Estava na hora do intervalo, meus amigos conversavam sobre coisas aleatórias. Fiquei encostado na parede perdido em pensamentos que iam e vinham. Eu sempre ficava encarando aquela Torre, de cima a baixo, parecia estar fazia, mas eu sabia que ela estava lá. Faz uma semana que vou lá, e todos os dias ficamos conversando até o escurecer, é tão bom ficar lá com ela, o difícil é vê-la seguir o caminho oposto ao meu quando chegamos ao portão, eu tenho uma ligeira sensação de que estou tomando o caminho errado.

– Oque foi Tommy, está olhando tanto para a Torre do Suicídio.– disse um dos garotos no grupo, eu nem fiz questão de olhar para eles
– Nada apenas pensando.
– Não vai me dizer que está pensando em pular? – diz rindo e os outros acompanham
– Claro que não!– estava começando a perder a paciência
– Mentira – essa voz soa no meu ouvido, mecânica e sem sentimento, com raiva viro para eles

Quando encaro meus amigos, seus rostos estão borrados, parecia um reflexo na água.

– Ei, eu, calma cara, não precisa ficar tão irritado – a voz me era familiar, mas eu não sabia quem era a pessoa, na verdade, toda aquela cena me era familiar, porque não consigo me lembrar de onde?!

Nenhum deles tinha rosto, a voz robótica não pertencia a nenhum deles, e ninguém aqui me dava a chance de entender oque estava acontecendo. Engraçado, eu sabia que devia fazer algo, ou que deveria pirar aqui, mas meu corpo não se movia, era como um grande poço de nada.

– Você está bem cara? – finalmente consigo me movimentar e saio de lá sem dizer nada, vou em direção ao único lugar que sei que é real, a Torre.

Oque está acontecendo comigo? Estou ficando louco? Subo as escadas da Torre e chego finalmente no topo, quando abro a porta sinto que tudo vai desmoronar. Ela não estava lá? Sentada na beirada sempre brincando com o perigo? Eu devia estar apavorado pelas pessoas sem rosto, a beira da loucura, mas não, estava apenas...

– Você parece tenso– escuto sua voz suave, me viro, ela estava sentada encostada na parede ao lado da porta
– Confuso é a palavra certa.
– Oque aconteceu?
– Coisas – não tenho a menor dúvida que ela acreditaria se eu contasse, e por isso que não quero
– Não pretende me dizer, não é?– nego com a cabeça - Tudo bem– ela me tranquiliza - não vou te achar louco por ver pessoas sem rosto.
– Como?
– Finalmente você percebeu, eles sempre estiveram aqui, e sem rosto, mas só agora que você notou. – ela bate a mão no chão ao lado dela num gesto para me sentar - Você sempre foi meio lerdinho. – ela ri
– Lerdinho? – ela põe a mão nos meus cabelos, nessa mesma hora um cansaço me invade e me deito em sua perna, ela começa a fazer... cafuné.
– Você ainda não me perguntou, lerdinho.
– Oque...?– meus olhos ficam se fecham mais a cada segundo
– Porque os outros não tem rosto, mas eu sim...
– Porque... você tem... – estou com tanto sono, não aguento ficar mais acordado - ...rosto...?