mochileiro? Você acha que eu tenho idade pra isso? Não, eu vou alugar um apartamento... Não vai ser de frente pro mar Báltico, porque eu ainda não tenho dinheiro pra isso, provavelmente eu nunca vou ter. É uma pena, sabia que lá tem OVNI?

–O quê? — Kyle franziu as sobrancelhas, rindo, voltando a se deitar, agora de bruços, abraçando o travesseiro. — Não tem não.

–É sério.

O ruivo gargalhou da honestidade daquela resposta, lembrando da quantidade de revistas sobre o pé grande e monstros do lago que Kenny deixou para trás quando se mudou do apartamento em que moravam juntos na época em que namoravam. Ele adorava esse tipo de coisa. Em muitos aspectos, quando Kyle olhava para aquele homem feito ao seu lado, ainda tinham tantas coisas idênticas ao menino que ele era oito anos antes, quando deixou South Park com o nada que tinha. Aquilo era tão envolvente e tão aterrorizante ao mesmo tempo.

–Pensa comigo... — Kenny prosseguiu, também voltando a se deitar de lado, encarando o outro de frente, levando os dedos pelos cachos vermelhos para enrolá-los com toda gentileza. Era impressionante como a mão de Kenny era grosseira, uma pele áspera e cheia de calos, mas seu toque era a coisa mais doce que Kyle já sentira. — A gente não precisaria de muito espaço. Eu continuo pobre, não vou te dar um quarto do que o Cartman podia, mas... Ultimamente, eu sinto que não preciso de mais nada no mundo além de você sem roupa deitado num colchão. — Ele aproximou os lábios da testa de Kyle, inalando o cheiro do cabelo dele. — Você ficaria louco conhecendo a história europeia, a gente se enfia num trem e viaja pela Alemanha inteira, você pode conhecer os quadros do Chagall de pertinho, como você sempre quis. Já pensou? Morar num lugar em que você pudesse ter um mínimo de acesso a cultura, essa frescalhagem que você ama? Eu ainda tenho uma grana guardada, faz tempo que eu quero comprar um carro, mas só quando eu soubesse que eu queria mesmo criar raiz. Eu não consigo pensar em um motivo melhor.

A naturalidade na voz rouca de Kenny fazia com que cada pelo do corpo de Kyle se arrepiasse com a tentação daquela ideia lúdica, romântica, idiota. Seu estômago doía toda vez que pensava que o tempo que eles ainda teriam juntos era cada vez mais curto. Doía, também, ao pensar na grandeza daquela proposta absurda que Kenny jogava como se fosse um convite para jantar. Ele era tomado pela necessidade corrosiva de tomar uma decisão, porque tudo o que fez nos últimos meses foi sentar e esperar que as coisas tomassem um rumo próprio. Kyle precisou se afastar dele por impulso, com a respiração alterada, levantando-se da cama rapidamente e procurando as roupas no chão para começar a se vestir.

Kenny o fitou por alguns instantes, até que ele terminasse de fechar a calça.

–O que você...?

–Vista-se. — Kyle disse, jogando o jeans escuro de Kenny na direção dele. — Se você vai falar absurdos comigo hoje, eu quero pelo menos estar bêbado. Eu não quero pensar. Nós vamos sair.

