Tourniquet
1 Prólogo
Estava frio demais para tentar manter algumas coisas que, há tempos, estavam se esvaindo com o vento. Sonhos demasiadamente utópicos, intenções deveras angustiantes, metas caríssimas e por demais distantes... Cada movimento explicitava, com cortes profundos, que uma solidão avassaladora havia se abatido sobre o ser em questão. Ou tal realidade sempre esteve lá e, por certos motivos, só então passou a ser notada? Tantos questionamentos pareciam não ter mais valor algum, não se mostravam motivos para que a luta continuasse, de tal forma que tudo ficou muito frio... tanto por dentro quanto por fora...
Tomar uma decisão parecia demasiadamente difícil... Uma escolha certeira se mostrava necessária, mas os pés não moviam quando cada uma delas parecia próxima de se realizar. Seria apego? Seria medo? Seria o peso do baú de ilusões que ainda a prendia àquele lugar, àquelas pessoas? No fundo, ao fazer um balanço mental, ela sempre chegava ao consenso de que “não é tão ruim assim”, e de fato nunca foi. Isso a mantinha presa, a ela mesma e a sua realidade momentânea. Mas chegou o momento em que tudo isso se quebrou, como uma taça que escapa a mão em um momento de embriagues, chegou muito rápido, mais rápido do que ela podia esperar. De certa forma isso lhe trouxe certo alívio, a gloriosa sensação de não ter mais o compromisso de, por si só, tomar uma das decisões mais importantes de sua vida. Quando ouviu a frase “está na hora de você cuidar da sua vida sozinha” sentiu que uma tonelada de compromissos saíram flutuando de suas costas para se dissiparem pelo mundo, para, depois, serem reencontrados por ela mesma, reunidos, como “Esferas do Dragão” e, em conjunto, realizarem seu maior desejo, este que estaria por vir, com o tempo, assim como as realizações destes compromissos que, a partir de tal momento, deveriam acontecer cada um ao seu tempo, como deveria ser, e não todos de uma vez só, no desespero, imbuídos da noção de obrigação, algo que a deixava desesperada.
Era uma manhã cinzenta e fria, atípica na cidade na qual cresceu e passou toda a sua breve vida. Chovia, ventava, o céu bravejava com feixes de luz e pesados trovões. Sentia-se mais solitária e desesperada que de costume, não conseguia organizar as ideias, sabia que estava aumentando a um nível insuportável preocupações que, em si, não eram tão graves assim... Típico do fim da adolescência. Pensava sem parar “e o que eu vou fazer agora” mesmo sabendo com toda certeza o que queria e deveria fazer. Correr atrás de seus sonhos seria algo cruel, por estar o fazendo sozinha, sem ter ao lado quem sempre a apoiou? Estaria abandonando sua família? “Meu Deus, se eu for eu estarei abandonando a vovó...!”, até que sentou com a velha matriarca da família e relembrou com ela todas as histórias de sua vida, como, na união familiar, ela foi uma lutadora, buscou e conquistou todos os seus sonhos (e também o de seus filhos), ainda que sua jornada tenha sido completamente diferente daquela que ela, sua neta, sabia que teria que travar. Como uma conversa sincera de apenas 15 minutos pode abrir nossos olhos, não? Num estralo, não teve mais dúvidas: ligou o laptop sobre a mesa, acessou a página da faculdade que havia prestado e imprimiu seu requerimento de matrícula. Foi até a mãe, que a criara sozinha, e informou o que faria. Recebeu suas bênçãos.
Dois dias depois, lá estava ela, de volta a sua casa, mas não como a garota desiludida e assustada de antes, e sim como uma pessoa decidida, cheia de amor e lágrimas na despedida e de sonhos que foram empacotados junto a suas roupas e pequenas bugigangas. “Como parecia difícil! Como pode parecer tão difícil? Como eu deixei parecer tão difícil...?”. Acessou e retirou toda a sua pequena poupança que há anos estava acumulando teias no banco. Deu seu último adeus. Suspirou fundo e entrou no trem. 10 horas de viagem e lá estava ela, sã e salva, na cidade desconhecida. Levou três dias para arranjar um lugar bom, mas não muito barato, para alugar. Ligou para a mãe, para a avó e para aquele amigo, que trilhou o mesmo caminho e que há certo tempo já não via, para contar as novidades. Soube que a mãe começou a namorar e que a avó havia viajado. Sentiu-se traída. Ainda mais depois que seu amigo deixou de atendê-la: conversaram duas vezes, em ambas o amigo se mostrou ocupado demais para falar, depois deixou de atender suas chamadas e, por fim, seu número passou a constar como desconhecido... Uma semana depois voltou a se sentir sozinha, solitária demais para poder aguentar, assim como se sentia anteriormente. Faltava apenas uma semana para o começo das aulas e ela fez as contas “assim o dinheiro não vai dar...”. Ligou para a avó: ela estava na praia. Ligou para a mãe: ela estava no shopping. Percebeu que não tinha mais para quem ligar, com quem conversar e desabafar... Percebeu como a situação era patética para uma jovem universitária (ou, ao menos, era assim que ela se sentia). Cansou de tentar achar respostas com os outros, afinal, estava lá para isso mesmo, aprender a se virar sozinha. E foi o que fez.
No dia seguinte, andou por, pelo menos, 20 quadras colando o anúncio no papel sulfite, borrado pela garoa incessante, grudado em um grande número de postes, que dizia: “Divido apartamento. Mobiliado, área ampla, 3 quartos. Aceito fumantes. Aceito animais de estimação. Por favor, não ligue a cobrar.”
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