Totentanz

2 Capítulo Um


Edifício Ledge, 8:00 AM

Sam acordou com os pássaros cantando naquele dia. Era uma manhã linda e quente, e a primeira coisa que a menina fez ao levantar foi tomar um banho. Ela tinha prova de biologia hoje e estava preparada. Teria que chegar mais cedo no café para limpar as vitrines. Se pegasse essa promoção que lhe ofereceram, as coisas melhorariam. Ela poderia comprar remédios para a mãe e, quem sabe, até coloca-la em um grupo de reabilitação.

Enquanto penteava o enorme cabelo ruivo ela pensava nos dias melhores que viriam. Ela pensava numa mãe saudável e sorrindo. Em Josh em casa.

Josh. Há meses não tinha notícias do irmão. Ela pensava nele todos os dias. Sabia que ele dava duro para manter as notas na faculdade e que o curso de direito era puxado, mas toda vez que o telefone tocava ela tinha esperanças. Nunca, porém, eram atendidas — nunca era ele.

Desceu as escadas. Pôs comida para o gato. Deu um beijo na mãe e correu para pegar o ônibus. As folhas dos cadernos e apostilas voando ao vento e o cabelo vermelho esvoaçando e tapando sua visão. Sentou-se na janela, esbaforida, e imaginou como seria bacana alguém ali, ao lado dela. Pegando na mão dela. Enrolando os dedos em seus cachos. A fazendo se sentir especial.

Ela sorriu, iludida. Estava lendo demais. Estava com a cabeça dentro de Otelo e não podia dar-se o luxo de sonhar com um amor de conto de fadas. Ela precisava concentrar-se na prova. Precisava de uma nota boa. Precisava trabalhar.

Precisava tomar um rumo na vida. Sorrir para estranhos no ônibus em busca de um romance não ajudaria a mãe. Não acharia Josh. Não a faria entrar na faculdade.

A manhã passou como um borrão. Ela fez a prova, mudou de aula, começou um romance de duzentas páginas na hora do almoço e correu para o trabalho.

Tundra era conhecida por ser uma cafeteria confortável. Haviam diversos pufes e assentos pelo chão. Mesas e banquetas, balcões com vista para a rua, e até mesmo uma estante com alguns clássicos no canto próximo aos banheiros. Se Sam precisasse escolher uma palavra para definir o lugar, seria aconchegante. A iluminação amarelada e estampa marrom dos móveis deixava a loja com um ar tênue e preguiçoso, o cheiro de café fresco tomava conta do ambiente.

Sam amava trabalhar ali.

Ficava no balcão. Servindo, repondo, sorrindo, e recolhendo a louça suja. Se apaixonando toda vez que um garoto sorria e pedia para reencher a xícara e se desiludindo enquanto enxaguava a louça.

Quando seu expediente acabava, ela tinha de pôr o lixo para fora e limpar o balcão antes de apagar as luzes e trancar a cafeteria, e então poderia ir embora.

A menina caminhava até em casa para chegar e encontrar sua mãe jogada no sofá, bêbada. Sam a levava para cima e a colocava na cama, todos os dias.

Mas naquela noite, quando Sam se deitou e fechou os olhos, ela ouviu um barulho.

Não era nenhum dos vizinhos ou um avião passando; era um barulho oco e baixo. Um baque de janela se fechando. Ela se levantou. O quarto da mãe ficava à direita, então não poderia ser.

Era no quarto de Josh.

Alguém estava no quarto de Josh.

Ela pegou o guarda-chuva que estava ao lado do guarda-roupa e, de pantufas, caminhou devagar até o quarto do irmão. As paredes do corredor estavam escuras e o tapete parecia se prolongar aos seus pés. A porta estava sempre fechada, nem Sam, nem sua mãe entravam ali. Ela girou a maçaneta e abriu uma brecha, e quando fez isso, uma mão a puxou para dentro e a jogou no chão.

Sam não teve tempo de gritar, quando percebeu, a pessoa tapava sua boca e pressionava uma faca contra sua garganta.

Era um garoto.

Ele usava um capuz e tinha um colar com seis balas no pescoço. Estava em cima dela.

Um garoto estava em cima dela, no quarto de seu irmão desaparecido, no meio da noite.

Ela engoliu em seco. Ele não parecia usar perfume, mas o cheiro do corpo dele era forte. Era uma mistura de ervas com suor e sabonete barato de hotel.

