Tower Bridge
1 Sole.
Notas iniciais
Lá estava ela, correndo, em plena madrugada, por uma viela escura e mal frequentada. Talvez não tão mal frequentada quanto ela imaginava.
Rio Tâmisa
"Que ótimo, depois de tudo o que aconteceu esta noite, acabei de caminhar três quilômetros sem, ao menos, perceber. E o "melhor" de tudo: minhas pernas me trouxeram justo para este lugar..."-pensava consigo mesma
Aproximou-se das grades, encarando as águas enegrecidas pela noite, soprava uma leve brisa, mas que já servia para causar-lhe arrepios, devido ao vestido fino, inadequado para o inverno.
—Oi, moça. -falou uma voz atrás dela
Um pouco assustada, foi virando-se devagar:
—Olá...
—Não precisa ter medo, não sou um estuprador ou algo do tipo. -disse o dono da voz, um rapaz magro, alto e com um sorriso simpático.
—Fico mais tranquila, se bem que, se você fosse um estuprador ou um serial killer diria exatamente isso.
—Garota esperta, mas eu juro que sou apenas um rapaz caminhando à noite em Londres.
—E, mesmo que não tenha perguntado nada, sou apenas uma garota caminhando, sozinha, por uma ponte.
—Ei, você não está com frio? Estamos em dezembro e o clima não está muito agradável para andar, de madrugada, às margens de um rio de uma das cidades mais frias da Europa, vestindo apenas um vestido. -falou com um sorriso
—Concordo com você, mas saí com tanta pressa, que nem peguei um agasalho ou algo do tipo...
—Não seja por isso, fique com o meu casaco.
—Não! Quer dizer, acho melhor não, afinal, nem nos conhecemos.
—Oh! É mesmo, que falta de educação a minha. Muito prazer, sou... bem, sem citar nomes, tenho vinte e três anos, moro em um prédio no Covent Garden. -fez uma ligeira reverência
Sorrindo divertida com a atitude do rapaz, esqueceu-se, ou melhor, deixou para lá, o motivo de sua, antes, melancolia. Resolveu entrar na "brincadeira":
—O prazer é todo meu, sem citar nomes também, tenho vinte e duas primaveras londrinas, moro nos arredores de South Bank Centre.
—Ótimo, agora, por favor, pegue este casaco.
—Ainda não sei muita coisa sobre você.
—Bom, vamos fazer assim, coloque o casaco e vamos tomar um café, assim nos conhecemos melhor.
—Acho que isso não seria... errado.
—Vamos?
—Sim.
—Antes, coloque o casaco.
—Tudo bem, tudo bem...
Ela colocou o casaco e o rapaz estendeu-lhe o braço. Aquela proximidade com o "estranho" não estava desconfortável, pelo contrário, ele irradiava um calor próprio, que a aquecia, mas não era apenas pelo calor, apesar do frio que fazia, ela sentia-se confortável, protegida, como quando se é criança e, depois de uma desilusão, correr para os braços de alguém em que se tem plena confiança, deitar-se em seu colo e receber afagos no cabelo até pegar no sono, com a pessoa insistindo que tudo vai ficar bem.
—Posso saber o quê uma moça de vinte e dois anos, ou melhor, "vinte e duas primaveras londrinas" faz vagando sozinha por uma ponte? Confesso que se estivesse acompanhada entenderia perfeitamente, já vivi várias aventuras desse tipo. Mas, fiquei curioso quando a vi.
—Bem, eu mal te conheço, mas, por incrível que pareça, sinto que posso confiar plenamente em você.
—Isso quer dizer que vai me contar?
—Tudo bem, estava me preparando para o jantar tradicional da família, passei o dia todo ajudando mamãe com os preparativos, essa noite seria muito especial para mim...
—Por quê? Quer dizer, por qual motivo essa noite seria especial?
