Toxic
4 Capítulo 4
Notas iniciais
As marcas roxas pelo meu corpo estavam gritantes, meu olho roxo e inchado se escondia sob os óculos escuros. A roupa inteiramente preta deixava minha pele mais pálida do que já estava, graças a falta de alimento ingerido. Meu lábio inchado estava avermelhado devido ao corte aparente. Olho para o porta retrato voltando a chorar compulsivamaente... Não era justo... Era tudo culpa minha. Era eu quem deveria estar naquele caixão.
A porta abriu e eu me apressei em secar o rosto, não queria sentir o peso dos olhares cheios de pena ainda mais do que o normal. Olhei para a porta e lá estava ele, um olhar sem expressão e com as mãos nos bolsos da calça social preta, comprimi os lábios para que ele não notasse o machucado. Hoesok sabia que eu não queria ser tratado diferente dos outros dias, então ele estava quieto.
—Porquê está de óculos escuros? — Perguntou estranhando aquele acessório que eu quase nunca usava.
—Não quero que as pessoas me vejam chorar. — Respondo rápido e volto a comprimir os lábios, vendo sua testa franzir.
—Você nunca se importou com isso. — Afirmou. Abaixei a cabeça ao vê-lo se aproximar. Hoseok tirou o objeto do meu rosto e eu tentei fazer com que ele não visse meu rosto, mas ele o segurou entre as mãos e levantou minha cebeça, me olhando assustado. — Tae... — Analisou meu pescoço e viu alguns machucados por alí.
Hoseok tirou meu terno e abriu os botões da minha camisa, tirando-a do meu corpo e vendo os hematomas por todo meu tronco, não se esquecendo de me virar para conferir se o mesmo estava presente em minhas costas. Ele levou as mãos até a sua boca e eu me encolhi, escondendo meu rosto entre meus joelhos voltando a chorar. Sentí seus braços me envolverem em silêncio e assim ficamos até ouvir meu nome ser proferido no andar de baixo de forma agressiva. Hobi me ajudou a recolocar a blusa e o terno, me entregando os óculos e me acompanhando até o carro que iria nos levar até o velório.
Meu pai não chamou ou avisou muitas pessoas sobre o ocorrido, apenas a colega de trabalho da minha mãe, a minha tia e o meu avô. Hoseok e Jin fizeram questão de ficar ao meu lado, Jimin lamentou por estar viajando e disse que logo que chegasse iria me visitar... Já haviam se passado um mês desde que parei de falar com o Jungkook. Eu tento todos os dias me convencer de que fiz a escolha certa, de que tirar isso... Ele da minha vida seria o melhor a se fazer. Por isso não avisei ou sequer entrei com contato.
Fiquei muito tempo ajoelhado no tapete áspero enquanto olhava para sua foto... Minha foto favorita. Ela estava sorridente, feliz. Eu havia tirado aquela foto. Naquele dia nós estávamos brincando no jardim e assim que ela deitou na grama com um belo sorriso eu bati a foto. Como eu vou viver sem ela?
Me levanto depressa e saio daquela sala o mais rápido que posso, caminho pelos corredores até que alcanço a porta de saída. Consigo ouvir Jin gritar meu nome, mas não paro para olhar para traz. Continuo caminhando depressa até que alguém segura meu pulso, o qual puxo depressa sem saber quem havia me segurado. Olho para trás e lá está ele, com os olhos tristes e todo vestido de preto. Vê-lo alí na minha frente só me fez sentir ainda mais vontade de chorar, então sem que eu pudesse controlar as lágrimas vieram, desesperadamente, me sufocando. Me sentí ser abraçado e uma mão fazer uma carícia consoladora em minhas costas. Chorei mais e mais desejando que aquele dia acabasse logo.
—Eu sinto muito, Tae. — Jungkook disse com a voz embargada.
—Eu disse para ela, hyung. — Hoseok franziu a testa. — Eu disse para ela o que aconteceu na festa do Jimin e o que houve depois disso, mas ele ouviu tudo...
Hobi continuou me encarando, sua expressão passando de preocupada para triste.
—Ele me bateu tanto, disse tantas palavras nojentas... Ela tentou me defender, Hobi, mas ele a arrastou para o quarto deles e a trancou lá... Eu estava tão fraco, mas ele voltou e continuou a me bater. Eu achei que ele ia me matar, mas minha mãe de alguma forma conseguiu sair do quarto e disse que ia chamar a polícia. — Conto suspirando. — Ela saiu de casa naquela tarde para comprar remédios e curativos para mim, mas não voltou mais para casa. Os policiais disseram que as câmeras de segurança das ruas mostram que ela foi assaltada no caminho e que tentou reagir. Foi por isso, hyung.
—Meu Deus, Tae. — Hoseok se apressou em se aproximar e me abraçar apertado. — Porquê não me contou antes?
—Porque eu sinto que foi minha culpa, falar disso doi tanto...
—Não foi culpa sua, foi um acaso Taehyung. Não se torture com essas coisas, você merece ser feliz. — Hobi se afasta e me oferece um sorriso. — Vou fazer seu café da manhã, sim? Tenho certeza que comer vai animar você. — Ele deixou um beijo na minha testa e se afastou.
Suspirei com os olhos fechados e me joguei contra o cadeirão.
—O que você viu nela? — Jimin pergunta me encarando.