"Quem é você?" Ele disse, em voz baixa, provavelmente com medo de acordar as outras pessoas da casa. Rouco, mas lúcido.

Sam estava apavorada demais para raciocinar — e sua boca estava tampada -, seus olhos arregalados e as mãos tremendo.

"Escute bem, eu vou soltar você, mas fizer um único barulho eu abro sua veia, entendeu?"

Sam assentiu. A voz dele não era tão grossa, provavelmente ainda estava atrasado na puberdade. Seus olhos eram claros, mas era difícil distinguir a cor por baixo do capuz. Suas maçãs do rosto estavam sujas de vermelho e suas bochechas eram cheias. O lábio inferior pendendo, vermelho, aberto.

Ele a soltou. Ela engoliu em seco, abriu a boca mas a fechou em seguida.

"De novo, quem é você?" Ele repetiu, ainda cutucava o pescoço dela com a faca.

"Meu nome é Samantha…" ela gaguejou.

"Sobrenome, ande logo."

Ele estava com pressa. Não que estivesse com medo de ser pego, mas parecia impaciente, como se toda aquela situação o frustrasse. Como se tivesse algo mais importante para fazer.

E então tudo saiu de uma só vez:

"Esme! Por que está no quarto de Josh? Quem é você? Por favor, não me machuque."

Quando ela disse o nome de Josh, os olhos do garoto brilharam como o reflexo das luzes da rua na faca que portava. O que quer que estivesse procurando ali, parecia ter encontrado. Ele levou um segundo para voltar a si e quando o fez, agarrou Sam pela gola e a conduziu em direção à janela. Ele era forte demais para um garoto com uma voz tão fina.

A empurrou para a escada que levava à cobertura, cutucou suas costas com a faca.

"Suba" mandou. E ela subiu.

O vento estava soprando forte e o céu estava coberto por nuvens pesadas. Estavam ela e ele, sozinhos na cobertura do prédio, e ele havia trocado a pequena faca por um bastão de baseball, o que para Sam, pareceu bem pior.

Ele usava jeans escuro e uma blusa azul, coberta por uma jaqueta de couro. O capuz ainda cobria seus olhos, mas Sam podia ver que estavam manchados de vermelho. O colar com as seis balas chamava a atenção da garota, e, mesmo que em circunstâncias de perigo, ela não podia deixar de sentir uma pontada de ansiedade.

Ela havia lido sobre histórias assim! Romances que surgem das piores situações — como, por exemplo, um garoto a atacando no quarto do seu irmão desaparecido e levando-a para o topo de um prédio, enquanto se aproxima com um taco enorme na mão. Era clichê.

O coração da garota estava a milhão e ela estava andando involuntariamente para trás. O medo tomando conta de seu corpo, e mesmo a pequena parte que torcia por um romance se escondera. As coisas estavam tomando forma e parecendo cada vez piores. Se ela morresse, quem cuidaria da mãe? Quem procuraria por Josh?

Se ela morresse. Ela não queria morrer! Ela mal tinha terminado o colégio ainda. Não tinha se apaixonado, não tinha ido para a faculdade. Não tinha feito nada!

Estava se debulhando em lágrimas sem mesmo perceber, e o garoto havia sumido da vista dela. Ela continuou se afastando. Pensou em rezar. Pensou que se o pai estivesse em casa, se tivesse um homem na casa, talvez ela estivesse segura agora.

Apavorada, ela girava em torno de si mesma, tentando encontrar o agressor. Ela não o via. Sam olhava em todas as direções enquanto se afastava; ela estava sem arma alguma. Se ele tentasse atacá-la, o que faria? Atiraria uma pantufa nele?

E foi assim, afastando-se de um agressor que não sabia onde estava, que ela quase causou a própria morte. E ela cairia da beirada da cobertura, se o garoto não a tivesse segurado. Ele a tomou nos braços e a puxou para si, encostando a cintura da menina em seu torso. As mãos a seguravam pelos braços, acima dos cotovelos, e seus rostos estavam próximos.

A parte que gritava por romance explodiu dentro dela, mas o medo e a adrenalina eram maiores. Tudo estava tão frágil. Ela estava tão apavorada e não tinha controle nenhum sobre a situação. O vento havia derrubado o capuz do garoto e foi quando ela percebeu, não era um garoto cuja puberdade fora cruel.

Era uma garota.