* * *

A rua em que Stan morava era absolutamente silenciosa depois das sete da noite, quando nenhuma das mães deixava mais as crianças brincarem no quintal e os adolescentes se recolhiam para fumar e beber dentro de casa em função do frio. Quando passava um carro, em especial à noite, não havia casa que não pudesse ouvir o som do motor se aproximando. Na maioria das vezes, eram os próprios moradores, pois o bairro era pequeno e residencial. Os carros e os rostos já eram conhecidos. Aquele silêncio soava aos ouvidos de Stan como música soava para a maioria das pessoas. Era agradável, harmonioso, tudo de que ele precisava quando se sentou na grande poltrona verde-escuro da sala e cruzou as pernas, deixando a taça de vinho sobre a mesa de centro. Stan usava seus óculos de leitura cuja haste era preta, escura e quadrada. Vestia um suéter azul marinho que fazia com que sua pele parecesse ainda mais branca. Estralou os dedos antes de pegar novamente o livro – O apanhador no campo de centeio, que ele demorou anos para aprender a admirar – que pousara sobre a mesa, cujo marcador estava na página 134. Não teve tempo de tocar a capa do livro quando começou a ouvir, ao longe, uma música. Não era um volume estrondoso, nem mesmo era alto o suficiente para que ele pudesse identificar a música, mas em poucos segundos ele teve certeza de que o som vinha de um carro que estava estacionando em frente à sua casa.

Ele só se levantou quando viu a luz do farol de relance pela janela, ainda que a cortina branca estivesse fechada. Espiou pela janela rapidamente, reconhecendo logo o Fiat azul velho de Kyle. Ele já tinha aquele carro há cinco anos, mas já o comprou de segunda mão. Cartman se ofereceu inúmeras vezes para comprar um novo e Kyle recusou veementemente, algo que deixou Stan bastante satisfeito. Eles não tinham pouca história com aquele carro.

Stan respirou fundo e foi para fora, deixando a porta da frente aberta, descendo cuidadosamente as escadas da varanda, esfregando as mãos uma na outra pelo frio. Reconheceu que tocava Little Willy ao se aproximar do carro, e dentro do veículo, o volume era um pouco mais do que absurdo. Já se aproximou rindo ao enxergar o sorriso contente e os olhos vermelhos de Kenny no banco do passageiro. Kyle parecia ligeiramente alegre, no máximo, ao volante. Ele abaixou o vidro e Stan apoiou as duas mãos na janela.

–Cara, que merda vocês tão fazendo? — Perguntou sorrindo.

–Te sequestrando. — Kyle destrancou as portas. — Entra no carro, Stanley.

Ele soltou um riso breve como se não levasse a sério, mas não deixou de lançar um olhar confuso para aquela cena peculiar. Kenny abaixou um pouco o volume do rádio e se inclinou na direção dele, com o rosto muito próximo do de Kyle, parecendo que tinha algo a dizer, mas apenas olhou para os dois com o mesmo sorriso largo e imbecil nos lábios.

–Pra onde?

–Isso ainda tá em discussão. Você tá sozinho aí mesmo, anda logo. — Kyle disse com propriedade. Às vezes, Stan ainda se esquecia do quanto os dois tinham acesso constante à vida um do outro ao ponto de Kyle saber os horários de Sally de cor. Ele sabia que nas quintas e terças à noite ela jogava baralho com as amigas da faculdade. — Vamos, não vai demorar.

–Tá, mas... — Ele endireitou as costas e colocou uma das mãos no bolso, estudando os dois rostos, desconfiando. — Isso significa que vocês...?

–A gente não sabe. — Kenny respondeu, abrindo o porta-luvas para erguer um pequeno saquinho plástico. Estava escuro, mas não o suficiente para Stan não reconhecer a erva. — Isso também ainda tá em discussão.

Stan teve um breve momento nostálgico, como se estivesse preso em um flashback do final da adolescência deles, quando Cartman roubava o carro de sua mãe em horários alternativos, Kenny conseguia a maconha com seu irmão e eles sempre apareciam assim, sem avisar, sem telefonema, sem mensagem, com o carro cheio de cerveja ou coisa pior. Eram tempos muito mais simples e a lembrança o fez sorrir. Sentiu que os dois precisavam de uma boa dose de nostalgia também. Suspirou fundo, esfregou o rosto como quem não acreditava no que estava prestes a dizer.

–Tá. Eu vou pegar meu casaco.

Notas finais
O próximo capítulo é o último. Já tô chorando de saudade. Muito obrigada a todos os guerreiros que aguentaram chegar até aqui.