—Eu não sei. — Observo a loira que estava encostada na árvore do pátio rodeada por suas amigas. — Acho que o jeito que ela não liga para a opinião dos outros.
—Ela é uma inconsequênte, isso sim. — Jin fala.
—Vocês viram o jeito que ela defendeu o Youngjae? Ela estava a ponto de entrar em uma briga com os valentões.
—Tae, toma cuidado, okay? — Hoseok fala. — Ela não é como as outras garotas que você namorou.
—Como assim? — Pergunto confuso.
—Do que estão falando? — Kook aparece e senta ao meu lado, colocando o braço sobre meus ombros.
—A nova vítima de Kim Taehyung. — Jin fala sorrindo, sendo acompanhado pelo Jimin.
—Quem? — Jeon me olha curioso e eu aponto com a cabeça na direção da garota.
—Sungmi.
—O que você viu nela? — Jungkook pergunta sem tirar os olhos da linda vista que tinhamos aqui de cima.
Eu não aguentava mais ouvir aquela pergunta. Ia começar a falar a mesma coisa mecânica de sempre, mas então parei para pensar melhor. Traguei o material tóxico que segurava entre os dedos e pensei... Nesses cinco meses que estávamos juntos tinha percebido muitas coisas nela que me encantavam.
—Ela é segura do que quer. Não é porquê namoramos que nós ficamos nos agarrando a todo momento, não... Ela conversa comigo sobre tudo, ela gosta de me fazer sorrir, é engraçada e carinhosa do jeito dela... Ela me faz esquecer dos problemas. — Digo satisfeito com minha resposta cincera.
—Você a ama? — Jungkook toma o material da minha mão e o atira para longe enquanto fazia uma careta.
Amor? Amor é quele sentimento que te faz tremer e suspirar, que te faz sorrir e chorar sem motivos, que faz você se arrepiar quando sente o cheiro ou ouve a voz daquela pessoa. Amor surge aos poucos e nunca vai embora...
—Não chega a isso... Mas eu estou muito apaixonado. — Confesso.
—Vai, Taehyung. Deixa de drama. — Ela fala suspirando.
—Drama, Sungmi? Você está chamando de drama? — Sorriu e tento passar por ela para alcançar meu portão. — Droga, sai da minha frente.
—Sim, drama. Qual é, eu estava bêbada, não foi nada de mais.
—Não foi nada de mais. — Repito suas palavras. — É a oitava vez, Sungmi. A quarta só durante esse mês.
—Vamos lá, amor. Você vai me perdoar, sabe que sim. — Sorriu maldosa. — Você sempre me perdoa. — Falou se aproximando e segurando a gola da minha jaqueta. Ela estava me enojando. Não era como das outras vezes que eu chorava e sofria... Já não é assim a algum tempo, e só o que me fazia perdoa-la era a esperança de que eu poderia voltar a ser feliz como ela me fazia feliz no início. — Eles não significam nada.
—Então você dorme com todos esses caras, vem até aqui me dizer que eles não significaram nada com toda essa naturalidade e quer que eu te perdoe mais uma vez? — Pergunto descrente. — A desculpa da bebida não cola mais, você ja deixou mais do que óbvio que não faz essas coisas por ser inconsequente, você faz porque quer.
—Não custava nada tentar. — Ela revira os olhos. — Você sempre me perdoa mesmo, Taehyung, não tem nem graça, não preciso implorar ou fazer promessas. Era mais emocionante no início... Sabe, eu enjoei de você, Taehyung. Eu gostava de toda aquela atenção no início... — Ela cruza os braços e olha para os pés, chutando alguma pedra. -Todos aqueles presentes e aquele carinho. Era fofo. Mas você é carinhoso demais, atencioso demais... Meloso demais. — Ela me encara e suspira. — Em todo nosso relacionamento você sempre fugia ou tentava evitar me beijar ou dormir comigo... Ai eu descobri o problema... Você mesmo me disse como se não fosse nada, mas eu sabia que era alguma coisa... E já que você não queria, tinha quem queria, e sabe, eu não me arrependo de nenhum deles. — Ela sorri... Nojo. Foi o que eu senti ao vê-la sorrir desse jeito. — Você é chato e deveria aceitar do que você realmente gosta.
—Some da minha frente, Sungmi. Se me vir em qualquer lugar não ousa falar comigo. — Dei as costas para ela e entrei em casa, batendo a pota com força.
Depois de horas olhando pro nada repassando cada palavra que ela me disse e me negando a chorar, resolvi ligar pra alguém. Jungkook me disse que ia sair com alguém, então não havia chances de eu encher o saco dele com isso. Jin deveria estar dormindo, já era tarde e o dia foi cansativo. Jimin sumiu desde ontém. Liguei pro Hobi e esse foi o meu erro. As lágrimas começaram a cair desesperadamente enquanto falava com ele.
Qual é o meu problema? Eu nunca vou conseguir ser feliz de verdade?
"Tae, toma cuidado, okay? — Hoseok fala. — Ela não é como as outras garotas que você namorou"
Eles tentaram me avisar, o tempo todo... "Ela é tóxica"... Foi o que eles mais disseram... Eles tinham razão. Ela me intoxicou aos poucos, foi sugando a pouca felicidade que me trouxe e a que ainda me restava.
Levanto apressado e procuro meu estojo vermelho, agarro as chaves do carro e saio do quarto, descendo as escadas correndo.
Fale com o autor