E ela estava confusa e agitada. Seus olhos eram incertos entre o azul e o verde e estavam contornados com lápis preto. Seu rosto estava manchado de vermelho, como se tivesse ralado a pele no asfalto ou sujado com tinta, e algo no jeito como ela olhava para Sam estava errado. Em seus olhos, a garota expressava adrenalina e confusão.

"O quê você está fazendo?" Foi o que ela disse. E a voz pareceu devidamente apropriada à ela.

Seu cabelo era curto e as pontas esvoaçavam com o vento. Seu rosto estava inchado e ela parecia estar no comando de alguma coisa. Era centrada.

Quando Sam soltou-se dela, viu que a garota não era muito mais alta que ela, talvez até um pouco mais baixa. Ela realmente tinha cabelo de garoto, e as roupas escuras a faziam parecer um garoto. Quando Sam tentou correr, a garota não hesitou em pegar de volta seu taco de baseball e bater na cabeça dela.

A próxima coisa que Sam viu foi o céu ficando escuro.

Edifício Ledge, 2:30 AM

Ela não era tão pesada assim — quando arrastada. Sin já havia carregado corpos e coisas piores no colo antes, em situações que não gostava de lembrar.

Deixou-a em seu carro, no escuro. A última coisa de que precisava era de alguma velha intrometida chamando a policia e delatando um sequestro. Antes de partir, subiu de volta no prédio para buscar algumas coisas da garota. A mãe não iria acordar; era uma bêbada. Estava dormindo dentro do próprio vômito na banheira do primeiro quarto e não havia mais ninguém morando com elas. Ela sinceramente esperava que fosse mais difícil, mas não contava com a garota quase caindo da cobertura do prédio.

Originalmente, o plano era invadir o quarto de Josh em busca de qualquer informação sobre o Vírus J ou para onde foi após a queda do Cartel, mas não encontrou nada além de fotos de família e papeis de faculdade. “Faculdade de Direito”, ela rosnou um sorriso; ele mentiu na cara da própria família, dizendo que se tornava um advogado enquanto, na verdade, estava erguendo o maior site de venda ilegal na dark web, subindo rankings e fraudando dinheiro. Uma mentira arriscada. Mas Sin admira sua coragem.

Levar a guria nunca foi parte do plano. Mas, se Sin estivesse certa sobre quem vazou o Vírus J, ela poderia ser útil como moeda de troca. Talvez Carmine, furioso como estava, e após aquelas ameaças todas, aceite a irmã de Josh em troca dos papéis que Sin precisa. Como o perdão por seus crimes e a liberdade do pai. Isso era o que Sin mais queria, e ela faria qualquer coisa para conseguir.

Ela pega algumas roupas e o dinheiro que a garota guarda em um cofrinho em cima da cômoda. Apenas o essencial e, antes de retornar, deixou uma nota para a alcoólatra, dizendo que sua filha iria viajar com uma amiga por uns tempos. Para não se preocupar e que ela a amava.

De volta no estacionamento, Sin amarrou a garota no cinto de segurança e entrou no carro. Era isso. Ela estava sequestrando a irmã de Josh.

Antes de ligar o carro e ir, ela abriu o telefone e fez uma ligação para o mesmo número que haviam lhe passado. A voz que atendia estava sendo modificada e, mesmo sendo efeitos simples, Sin não conseguia reconhecer.

"Eu aceito. Qual o primeiro alvo?"

A voz gargalhou na linha.

"Olha só pra você Sin, sendo uma boa garota. Papai teria orgulho. Vá até o Bunker Beta, revire aquela espelunca, rastreie o vírus; você é uma menina esperta. Vai achar uma ficha em uma das mesas. Sua primeira visita começa ali."

Ela teve que fazer esforço para destrincar o maxilar. Assim que descobrisse quem espalhou aquele vírus, ela iria atrás dessa voz, e ela iria descontar sete anos de rancor de uma vez só.

Jogou o celular no banco traseiro e encostou a cabeça no volante; era melhor aquilo tudo dar certo. Ela não aguentava lembrar do pai derramando lágrimas atrás das grades. Ela preferia tomar os anos dele para si e vê-lo livre, e ela só Deus sabe quantas vezes ela tentara esse tipo de barganha. O departamento sabia quem ela era. Se recusava a soltá-lo. E é claro que, com o mandato de Carmine, eles não podiam prendê-la ali. Não na cidade.

Mas o problema era que, nenhum dos nomes estava na cidade, e nos outros departamentos ela ainda era procurada.

