Toy Box

1 *The hunter


Por curiosidade, ou sabe-se lá o que, me invitaba a cada rato a adentrar-me no emaranhado de quartos e lacunas das dependências de nossa firma. Desconheço da razão, mas desde sempre tive a necessidade em mim de conhecer o que não era intimamente meu, por saber que, de certa forma, tudo o que não é nosso se torna mais acessível e neutro ao que somos e pensamos. Também, por não ter muito o que fazer, detinha-me a observar o mais singelo e inútil das coisas. Aquela chave fora um de meus maiores feitos e furtos.

« E, num momento de pura intimidade, o lobo ergueu suas imensas garras e logo já não era. O estalar do giro da maçaneta, um convite ao desconhecido de meu ser. Coração saltando, o predador não se intimida — ele logo é. Com silêncio e descrição, a pressa morria e seu sangue era delicioso. O cheiro estranho de roupas surradas ao castigo do tempo, escondiam uma essência de colônia vencida. Aquele era um retrato de quem já conhecia. Conjuntos inorgânicos de coisas revelavam mais do que se imagina. Orgulhoso, ele já estava alimentado, pronto para o dia seguinte — um pequeno furto, o que seria? »

Na verdade queria muito mais do que isso, mas só convém o que se é degustado a passos lentos.