Torre do Suicídio
3 Nossa História - Final
Notas iniciais
Acordo com a luz de final de tarde, o céu estava laranja, minha cor favorita. Como se nada tivesse acontecido, como se não tivessem pessoas sem rosto, como seu eu nunca pensasse em me jogar de algum lugar alto, como se por algum tempo, tudo fosse apenas dois adolescentes curtindo o tempo juntos.
Eu ainda estava deitado em seu colo, só que agora ela não me fazia mais cafuné. Olho para seu rosto, ela tinha um olhar tão triste para um fim de tarde tão bonito.
– Você ainda pretende se jogar? Desistir de tudo?– ela pergunta, parece ter um nó da garganta, ela falava cada palavra como se estivesse prestes a chorar
Resolvo realmente pensar sobre a pergunta dessa vez, se eu desistisse nunca mais a veria, isso realmente valeria a pena? Algo sempre parece me ligar a ela, e sinto que se eu pulasse, ela pularia também.
– Sinceramente... não. Não quero ficar longe de você. – de seus olhos começam a sair lágrimas que rolavam por suas bochechas e caiam na minha testa
– Eu também não quero ficar longe de você, por isso, eu continuei indo atrás, para você finalmente perceber isso. – não entendo, mas antes que eu pergunte ela faz menção de se levantar e eu faço o mesmo.
Chegamos até o portão como todos os dias e me viro para o caminho de sempre, ele me parece tão errado, tão incerto. Me viro para ela como sempre fazia antes de ir, de todas as vezes apenas dava para ver sua sombra longe, mas não dessa vez, ela estava ali, com a mão estendida.
– Vamos para casa Tommy?– ela diz, não penso duas vezes em segurar sua mão e ir andando com ela para a direção que sempre ia.
Depois de um tempo em silêncio, apenas de mãos dadas ela resolve falar, não estava mais chorando, agora estava sorrindo, o sorriso mais lindo que já vi.
– Quer ouvir uma história? – ela me pergunta
– Tenho outra opção?– ela me dá língua e começa a contar
– Era uma vez um menino, ele não tinha mãe, ela o abandonou e depois foi encontrada num quarto de hotel morta por uma overdose, seu pai depois do acontecido com depressão, praticamente esqueceu que tinha um filho e se dedicou somente ao trabalho, e o garoto por sua vez, teve que crescer sozinho.
– Que história animadora– comento
– Deixa eu terminar!– ela me dá um empurrão - Nunca disse que tinha chances de virar um livro de auto-ajuda. – ela respira calmamente e volta a contar - Ele um dia, por sorte do destino começou a namorar, uma garota linda, de cabelos brilhosos de pele sedosa – eu a encaro, já entendi, a garota era linda - A garota mais bonita do mundo!– ela dá enfase em "mundo", mas sua voz de animada passa para uma deprimida - Mas nem mesmo ela, com toda a ajuda, com todo o amor e carinho, brincadeiras e sonhos conseguiu controlar sua ideia de "fim do sofrimento".Ele se jogou de uma torre, 'daquela' torre. Só que ele não pensou em como ela reagiria a isso, quando viu seu corpo ensanguentado, ela pirou. Não era só ele que se apoiava nela, ela também não fazia nenhuma loucura por conta dele, sua vida nunca foi a de uma princesa, passou por maus bocados todos os anos que viveu. No dia seguinte, no fim da tarde, no mesmo horário em que ele se jogou ela foi para o último andar daquela torre, encarou a mesma visão que ele, ela não pode deixar de pensar que aquela era realmente uma linda vista, ela abriu os braços como se fosse um pássaro prestes a levantar voo. Se impulsionando para frente ela encarou a última coisa que ele viu, o chão, essa não era uma visão tão bonita assim. Parece que a asa dos dois estava machucada. – ela me encara com um meio sorriso pela última frase - É por isso que aquela torre se chama Torre do Suicídio.
Engraçado, sempre soube que era esse seu nome, mas nunca me toquei que não sabia o por que. Nunca ter escutado essa história é realmente um mistério. Finalmente paramos em frente a uma casa, era azul com grandes janelas brancas. Era uma casa pequena, com um jardim na frente.
– Sabe por que eu te contei essa história agora?
– Adoraria saber – respondo sem tirar os olhos da casa, ela me parece tão familiar
– Porque você finalmente disse a verdade! — ela está feliz e sorridente
– Sobre?
– Se jogar, sua ideia de desistir e se jogar finalmente foi embora. Era isso que te prendia!
Me prendia? Minha cabeça começa a doer, do que ela está falando? Percebendo minha confusão ela tenta fazer a voz mais calma possível.
– Está é nossa casa, ou um dia seria se tudo tivesse corrido bem...
Nossa casa... vasculho fundo nas minhas memórias.
– Essa não é uma história comum não é?– pergunto, será que as minhas lembranças estão certas?
– Não – ela coloca as mãos para traz e começa a se balançar
– Não é apenas uma história para por medo em crianças certo? – será que não é apenas algo que eu imaginei?
– Coitada das crianças, não, não é apenas uma história. – dou uma pausa, não, então era tudo verdade
– Essa é a nossa história, não é?
– Isso. – eu olho fixamente em seu rosto, ela estava chorando novamente, não gostava de vê-la assim - Você não sabe quanto tempo eu esperei para você finalmente perceber! Isso tudo aconteceu tantas vezes! Da primeira vez, você se jogou sem eu poder dizer nada, e a mesma coisa na segunda e na terceira, eu pensava que alguém estava me punindo, me fazendo ver a sua morte repetidas vezes, para saber cada detalhe de como aconteceu, mas então olhando aquele por do sol em uma das vezes eu notei que eu tinha que te tirar dessa, e depois de tantas vezes te vendo se jogar sem que eu pudesse fazer nada, agora eu finalmente consegui, e você desistiu, não da vida, mas da ideia suicida de desistir dela. — ela estava aos prantos, realmente, agora eu sinto, não sou só eu que me apoiava nela, ela todo esse tempo não desistia de mim e por mim!
Eu pego sua mão e vou em direção a porta da casa, ela estava aberta quando entramos, pela janela não se via a luz da noite como estava a segundos atrás, e sim a luz laranja do lindo por do sol novamente. Ela parece se acalmar e olha para aquilo tudo com os olhos brilhando.
– Sempre quando tentava entrar de todas as outras vezes, a porta estava trancada. – eu não resisto e decido fazer a pergunta, só que de outro jeito
– Por quê as pessoas não tinham rosto?
– Porque elas ainda estão vivas – ela responde simplesmente - E nós mortos.
– Entendo...Emily – eu agarro sua cintura e a puxo para mim, ela voltou a ter o sorriso nos lábios, e finalmente eu a beijo. Um doce e apaixonante beijo repleto de carinho e saudade.
A asa dos pequenos pássaros finalmente sararam, agora eles com certeza vão conseguir voar, e para um lugar melhor.
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