Mas ela faria. Ela encontraria o sabotador e abateria cada um dos nomes enquanto isso. Puxou do bolso do casaco o caderno do pai, era coisa pequena, era simples; os nomes escritos à mão, a letra corrida do velho a trazia boas lembranças. E ali, em silêncio, engolindo as lágrimas e com a irmã de Joshua Esme ao seu lado, ela prometeu à seu pai que conseguiria. Prometeu que ele veria a liberdade.

Nem que fosse a última coisa que ela faria.

Carro da Sin, 5:00 AM

Quando Sam acordou, estava em um carro. O cinto de seguranças apertava seu peito e sua cabeça doía, ela estava zonza. Passou alguns segundos com os olhos fechados, esperando tudo parar de girar ao seu redor.

Quando os abriu, seus olhos pousaram nela.

Ela estava focada na estrada, o olhar perdido em um ponto distante à frente do para-brisa. O cabelo estava bagunçado e o maxilar dela estava trincado. Ela parecia horrivelmente séria.

Não demorou muito para Sam começar a surtar e tentar se desprender do cinto.

"Pare o carro agora! Eu preciso descer! Pare!"

A garota não desgrudou os olhos do horizonte.

Sam começou a hiper-ventilar e gritar por socorro. Todos os seus instintos diziam que ela ia morrer se não saísse dali rápido. Ela batia as mãos nas janelas e tentava abrir a porta, mas as portas estavam travadas.

De repente, o carro parou, e Sam, sem cinto, bateu a cabeça violentamente no painel do carro. Quando se levantou, a garota virou para encará-la.

"Quem é você?" perguntou Sam, exasperada e sangrando.

O cabelo ruivo agora estava grudado na testa da menina, os fios cor de cobre misturados com sangue. Ela pôs a mão em cima para estancar o fluxo.

"Você não me conhece mas eu conheço você. Conheço seu irmão."

Essa informação fez Sam parar. Josh. Ela estava envolvida com Josh. Até mesmo sem dar notícias por meses, Josh causava problemas. E mesmo assim, com que tipo de pessoas ele esteve? Essa menina era obviamente perigosa, uma sequestradora!

"Josh? O que você fez com ele?"

Os olhos dela variavam entre o azul e verde e corriam pelo rosto de Sam como se examinassem cada fibra. Ela passou a língua por entre os lábios e Sam se arrepiou. A tensão que pairava naquele momento ia muito além de um conflito familiar.

Ela suspirou.

"É o seguinte ruivinha, o seu irmão está com problemas. Ele se meteu com algo que não devia e, se eu estou certa, ele pode estar realmente fodido agora. Acontece que, o que ele fez me afeta, e eu provavelmente vou ter que ir até ele, mas pra chegar até lá eu preciso passar por outras pessoas, e é ai que você entra. Se, no caminho, eu encontrar o que procuro, o seu irmão vai ficar com os problemas dele e eu vou seguir a minha vida, mas se você for comigo, eu garanto te levar até ele."

Sam estava confusa demais para responder. Josh não estava na faculdade? Mentiroso desgraçado. Ela disse que o que ele fez a afeta, e se a merda que ele fez é tão grande que incomoda uma garota como essa, ele deve estar bem ferrado.

Sam está considerando as opções, ou ela volta pra casa para cuidar da mãe e focar na carreira, deixando Josh aturar com as consequências do que fez, ou ela fica com essa garota, que ela nunca viu na vida e que a enche de medo — e a nocauteou com um bastão — dentro de um carro, para sabe Deus onde, atrás do irmão que provavelmente corre risco de vida.

O sol está nascendo, o céu se enchendo com o rosa e roxo enquanto a noite se esvai. A garota está cansada e com raiva e Sam não sabe se tem a audácia de fazer uma besteira dessas. Ela está quase negando e pedindo para voltar para casa. Para sua zona de conforto. Para onde se sente segura.

Mas no fundo, ela sabe, não pode deixar o irmão na mão.

"Você vai me levar até ele mesmo que encontre o que procura no caminho?" Sam pergunta.

"Sim" a garota responde.

"Promete?" Chegava a ser patético como ela conseguia transformar qualquer situação em algo infantil e bobo. O que aquela garota deve pensar dela? Deve estar caçoando agora. Deve estar considerando matá-la ali mesmo, só para não ter que viajar com ela.

Quando pediu um pouco de ação e romance, não era isso que ela queria.

"Eu lhe dou minha palavra."

