Totentanz
8 Capítulo Sete
Cidade Alta, beco, 2:45 AM
A garota estava encarando. Sin se sentiu mal de repente, como se o gosto de saliva em sua boca fosse azedo. Ela sentiu que iria vomitar.
"É um colar", respondeu.
Estava suando frio e, com a chuva quase parando, ela podia ver claramente os olhos curiosos de Sam esperando uma resposta. Ela não queria falar sobre aquilo. Já era ruim o bastante Sam saber que ela era incendiária; as oito lápides que carregava no peito não precisavam ser mencionadas. O risco de Sam acabar ferida se soubesse dos segredos de Sin e do Cartel, que estava envolvido, era muito grande para ser corrido.
Ela não queria que a garota soubesse que era uma assassina, do mesmo jeito que ela não queria que a tivesse visto matando no posto de gasolina. Não poderia deixar que a curiosidade dela a machucasse de novo. Não queria vê-la ferida.
Sam sorriu, inquieta.
"Sim, eu sei. Mas o quê significa?"
"É só um colar, Sam."
"E por que você adiciona balas nele?"
Sin estava agitada. Lembrava-se de quando seu pai lhe dera o colar, que portava um lindo pingente de sua mãe. Lembrava-se vagamente dela o usando e sorrindo, memórias que hoje eram doídas demais, e que por serem evitadas, estavam quase esquecidas. Lembra-se de quando deu seu primeiro tiro, logo após revirar as coisas do pai na polícia e roubar o caderno. Lembra-se do primeiro nome da lista, o primeiro homem que derrubou. Lembra-se de jurar que tiraria seu pai da cadeia ou morreria tentando.
Ela se arrepiou. A justiça só era generosa com os influentes. Os inocentes passam despercebidos.
O fato de Sam reparar nisso era um problema. Conhecendo a garota, Sin sabia que ela não calaria a boca a respeito, e não entenderia o contexto. Ela já podia sentir os olhos da menina a julgando.
"Eu… Eu não…"
Seu queixo estava batendo, a sensação áspera de dentes roçando uns nos outros era agoniante e sua boca estava amarga. Agora ela estava com frio.
"Aquele dia no posto, você tinha seis quando foi e sete quando voltou", ela observou.
Sin não entendia porque ela a estava pressionando. Não entendia o motivo de tanta curiosidade. Ela odiava mexer no passado e sabia que não havia muito bom nele para ser dito, na verdade, não havia nada de bom que pudesse ser dito.
"E agora você está com oito. Por que elas continuam aumentando?"
Ela se lembrava de M fazendo as mesmas perguntas, pressionando-a. Lembra-se dele passando os dedos pelas balas na noite que queimaram o depósito e dançaram sobre ele, sorrindo para ela como um louco e chamando-a de sanguinária, de facínora. Dizia que o que Sin fazia era uma purificação.
"Não é da sua conta", foi o que ela respondeu, mas foi baixo demais. Sam mal pôde ouvir.
Ela não queria brigar, mas não podia arriscar. Sin não fazia ideia se a voz sabia de Sam e, como a mandou para Estopim, provavelmente estava por perto. Droga, ela havia hackeado seu painel no carro!
"Como é?". Sam inquiriu.
Se contasse a verdade sobre as balas, se dissesse que era um símbolo do que fazia pelo pai, teria que contar sobre a noite nas docas. Teria que dizer que suspeitava que o Cartel estava envolvido e que suspeitava de Josh, não só na ativação do vírus, mas como na emboscada do pai. E Sam saberia que Sin a estava usando. Esses pensamentos a deixavam enjoada agora, e a garota se perguntou se estava desenvolvendo sentimentos pela garota — sentimentos de verdade.
"Não é da sua conta!" Sin gritou.
Ela viu a ruiva engolir em seco e abaixar o olhar para o chão. Ela passou o peso do corpo de uma perna para a outra e disse simplesmente:
"Oh."
Sin pigarreou e saiu da frente dela, deixando-a se desencostar da parede.
"Vamos", ela disse. Sua garganta estava seca.
E Sam a seguiu até o motel onde Estopim estava. Sin não sabia o que a voz queria com ele, mas não deixaria que fosse tarde demais — não com ele. E, além disso, Jockey poderia estar junto, ou MJ. E Sin não via a hora de se encontrar com MJ, a traidora. MJ, que controlava o fluxo nas docas. MJ, que estava em campo naquele dia com seu pai.
