Notas iniciais
Inspirado levemente no livro "O retrato de Dorian Gray."

“Os sonhos são verdadeiros enquanto duram, e não vivemos nos sonhos?” –Alfred Tennyson.

Enquanto Abraxas observava os braços esguios de Tom se movimentarem para pintar seu rosto, se perguntava como ele conseguia ser tão bonito e mal se dar conta disso. Tom mantinha um ar de pura satisfação pelo trabalho, apesar de demonstrar apenas com um sorrisinho discreto.

As costas de Abraxas doíam por permanecer na mesma posição durante horas, mas pintar era como curar o humor de Tom de uma maneira quase miraculosa. E ao imaginar os dois rolando sobre o tapete pérsio da biblioteca da casa de verão dos Malfoy, era uma excelente recompensa.

Tom não admitia faltar um dia se quer no trabalho da Borgin e Burkes, por isso tinham apenas uma semana na França antes que as férias acabassem.

Abraxas lamentava, mas o amigo chegava a sofrer.

O moreno analisou o fundo escuro esverdeado da cortina do quarto e pensou se deveria mesmo incluir uma cor tão escura no retrato de Abraxas, sendo que lá fora o sol e o mar reluziam intensamente.

Olhou os cabelos dourados do amigo, os lábios chamativos e a barba por fazer. Abraxas só deixava a barba crescer quando estavam juntos. Na casa da família precisava manter a postura como um digno herdeiro dos Malfoy.

Tom desistiu e preencheu o fundo com a cor escura, pensando que as coisas são do jeito que são. Depois da última pincelada, assinou seu nome na borda inferior e sorriu. Estava pronto.

Mais um entre tantos outros, mas esse era quase especial. Abraxas não estava vestido com roupas medievais ou nu, nem mesmo sentado no divã. Esse era apenas o seu rosto bem delineado sob a luz vinda da janela, que realçava seus traços marcantes.

— Já posso ver?

— Já disse que só amanhã, Malfoy. – Tom manteve o tom sério mesmo querendo rir por dentro. Limpou os dedos sujos no pano na mesinha do lado. Começou a colocar os pincéis na jarra com água e a organizar os recipientes de tinta antes que os derrubasse e estragasse provavelmente o tapete mais caro do país.

— Por que não? Já está pronto! – Abraxas deu um pulo do sofá que estava paralisado por horas. Precisava de um longo intervalo antes de se obrigar a isso novamente.

— Faltam alguns detalhes. O tipo de coisa que apenas um artista entende. E se você fosse um modelo comportado, compreenderia. – Tom sentiu as mãos do amigo em sua cintura, prontas para explorá-lo antes mesmo que pudesse esconder o retrato a tempo.

— Realmente meu nariz é bem fino. Como você diz. – Abraxas sussurrou enquanto mordiscava a orelha de Tom. — Você é um excelente pintor, Sr. Riddle. Dos que você me deixou olhar, pelo menos, esse é com certeza o que eu mais gostei.

— É seu. – Tom fez um gesto com a mão, sentindo as bochechas esquentarem por anunciar o presente. O salário da Borgin e Burkes não permitia muito mais que uma tela e pincéis. — Quero que fique com você, Abraxas. Coloque na mansão.

– Tem certeza?

— Por que não?

— Você gosta de colecioná-los. Por que me dar algo que você tem orgulho? Que pôs tanto trabalho? – Abraxas questionou. Ele mesmo não sabia apreciar uma arte tanto quanto o amigo. – É um quadro extraordinário. Quer mesmo que eu o coloque em um lugar de trevas?

Tom girou os olhos.

— Um artista não coleciona suas próprias telas. A não ser que queira se autocriticar pelo resto da eternidade. Eu guardo apenas algumas para entender a mudança de tempo em mim e no modo que encaro o mundo. É um presente, então aceite.

— Você é a pessoa mais inteligente que já conheci. – disse Abraxas. Nunca dissera isso a Tom antes, porque o amigo não sabia reagir a elogios ou na maior parte do tempo, se sentia exposto e se fechava.

Mas Tom sorriu.

— Não seja bobo. Como posso ser essa pessoa? Você interage com centenas de pessoas influentes e ricas. Eu devo ser apenas alguém que te diverte. Para passar o tempo.

Abraxas soltou os braços em torno dele para encara-lo diretamente nos olhos. A imensidão verde dos olhos de Tom sempre o intrigava. Ele era uma pessoa extraordinária, mas não sabia disso. E precisava sempre se provar da pior forma possível.

— Nunca repita isso. É o quer? Ofender-me? – ralhou.