—Essa noite... eu...eu iria, finalmente, rever Joey, passamos três anos sem nenhum tipo de contato...estava ansiosa, fiquei no aeroporto durante três horas e...e q-quando o vi...-contava com os olhos marejados, soluçando, provavelmente revendo a cena
—Ei, se não quiser falar, tudo bem. Eu só estava curioso, mas sou um idiota por não ter percebido que esse assunto lhe traria lembranças tristes... -falou negando com a cabeça e enxugando uma lágrima do rosto da moça, ela, por sua vez, respirou fundo e prosseguiu:
—N-não, quer dizer, acho que seria bom falar com alguém...bem, quando o vi, ele estava mais lindo do que nunca, irradiava felicidade... fui tão ingênua, pensei que estivesse feliz por estar voltando. A noite chegou e ele parecia apreensivo, no carro, nem tínhamos conversado direito, ele ficou a maior parte do tempo contando onde esteve...
A moça respirou fundo novamente, mas dessa vez as lágrimas já corriam livres por seu rosto:
—Não demorou muito para descobrir o motivo da apreensão, por volta da meia-noite, uma mulher chegou com uma garotinha nos braços. O rosto dele se iluminou, saiu correndo e deu um beijo na mulher, um beijo que nunca tinha dado em mim, tomou a garotinha nos braços, era um bebê de colo... -fez uma pausa, respirou fundo entrecortada por soluços e continuou, dessa vez olhando para o céu- Joey dirigiu-se a família "Essas são Luana, minha esposa, e Marie, nossa linda filha...". Aq-quilo foi como uma fac-cada no meu peito, ele nem se dignou a terminar comigo...não as culpo, afinal, não quero destruir uma família...mas doeu, aquilo doeu muito. Depois de devidamente apresentada para a nova família, dei uma desculpa qualquer e saí correndo...
—É... será que eu posso te dar um abraço? Afinal, sou um estranho.- uma sombra de sorriso passou pelo rosto da moça e ela balançou a cabeça no que o rapaz puxou-a para um abraço desajeitado.
—De todos os lugares de Londres, as minhas pernas me levaram para aquela ponte...foi lá que nos conhecemos, era verão, um dia surpreendentemente quente, nos esbarramos um no outro...
—Pare, lembrar-se disso só vai trazer lembranças tristes. Ei, garçom! Dois chocolates quentes, por favor.
—Obrigada...mas, e você? O que fazia de madrugada, naquela ponte?
—Eu tenho costume de andar à noite, hoje, em especial, perdi o sono e foi até bom.
—Bom? Por quê? Eu, quando perco o sono fico mal-humorada.
—Foi bom, pois nos encontramos.
—Aqui estão os cafés, senhor.
—Muito obrigado, quanto?
—Bom, é por conta da casa.
—Não! Eu insisto em pagar, quanto lhe devo?-disse já puxando a carteira do bolso do moletom
—Já disse: é por conta da casa, cortesia para o casal. -o garçom já estava com um sorriso divertido
—N-não somos um c-casal. -disse a moça corada e com os olhos arregalados
—Mil desculpas! Eu achei que... bom, deixa isso pra lá e o senhor, por favor, guarde a carteira.
—Mas...
—Não, senhor eu não irei aceitar pagamento! Não insista, senão terei que dar donuts cortesia para vocês!
—Não! Mais coisas sem pagar! Não!
A garota já gargalhava perante o desespero do rapaz.
O garçom se retirou, e a garota puxou assunto, iniciando uma conversa animada sobre música, assunto esse, que os dois adoraram debater. Passadas duas horas, a manhã já chegava.
—Bem, acho melhor irmos embora.
—Idem. Vou para casa, pôr a vida em ordem.-disse a moça já se levantando.
—De jeito maneira! Vamos à minha casa, quero mostrar-lhe minha coleção dos Beatles.
—Mas... -o garoto rapidamente botou o dedo indicador nos lábios da moça:
—Não aceito não como resposta.
De mãos dadas, foram até um prédio nas proximidades do Covent Garden, entraram no elevador, as portas se abriram quando estavam no bloco da cobertura.
—Você mora na cobertura?
—Sim.
—Mas, por qual motivo, razão ou circunstância não me disse?
