Touch-me only like you do.
11 Um pouco fora
Notas iniciais
— Você não tem que fazer isso também. — Informo a Loren quando entro na nossa apertada cozinha. Ela garantiu que gostava de cozinhar, e eu aceitei isso, mesmo que a duras penas. Porém, cozinhar e limpar era um pouco demais.
Ela, que estava de costas, se assustou um pouco quando eu falei. Então se virou para mim com uma careta confusa.
— Desculpe, Logan. Eu estava um pouco fora, pode repetir?
Um pouco fora.
Ela tinha estado “um pouco fora” desde o momento em que chegamos em casa, e eu não via a hora de ficarmos a sós para que eu pudesse descobrir o porquê disso. Eu me preocupava com ela, e, tanto quanto eu queria investigar profundamente todas as suas preocupações, para que eu pudesse sana-las, eu também tinha medo. Não era muito difícil notar que Loren não gostava de falar da sua vida pessoal.
A falta de família ou pessoas interessadas nela ainda me intrigava, mas depois do dia em que fomos buscar suas coisas no dormitório, eu não havia tocado mais no assunto. Eu esperava que a intimidade do dia-a-dia fosse trazer o tema de volta, no entanto, eu estava errado. Era um pouco frustrante, na verdade, porque quanto mais perto dela eu chegava, mais eu queria conhecer.
Eu sei o que a faz sorrir, e quais eram os monstros que assombravam seus pesadelos. Eu sei acalma-la, sei como toca-la, sei o que a encanta e o que a faz tímida. Eu sei como ela dorme, e conheço a sensação de ter meus braços ao redor dela. Eu sei como ela é apaixonada em Krave e Hershey’s Cookies ‘n’ creme cereal, mas que sempre come Lucky Charms só por causa dos marshmallows. Sei que ama panquecas no café da manhã, mas também em qualquer outra hora do dia. Eu sei que ela chora vendo filmes do Nicholas Sparks, e odeia filmes de terror, mas não faço ideia de qual sua cor preferida, ou o nome dos seus pais, ou onde ela nasceu.
E, mesmo dormindo com ela cada vez mais próxima do meu corpo, eu ainda me sentia tão miseravelmente distante dela. A conexão física e sentimental embalsamava esse sentimento, mas não erradicava. E, quando ela resolvia cortar as conexões sentimentais, também não ajudava nada.
Ela não olhou na minha direção por mais de meio segundo hoje, não estabeleceu contato visual, não se aproximou de mim, e recuou rapidamente perante o meu toque. Ela jantou conosco, mas você podia ver que sua cabeça estava a milhas de distância, e, quando o jantar terminou, ela apenas levantou e começou a recolher os pratos, sem nenhuma palavra.
Loren era normalmente tagarela e participativa, mas hoje ela mal conseguiu responder quando chamávamos seu nome. Desligada é o termo que eu usaria para descrever. Ela estava fodidamente me matando, porque eu não conseguia desvendar qual era o problema, e eu tinha medo de fazer as perguntas erradas e assusta-la.
Eu suspirei.
— Eu disse, — Comecei a repetir, mas a urgência por uma conexão era forte demais, porque, mesmo tendo se virado para mim, ela não tinha encontrado meus olhos. Então, para que eu não enlouquecesse e lançasse nela um monte de perguntas frenéticas que estavam entaladas, eu me aproximei. Tomei o prato que ela estava segurando, e o pano que usava para secar, e coloquei de volta no balcão atrás de mim. — que você não precisa fazer isso. — Concluí, e então segurei suas mãos já livres na minhas, e a puxei para mim, até que seus braços estivessem envoltos na minha cintura.
Era um último esforço, e eu esperava que ela me permitisse, porque Deus sabe que eu não poderia lidar se ela recusasse o meu toque novamente.
Ela não fez.
Na verdade, Loren me surpreendeu, me deixando não somente abraça-la, mas ainda deitando a cabeça no meu peito. Eu beijei sua cabeça em um reflexo involuntário.
— Eu sei. — Ela respondeu, e então suspirou.
Eu estava grato que ela me deixou segura-la, mas ela ainda estava tão estranha para mim. Algo estava fora de lugar. Ela parecia bem esta manhã, e agora, tudo que podia interpretar de suas poucas palavras, atos e suspiros, é que ela estava triste, que algo a incomodava.
Eu hesitei por um longo tempo, apenas parado e segurando ela, mas, no fim, cheguei à conclusão de que eu não podia deixar da forma que estava. Procurei a forma mais sutil que eu pude, e então coloquei em palavras.
— Você quer conversar? — Ofereci.
Ela ficou um pouco mais rígida em meus braços, e eu comecei a suar frio.
— Logan... Eu...
Ela tentou me responder, mas sua voz estava tremula, de forma que eu não a deixei terminar. Eu praticamente podia sentir sua recusa. Segurei seu rosto em minhas mãos, e, tão gentil quanto possível, a forcei a encontrar os meus olhos. Abaixei o meu corpo, até que minha testa alcançasse a sua, e fitei-a. Os olhos dela estavam brilhantes demais, com as lágrimas não derramadas começando a formar poças.
Deus, eu odiava vê-la chorar.
Gostava de apreciar seus olhos brilharem com uma risada, porque me deixava de joelhos quando ela estava assustada e triste, talvez até um pouco desesperado.
— Eu vejo que algo está errado, querida. Não esconda de mim — Implorei. —Eu quero ser capaz de aliviar seus medos, Loren. — Confessei a ela, e na minha cabeça adicionei “o único” ao meio da frase. Possessivo? Talvez.