Sam pensou nisso isso por um segundo. Ela ficaria fora por tempo indefinido, a mãe sozinha, a escola e o trabalho abandonados, isso sem falar nos perigos que ela enfrentaria, sem saber se defender, sem ter quem defendê-la. Isso era uma má ideia em todos os sentidos possíveis.

Mas ela assentiu, e a garota entendeu, virou-se para frente e ligou o carro. Um silêncio desconfortável pairou no carro, e assim as duas partiram novamente.

Carro da Sin, 8:00 AM

A garota havia aceitado. Ela havia acreditado e aceitado ir de bom grado — Sin nem teve que torturá-la!

É claro, havia mentido, prometido coisas que não cumpriria, feito a menina acreditar que realmente era uma missão de resgate e que Josh estava em apuros; o que, na verdade, ele provavelmente estava, já que estava na mira de Carmine e pronto para ser declarado como culpado do vírus. Mas mesmo assim, ela teve que fazê-lo.

Era egoísmo, mas tinha de ser feito.

"Qual é o seu nome?"

Sin olhou para ela, parecia inéditamente pequena sentada no banco de seu carro, como uma garotinha que pergunta ao pai se podem parar para ir ao banheiro. A garota tinha olhos escuros e grandes, e um cabelo extremamente comprido e vermelho, que estava deixando Sin agoniada só de olhar.

Nomes? Ela já queria saber nomes? Isso ficaria pessoal demais.

"Sin."

A garota franziu o nariz.

"Sin? Que tipo de nome é esse? O que as pessoas fazem quando precisam te perguntar algo e a resposta é não?"

Ah Deus. Ela era uma daquelas. Uma falante.

Sin estava considerando parar o carro e abortar a ideia.

”Beba uma taça de vinho sim, Sin?”

Ou então simplesmente empurrá-la para fora da janela.

Sin olhou para ela e a garota calou a boca na hora.

"Qual é o seu nome então?"

"Samantha, mas pode me chamar de Sam. Todo mundo chama."

Sin assentiu em silêncio, nunca lhe ocorrera que Josh tinha uma irmã. Ele sempre parecera tão focado no serviço e preso no próprio mundo, do tipo que faz as meninas ficarem confusas e apaixonadas, e não o tipo que tem problemas em casa.

"Para onde estamos indo, Sin?"

Por algum motivo, para Sin, ter seu nome pronunciado daquele jeito por aquela garota surtiu um efeito estranho. Como se elas já tivessem alguma ligação de intimidade, o que era impossível, já que, horas antes, Sin havia batido nela com um taco de baseball. E salvado sua vida.

E a sequestrado em seguida.

"Primeiro vamos parar em um lugar para recolher dados, e depois eu tenho que fazer um serviço enquanto você espera no carro, quietinha."

A garota arregalou levemente os olhos e assentiu.

"E esse lugar tem nome?"

Qual era o lance com essa garota e nomes

"Bunker Beta, a Base Oficial do Cartel 68."

Entrada do Bunker Beta, 10:50 AM

Sam estava achando tudo aquilo repentinamente excitante. A ideia de explorar um lugar novo, sem ter noção do que a espera por lá passou de aterrorizante para interessante. E Sin, sua nova parceira no crime, demonstrou interesse de criar uma amizade ali — até mesmo perguntou seu nome!

Sin disse que estavam indo para um bunker em busca de dados antes de ela sair em uma missão super importante, algo assim, e, quando ela parou o carro Sam pensou que ela fosse louca.

"Sin?"

"Sim?"

Sam segurou a risada, ela sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.

"Esse é o Bunker?"

Sin ergueu os olhos para o para-brisa, eles brilhavam com a claridade do dia e pareciam mais verdes ainda. Eram belos olhos.

Sam pegou a si mesma descendo o olhar pelo maxilar da garota até as marcas em seu pescoço, enquanto ela falava. Não eram marcas comuns, pareciam arranhões antigos, altos na pele, como cicatrizes. Sin suspirou e saiu do carro, batendo a porta.

Sam agradeceu a si mesma por ser discreta, imagine só se a garota percebe.

Ao sair do carro, viu-se no meio de terra, a não ser por uma pequena floresta a frente. A estrada de asfalto terminava alguns quilômetros antes e Sam não achava que alguém chegaria tão longe apenas para uma exploração na mata, mas seguiu Sin mesmo assim.

A garota — já muito à frente — andava em direção à floresta, seguindo instruções no celular. Sam teve que correr para alcança-la.