Quando entraram no apartamento, Sin tocou a campainha, tentou livrar-se de todos aqueles pensamentos horríveis e ter uma boa noite de sono; estava cansada. Rever Estopim seria reconfortante, só de saber que ele estava a salvo, e ela finalmente tiraria à limpo a história do incêndio no bunker. Procuraria também por Jockey, ela sentia falta deles. Já fazia quase cinco meses desde a queda do Cartel e Sin havia se acostumado com a convivência. Sam não havia trocado olhares com ela e mantinha sua cabeça baixa. Estava tudo indo tão bem…
Por detrás da cortina, que ficava atrás do balcão, saiu um mexicano segurando um cacto. Era um homem baixo, com a barba mal feita; estava vestido em uma camiseta social azul e tinha um óculos de sol tampando os olhos — um óculos de sol feminino. Sin percebeu que Sam ergueu a cabeça para olhar e segurou a risada ao ver a desconfiança no olhar dela.
Ele soava como um bêbado e acrescentava palavras em espanhol quando falava. Quando ele ergueu os óculos no topo da cabeça, erguendo um belo tufo de cabelo junto para olhá-la, Sin sorriu.
"Sidney?"
Sua voz era grogue e ainda tinha o sotaque do México.
Sam a olhou.
"Sidney?" ela indagou.
"Sin" Sin confirmou.
"Mas ele disse Sidn…"
"Sam", Sin a apresentou a ele.
Ele sorriu.
"Carlos", e colocou o cacto em pé sob a bancada.
Sam estava confusa e sua testa estava franzida.
Sin sorriu, Estopim era um homem estranho.
Motel, 12:00 PM
Sam acordou com dor nas costas e o sol forte em seu rosto. Havia dormido na cama perto da janela e não haviam fechado a cortina antes de adormecer. Fora uma noite desconfortável.
Sin dormira na outra cama, de costas para Sam a noite inteira. Não falara uma palavra sequer. Antes de se levantar, Sam se lembrou do sonho que teve. Entre lençóis e fronhas sentiu vergonha do que havia sonhado.
Em seus sonhos, ela e Sin haviam ido ao motel para fazer outra coisa. Mesmo dormindo, ela podia sentir os lábios da garota por sua pele e suas mãos apertando as dela. Lembrava-se de como seus corpos se encaixaram perfeitamente naquele beco, embaixo da chuva, perseguidas pela polícia, em um beco abandonado e escuro, quando Sin a beijou com fervor. Quando ergueu suas mãos acima da cabeça e tomou-lhe o corpo.
Ela lembrava-se tão vividamente de Sin beijando-lhe a testa em seu sonho que parecia até real. Ela riu. Quem dera.
Sam mordeu seus lábios e sorriu. O sol aquecia suas pernas enquanto lembrava dos olhos borrados de Sin consumindo-a, enchendo-a de ternura.
Até Sam estragar o momento. Como sempre. Ela nem se deu o trabalho de guardar mágoa pois sabia que fora sua culpa, mas adoraria que Sin fosse honesta, que dividisse seu fardo. Sam queria aliviar o rancor que a menina guardasse. Ela queria que Sin sofresse menos.
Quando entraram no motel, Sam esperava um homem velho para atendê-las. Aquele tipo de senhor que herdou o lugar de seu avô e que pretendia passar ao filho, que colecionava rolhas de vinho e levantava cedo para jogar pão aos patos. Mas ao invés disso, um jovem entrara. A primeira impressão que Sam teve foi de dó, aquele parecia o tipo de garoto que vivia no porão dos pais, fumando maconha e comprando revistas pornô até a mãe o expulsar para a vida.
Se apresentara como Estopim, e Sam percebeu que o nome lhe servia. Ela achou que estivesse bêbado, mas elas o haviam apenas acordado e estava sonolento. A garota ficou preocupada com a ideia de ele dormir com aquele cacto — ou levá-lo para se proteger no meio da noite.
"A quanto tempo estão juntas?", ele perguntara enquanto pegava uma chave. Sin havia ligado a televisão e assistia ao jornal da cidade. Parecia preocupada.
"Uma semana, mais ou menos " ela respondera.
Estopim assentiu.
"Ela já lhe pagou un jantar?"
"Não."
Preocupação pousou em seu olhar.
"Já tirou-lhe as roupas ?"
Sam tinha certeza que estava vermelha como pimenta. Colocou o cabelo molhado atrás da orelha.
"Não."
Agora, entre os lençóis ela ria, travessa.
"Nem un burrito sequer?" ele insistiu.
Ela deu de ombros.
"Alguns hambúrgueres e cerveja."
Estopim pareceu absolutamente ofendido.
"Sidney, você está embebedando mulheres mais novas?! O quê é isso, un nuevo método?"
Sin olhou para ele e sorriu como quem diz “eu não me importo”.