Ela analisou meu rosto por alguns instantes, parecendo em uma busca profunda. Eu continuei parado, apenas a fitando de volta, esperando que meus olhos pudessem demonstrar o que eu não era capaz de colocar em palavras, porque, por mais que eu quisesse dizer a ela as palavras, eu não sabia se ela estava pronta para ouvi-las. A cada vez que ela fez menção a forma atual em que nos encontrávamos, ela se colocou como uma responsabilidade inesperada para mim.
Realmente, eu não estava, nem de perto, sonhado que algo como ela encontraria o seu caminho para minha vida, mas não era ruim como ela fazia soar. Sua chegada foi um presente para mim, e ela só se tornou uma responsabilidade pois eu me deixei pensar nela como se de fato ela fosse minha. Porque eu quero chama-la de minha. Ser responsável por algo, como ela coloca, faz parecer desagradável, mas, na verdade, é muito pelo contrário: Seria a porra do meu prazer cuidar dela. Ela só precisava tomar conhecimento do fato, ou melhor, precisava que eu deixasse de ser uma maricas e contasse a ela.
Depois de um longo período de analisar, sua expressão mudou para algo próximo a resignação, o que eu não entendia, em tudo. Uma lágrima finalmente fluiu pelo seu rosto, e eu limpei com o meu polegar, ainda incerto sobre o que aquilo queria dizer. — Por favor, baby. Fale comigo? — Pedi novamente.
Ela assentiu, ainda olhando nos meus olhos, e então passou os braços ao redor do meu pescoço e escondeu o rosto na minha camiseta. Assim, Loren começou a chorar de verdade, com direito a soluços, e eu, não aguentando mais nem um segundo disso, envolvi sua cintura e me levantei a minha altura, grudando seu pequeno corpo contra o meu, e lavando-a junto comigo. Ela era pequena o suficiente para que seus pés não tocassem o chão quando eu a abraçava dessa forma.
Um dos meus braços estava rodeando o meio do seu corpo, e outro tinha encontrado seus cabelos. Eu deixei meus dedos se afundarem neles, mantendo sua cabeça no lugar enquanto eu a carregava para o nosso quarto, onde teríamos mais privacidade do que apenas a droga do balcão da cozinha, que estava entre nós e a sala.
Eu queria acalma-la de imediato, de qualquer que fosse o problema que a atormentava, mas sabia que ela não gostava da ideia de ter um público, se a forma como ela estava com o rosto escondido no meu pescoço fosse indicativo.
Passei pela sala carregando Loren como uma criança, e isso não foi perdido por Matt e Calebe, que estavam vendo TV, nem os pequenos soluços que ela emitia. Matt franziu a testa e Calebe se levantou rapidamente, vindo na nossa direção, mas eu balancei a cabeça para eles.
— Não. — Inaudível, disse a minha demanda para que eles não me seguissem. Eles assentiram em compreensão, mas não pareciam felizes em obedecer. Meus irmãos também gostam dela e eram quase tão protetores como eu era.
Eu subi as escadas ainda mantendo ela contra mim, e alcancei o quarto tão rápido quanto eu pude. Todo o meu instinto estava focado em acalma-la. Eu estava com o coração tão apertado e tão chateado por ver suas lágrimas, que eu nem mesmo pode ficar feliz por ela ter se apoiado em mim quando precisou.
Sentei na cama com Loren no meu colo, porque eu não conseguia deixar que se afastasse. E, mesmo que não fosse um de seus pesadelos, sussurrei palavras de conforto para ela, porque eu sabia, por experiência, que seria efetivo em acalma-la.
E foi.
O ritmo das lágrimas diminuiu até aquele suspirar pós-choro, mas ela ainda não levantou a cabeça do meu peito, ou retirou seus braços que cercavam meu pescoço. Eu estava prestes a dizer que ela não precisava me contar nada, porque, para início de conversa, foi o meu pedido de que ela falasse comigo que fez com que as lágrimas rolassem solto. Mas então, sem se mover um centímetro de onde estava, Loren puxou um folego mais longo, e soltou as palavras que explodiriam meu mundo:
— Eu preciso voltar para casa, Logan.
E, tanto quanto eu queria que fosse mentira, eu sabia que ela não falava do dormitório, mas do lugar de onde ela veio. Aquele que eu não conhecia. Que não era aqui, perto de mim. Eu apenas sabia.
♥ ♥ ♥
Mesmo constantemente lembrado e forçado a acreditar que ela era nossa irmã, uma parte retorcida de mim sempre se sentiu diferente por ela, por mais que dissessem, ela não era isso para mim. Eu era ciumento e protetor com ela? Sim, muito. Mas por razões completamente diferentes do que o pensamento popular dizia. Meu ciúme por ela nunca foi exatamente saudável ou fraternal.
E o sentimento que eu, involuntariamente, nutria por ela, somente cresceu com o passar dos anos. As lembranças constantes não me impediram de toca-la, ou de fazer o que eu sempre quis, e toma-la para mim. Porque, porra, na minha cabeça, e na droga do meu coração, Emily Hawthorne me pertencia. Mesmo que a cada dia eu tentasse me convencer do contrário. Mesmo que ela tentasse me convencer do contrário. Se tem uma coisa que eu aprendi com o tempo, é que você não manda no bastardo desonesto que é o coração.
E o meu sempre me dizia para ir atrás dela. Para tomar o que é meu.
Eu não sabia qual era a droga do feitiço que ela tinha acontecendo sobre mim, mas algo nela, em sua personalidade, no seu olhar, me tinha na porra dos meus joelhos.
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