Enquanto andava atrás de Sin, aproveitou a distância para tomar nota da nova companheira. Ela parecia determinada a encontrar um tesouro enterrado na terra. Não era muito alta, como havia reparado antes, e, mesmo no sol escaldante, vestia-se de preto e couro da cabeça aos pés.

Por mais que não quisesse pensar sobre isso agora, Sam não deixava de se perguntar se ela estava contando a verdade sobre Josh. Estaria mesmo o irmão, o Josh dela, trabalhando com gente perigosa demais para ele? Estaria ele mentindo?

Se dissessem isso à ela alguns meses antes, ela riria e duvidaria certeiramente, mas, desde que começou essa faculdade de direito, Josh andava realmente estranho. Costumava ligar nos primeiros meses para dar noticias e perguntar como Sam estava indo — a mãe também, mas Sam principalmente — e só o som de sua voz já a deixava mais calma. Ela sentia falta disso.

Josh conviveu com o pai deles por alguns anos antes do homem sumir, mas ele nunca falava sobre isso. Nem mesmo sua mãe, em anos de sanidade, falava sobre o paradeiro do pai.

Sam se perguntava se, se ele estivesse presente, as coisas seriam diferentes.

E agora ela estava ali, seguindo uma estranha (aparentemente perigosa) para o meio do mato. Inteligente da sua parte, Samantha!

"Ei, ruivinha, você vem? — Sin gritou, à frente."

Sam havia parado, perdida em pensamentos, e Sin estava prestes a entrar na floresta quando virou-se para chamá-la.

A garota ergueu seus olhos e seguiu a outra para dentro da floresta, era quente ali dentro. Era uma mata úmida demais para estar no meio do nada.

"Porque é tão úmido aqui?" Perguntou Sam.

Sin estava andando à sua frente, checando a orientação de vez em quando, e guiando as duas para dentro da mata. Ela parava e olhava ao redor vez ou outra, como se procurasse algo ou ouvisse algum barulho.

"Aquela", Sin apontou para um toco de árvore no chão, "é a Toca do Coelho. Se, por algum motivo, você estiver em apuros nessa mata, é para lá que você vai, entendeu?"

Sin se virou e olhou Sam nos olhos. Ela não era tão baixinha assim, observou Sam, já que seus narizes estavam praticamente alinhados e ela podia ver o peito de Sin inflando por baixo da camiseta azul, enquanto a garota respirava.

Ela estava começando a transpirar.

Estava realmente quente ali dentro.

"Por que é tão quente aqui?" Insistiu Sam.

E onde, afinal, estava o tal Bunker que vieram atrás? Quanto antes pegassem esses dados, antes iriam atrás de Josh. E Sin estava sendo misteriosa e mandona demais para quem aparentemente queria ajudar.

Ela, mais uma vez, deu de costas e continuou andando. Sam bufou. Estava suando e seu cabelo começava a grudar no pescoço, isso sem falar dos insetos que a estavam cercando.

"Cubra suas mãos e pescoço", advertiu Sin. "Cuidado com o chão."

Sam usou sua jaqueta para se cobrir e, quando olhou para baixo, viu raízes enormes onde facilmente poderia tropeçar. Mas mesmo assim, não deixava de ser uma floresta linda.

Não demorou muito tempo andando para que elas entrassem em uma clareira. Ao centro, via-se uma entrada larga, como se fosse um estacionamento subterrâneo, e sob a terra haviam saídas de ar e tubulações.

Era o Bunker.

A grama em frente à entrada estava amarela, como se tivesse sido pisoteada e morta dias antes. Sam foi até lá, enquanto Sin olhava em volta.

Quanto mais se aproximava, com mais clareza via as pequenas coisas. Marcas de botas, galhos quebrados, balas usadas, marcas de sangue.

Um verdadeiro paraíso tropical!

"O que houve aqui?" Perguntou. Sam estava certa de que esse era o Bunker, mas por que estava vazio? E o que acontecia aqui embaixo? Se Sin a trouxe aqui, provavelmente há alguma ligação com Josh.

Será que Josh vinha aqui?

"Vamos entrar", Sin passou por ela e destravou a porta com um código em seu celular.

A plataforma se abriu. Haviam algumas escadas e lá embaixo seguia-se um corredor.

"Lá dentro, eu lhe explico", assegurou Sin e olhou em seus olhos.

Havia algo naqueles olhos verdes que a faziam acreditar. Ela confiava em Sin. Não sabia o por que e nem se devia, mas no fundo, ela tinha a sensação de que, de alguma forma, com ela, estava segura.