Ela se levantou da cama e se espreguiçou. Seus cabelos haviam se juntado contra ela e formado um bolo único de nó e cachos. Ela havia desistido dele há muito tempo.
A vista da janela do quarto não era tão impressionante quanto poderia ser, mas Sam tinha um olho para miséria e, a ferrugem e loucura da Cidade era bonita. Podia ver os altos prédios e o tráfego seguindo sua rotina. Pessoas cuidando de sua vida. E, vez ou outra, o sol dava as caras por trás das nuvens do céu que estava se tornando cada vez mais nublado. No horizonte, Sam podia ver o farol. O mesmo farol que viram juntas na noite passada, quando estavam na colina e Sin gravou seus nomes na árvore. Ela sorriu.
Afastando-se da janela, ela observou algo que não estava ali na noite passada em cima da mesa do quarto. Quando se aproximou, um sorriso tão grande e sincero brotou em seu rosto antes mesmo dela terminar de ler o que estava escrito. Seu coração se encheu de amor.
Em cima da mesa havia um bolo totalmente coberto em com um creme branco. Estava muito mal espalhado e era visível que ela mesma havia feito. Em cima, estava escrito em preto:
"Me desculpe pelos hematomas, por gritar com você e quase fazer com que fôssemos presas. Eu te adoro."
Ela enfiou um dedo e tirou um pouco da cobertura para levá-la à boca enquanto se dirigia ao banheiro do quarto. No espelho, ela ergueu o longo cabelo ruivo e observou o próprio pescoço. Ah. Aqueles hematomas. Ainda sorrindo ela sentiu seu peito se encher de afeto. Só de imaginar Sin levantando cedo para fazer aquilo para ela…
Ela estava se desculpando. Sam é quem deveria se desculpar, mas mesmo assim, ela queria fazer com que ficassem bem de novo. A garota começou a se perguntar se aquela… coisa era recíproca.
Sam vestiu a jaqueta de Sin de novo. Tentou abaixar o cabelo — que definitivamente tinha vida própria — e desceu até a recepção do motel. Estopim estava sentado em cima do balcão, cortando as unhas dos pés.
"Bom dia", ela cumprimentou.
Ele se assustou e quase caiu do balcão. Quando se virou para olhá-la, Estopim se pôs de pé no chão. Estava vestido com as mesmas roupas de antes, mas sem o óculos de sol, este estava no cacto, que posava em cima do balcão.
"Buenos dias" ele sorriu.
"Onde está Sin?" Sam perguntou.
"Sua compañera teve que sair cedo. Está com fome?"
Ela saíra cedo? De novo? O padrão de Sin sair antes de Sam acordar e ela ter que passar o dia com algum homem estava se repetindo — ela só esperava que terminasse melhor que da outra vez.
"Hum, sim?"
Ele checou o cacto antes de pegá-la pelo braço e andar apressado para dentro de uma sala. Estopim estava descalço e Sam tinha certeza que um rato morava dentro de seu cabelo — era massivo!
Na sala havia outro jovem. Esse parecia mais novo e mais mal humorado que Estopim. Estava em pé, pegando alguma coisa no armário. Sam estava praticamente sendo empurrada para dentro e Estopim puxou uma cadeira para que ela se sentar.
"Obrigada", ela sorriu.
Ele a ignorou e puxou outra cadeira para o garoto, este o olhou com desconfiança e deu de ombros. Quando foi se sentar, Estopim puxou a cadeira para trás.
O garoto caiu.
Estopim desatou a rir.
Sua risada era a coisa mais absurda que Sam já tinha ouvido. Ela imaginou que, se alguma vez, uma hiena engolisse um brinquedo de mastigar com som, o barulho que faria seria exatamente aquele.
Estopim limpou as lágrimas e o garoto se levantou fazendo pouco caso. Sam acha que ele finalmente reparou em sua presença, pois se aproximou e estendeu sua mão.
"Eu sou Jockey. Bom dia."
Sua voz era cansada apesar de aparentar seus vinte anos.
"Sam" ela sorriu. "Você está bem?"
"Estou acostumado. Você é a namorada de Sin?"
Ela sentiu os joelhos fraquearem.
"Ela te disse isso?"
Ele ergueu um canto da boca como se tivesse entendido tudo.
"Sinto muito, dedução apenas. Mas você faz o tipo dela."
E com isso ele saiu.
Sam sentiu como se seu coração fosse uma bomba relógio. Ele havia mesmo acabado de dizer que elas pareciam um casal?
Estopim se aproximou dela.
"Eu preciso sair. Pegue o que quiser."
"Tudo bem" ela sorriu tímida.
E assim ele saiu.
Pelo visto, nem um homem para acompanhá-la até sua compañera chegar ela teria.
Fale com o autor