—Você não perguntou. -deu de ombros
Entraram no apartamento 608, era um lugar amplo, mas muito bem ocupado com objetos variados, pelo que a moça pôde perceber estavam na sala, pegou-a pela mão e a levou até o quarto, o lugar tinha uma cama "gigante" e era todo decorado em laranja e azul, ele abaixou-se na frente da cama e tirou, de debaixo dela, uma caixa plástica verde, estava um pouco empoeirada, mas quando a abriu os olhos da moça brilharam com o conteúdo da caixa: todos os cds dos Beatles, até os mais antigos em forma de disco de vinil, em perfeito estado de conservação. O garoto foi até um cd player e Let It Be começou a ecoar pelo quarto. A moça, ainda parada olhando a coleção nem percebeu quando o rapaz se postou na sua frente, com a mão estendida e fazendo uma breve reverência. Só foi desperta quando ele falou:
—Me concede essa dança?
—C-claro.
Ele, gentilmente, segurou a cintura fina da moça, ela enlaçou o pescoço do rapaz e dançaram, em passos lentos, no meio do quarto.
—Na verdade, eu não estava na ponte por falta de sono, eu... e-eu iria me suicidar.
—O quê? Por qual razão?-ela afastou-se dele assustada, mas ele puxou-a de encontro ao seu corpo novamente
—Eu...eu não sei...
—Por favor, não tente mais contra a sua vida, você é tão gentil...
—E-eu estava me sentindo tão só, estava virando um homem frio, muito diferente de quem realmente sou, há muito tempo eu não era essa pessoa que sou agora... Estava quase concluindo meu objetivo, mas vi uma pessoa correndo na direção do muro, por um momento pensei que você tivesse o mesmo objetivo que eu, fiquei te observando, mas a tal moça só ficou lá, parada, olhando para a água... resolvi me aproximar, já que iria deixar o mundo hoje, quis fazer uma última boa ação, resolvi dar-te o meu casaco, imaginei que estivesse com frio pois a roupa que usa não é muito adequada para a estação...
—Por isso insistia tanto...
—...mas quando virou-se para mim, um choque percorreu meu corpo, imaginei o que uma moça loira, com uma pele de porcelana e olhos tão doces estaria fazendo ali, sozinha, no meio da madrugada...depois das poucas palavras que trocamos eu confesso que já estava desistindo do meu real objetivo, mas desisti por completo ao ouvir sua história, você se mostrou tão forte e tão frágil ao mesmo tempo e eu me senti um lixo, a sua história é realmente triste, e, mesmo assim, você não estava se fazendo de vítima, não estava tentando tirar a própria vida...
—Ei! Não fale isso de você mesmo, você é doce, divertido, tem senso de humor é... é perfeito.
—Ninguém é perfeito, mas há pessoas que se aproximam da perfeição e você, sem dúvida, é uma delas...
—Você não me deixou terminar, você é perfeito, mas não perfeito como a sociedade julga que devemos ser, é perfeito do seu jeito, é perfeito na minha concepção, é perfeito para mim...-a moça arregalou os olhos depois de dizer isso, estava se apaixonando por um estranho?
—E você é perfeita perante todos, mas é perfeita para mim, imperfeitamente perfeita para mim...-o rapaz sorriu, pensando que finalmente havia encontrado o que lhe faltava, amor.
—Está me chamando de imperfeita?-sorriu divertida.
—Sim, imperfeita por ser perfeita justo para mim...
Ele, gentilmente levantou-lhe o queixo, fazendo com que olhasse nos seus olhos, as duas bocas se tocaram, se encaixaram perfeitamente, pareciam um ser só...
—Pelo visto o garçom acertou, pois viramos realmente um casal. Não é?-ela sussurrou contra os lábios dele, os dois sorriram.
—Se você quiser, nós somos.
—A propósito, meu nome é Dorcas, Dorcas Meadowes.
—O meu é Remus, Remus Lupin, prazer.
—O prazer é todo meu.
Beijaram-se novamente, mas desta vez, quando o beijo acabou, eles se abraçaram e encostaram as testas olhando-se nos olhos.
Talvez o Papai Noel tenha dado um presente muito especial de Natal para os dois.
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