Toujours
1 Único.
Notas iniciais
Ela estava linda. Mais linda do que costumava ser. Trazia o seu sorriso mais radiante no rosto. Naquela tarde ensolarada de sexta-feira, ela não era madame Giulianna de Conneault; era só mamãe.
- Mamãe! Olhe só o que eu achei para você! – disse, esbaforido, o pequeno garoto loiro. Chegou correndo, o rosto vermelho, e foi se juntar à mulher sentada na grama.
- Oh, meu anjinho... É muito bonita. Você acertou, azul é minha cor favorita.
Raphael sorriu largamente e abraçou a mãe, que não se importou com o fato de ter o seu vestido parisiense totalmente sujo de terra. Somente o fato de ter acertado a cor favorita dela o fez sentir que havia ganhado todo o seu dia, e já não lhe importava mais se o pai ficaria zangado se, quando chegasse, ele não estivesse limpo e bem-comportado. Afinal, a mãe também havia sujado o vestido e estava sentada na grama, sem maiores preocupações... Ele não ficaria bravo daquela vez.
Nunca havia gostado do pai. O pai gostava de bater nele, de ofendê-lo quando fazia alguma coisa errada. A mãe, não. A mãe nunca lhe agredira. Por mais cansada ou doente – ela vivia doente — que estivesse, ela sempre sorria para Raphael, sempre lhe dava um conselho ou um elogio por algo bem feito que ele houvesse realizado.
Quando o pai saía e ia pros seus negócios em Paris, sentia-se em paz, totalmente feliz, pois tinha a mãe só para ele. Naqueles dias, podia sair para o jardim, subir nas árvores, rolar na grama. E trazê-la junto. Se chovia, também não havia problema. Corria pelos corredores, brincava na biblioteca enquanto a mãe lhe espiava, sentada num canto e sempre sorrindo.
Naquele dia, era seu aniversário. E o pai saíra. Raphael achou que fora um ótimo presente vindo dele, pois agora podia brincar lá fora e trazer a mãe junto. Podia sair ao sol, coisa que raramente fazia. O garoto desejou que aquele momento pudesse durar para sempre. Ou melhor... Que a mãe pudesse durar para sempre.
xxx
Raphael agora tinha sete anos.
Fazia sol lá fora, mas não era um dia feliz. Não pelo fato do pai estar em casa, mas porque descobrira que mamãe Giulianna não duraria para sempre. Da pior maneira possível.
Ela havia acabado de morrer diante dos seus olhos, depois de mais um aborto. Raphael também havia acabado de perder uma irmãzinha, mas não conseguia se importar com ela. Só conseguia se lembrar da mãe e daquele sorriso, que não abandonara nem mesmo estando à beira da morte.
- Você vai ser um bom rapaz – murmurou ela. –Um homem lindo, próspero e muito feliz. Nunca se esqueça de que Deus estará sempre contigo, meu anjinho. E eu também vou estar.
E depois soltara seu último suspiro. Os olhos verdes fitaram o teto, vazios. Giulianna soltara a mão do filho. Seu coração finalmente parara.
Dali em diante, aquela cena acompanharia Raphael para sempre.
xxx
O vampiro acariciou mais uma vez a tela onde o sorriso de Giulianna fora eternizado. Poderia passar a madrugada lá, observando-a, guardando-a. E talvez fizesse aquilo, mesmo.
Faziam mais de duzentos anos em que observara aquele rosto pela última vez, mas lembrava-se como tivesse acabado de despedir-se da mãe, depois de uma visita qualquer. Como desejava ter aproveitado mais aqueles momentos em que ela ainda estava viva...! Sempre quisera ser mais afetuoso, sempre quisera tê-la mais perto, mas tinha medo do pai. O pai não gostava, era ciumento demais em relação à Giulianna. Ciúme do próprio filho...!
Mordeu os lábios, engolindo em seco. Sempre fora tão boa, tão confiante... Mesmo tendo sido forçada a se casar com um crápula... Logo na flor da juventude... E se fora cedo demais.
Chegou mais perto do quadro, como se quisesse abraçá-la, trazê-la do mundo dos mortos. Como se quisesse afundar na tela e tornar-se feito de tinta, somente para poder ficar do lado da mãe.
- Sei que ela te faz falta... Mas entenda. Nada irá trazê-la de volta.
Alexander pronunciou-se, firme, mas sem a intenção de machucar o seu pupilo. Sutilmente envolveu a cintura do outro com seus braços, puxando-o para mais perto. Raphael aceitou passivamente o abraço, abatido.
- Eu sei, Alexander. – murmurou o loiro, a voz muito baixa e relutante. Notava-se que não queria aceitar aquilo como verdade. Mas virou-se, puxando o mestre pela jaqueta, pedindo desesperado por ajuda.
- Sabe que estarei para sempre aqui, meu pequeno teimoso...
- Sim, eu sei. E isso me deixa um pouco melhor.
Ambos aquietaram-se. Raphael não chorava, somente mantinha o rosto afundado no peito do inglês. Fechou os olhos, aceitando o toque dos dedos frios do maior em sua nuca e cabelos.
A mãe sempre estivera certa. Ele havia-se tornado um homem. Um homem feliz. Para sempre.
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