Ali, sentado naquela cadeira dura e fria, com a porta do quarto fechada, luzes apagadas, em frente à janela. Deixava que os pingos de chuva escorressem livres por seu rosto suave, molhavam seus cabelos castanhos e rebeldes. E os raios, iluminando suas feições, projetando sombras nas paredes. Trovões, ribombando em seus ouvidos atentos, estrondosos.

Ali, com o peso de uma vida inteira para ser vivida, mas que já chegava ao seu fim. Carregando o fardo de uma última leitura gratificante e intensa, em sua alma depredada. Refletindo sobre o que havia feito.

E em meio à chuva, vertiam as lágrimas, inconvenientes, vergonhosas, sentimentais e delatoras. Os pensamentos já vagando, indo e voltando, soltos e sem sentido algum, desconexos. As notas daquela música, sinfonia suave, tornando-se ruídos e, aos poucos, desaparecendo, e as lembranças com elas.

E a dor sentida, experimentada, por aquele coração jovem e pulsante era tamanha que a nada no mundo podia ser comparada. Um arrependimento profundo.

Nunca saberia motivo ou qualquer que o levara aquele ponto. Sendo inteligente e de futuro certo, antes desconhecia sentimentos tão profundos e as mudanças o afetaram imensamente, antes alheio ao mundo. E se via preso naquela situação, por um amor incomensurável e que lhe partira o frio coração.

Nunca mais veria o sorriso caloroso que o roubara à alma. Era o preço por apaixonar-se. Ele o estava pagando agora. Cada noite, cada momento compartilhado. Tudo parecia distante, apenas fruto de sua imaginação.

Levantou-se, somente para se jogar na cama e então perder a consciência, e poder finalmente fugir ao pesadelo que era sua vida.

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