— Às vezes você é muito sentimental, Abraxas. Nós dois sabemos que o que temos jamais passara disso. Encontros escondidos no outro lado do mundo. Fingindo que somos sócios para os vizinhos. – Tom tentou esconder o rancor na voz. Era um assunto delicado que estava enraizado em si.

— Não é minha culpa, Tom! É o jeito que as coisas são. O jeito que o mundo encara. Não há saída. Não para nós. – Abraxas gesticulou as mãos, nervoso e depois se reaproximou de Tom, tocando-o no rosto. Sentiu seu peito recolher-se em um aperto. – Desculpe, mas não há nada que eu possa fazer.

— Eu sei. – murmurou Tom. – Às vezes sei que nunca terei o bastante de você. – aproximou-se até encostar-se aos doces lábios do loiro. – Sou possessivo.

— Isso é claro como a luz do dia. – Abraxas sussurrou envolvendo os dedos ágeis no cordão da calça de Tom. A luz do sol deixava uma linha de poeira no ar. – Obrigado. Pelo quadro.

—

Era uma noite estrelada. O céu estava tão brilhante quanto um tecido cheio de purpurina. A brisa quente e suave agitavam os cabelos de Tom e Abraxas, mas os corações permaneciam plenos e tranquilos.

— A única coisa que tornaria isso ainda mais fantástico seria se durasse para sempre. – Tom comentou com a voz baixa. Algo lhe dizia que não voltaria à casa da França outra vez.

Deitados de costas no gramado do jardim, Tom e Abraxas estavam com as mãos entrelaçadas, prontos para aproveitar uma das últimas noites de verão.

Logo estariam de volta a Londres.

— Tom, nós dois sabemos que o tempo é relativo. Pode ser para sempre. Se você quiser. Onde você estava nas aulas de Adivinhação?

— Tentando descobrir o quanto você me queria.

— Eu seriamente duvido disso, Sr. Riddle. Você não era o tipo de garoto que pensava banalidades mesmo nas aulas mais inúteis.

— Sr. Malfoy, o senhor é muitas coisas, menos banal.

La embaixo na calçada, ouvia-se o barulho de pedestres rindo, conversando, talvez trocando frases de amor. O cheiro de croissant da padaria infestava a rua. Nem mesmo a vista da torre Eiffel iluminada era mais bela que as estrelas no céu, Tom pensou.

O resto do mundo parecia muito distante naquele momento.

— Doí-me saber que daqui a poucas horas estaremos em Londres, em nossas vidas paradas e que não nos traz nenhum prazer. Provavelmente passarei o resto da minha vida estudando números e contas e Direito da Magia. Parece legal para você, Tom? Porque para mim não. – Abraxas lamentou sentindo a mão do amigo contra a sua. Apertou-a ainda mais, como se estivesse prestes a perdê-la.

— Não gosto de pensar muito nisso. Prefiro acreditar que em breve poderei pinta-lo de novo, em tons pastéis. Que seguirei uma carreira de pintor ou pesquisador ao invés de mofar em uma loja empoeirada.

— Pesquisador? – Abraxas tentou esconder o riso.

— Não é algo que gosto muito de admitir, mas acho interessante pesquisar relíquias antigas. Coisas secretas. Inexploradas.

Tom segurou o queixo de Abraxas, se aproximando para beijá-lo.

— Você pode me explorar o quanto quiser, Sr. Riddle. Não contarei para ninguém.

Abraxas teria quanto prazer quisesse. E Tom também.

—

“Não vivo em mim; torno-me parte daquilo que me rodeia. As montanhas ferem-me a sensibilidade, ao passo que a bulha das cidades humanas só me tortura.” — Lord Byron.

DOIS ANOS DEPOIS

Abraxas acendeu outro cigarro para acompanhar o copo de gim que estava a sua espera. Gostava da quietude das tardes da semana e sempre caiam bem com uma bebida quente.

Nos últimos meses, andava mais pensativo do que o normal. Sabia que era por conta da data que estava chegando e pressionando-o contra a parede. Abraxas sentia que todas as paredes da casa iriam quebrar antes que ele se decidisse. Virou o rosto para a janela para sentir o sol. Sua mãe sempre disse que a luz do dia era ótima para curar a dor do coração. Mas nada parecia tirar a mancha de tinta que tinha em sua alma.

Não se via como homem, não se via como adulto, nem mesmo como uma pessoa honesta.

As melhores coisas de sua vida estavam trancadas em um passado distante e ele estava prestes a jogar a chave fora.

A lembrança do amigo veio em sua mente. Como um vento cortante. Era uma pena que se lembrava de Tom com intensidade somente quando estava no auge de sua dor.

