Tormento Eterno
5 Fora dos Planos
Notas iniciais
Eu pensava em tudo o que aconteceu. Pensava nas coisas que poderiam acontecer e também no que eu poderia fazer. A vida estava tão mexida, e tudo o que eu podia fazer era olhar o circo pegar fogo. Ser lentamente consumido pelas chamas. Ou lutar, sim. Eu luto com as chamas, a cada dia que passa, não me deixo ser consumido. Então me vejo numa situação em que eu quero algo que está lá dentro. Mas as chamas não me deixam alcançar. Esse algo é o amor, e as chamas são todas as dificuldades, as pressões e expectativas. Tudo o que eu consigo fazer é ficar parado e pensando, eu sou fraco.
Eu penso nele, em seu lábio. Aquele abraço, sentir seu cheiro neutro, sentir os seus músculos com minha mão. E ainda mais importante, sentir seu calor me envolvendo. Na minha visão aquilo era tudo, na dele... apenas um momento. Eu acho estranho, eu o amo tanto. Eu sinto algo por ele que é incapaz de expressar com apenas palavras. E isso é muito peso para mim, pois sou fraco.
Estava na janela, olhando o sol vibrante da tarde. Imaginava o que poderia acontecer caso eu contasse para ele. Talvez fosse um suicídio social para ele. Talvez um grande erro para mim. E a sociedade? Cobra cada vez mais que eu seja normal. Tudo isso é uma tortura para mim. Mas eu vou lutar, apesar de não saber o resultado.
– Ei, Fernando. – disse Bruno, se aproximando de mim. Eu estava no canto da sala, apenas olhando a paisagem.
– Oi... – falei, sem tirar o olho da paisagem.
– Por que você está aí? – ele sentou ao meu lado, então ficamos uns minutos sem falar nada. Eu estava preocupado com tudo, o tempo estava curto. Cada vez mais apertado.
– Vamos conversar com a galera? – ele disse, depois de um tempo de silêncio.
– Certo. – Eu me levantei, ele continuava me olhando. Isso me deixou desconfortável, odeio ser o centro das atenções.
– Você é diferente, quero dizer... – ele parou de falar, aposto que procurava as palavras certas.
– Como assim? – Voltei a me sentar, eu estava apreensivo. Um silencio se passou. – Tá perguntando se eu sou gay? – falei, um pouco mais baixo.
– Sim, quer dizer... é. – ele parecia envergonhado com essa pergunta.
– Então, sou bissexual. – falei, fitando ele. Como se ele fosse dar risada. Ele apenas suspirou em alívio.
– Opa, pensei que você era doente mesmo. – Bruno começou a rir. – Arrasa! Mostra teu brilho! – ele falou, ainda rindo.
– Você não está ajudando. – falei, sorrindo para ele. Eu não conseguia rir, apesar de ter achado bastante engraçado e aliviador.
– Foi mal. – ele controlou os risos, me olhando melhor.
– Você recebeu melhor que Henrique. – falei, olhando para baixo. Percebo que até nesse quesito não foi tão bom assim. Ele colocou a mão em meu ombro, me chamando a atenção.
– Eu não vou contar para ninguém, relaxa. – ele disse, me puxando para o meio da conversa qual ele saiu.
– Não quero! Quero ficar sozinho e pensar na vida! – Falei, tentando desvencilhar nossas mãos.
– Não, você quer conversar. – ele falou, segurando mais forte. Bruno não era a pessoa mais bonita que já vi, mas também não era feio. Ele tinha um jeito único, era divertido, alegre. Eu estava aprendendo a gostar dele, não me lembro mais do garoto chato que eu brigava às vezes. Eu estava realmente gostando dele, não do jeito que gosto de Henrique. Mas é um progresso imenso para nossa amizade.
– Oi! – falei, sentando perto de Henrique, Bruno, Ester e Sabrine.
– Oi! – Todos disseram juntos.
– Como vai? – Perguntou Ester. Após responder, ficamos conversando, apenas resenhas. Eu pensativo, eu sabia que tudo isso era impossível. Talvez não, mas eu ia tentar ficar com Henrique. Cara, eu preciso disso.
As aulas acabaram, eu estava na porta do colégio. Pensativo, eu não sabia se dava um investimento nele ou ignorava. Eu estou 100% perdido. Henrique saiu do colégio, esse era a chance de me descobrir agora.
– Ei! Fernando! – ele disse, se aproximando de mim. – Me ajuda com uma coisa? – ele estava feliz.
– Sim, o que é? – eu estava acanhado, não sabia o que fazer.
– Me ajude a me declarar? – Ele falou, me envolvendo com seu braço direito para continuarmos o caminho e conversar mais baixo.
– É para ela. Eu vou me declarar para ela amanhã. – Meu coração apertou, eu não sabia o que fazer. Isso confirmou tudo, nosso amor é realmente impossível. Nunca daria certo. Eu acho que... eu não acho nada. Só acho que estou triste.
– Eu te ajudo. – falei, relutante. Eu ainda o amava, não conseguiria negar nada a ele. Mas agora estou ferido.
Estou caindo num vazio sem saber o que tem no final. Estou triste, estou confuso. Talvez seja bom, talvez isso seja uma confirmação. Eu não posso ser dele e ele não pode ser meu.
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