Seus olhos se ergueram para o quadro em cima da lareira. Abraxas particularmente o considerava uma obra de arte. Olhou a si mesmo, a expressão do rosto representada em tons suaves e com um contorno dourado. O cabelo despenteado e a barba começando a aparecer. Seus olhos estavam felizes e travessos apesar do fundo escuro e da roupa séria.

Em Londres, com a família, não tinha o hábito de passar os dias com a camisa amarrotada, o cabelo bagunçado e muito menos de rolar no chão de tanto rir. Olhava um estranho. Preferia mil vezes ter uma foto ou imagem de Tom ao seu alcance do que de si mesmo perdido para sempre.

Lembrou-se de quando sussurrou no ouvido do homem que amava as seguintes palavras. “Obrigado por me pintar dessa forma. Fico feliz que você me veja assim.” E tom respondera da forma mais singela possível. “Com você eu também sou uma pessoa melhor.”

—

“Quando conquistou tudo o que todos querem cortejar, a pobre recompensa não vale os custos: juventude desperdiçada, alma aviltada, honra perdida, são os teus frutos, ó paixão triunfante!” – Lord Byron.

TRÊS ANOS DEPOIS

Os pensamentos o perturbavam de outra forma. Seus olhos viam o mundo de outra forma. Seu coração palpitava no peito com menos entusiasmo. Sabia disso porque um apartamento em um beco escuro sem saída o esperava cheio de quadros sombrios e horríveis. Suas mãos não produziam beleza mais.

Virou a esquina e sentiu o vento levantar sua capa escura. Virou o rosto e seguiu em frente. Minutos mais tarde, a porta de sua moradia se abriu com um feitiço. Não havia problema em executar magia em público pois era uma área abandonada e longe dos trouxas. No chão um pergaminho dobrado em dois estava em cima do tapete. Alguém o passara por baixo da porta. Era o terceiro naquele mês. Não tinha como ser seu ciclo íntimo de contato, pois trocavam informações apenas pessoalmente. Sua intuição apontava para Abraxas Malfoy, mas ele não lhe enviava cartas a mais de três anos. Um simples feitiço de rastreamento resolveria o problema, mas Tom não se sentia capaz de revelar a única coisa surpreendente em sua vida no momento.

Ergueu o pergaminho com seus dedos finos e pálidos, sentindo a textura áspera. Desdobrou – o e leu as palavras da tinta preta.

“Muito tempo habitei sob átrios colossais

Que o sol marinho em labaredas envolvia,

E cuja colunata majestosa e esguia

À noite semelhava grutas abissais.

O mar, que do alto céu a imagem devolvia,

Fundia em místicos e hieráticos rituais

As vibrações de seus acordes orquestrais

À cor do poente que nos olhos meus ardia.

Ali foi que vivi entre volúpias calmas,

Em pleno azul, ao pé das vagas, dos fulgores

E dos escravos nus, impregnados de odores,

Que a fronte me abanavam com as suas palmas,

E cujo único intento era o de aprofundar

O oculto mal que me fazia definhar.”

Um poema de Charles Baudelaire. “A vida anterior”. Não poderia vir de outra pessoa. Releu os dois últimos versos. A única vez que se aprofundou em algo que o fazia definhar era amar outro homem.

Tom não queria que sua cabeça se distraísse com bobagens e o atormentassem durante o sono ou reuniões confidenciais. Precisava mantê-la clara e limpa. Precisava terminar sua busca, seus projetos e por em pratica seus planos sem que o Ministério o localizasse. Buscou uma garrafa de água de Gilly no armário se lamentando da pobreza do cômodo. Viver em um ambiente luxuoso proporcionaria um alvo em suas costas e pessoas o reconheceriam. Levou o copo aos lábios sentindo o gosto fresco na boca.

Bobagem estúpida.

Buscou o papel no chão novamente. Ameaçou-o e o escondeu atrás da almofada imunda do sofá. Antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, adormeceu no móvel, os cabelos escuros tampando a visão de seus olhos verdes.

Na manhã seguinte aparatou na estação de trem mais próxima para entregar um envelope pessoalmente. Quando voltou para casa com a cabeça mais tranquila, notou a porta de seu apartamento entreaberta. Um espião encontrara-o. Teria que mudar todos os seus planos e implantar novos códigos de defesa. Nada estaria a salvo. Segurou firma a varinha nas mãos e levantou o capuz. Não iria embora antes de mata-lo.

Subiu os dois degraus da entrada e escancarou a porta. O vento fez seu cabelo açoitar a pele. Os primeiros cômodos estavam vazios. A cozinha e sala de estar estavam livre. Respirou fundo, engoliu a raiva e seguiu para o quarto. Uma figura masculina de paletó estava de pé olhando fixamente para seus quadros amontoados no canto da janela. Reconheceu um bolo de cabelos claros corretamente cortados. A postura do homem era séria.

— O que quer? – Tom perguntou consciente de que nenhuma luta aconteceria. Guardou a varinha e puxou o capuz para trás.

Abraxas virou o rosto. Havia discretas rugas na beiradas de seus olhos. Era o mesmo homem, mas sua visão tinha mudado. Estava sério, sereno e olhando atentamente para Tom. A luz da janela batia contra seus cabelos e a maça do rosto. Parado do jeito que estava, seria uma pintura de tirar o folego.

O artista acorrentado dentro de Tom quis voltar à vida a qualquer custo.

— Vejo que sua visão de mundo realmente mudou com o passar do tempo. – Abraxas disse apontando para os quadros. Observou o rosto de Tom. A pele continuava pálida, o cabelo conservava o mesmo corte. A expressão desconfiada nos olhos ampliara tristemente.

— Como me achou? – questionou Tom. – Pensei que tivesse seguido em frente como fez questão de escrever nas últimas cartas.

— Demorei mais de um ano para te achar. Não quis arriscar te mandando cartas. – Abraxas respondeu. Permanecera na mesma posição. Não se sentia seguro de aproximar.

— Mas quis me mandar bilhetes misteriosos! Fez-me questionar minha própria segurança.

O loiro virou o rosto. Não queria discutir. As coisas estavam muito além disso agora. Respirou profundamente antes de dizer.

— Muitas coisas mudaram drasticamente, Tom. Não quero falar a respeito delas. O que vivemos não morreu para mim.

Tom não enxergava mais um jovem espirituoso e travesso e costumava andar nu pela mansão da França no verão. Diante de si estava alguém mais maduro e cansado. Pensou na pena que seria não ter isso registrado em uma tela.

— Você casou com ela? – Tom fechou o rosto. Sua voz saiu seca e infeliz.

— Isso não importa agora.

— Para mim sim. Não quero me envolver em algo que só irá me machucar. Não quero vê-lo, sabendo que voltará para um lar que outra pessoa o espera feliz.

— Mesmo se me fizesse feliz?

— Mas eu não seria, Abraxas. Quero outras coisas agora.

Abraxas lembrava claramente do quanto amigo era ambicioso e nunca aceitava menos do que queria. Não desistia até estar satisfeito.

O loiro deu dois passos para frente. Tom permaneceu duro como uma pedra, mas seu coração bombeava sangue freneticamente. Jogou a varinha em cima da cama para mostrar o quão rendido se sentia. Abraxas chegou tão perto que poderia tocá-lo. Ele ergueu a mão e tirou o capuz de Tom para trás. A imensidão dos olhos azuis de Abraxas invadiu Tom como uma noite estrelada de um céu de verão.

— Eu nunca esqueci você. – o loiro sussurrou. – Não quero perde-lo de novo.

Tom percebeu que ele mesmo seguira em frente enquanto o amigo estava parado em memórias. Com as palavras certas, Abraxas viraria seu mundo em uma direção contrária, mas nunca competiria com seus propósitos agora.

— Só queria tê-lo mais uma vez. – Abraxas continuou sentindo o tecido da capa que envolvia os braços do amigo. Olhou atentamente para os olhos verdes diante de si procurando o mesmo que ele sentia.

Tom ergueu o braço atrás de si e ascendeu a luz do quarto.

— Antes vou pintá-lo. Tire a roupa e sente perto da janela.

Não virou o rosto para ver a reação de Abraxas e se dirigiu ao armário de mogno da sala de estar para buscar os pincéis. Torcia para que não estivessem estragados e mofados. Era uma oportunidade que não teria novamente. Buscou na pia da cozinha um recipiente com água fresca e um pano claro para limpar as mãos. Voltou para o quarto para reunir as tintas e a tela, e Abraxas encontrava exatamente como pedido perto da janela.

Nu.

Tom admirou a plena felicidade e satisfação que Abraxas tinha com o próprio corpo. Estava tão a vontade quanto vestido. Engoliu seu choque. Alguma coisa estava prestes a retorcer um sorriso em seu rosto. Manteve a voz séria.

— Vire o rosto. Quero pintá-lo como se estivesse olhando para a janela, distraído.

— Quero olhar para você. – Abraxas olhava fixamente para Tom como se jamais quisesse perde-lo de vista de novo.

As mãos do moreno ficaram mornas e focadas assim que reuniu os materiais. Uma porta dentro de si pareceu abrir.

Já estamos perdidos, quis dizer.

Notas finais
- O Retrato de Dorian Gray é um livro antigo sobre um romance homossexual e é bem sútil. Sua percepção que vale na história. Um livro sobre a juventude, beleza e influência. Recomendo fortemente :) Espero que tenham gostado e deixem reviews.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!